sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Bergoglio «de Cristo deveria ser o Vigário e não o inimigo», sustenta Viganò

O portal Dies Iræ traduz, a pedido de Mons. Carlo Maria Viganò, um seu artigo que, hoje, foi publicado no quotidiano italiano “La Verità”. Ao longo do texto, de acessível compreensão e guiado por uma absoluta fidelidade ao Magistério, o Arcebispo Viganò aborda, mais aprofundadamente, as preocupantes declarações de Bergoglio sobre as uniões civis entre sodomitas e levanta questões eclesialmente muito relevantes.

Ontem, por ocasião do Festival de Cinema de Roma, o realizador Evgeny Afineevsky apresentou um documentário intitulado “Francesco”, no qual são repropostas algumas entrevistas feitas a Jorge Mario Bergoglio ao longo dos últimos anos de pontificado. Entre outras declarações, algumas frases sobre a legitimidade das uniões civis homossexuais têm gerado confusão: «O que devemos fazer é uma lei para as uniões civis. Desta forma, [os homossexuais] são legalmente protegidos. Eu sou a favor disso».

Penso que tanto os simples fiéis como os Bispos e os sacerdotes se sentiram traídos pelo que Bergoglio afirmou. Não é preciso ser teólogo para entender que a aprovação das uniões civis está em clara contradição com os documentos magisteriais da Igreja, mesmo os recentes. Também constitui um gravíssimo assist à ideologia LGBTQ que, hoje, é imposta globalmente.

Nestes dias, o Parlamento deverá discutir a aprovação da chamada Lei Zan, sob proposta do Partido Democrático. Em nome da protecção dos homossexuais e dos transexuais, será considerado crime afirmar que a família natural é a célula da sociedade humana e quem afirmar que a sodomia é um pecado que clama por vingança junto de Deus será punido. As palavras de Bergoglio já foram recebidas, em todo o mundo do lobby gay, como um autorizado apoio às suas reivindicações.

Lendo atentamente as declarações de Bergoglio, alguém já observou que não há uma aprovação do matrimónio homossexual, mas apenas um gesto de boas-vindas – talvez mal formulado – para aqueles que pedem uma protecção jurídica ao Estado laico. A Congregação para a Doutrina da Fé já esclareceu, sem equívocos, que em nenhum caso um Católico pode aprovar as uniões civis, porque constituem uma legitimação do concubinato público e são apenas o passo que antecede o reconhecimento dos chamados matrimónios homossexuais. Tanto é verdade que, hoje, na Itália, é possível casar-se até mesmo entre pessoas do mesmo sexo, depois de anos de garantia – até mesmo por políticos que se autodenominam católicos – de que o PACS[1] de forma alguma questionariam o matrimónio como afirmado na Constituição.

Afinal, a experiência ensina-nos que quando Bergoglio diz algo, fá-lo com um propósito muito específico: fazer com que os outros interpretem as suas palavras no sentido mais amplo possível. As primeiras páginas dos jornais de todo o mundo anunciam: “O Papa aprova os matrimónios gay”, ainda que, com rigor, não seja o que tenha dito. Mas esse era, exactamente, o resultado que ele e o lobby gay vaticano queriam alcançar. Depois, talvez a Sala de Imprensa dirá que o que Bergoglio disse foi mal-entendido, que se trata de uma antiga entrevista e que a Igreja reitera a condenação da homossexualidade como intrinsecamente desordenada. O dano, no entanto, está feito e mesmo eventuais passos para trás, em respeito ao escândalo gerado, ainda serão um passo em frente na direcção do pensamento único e do politically correct. Não esqueçamos os resultados nefastos da sua expressão, de 2013, «Quem sou eu para julgar?», que lhe rendeu a capa e o título de “homem do ano” no The Advocate.

Bergoglio afirmou: «Os homossexuais têm o direito de fazer parte de uma família. São filhos de Deus e têm o direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou infeliz por causa disso». Todos os baptizados são filhos de Deus: quem no-lo ensina é o Evangelho. Mas pode-se ser filhos bons ou maus, e se esses violam os Mandamentos de Deus, o facto de serem Seus filhos não os impedirá de serem punidos, assim como um italiano que rouba não evita a prisão pelo simples facto de ser cidadão do País em que comete o crime. A Misericórdia de Deus não prescinde da Justiça e se pensamos que, para nos redimir, o Senhor derramou o Seu Sangue na Cruz, não podemos não tender à santidade, conformando o nosso comportamento à Sua vontade. Nosso Senhor disse: «Vós sois meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando» (Jo 15, 14).

Se a exclusão familiar ou social deriva de comportamentos provocatórios ou de reivindicações ideológicas que não podem ser partilhadas – penso no Gay Pride – é apenas o resultado de uma atitude de desafio e, como tal, tem origem em quem usa essa atitude para chocar os outros. Se, por outro lado, essa discriminação deriva apenas de ser uma pessoa que se comporta como todas as outras, com respeito pelos outros e sem qualquer imposição do seu estilo de vida, deve ser justamente condenada.

Sabemos muito bem que o que o lobby homossexual quer alcançar não é a integração de pessoas normais e honestas, mas a imposição de modelos de vida gravemente pecaminosos, socialmente desestabilizadores e que sempre foram instrumentalizados para demolir a família e a sociedade. Não é por acaso que a promoção da agenda homossexual faz parte do projecto globalista em concomitância com a destruição da família natural.

O jesuíta James Martin, um dos mais fervorosos defensores da agenda LGBTQ e do acolhimento indiscriminado dos homossexuais na Igreja, aparece como consultor no Dicastério para a Comunicação da Santa Sé. Assim que foi divulgada a notícia sobre as declarações de Bergoglio, Martin encheu de post as redes sociais, expressando uma irreprimível satisfação por esse gesto que, na verdade, escandalizou a maioria dos fiéis.

Juntamente com o P. Martin estão Cardeais, Bispos, Monsenhores, Sacerdotes e Clérigos que pertencem à chamada “lavender mafia”. Alguns deles foram investigados e condenados por crimes gravíssimos, quase sempre ligados a ambientes homossexuais. Como podemos pensar que um grupo de homossexuais no posto de comando não tenha todo o interesse em pressionar Bergoglio a defender um vício que partilham e praticam?

Pelo contrário, diria que faz parte do comportamento de Bergoglio brincar com o mal-entendido, com a provocação – «Deus não é católico», disse –, ou deixando que outros terminem um discurso que é ele a iniciar. Vimos isso com Amoris laetitia: embora não tenha evidentemente contradito a doutrina católica sobre a impossibilidade de os divorciados acederem aos Sacramentos, deixou que o fizessem outros Bispos, aprovando, depois, as suas declarações e calando-se obstinadamente sobre os Dubia de quatro Cardeais.

Poder-se-ia perguntar: com que finalidade o Papa deveria agir desta forma, sobretudo quando os seus Predecessores sempre foram muito claros em matéria de moral? Não sei o que Bergoglio tem em mente: limito-me a dar um sentido às suas acções e às suas palavras. E penso que posso afirmar que o que emerge é uma atitude deliberadamente dupla e jesuítica. Por trás de todos os seus pronunciamentos está a tentativa de suscitar a reacção da parte sã da Igreja, provocando-a com afirmações heréticas, com gestos desconcertantes, com documentos que contradizem o Magistério. E, ao mesmo tempo, de agradar aos seus apoiantes, especialmente os não católicos ou os apenas de nome.

À força da provocação, espera que algum Bispo se canse de se sentir diariamente atingida a doutrina e a moral; espera que um grupo de Cardeais o acuse formalmente de heresia e peça a sua deposição. E, ao fazê-lo, Bergoglio teria o pretexto de acusar esses Prelados de serem “inimigos do Papa”, de se colocarem fora da Igreja, de quererem um cisma. Obviamente, não são os que querem permanecer fiéis ao Magistério que se separam da Igreja: seria um absurdo.

De certa forma, o comportamento de Bergoglio é da mesma matriz daquele do Presidente Conte: ambos, em retrospectiva, eram desejados nesse papel pela mesma elite, numericamente minoritária mas poderosa e organizada, com o objectivo de demolir as instituição que representam; ambos abusam do seu poder contra a lei; ambos acusam aqueles que denunciam os seus abusos de serem inimigos da instituição, quando, na verdade, a defendem deles. Finalmente, ambos se distinguem por uma desoladora mediocridade.

Se canonicamente é impensável excomungar um Católico pelo simples facto de querer permanecer assim, política e estrategicamente este abuso poderia permitir a Bergoglio expulsar os seus adversários da Igreja, consolidando o seu poder. E repito: não se trata de uma operação legítima, mas de um abuso que, no entanto, ninguém poderia impedir, já que «prima Sedes a nemine judicatura». E como a deposição de um Papa herege é uma questão canonicamente não resolvida e sobre a qual não há consentimento unânime entre os canonistas, quem quer que acusasse Bergoglio de heresia cairia num beco sem saída e muito dificilmente obteria um resultado.     

E é exactamente isso, na minha opinião, que o “círculo mágico” de Bergoglio quer alcançar: chegar à situação paradoxal em que aquele que é reconhecido como Papa está, ao mesmo tempo, em estado de cisma com a Igreja que governa, enquanto que quem é por ele declarado cismático, por desobediência, se encontra excluído da Igreja pelo facto de ser católico.

A acção de Bergoglio dirige-se, sobretudo, ao exterior da Igreja. A Encíclica Fratelli tutti é um manifesto ideológico em que não há nada de católico e nada para os Católicos; é mais um embrassons-nous maçónico, no qual a fraternidade universal não se obtém, como ensina o Evangelho, no reconhecimento da comum paternidade de Deus através da pertença a uma única Igreja, mas com a redução de todas as religiões a um mínimo denominador comum que se expressa na solidariedade, no respeito pelo meio ambiente, no pacifismo.

Com esta forma de agir, Bergoglio candidata-se a “pontífice” de uma nova religião, com novos mandamentos, nova moral e novas liturgias. Afasta-se da Religião Católica e de Cristo, e, consequentemente, da Hierarquia e dos fiéis, repudiando-os e deixando-os à mercê da ditadura globalista. Quem não se adaptar a este novo código será, portanto, condenado ao ostracismo pela sociedade e por esta nova “igreja” como corpo estranho.

A 20 de Outubro, o Papa Francisco rezou pela paz juntamente com os representantes das religiões mundiais: o lema dessa cerimónia ecuménica era “Ninguém se salva sozinho”. Mas aquela oração foi dirigida, indiferentemente, ao Deus verdadeiro como aos falsos deuses dos pagãos, deixando claro que o ecumenismo propagado por Bergoglio tem como fim a exclusão de Nosso Senhor da sociedade humana, porque Jesus Cristo é considerado «divisivo», «pedra de tropeço». Assim, o homem moderno pensa que pode obter a paz prescindindo d’Aquele que disse de si mesmo: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim» (Jo 14, 6). É doloroso constatar que a esta apostasia das Nações outrora cristãs se junta Jorge Mario Bergoglio, que de Cristo deveria ser o Vigário e não o inimigo.

Há três dias, a imprensa divulgou a notícia de que o Papa não celebrará a Missa da Meia-Noite no Natal. Limito-me a uma constatação: há poucos dias, em pleno estado de emergência COVID-19, foi considerado possível celebrar um rito ecuménico, na presença dos fiéis e das autoridades, todos com a máscara. Pelo contrário, nos espaços muito maiores da Basílica Vaticana, alguém considerou imprudente celebrar o Nascimento do Salvador na Noite Santa.

Se esta decisão for confirmada, saberemos que Jorge Mario Bergoglio prefere auto-celebrar-se, secundando o pensamento único e a ideologia sincrética da Nova Ordem Mundial, em vez de se ajoelhar aos pés da manjedoura em que foi colocado o Rei dos Reis.

Carlo Maria Viganò, Arcebispo          
22 de Outubro de 2020



[1] Patto Civile di Solidarietà, equivalente, em Portugal, às uniões civis (n.d.r.).

1 comentário:

  1. Eu peço que alguém retire este homem do papado antes que faça pior. Existe algum jeito para isso?

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