quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A ordem de Deus na desordem do mundo

Deve despertar não pouca ironia entre os celestes habitantes do céu a utopia do homem – criatura caída e redimida, destinada a regressar ao pó na escuridão de um sepulcro – que se apresenta como deus de si mesmo e começa a agitar, opportune et inopportune, os seus direitos. Porque o ensurdecedor mantra dos chamados “direitos humanos” corrompe a sociedade moderna e também penetrou no ensinamento e na acção da Igreja. No tempo de pandemia em que vivemos, o princípio dos direitos humanos começou a ruir, revelando-se pelo que é: uma insana utopia baseada na prometeica ilusão de um homem desvinculado do seu Criador. Chocam os direitos dos doentes e os direitos dos sãos; os direitos do estado e os direitos dos cidadãos; os direitos dos professores e os direitos dos alunos, e assim por diante, até chegar – e aqui está o apogeu da utopia – aos direitos dos sacerdotes que chocam com os direitos dos fiéis. Mas na Igreja Católica não pode haver nenhum tipo de conflito, pois a hierarquia dos valores morais é bem determinada, sendo fundada no direito divino, natural e positivo. Esta hierarquia de valores parece tristemente esquecida até mesmo por aqueles que não deveriam apenas conhecê-la, mas também legislar e pregar para seja respeitada. Convém, portanto, revisitá-la.

Toda a moral evangélica funda-se no amor a Deus e ao próximo numa ordem bem estabelecida. A causa pela qual se ama a Deus é o próprio Deus, diz São Bernardo. Então, amámo-nos a nós mesmos e ao próximo em vista de Deus. «E por que nos amamos? – pergunta-se São Francisco de Sales – Porque fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. E, como todos os homens têm essa dignidade, amámo-los como a nós mesmos, considerando-os vivas e santas imagens da divindade». A caridade para com o próximo, que nos é ordenada, não é, portanto, na ordem natural, mas pertence, essencialmente, à sobrenatural. Não é uma alegre fraternidade, ainda que fosse universal, que nos faz amar o próximo, porque nos deleita ou nos faz bem. Ele faz-nos amá-lo porque, como dizia Santo Agostinho, ou é filho de Deus ou é chamado a sê-lo. E, como todos os homens são assim, devemos amá-los a todos. A caridade é universal: abrange a terra, o céu e os seus habitantes, e o purgatório; pára apenas às portas do inferno: «apenas os condenados – escreve o P. Réginald Garrigou-Lagrange – não podem ser amados com caridade», porque não podem mais – nem querem – tornar-se filhos de Deus e, portanto, já não podem atrair a nossa compaixão. Aqui, então, surge a hierarquia dos valores que um verdadeiro filho de Deus e da Igreja não se pode dar ao luxo de ignorar. O P. Garrigou-Lagrange, baseando-se em São Tomás de Aquino, enumera-os em sucessão de importância: «Antes de tudo – escreve – devemos amar a Deus mais do que qualquer outra coisa, depois a nossa alma, depois o nosso próximo e, por último, o nosso corpo». No amor evangélico, o corpo ocupa o último lugar. Além disso, o próprio Senhor tinha-o explicado bem, dizendo: «Se a tua mão ou o teu pé são para ti ocasião de queda, corta-os e lança-os para longe de ti: é melhor para ti entrares na Vida mutilado ou coxo do que, tendo as duas mãos ou os dois pés, seres lançado no fogo eterno» (Mt 18, 8).   

Tendo presente esta hierarquia da caridade, vemos o quão foi derrubada pelo sentir do homem (e também do católico) moderno. Na recente pandemia, tivemos uma incontestável prova
​​disso. Os direitos de Deus (como a Missa dominical ou a comunhão na mão) foram subordinados à fobia do contágio do COVID-19. O amor, que é devido primeiro à alma do que ao corpo, foi destruído com as cómodas Missas em streaming e a renúncia aos sacramentos por longos meses a fim de evitar o vírus. O amor, que devemos às nossas almas antes que ao próximo, foi suplantado por um amor desordenado ao próximo que, para evitar contagiar os outros, nos impele a abster-nos das práticas religiosas ainda possíveis. Não há nada de evangélico nisso tudo. Embora deva usar a virtude da prudência, a ordem da caridade estabelecida por Deus não pode ser anulada.         

São Tomás de Aquino faz com que a perfeição cristã consista, precisamente, na caridade, porque a caridade une a alma a Deus, que é o seu fim último: sem a caridade, o homem é como um nada na ordem espiritual. Ora continua o Doutor Angélico –, sabemos que os preceitos da caridade são dois: o amor a Deus e o amor ao próximo, onde o primeiro está a um nível superior ao outro, pois o primeiro é o amor da caridade próprio dos bem-aventurados, enquanto o segundo é aquele que significa que, com respeito «ao nosso próximo, devemos amar e desejar com o amor da caridade que também ele chegue connosco à bem-aventurança». O fim do amor ao próximo é, portanto, a sua bem-aventurança eterna, não o prolongamento do exílio terreno, destinado a terminar, inexoravelmente, com o declínio desta vida. Cada cristão é chamado a amar a Deus e ao próximo com este amor sobrenatural, segundo a ordem estabelecida por Deus e não pelos homens: trata-se de um dever, porque a caridade é um preceito e não um conselho.

Cristiana de Magistris         

Através de Corrispondenza Romana

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