sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Este desejo de guilhotina desgasta a Igreja

 


Muito se escreveu, nos últimos dias, sobre mais um escândalo vaticano, que desta vez envolveu o Cardeal Becciu, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Diante de acusações que ainda precisam de ser provadas, a resposta de Jorge Mario Bergoglio parece ditada mais pela fúria do que pelo amor à verdade, mais por um delírio de omnipotência do que por vontade de justiça: em todo o caso, por um grave abuso despótico de autoridade.

Deste ponto de vista, podemos agora crer que a privação da Sagrada Púrpura e a redução ao estado laical se tornaram execuções sumárias, com um fortíssimo impacto mediático a favor da imagem de quem as infligiu, para além das responsabilidades morais e penais dos condenados. O Sr. McCarrick, acusado de crimes gravíssimos, foi condenado directamente pelo Papa, sem que os actos processuais e os testemunhos a seu respeito fossem tornados públicos. Com esta escamoteação, Bergoglio quis dar uma imagem de si mesmo que, no entanto, contrasta com a realidade dos factos, já que o seu suposto desejo de “fazer limpeza” no Vaticano mal se concilia com o estar rodeado de personagens amplamente comprometidos – a iniciar precisamente por McCarrick – dando-lhes cargos oficiais para, depois, os expulsar assim que os seus escândalos vêm à tona. E sobre todos eles, como bem sabem os que frequentam a Cúria, já pesavam sérias suspeitas, senão mesmo provas detalhadas de culpa.

A confirmação da instrumentalidade, na verdade do pretexto da acção moralizante bergogliana, são os casos de pessoas justas e completamente inocentes que não foram poupadas da infâmia do descrédito, da exposição mediática, do pelourinho judicial: pensemos apenas no caso do Cardeal Pell, abandonado a si mesmo num processo simulado organizado por um tribunal australiano, e para o qual a Santa Sé se absteve de qualquer intervenção que teria sido um dever. Noutros casos, como, por exemplo, o de Zanchetta, Bergoglio despendeu-se na defesa, até ao fim, do seu pupilo, chegando a acusar de perjúrio as vítimas do Prelado, depois promovido a um cargo de alta responsabilidade, na APSA, criado propositadamente para ele. E, hoje, Galantino e Zanchetta são, de facto, os administradores de todo o património da Santa Sé e, agora também, da carteira da Secretaria de Estado. E o que dizer de personagens não apresentáveis
​​como Bertone e Maradiaga, Peña Parra e Paglia? Escândalos viventes…

Deixemos, pois, de lado inocentes e culpados, unidos pelo linchamento habilmente induzido por quem se quis livrar deles, ou porque não se mostraram muito inclinados ao compromisso, ou porque o seu zelo pela causa de Santa Marta os levou a uma perigosa facilidade na certeza. da impunidade. Pessoas de espelhada honestidade e de grande fé, como Ettore Gotti Tedeschi ou o Cardeal Pell, sem esquecer Eugenio Hasler e os meros executores de Becciu na Secretaria de Estado, foram tratados pior do que um agressor em série como Theodore McCarrick ou do que um (presumido) manipulador como Becciu. E é de crer que o incómodo de ter colaboradores honestos e incorruptíveis levou à sua expulsão, assim como a chantagem de colaboradores imorais e desonestos tenha sido considerada uma espécie de garantia da sua lealdade e do seu silêncio. O tempo mostrou que homens honestos sofreram a injustiça com dignidade, sem desacreditar o Vaticano ou a pessoa do Papa; é de crer que, do outro lado, os corruptos e os perversos, por sua vez, recorrerão à chantagem contra os seus acusadores, como sempre fizeram os cortesãos sem honra.

Neste acontecimento recente, a constante que se pode relevar é a atitude de Santa Marta, que em muitos quadrantes tem sido comparada à de uma junta sul-americana. Em vez disso, creio que por trás desse estilicídio de escândalos, que envolvem personalidades proeminentes da Hierarquia e da Cúria Romana, existe a vontade deliberada de demolir a própria Igreja, de desacreditá-la perante o mundo, de comprometer a sua autoridade e a respeitabilidade perante os fiéis. A operação a que temos assistido nos últimos sete infaustos anos visa claramente a destruição da instituição católica, através da perda de credibilidade, do descontentamento e da repulsa pelas acções e as condutas indignas dos seus membros; uma operação que começou com os escândalos sexuais já nos Pontificados precedentes, mas que desta vez vê como protagonista, como principal actor, precisamente aquele que se senta no Trono e, que com as suas próprias palavras e obras, consegue desferir os golpes mais devastadores ao Papado e à Igreja.

A “desmistificação do Papado”, preconizada pelos progressistas, consiste, essencialmente, na sua ridicularização, na sua profanação, isto é, em torná-lo precisamente profano, não sagrado. E é inaudito e gravíssimo que esta operação subversiva seja realizada por quem detém o Papado e usa, embora de maneira desajeitada, as suas vestes. Analogamente, a profanação da Igreja é feita, com método científico, pelos próprios líderes da Hierarquia, que se fazem malvistos ao povo de Deus e fazem com que o mundo tenha compaixão deles, sob o olhar satisfeito dos media mainstream.

Esse modus operandi não é novo. Foi adoptado – com menor impacto mediático, mas sempre com a mesma finalidade – às vésperas da Revolução Francesa. Tornar a aristocracia odiosa; corromper a nobreza com vícios desconhecidos do povo; erradicar o sentido de responsabilidade moral em relação aos súbditos; provocar escândalos e fomentar injustiças contra os mais fracos e os mais pobres; escravizar a classe dominante aos interesses das seitas e das lojas: esta foi a premissa, habilmente criada pela Maçonaria, para suscitar o descrédito da Monarquia e legitimar as revoltas das massas, preparadas, por alguns sediciosos, a soldo das Lojas. E se os nobres não caíssem na armadilha do vício e da corrupção, os conspiradores poderiam acusá-los das maldades alheias e condená-los ao patíbulo sob a pressão do ódio cultivado nos rebeldes, nos criminosos, nos inimigos do Rei e de Deus. Uma turba de infames que não tinha nada a perder e tudo a ganhar.

Hoje, depois de mais de dois séculos de tirania do pensamento revolucionário, a Igreja é vítima do mesmo sistema adoptado contra a Monarquia. A aristocracia da Igreja é tão corrupta, e talvez mais, como os nobres franceses e não compreende que esse vulnus à sua reputação e à sua autoridade é a premissa necessária para a guilhotina, para o massacre, para a fúria dos rebeldes. E também para o Terror. Que pensem bem os moderados que acreditam que um próximo Papa, apenas um pouco menos progressista do que Bergoglio, possa apaziguar as almas e salvar o Papado e a Igreja. Porque o ódio teológico dos inimigos de Deus, uma vez eliminados os bons Pastores e afastados os fiéis, não se deterá ante os que, hoje, deploram o Pontificado presente mas defendem a sua matriz conciliar: os conservadores, que acreditam poder distanciar-se tanto dos modernistas quanto dos tradicionalistas, acabarão como os Girondinos.

«Mundamini, qui fertis vasa Domini», diz a Sabedoria (Is 52, 11). A única maneira para sair da crise da Igreja, que é uma crise de Fé e de Moral, é reconhecer o desvio do caminho certo, recuar no caminho percorrido e seguir o caminho que Nosso Senhor assinalou com o Seu Sangue: o caminho do Calvário, da Cruz, da Paixão. Quando os Pastores não sentirem o cheiro das ovelhas, mas o doce perfume do Crisma, com o qual foram tornados semelhantes ao Sumo e Eterno Sacerdote, serão novamente conformados ao divino modelo de Cristo e, com Ele, saberão imolar-se para a glória de Deus e a salvação das almas. Nem o divino Pastor lhes fará faltar a Sua graça. Enquanto quiserem agradar ao mundo, será o mundo a recompensá-los com os seus enganos, as suas mentiras, os seus vícios mais abjectos. A escolha, afinal, é sempre radical: a glória eterna com Cristo ou a danação eterna longe d’Ele. 

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo           

Através de La Verità        

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