sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Entrevista ao Arcebispo Viganò sobre Fratelli tutti

A pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, o portal Dies Iræ oferece aos leitores de língua portuguesa a tradução de uma breve entrevista que Sua Excelência Reverendíssima concedeu, no passado dia 11 de Outubro, a John-Henry Westen, sobre a Encíclica Fratelli tutti.

11 de Outubro de 2020
Divina Maternidade de Maria Santíssima

 

1. Qual é a sua opinião sobre Fratelli tutti, em particular no que diz respeito ao silêncio sobre o aborto, especialmente em consideração àquelas que a Encíclica define como «as maiores preocupações» para os políticos?          

Fratelli tutti, falando das preocupações que deveriam mover a acção de um político, menciona «o fenómeno da exclusão social e económica, com as suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada»[1]. São todas pragas a denunciar, mas que creio que são reconhecidas como tal por qualquer pessoa. O ponto central, e muito mais importante do ponto de vista moral, que a Encíclica não menciona é o aborto, hoje tragicamente reivindicado como um direito[2].        

Este silêncio estrondoso sobre o crime mais odioso aos olhos de Deus – uma vez que é cometido sobre uma criatura inocente e indefesa privando-a da vida – trai o estrabismo deste manifesto ideológico ao serviço da Nova Ordem Mundial. Um estrabismo que olha para as instâncias do pensamento único com inclinada submissão psicológica e para o ensinamento do Evangelho com o olhar míope e embaraçado de quem o considera impraticável e desactualizado.     

A dimensão espiritual e transcendente é completamente ignorada, assim como a Moral natural e católica. Mas que fraternidade pode haver entre os homens, se matar um inocente não é considerado relevante? Como se pode condenar a exclusão social, silenciando a mais criminosa exclusão social que é a de um filho que tem o direito de viver, de crescer, de ser amado e de amar, de adorar e servir a Deus, e de ter a vida eterna? De que adianta ocupar-se do tráfico de armas, se nos podemos declarar “irmãos” daqueles que desmembram um bebé no útero, daqueles que lhe sugam o cérebro um instante antes do parto? Como confrontar a fraternidade com o horror daqueles que envenenam o enfermo ou o idoso, privando-o da possibilidade de se unir à Paixão do Senhor no sofrimento? Que respeito pela natureza se pode invocar, quando se aceita que se possa modificar o sexo das pessoas inscrito nos nossos cromossomas, ou que se possa considerar família a união estéril de dois homens ou de duas mulheres? A fúria destrutiva da “mãe terra” não se aplica àqueles que, adulterando a maravilhosa obra do Criador, reivindicam o direito de modificar o ADN de plantas, animais e seres humanos?    

Fratelli tutti é uma encíclica a que não falta apenas Fé: falta também Esperança e Caridade. Nas suas palavras não se sente o eco da voz do divino Pastor e do Médico das almas, mas o rugido do lobo voraz ou o silêncio surdo do mercenário (Jo 10, 10). Não há sopro de amor nem para Deus nem para o homem, porque para se querer realmente o bem do homem moderno é necessário afastá-lo da hipnose bonista, ecologista, pacifista, ecuménica, globalista. Para querer bem ao homem pecador e rebelde, é necessário fazê-lo compreender que, longe do seu Criador e Senhor, acabará por ser escravo de Satanás e de si mesmo, e que a sua fraternidade com outros condenados não remediará a inevitável inimizade com Deus; que não será o mundo, não serão os filantropos a julgá-lo, mas Nosso Senhor, morto na Cruz também por ele.    

Creio que esta tristíssima Fratelli tutti representa, de certa forma, o vazio de um coração murcho, de um cego privado da visão sobrenatural que, através do tacto, crê poder dar uma resposta que é o primeiro a ignorar. Sei bem que é uma afirmação triste e grave, mas penso que mais do que nos perguntarmos sobre a ortodoxia deste documento, devemos perguntar-nos qual é o estado de uma alma incapaz de sentir um impulso de Caridade, de se deixar aquecer por um raio divino naquele cizento tétrico representado pelo seu sonho utópico, caduco, fechado à Graça de Deus.      

O intróito da Missa deste domingo soa para nós como um aviso:       

«Salus populi ego sum, dicit Dominus: de quacumque tribulatione clamaverint ad me, exaudiam eos: et ero illorum Dominus in perpetuum. Attendite, popule meus, legem meam: inclinate aurem vestram in verba oris mei»[3].       

O Senhor é a salvação do seu povo, que será ouvido na tribulação enquanto escutar a Sua lei. Nosso Senhor diz-nos claramente: «Sem mim, nada podei fazer» (Jo 15, 5). A utopia da Torre de Babel, por mais que se possa actualizar e mostrar sob as novas aparências das Nações Unidas ou da Nova Ordem Mundial, está destinada a desabar pedra por pedra, porque não é fundada na pedra angular que é Cristo.       

«Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros» (Gn 11, 6-7).      

O pacifismo globalista e ecuménico de Fratelli tutti anuncia um paraíso na terra que se baseia em não querer reconhecer a Realeza de Cristo sobre as sociedades e sobre o mundo inteiro; em silenciar o escândalo da Cruz, considerada elemento “divisivo” e não a única esperança de salvação para a humanidade; em não recordar que as injustiças sociais e os males que há no mundo são efeito do pecado, e que só nos conformando com a vontade de Deus poderemos esperar a paz e a concórdia entre os homens. Homens que só podem ser irmãos em Cristo reconhecendo a paternidade de Deus.

A Encíclica carece de Esperança, entendida como virtude teologal, infusa por Deus na alma, pela qual desejamos o Reino dos Céus e a vida eterna, depositando a nossa confiança nas promessas de Cristo e contando não com as nossas forças, mas com a ajuda de Graça do Espírito Santo[4]. Esperar que uma fraternidade horizontal possa garantir a paz e a justiça nada tem de sobrenatural, porque não olha para o Reino dos Céus, não se baseia nas promessas de Cristo e não considera necessária a Graça divina, confiando no homem corrompido pelo pecado original e, portanto, inclinado para o mal. Quem alimenta essas falsas esperanças – por exemplo, ao afirmar que «não é preciso crer em Deus para ir para o paraíso»[5] – não cumpre um acto de Caridade, pelo contrário: encoraja os ímpios no caminho do pecado e da perdição, tornando-se cúmplice da sua condenação e do seu desespero. E contradiz as próprias palavras do Salvador: «Já vos disse que morrereis nos vossos pecados. De facto, se não crerdes que Eu sou o que sou, morrereis nos vossos pecados» (Jo 8, 24).     

Acrescento, com grande dor, que, ultimamente, a resposta da Igreja perante o mal, a morte, a doença, o sofrimento e as injustiças no mundo parece faltar, aliás, totalmente ausente. Como se o Evangelho não tivesse nada a dizer ao homem moderno ou se o que tem a dizer estivesse ultrapassado e desactualizado: «Não quero vender receitas que não servem, esta é a realidade»[6]. Congela-se o sangue nas veias ao ler estas palavras: «Deus é injusto? Sim, foi injusto com o seu Filho, mandou-o para a cruz»[7]. Não há necessidade de refutar esta afirmação; basta observar que, se negarmos que o pecado é a causa da dor e da morte que afligem a humanidade, acabamos, inevitavelmente, por colocar a responsabilidade em Deus, acusando-O de ser «injusto» e, portanto, excluindo-O do nosso horizonte. Daqui se compreende como a procura da fraternidade humana se resume nas palavras do Salmista: «Revoltam-se os reis da terra e os príncipes conspiram juntos contra o Senhor e contra o seu ungido» (Sl 2, 2).     

Assim a Igreja – ou melhor: a sua contrafacção que a eclipsa quase completamente – já não oferece qualquer resposta católica ao homem desesperado e sedento de Verdade, mas, pelo contrário, alimenta o escândalo da dor e do sofrimento de que o pecado é a causa, colocando a responsabilidade em Deus e insultando-O como «injusto».  

2. Excelência, imagino que tenha visto os líderes pró-vida nos Estados Unidos implorar aos Bispos que declarassem abertamente que o aborto é a questão primordial nestas eleições presidenciais. Vários Bispos disseram exactamente o contrário e agora usam os pontos de discussão da encíclica do Papa Francisco para apoiar as suas ideias. O que sugere aos seus irmãos Bispos e aos fiéis?          

O silêncio sobre o aborto é um sinal terrível do retrocesso espiritual e moral daquela parte da Hierarquia que renega a própria missão porque renegou Cristo.
E como no aborto a mãe mata o filho que deveria amar, proteger e gerar para a vida terrena, assim, na presente fraude, a Igreja, desejada por Deus para gerar almas para a vida eterna, encontra-se a matá-las espiritualmente no seu próprio ventre por causa da traição dos seus Ministros. A inimizade dos inimigos de Cristo não poupa a Sua Santíssima Mãe, cuja divina Maternidade é odiada por Satanás, porque, através d’Ela, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade fez-se homem para nos redimir. Se somos amigos da Santíssima Virgem, os Seus inimigos são os nossos inimigos, segundo o que o Senhor estabeleceu no Proto-Evangelho: «Farei reinar a inimizade entre a tua descendência e a dela» (Gn 3, 15).               

Recordo aos meus Irmãos que foram ungidos com o Santo Crisma como atletas da Fé, não como espectadores neutros da luta entre Deus e o adversário. Aos poucos e corajosos Pastores que levantam a voz para defender os princípios invioláveis
​​e inegociáveis ​​que o Senhor consagrou na Lei natural, rogo a todos os que hoje hesitam por temor, por pavidez ou por um falso conceito de prudência que a eles se juntem. Tendes a “graça de estado” para serdes ouvidos pelo vosso rebanho, que reconhece em vós a voz do divino Pastor (Jo 10, 2-3). Não tenhais medo de proclamar o Evangelho de Cristo, assim como não tiveram medo de enfrentar o martírio os Apóstolos e as fileiras dos Bispos seus sucessores.

Aos fiéis, desorientados com o silêncio de tantos covardes, peço-lhes que elevem as suas orações ao Céu, invocando do Paráclito aquelas graças que só o Espírito Santo pode infundir nos corações endurecidos e rebeldes: Lava quod est sordidum, riga quod est aridum, sana quod est saucium. Flecte quod est rigidum, fove quod est frigidum, rege quod est devium. Oferecei os vossos sacrifícios, as vossas penitências, as dores da doença pela Igreja e pelos vossos Pastores.

3. Recentemente, entrevistei a esposa do ex-candidato ao Supremo Tribunal, Robert Bork, que falou sobre a falta de apoio da Igreja ao seu marido durante as suas escandalosas audiências; também deu a entender que o seu ataque foi liderado pelo “católico” republicano Teddy Kennedy. Como avalia os ataques que o juiz Barrett está a sofrer, principalmente por causa da sua fé?   

O ódio do mundo, de que Satanás é o príncipe (Jo 12, 31), é a mais evidente negação do sonho utópico de Fratelli tutti. Não pode haver fraternidade entre os homens se essa prescinde da comum paternidade do único verdadeiro Deus, Uno e Trino. Aqueles que pregam a igualdade e a paridade dos direitos na medida em que se trata de dar cidadania ao erro e ao vício, tornam-se intolerantes ao verem em risco o poder usurpado tão logo um político católico, em nome dessa paridade de direitos, queira testemunhar a própria Fé no legislar e no governar. Assim, a tão desejada fraternidade só se realiza entre os filhos das trevas, excluindo, necessariamente, os filhos da luz, ou forçando-os a renegar a própria identidade. E é significativo que a única declinação desta fraternidade parece fundar-se na rejeição de Cristo, enquanto é considerada impossível uma verdadeira e santa fraternidade no vínculo da Caridade, «na justiça e na santidade próprias da verdade» (Ef 4, 24).         

Com a unção da Confirmação, o Católico torna-se soldado de Cristo: um soldado que não combate pelo seu Rei e pensa aliar-se ao inimigo é um traidor, um renegado, um desertor. Sejam, pois, os políticos católicos e todos os que ocupam cargos institucionais, testemunhas d’Aquele que por eles derramou o seu Sangue: não só receberão as graças necessárias para cumprir a sua missão na vida pública, mas serão um exemplo para os seus irmãos e merecerão o prémio eterno, que é a única coisa realmente importante. «Te nationum praesides honore tollant publico; colant magistri, judices, leges et artes exprimant»[8].



[1] Discurso à Organização das Nações Unidas, Nova Iorque, 25 de Setembro de 2015, AAS 107 (2015), 1039. Citado na Encíclica Fratelli tutti, n. 188.

[2] A única menção indirecta ao aborto é n. 24 da Encíclica, em que se denuncia a violência contra as mulheres, «depois forçadas a abortar», mas sem que o infanticídio seja condenado em si. A referência ao nascituro, em Fratelli Tutti, n. 18, é muito fraco e não menciona explicitamente o termo “aborto”. Usar apenas três palavras sobre o crime mais abominável que envolve milhões de mortes todos os anos no mundo, não muda a evidência de que a encíclica é, literalmente, obcecada pela solidariedade humana em apoio à agenda globalista. Além disso, no contexto da campanha eleitoral dos Estados Unidos (concomitante com a publicação do documento papal), uma explícita condenação do aborto contradiria abertamente o candidato democrata, que é fortemente a favor. Acrescento que as referências aos bebés mais parecem direccionadas às famílias islâmicas, em particular às dos imigrantes, que, segundo Bergoglio, representam o futuro demográfico da Europa.

[3] «Eu sou a salvação do meu povo, diz o Senhor. Quando chamar por Mim nas suas tribulações, Eu o atenderei e serei o seu Deus para sempre. Escuta, meu povo, os meus ensinamentos; presta atenção às minhas palavras». Ps. 77, 1, Dominica XIX post Pentecosten, Introitus.

[4] CIC, 1817.

[5] https://www.independent.co.uk/news/world/europe/pope-francis-assures-atheists-you-don-t-have-believe-god-go-heaven-8810062.html.

[6] Il Papa: non c’è una risposta alla morte dei bambini, in: Avvenire, 15 de Dezembro de 2016 – https://www.avvenire.it/papa/pagine/papa-udienza-al-bambino-gesu.

[7] Ibid.

[8] «Que os governantes das nações vos honrem publicamente, que os magistrados e juízes vos reverenciem, que as leis e as artes exprimam a vossa realeza», do hino Te saeculorum Principem para a festa de Cristo Rei.

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