quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O último apelo do Cardeal Zen para a China e Hong Kong

 


Na véspera da renovação do acordo “secreto” entre a China e o Vaticano, o Cardeal Joseph Zen, Bispo emérito de Hong Kong, passou quatro dias em Roma na esperança de se poder encontrar com o Papa para lhe explicar a situação de Hong Kong e da Igreja na China. Mas de Santa Marta não veio nenhuma resposta. E à Nuova Bussola Quotidiana diz: «Vim para evitar a nomeação de um Bispo pró-regime chinês em Hong Kong, seria um desastre para as próximas décadas». E, sobre o acordo com a China, afirma: «Pensar em fazer acordos com Pequim é uma loucura. É como com o diabo: não se pode dialogar, ou de cá ou de lá». 

Um Cardeal de 88 anos atravessa meio mundo para vir a Roma pedir para ser recebido pelo Papa por uma questão delicadíssima, mas é deixado do lado de fora da porta. Isto também aconteceu na semana em que o Vaticano esteve nas primeiras páginas dos jornais de todo o mundo pelo torpedeamento do Cardeal Angelo Becciu. E, provavelmente, o acontecimento que tem por protagonista o Cardeal Joseph Zen, Bispo emérito de Hong Kong, é ainda mais grave do que o caso Becciu, pelo menos no que diz respeito ao que está em jogo para a Igreja.

Encontrámos o Cardeal Zen, em Roma, na noite de sábado, quando até as últimas ténues esperanças de um telefonema de Santa Marta tinham desaparecido. Poucas horas depois, embarcou no avião que o levou de volta a Hong Kong. Foram-lhe concedidas cem horas em Itália, uma permissão especial para se encontrar com o Papa, e, no regresso à ex-colónia britânica, terá que passar pelo já clássico período de quarentena. Um esforço notável, regressa a casa com uma mão cheia de nada, o Papa não teve tempo para recebê-lo, só conseguiu entregar uma carta a Monsenhor Gonzalo Aemilius, o secretário pessoal do Papa Francisco.

Na véspera da renovação do tão discutido acordo entre a Santa Sé e a China popular, sobre a nomeação dos Bispos, evidentemente ninguém deve incomodar o manobrador.

Mas não há apenas a questão do acordo sino-vaticano na mesa: «Vim, antes de mais, pela Diocese de Hong Kong, pela nomeação do novo Bispo», diz Zen. Poderia parecer estranho colocar o problema da Diocese de Hong Kong antes do acordo para a Igreja na China, mas a nomeação do novo Bispo de Hong Kong também será crucial nas relações entre a China e a Santa Sé. «Estou preocupado porque há movimentos que sugerem que existe uma intenção de escolher o P. Peter Choi. Seria um desastre para a Igreja de Hong Kong, um desastre de que se pagariam as consequências durante décadas». O motivo é que Mons. Choi é o nome agradável a Pequim.

Contámos, em Fevereiro passado, todos os antecedentes da batalha pela liderança da Diocese de Hong Kong, que não tem um Bispo titular desde Janeiro de 2019. Em segundo plano, o confronto de Pequim para assumir o controlo total de Hong Kong, apesar do acordo, entre a China e o Reino Unido, que prevê a autonomia do Território de acordo com o lema “Um País, dois sistemas”; e o acordo entre a China e a Santa Sé já mencionado. Já estamos quase a dois anos de impasse: inicialmente, parecia óbvia a nomeação, como Bispo, do auxiliar Joseph Ha Chi-shing, mas o nome era fortemente indesejável a Pequim: demonstrou demasiada simpatia pelo movimento democrático que se rebela contra o golpe do regime chinês.

A questão ficou pendente até que, em Fevereiro passado, circulou a notícia de que a escolha recaíra sobre um dos quatro vigários da Diocese, Mons. Peter Choi Wai-man: uma nomeação já feita, mas aguardava-se o anúncio por causa do Coronavírus. No entanto, a pausa também serviu às autoridades vaticanas para perceberem que a nomeação do pró-regime Mons. Choi corria o risco de dividir a Igreja de Hong Kong. E o nome foi retirado, mas procurou-se uma terceira figura para a nomeação.

A um certo ponto, nos meses passados, surgiu o nome do Bispo de Macau, Stephen Lee Bun Sang, como provável indicação. Mas até esse nome desapareceu. E eis que há sinais de Roma pelos quais parece certo o regresso de Mons. Choi. O perigo de um Bispo como Choi deve ser muito forte e muito grande se o Cardeal Zen, muito idoso e com problemas que lhe dificultam a locomoção, decidiu apanhar um avião e vir a Roma. Chegou quarta-feira, conseguiu entregar a carta ao secretário pessoal do Papa e, depois, a longa espera em vão.

Se Mons. Choi fosse nomeado – além da forte reacção que haveria na maioria dos fiéis católicos da Diocese –, seria a capitulação definitiva da Igreja perante o poder político chinês; significaria que o acordo “secreto”, assinado há dois anos, dá, na verdade, carta branca ao regime de Pequim. «Não bastam as boas intenções – diz o cardeal Zen –, é preciso entender as coisas, é preciso conhecer os comunistas». Para isso, queria encontrar o Papa; explicar-lhe a situação, apelar-lhe para evitar este desastre para Hong Kong e para toda a Igreja. A nomeação de um bispo pró-regime, aliás numa Diocese que não pertence ao território a que se aplica o acordo com a China, seria um sinal trágico para todo o mundo e também para os fiéis católicos.

Mas, entretanto, resignou-se a ver renovado o acordo “secreto” entre a China e a Santa Sé: «Pelo menos que prevaleça a ala esquerda do Partido Comunista Chinês – diz o Cardeal Zen – que continua a opor-se a qualquer tipo de acordo: “Porquê um acordo? Somos nós que mandamos e basta”, assim pensam». Mas é apenas uma diferença de estratégia: «O governo queria que o acordo permanecesse secreto para que pudesse impor qualquer coisa dizendo que o Papa também concorda». No final, o resultado não muda, decide o regime chinês e a Santa Sé permanece em silêncio.

«Não posso sequer julgar o acordo – continua Zen – porque não sei o que diz. Também isto é incrível: sou um Cardeal chinês e não posso saber o que a Santa Sé decidiu para a Igreja chinesa». Mas, na realidade, quando se trata do acordo sino-vaticano, o Cardeal Zen é um rio a transbordar: «O acordo diz respeito à nomeação de Bispos: bem, em dois anos não houve nenhuma nova nomeação. Por outro lado, com o pretexto do acordo, foram reconhecidos, pela Santa Sé, sete bispos excomungados». Para não falar da intensificação da perseguição contra os católicos, que temos repetidamente relatado: «Voltou o tempo das catacumbas», diz Zen resignado.

O apelo do Bispo emérito de Hong Kong é um apelo angustiado que quer evitar uma tragédia para toda a Igreja: «O comunismo não é eterno – disse ainda Zen – e, quando cair, descobrir-se-á que a Igreja colaborou com este regime desumano, não terá mais qualquer autoridade moral». Não se podem fazer acordos com este regime: «Pensar em fazer acordos com Pequim é uma loucura. É como com o diabo: não se pode dialogar, ou de cá ou de lá».

As palavras claras do Cardeal Zen ressoam em alto e bom som e é de se esperar que provoquem brechas nas salas secretas de Santa Marta, apesar da porta batida na cara, pelo Papa, ao Bispo emérito de Hong Kong.

Riccardo Cascioli        

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

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