sábado, 17 de outubro de 2020

Ordem de Malta: a revolta dos professos

Há um ar de revolta dentro da Ordem Soberana e Militar de Malta, que não tem paz desde que, em Janeiro de 2017, o Papa Francisco fez demitir o Grão-Mestre Matthew Festing. Enquanto permanece aberta a corrida para a eleição do novo Grão-Mestre, há, entretanto, o projecto de reforma dos Estatutos da Ordem que domina e causa fortes tensões. 

Nos últimos dias, apresentámos, em exclusivo, os pontos-chave do projecto de reforma, que tende a secularizar a Ordem; agora, La Bussola recebeu a carta de forte objecção que quase metade dos professos (aqueles que fizeram os votos religiosos) enviou ao Lugar Tenente Interino Fra’ Ruy Gonçalo do Vale Peixoto de Villas Boas e ao Soberano Conselho. Segundo algumas vozes, a carta também chegou a algum dicastério vaticano interessado na questão (leia aqui a carta).

De facto, o problema relacionado com o Cardeal Angelo Becciu, que o Papa Francisco obrigou a renunciar ao cargo de Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, a 24 de Setembro, juntou-se aos conturbados acontecimentos internos da Ordem. Becciu, em 2017, foi nomeado Delegado Pontifício para a Ordem de Malta, sobrepondo-se à figura do Cardeal Patrono Raymond Burke, que nunca foi formalmente destituído, mesmo que “adormecido”.      

A Ordem de Malta não é mencionada nos comunicados oficiais sobre os cargos tirados ao Cardeal Becciu, mas presume-se que não possa mais ocupar um cargo que se baseia na confiança que o Papa lhe deu. Neste momento de contenda interna, vem a faltar também o interlocutor que pode servir de intermediário entre a Ordem e a Santa Sé.

A carta, datada de Setembro de 2020, não se refere explicitamente ao projecto de reforma já preparado, mas é claramente uma reacção. Os vinte e cinco signatários – todos nomes de peso dentro da Ordem, incluindo o ex-Grão-Mestre Matthew Festing – apresentam os dez princípios nos quais se deve basear a «renovação da Ordem de Malta», que os Cavaleiros de Justiça acolhem «calorosamente», recordando, ao mesmo tempo, que são eles próprios «o coração da Ordem».       

Ênfase não casual, pois o cerne do conflito é a tentativa de secularizar a Ordem, reduzindo-a a pouco mais que uma organização não-governamental (ONG). É o projecto realizado pela ala alemã liderada pelo Barão Albrecht von Boeselager, o actual Grande Chanceler (na prática, o Ministro dos Negócios Estrangeiros e do Interior), que aproveitou esta transição para alargar o seu poder.

Os professos signatários da carta exigem o reconhecimento da sua centralidade, pedindo que nenhuma reforma possa ser promulgada sem a sua «aprovação final» e que, acima de tudo, a renovação da vida religiosa dos professos «prossiga sem a influência indevida de quem não é Cavaleiro de Justiça». A este propósito, sustentando-se na necessidade de uma renovação da vida religiosa da Ordem sem faltar ao carisma originário, pedem para poder discutir os aspectos individuais, que dizem respeito tanto à vida fraterna como ao caminho para chegar à profissão. Uma forma, entre outras coisas, de fazer pesar o facto de que outros estão a decidir sobre esses aspectos.       

A este respeito, pedem também o levantamento do bloqueio à aceitação de novas vocações (há 12 pedidos de entrada na vida religiosa da Ordem) e à profissão dos votos solenes para aqueles que já fizeram os votos temporários. É um bloqueio que perdura desde a “revolução” de 2017, que já não tem outra razão senão para enfraquecer ainda mais o papel dos professos da Ordem de Malta.    

Outros pontos dizem respeito ao papel dos professos nas Associações Nacionais e à duração dos vários cargos, mas, sobretudo, é fortemente reiterado que «todas as questões relativas aos professos devem ser decididas pelos próprios professos». E isso também de acordo com a norma do Direito Canónico.  

Em suma, um verdadeiro travão para aqueles que estão a jogar fortemente sobre o futuro da Ordem, contradizendo, de facto, a referência à adesão à vocação religiosa originária da Ordem, expressa na carta do Delegado Pontifício (Cardeal Becciu) de Julho passado. A incerteza sobre quem agora deva vigiar o processo de reforma em nome do Papa apenas torna a guerra dentro da Ordem ainda mais pesada. E, certamente, a carta dos professos não será a última batalha.

Riccardo Cascioli        

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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