sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Caso Becciu: manifesta-se a todos o fim do pontificado

 


Tudo começa na quinta-feira, 24 de Setembro, quando a Sala de Imprensa do Vaticano comunica que: «o Santo Padre aceitou a renúncia do cargo de Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, e dos direitos relativos ao Cardinalato, apresentada por Sua Eminência o Cardeal Giovanni Angelo Becciu». «Jorge Mario Bergoglio – comenta Massimo Franco – “degradou-o” com um ámen, tirando-lhe o cardinalato e barrando-lhe as portas de um futuro Conclave. Frase padrão, inapelável: “Já não tens a minha confiança”, embora pronunciada com uma ponta de sofrimento. E pensar que o pontífice o havia promovido, há dois anos, depois de tê-lo mantido, até 2018, como Substituto da Secretaria de Estado, uma espécie de “ministro do Interior”» (Corriere della Sera, 27 de Setembro de 2020).        

Muitos jornalistas bem informados expressam a sua perplexidade sobre a consistência dos supostos crimes atribuídos a Angelo Becciu, afirmando, como Giuseppe Rusconi, que a imagem da Igreja está-se a tornar «cada vez mais opaca na opinião pública; é cada vez mais grave o turbamento do povo católico, já sujeito a dura prova na sua fidelidade, nos últimos anos, por toda espécie de escândalos financeiros, sexuais e doutrinários» (Rosso Porpora, 26 de Setembro). Aldo Maria Valli, no seu blogue, faz algumas perguntas: «Como é possível chegar a uma sentença (como, de facto, é o comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé) sem que, primeiro, tenha havido um processo? É possível que o superior directo de Becciu na Secretaria de Estado, o Cardeal Parolin, nunca tenha sido informado das escolhas feitas pelo Substituto?» (Duc in Altum, 25 de Setembro de 2020).    

No dia 26 de Setembro, no Stilum Curiae, o blogue de Marco Tosatti, um autor, que se esconde sob o pseudónimo de “Pezzo Grosso”, escreve que não devemos olhar para Becciu, que é o dedo, mas para o que o dedo indica. E o que o dedo indica é a perspectiva estratégica de levar a Igreja ao «sagrado default». O termo deixa claro que Pezzo Grosso é um economista: o default é a insolvência que leva à bancarrota. «A igreja falida financeiramente fecha as portas, já não pode fazer evangelização, é absorvida pela UNESCO. Ser capaz de atingir o “sagrado default” acelera o fim da Igreja muito mais do que pode ser feito com várias teologias progressistas, com apostasias, cismas, heresias de todos os tipos. A mensagem que interpretei da expulsão humilhante de um fiel servidor de Bergoglio, como Becciu, é a do sacrifício necessário para fechar as portas com um “sagrado default”».  

No mesmo dia, Tosatti publica uma intervenção de Lucetta Scaraffia, uma intelectual católica perplexa, que escreve: «Como alguém observou, o que acontece é mais semelhante aos grandes expurgos políticos de regimes totalitários do que um sério e ponderado apelo à justiça. Já há muitos anos, desde que Bento XVI iniciou uma reforma do IOR, o banco do Vaticano, que se sucedem os escândalos, fugas de notícias, prisões imprevistas, processos de farsa. Por trás dessa enxurrada constituída por “operações de limpeza”, é difícil entender o que realmente está a acontecer». Tosatti adiciona algumas considerações de carácter psicológico e comportamental. «Este Pontífice, cujas súbitas mudanças de humor, fortíssimas e também com conotações verbais muito fortes, não são segredo para ninguém, no Vaticano, agora tem uma pequena lista de decapitações por sua conta, pequenas e grandes, recordes. Queremos recordar os funcionários da Congregação para a Doutrina da Fé despedidos sem motivo, o Grão-Mestre da Ordem de Malta, Matthew Festing, o general Domenico Giani e outros ainda, e, agora, o fidelíssimo Becciu».      

«O declinante pontificado bergogliano está a assumir as características da mais sombria tragédia de Shakespeare» – escreve Matteo Matzuzzi no Il Foglio de 26 de Setembro. «Partido com o vento em popa, com Cardeais orantes que sentiam a brisa do Espírito soprar nas velas da Barca de Francisco e corriam para ir dizê-lo a jornais e televisões, agora está reduzido ao todos contra todos».      

Também para Marco Politi «a fase final do pontificado bergogliano já começou» (Il Fatto Quotidiano, 26 de Setembro de 2020); do «declínio de um pontificado» escreve Antonio Socci no Libero de 27 de Setembro, enquanto La Verità do mesmo dia apresenta, na primeira página, um artigo de Lorenzo Bertocchi: «Jorge Bergoglio, o fracasso de um papado».          

O caso Becciu enquadra-se, portanto, naquelas que, na Corrispondenza Romana de 3 de Julho, definíamos «as incógnitas do fim de um pontificado», escrevendo que a era do Coronavírus «pôs definitivamente fim aos ambiciosos projectos pontifícios para 2020, dando-nos a imagem histórica de um Papa solitário e derrotado, imerso no vazio de uma espectral Praça de São Pedro».          

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

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