quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Apelo às verdadeiras elites contra a mediocridade

Existe alguma relação entre o vírus que, nos últimos dez meses, agrediu dois biliões de pessoas e a pandemia de erros que, desde há muitas décadas, afecta o mundo? Em ambos os casos, estamos diante de agentes patogénicos que agridem o organismo social. No primeiro caso, o agressor é um vírus que ataca os corpos e que só o microscópio pode identificar; no segundo caso, é um germe que infecta e corrompe as almas, mas cuja identidade já nos foi revelada pelo Céu quando, em 1917, Nossa Senhora, em Fátima, anunciou que, se a humanidade não se emendasse, a Rússia espalharia o seus erros e seguir-se-iam guerras, revoluções e a aniquilação de inteiras nações.

A Virgem Santa Maria tinha diante dos olhos não apenas duas assustadoras guerras mundiais e as centenas de milhões de mortes vítimas do totalitarismo comunista e do nacional-socialista, mas também a crise sanitária que o mundo atravessa hoje, com todas as consequências políticas e sociais que já se delineiam com clareza. Um horizonte não de controlo social, através da ditadura sanitária, como muitos pensam, mas, pelo contrário, de colapso social e, antes ainda, psicológico da sociedade moderna que, afastando-se de Deus, escolheu o caminho da própria autodissolução.    

Este trágico cenário parece irreversível, porque à impenitência da humanidade junta-se a apostasia dos líderes da Igreja, que não pregam a necessidade da oração, da penitência e da conversão à única Igreja de Cristo, mas anunciam um novo Evangelho ecológico, ecuménico e globalista. Como evitar o castigo, previsto por Nossa Senhora, em Fátima, quando nos encontramos perante homens da Igreja, como o novo Cardeal Raniero Cantalamessa, que, desde há anos, persistem em repetir que as calamidades nunca são um castigo divino (cf. Avvenire, 23 de Abril de 2011 e, recentemente, Corriere della Sera, 10 de Abril de 2020)? Deus non irridetur! De Deus não se zomba, adverte São Paulo na Carta aos Gálatas (6, 7).     

Cantalamessa, como tantos outros Prelados, é um digno filho do Concílio Vaticano II. Mas mesmo aqueles que negam as responsabilidades do Vaticano II não podem negar a existência de uma crise de valores sem precedentes, que se expressa na perda da noção do bem e do mal, no relativismo, no ateísmo prático em que vive a humanidade, que, depois de ter deixado de acreditar em Deus, professa a fé em ídolos como a Mãe Terra.

A reviravolta dos princípios expressos pela protecção jurídica e social conferida à homossexualidade é uma expressão eloquente e dramática do processo de degradação moral em curso. Mas ainda mais grave é a aprovação, ou a condescendência, que as supremas autoridades da Igreja parecem manifestar por esta degeneração da sociedade.     

O rebanho está sem guias religiosos e políticos, mas tem, afinal, os pastores que merece. Com efeito, não basta protestar contra as autoridades públicas, religiosas ou políticas, se não se começar a reformar, antes de mais, a si próprio, os próprios hábitos de vida, o próprio modo de pensar, rompendo todos os compromissos com aquele mundo moderno em que reside a causa profunda da crise.

Hoje, a nota dominante parece ser a mediocridade, que é a rejeição da grandeza e da superioridade de ânimo, que é substituída pela procura do sucesso e do próprio interesse. O escândalo que, nos últimos dias, está a varrer a Secretaria de Estado do Vaticano traz à tona um modo vulgar e interessado de servir a Igreja, na qual os erros teológicos e morais encontram o seu natural terreno fértil.        

Não erradamente, Ernesto Galli della Loggia, num artigo intitulado La Chiesa cattolica e l’Italia svanita, no Corriere della Sera de 17 de Outubro de 2020, valendo-se da desastrosa gestão das finanças vaticanas, observa «o desaparecimento de uma certa Itália católica de estilo aristocrático e burguês cujas habilidades, até tempos não muito distantes, a Igreja utilizou de várias maneiras e que serviu à Igreja e ao destino do catolicismo como ensinamento de um forte compromisso ético e de um substancial desinteresse pessoal». «A falta de competências reais de carácter extra-religioso e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de contar com as competências de uma sociedade civil católica agora inexistente ou distante, condenam não só a gestão financeira da Santa Sé, mas, de um modo geral, todas as suas relações com o “século” para viver perigosamente, sempre à beira da fraude ou da ilegalidade ou, quando tudo vai bem, da mais desalentadora falta de jeito».    

A 30 de Outubro de 1993, foi realizada, em Roma, no Palácio Pallavicini, uma conferência internacional por ocasião da publicação do livro, do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana (Marzorati, Milão 1993). O Cardeal Alfonso Maria Stickler lançou um apelo às elites tradicionais para uma corajosa batalha em defesa dos valores humanos e cristãos (cf. Tommaso Monfeli, Cattolici senza compromessi, Fiducia 2019, pp. 137-138). Poucos aceitaram o apelo, mas a resistência desses poucos, que continuam a lutar, aponta um caminho para o renascimento moral da Itália e da Europa; formar hoje as elites de amanhã. Verdadeiras elites, sobretudo espirituais, mas também políticas e sociais, uma aristocracia da alma, do pensamento, da educação, que erga a bandeira da Contra-Revolução católica enquanto são subvertidos, desde baixo, os alicerces da sociedade. Este é o caminho que seguimos e que indicamos a quem não queira ser sugado pelos remoinhos do pântano que enfrentamos.          

Roberto de Mattei      

Através de Corrispondenza Romana

#USElection2020 – O paradoxo da padronização em massa

«Pode-se ver melhor a força propulsora da intemperança frenética na padronização em massa dos produtos. O gigantismo desequilibrado só é possível se houver um consumo desequilibrado capaz de absorver a sua produção maciça.        

Admitimos, desde já, que se faça, normalmente, uma padronização em todas as economias, a fim de garantir produção adequada. Não é razoável esperar que todos os produtos sejam artesanais e diferentes, e a padronização comum proporciona estabilidade aos mercados, pois ajuda a manter a regularidade e a unidade da produção. Os diversos tipos de gasolina padrão, por exemplo, asseguram o funcionamento uniforme e eficiente do combustível.  

Dentro da unidade dessa padronização existe também um grande desejo de diversidade, pelo qual o Homem pode exprimir a sua individualidade. Por esta razão procura maneiras de personalizar, individualizar e produzir sob medida para satisfazer as necessidades específicas essenciais ao seu desenvolvimento pessoal e limitar o efeito nivelador da padronização. As modas sem graça e padronizadas dos países comunistas foram justamente criticadas pelo seu flagrante desrespeito ao Homem e à sua dignidade.        

Uma economia saudável equilibra a padronização com a individualidade e a unidade com a diversidade. Esse equilíbrio perde-se quando entra a intemperança frenética, tornando-se norma aquilo que chamamos de padronização em massa
».    

John Horvat II, in Retorno à Ordem, p. 34

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Carta de apoio enviada ao Presidente Donald Trump

28 de Outubro de 2020
S. Simão e S. Judas, apóstolos

Senhor Presidente,

Aproximando-se as eleições presidenciais dos Estados Unidos da América, nós, católicos portugueses, gostaríamos de garantir a Vossa Excelência, por meio desta brevíssima carta, que estamos espiritualmente unidos à nação americana e, de modo particular, ao Senhor Presidente, rezando, de forma intensa, pela sua reeleição já no próximo dia 3 de Novembro.

Para nós, enquanto católicos e portugueses, tem sido muito gratificante assistir a todos os esforços que a administração Trump tem encetado para rejeitar firmemente a nova ordem mundial, as perversas ideologias que a sustentam, nomeadamente os lobbys LGBT e abortista, para defender a liberdade da Igreja Católica e rejeitar a política belicista que, desde sempre, tem caracterizado a nefasta acção política dos Democratas. Por tudo isto, é-nos grato poder elevar ao Céu as nossas ardentes preces para que o seu trabalho possa continuar.

Entre os dias 31 de Outubro e 1 e 2 de Novembro, em Portugal, decorrerá um tríduo de oração, sobretudo por intercessão da Virgem Santa Maria, para que se possa confirmar a sua reeleição, que significará, inquestionavelmente, mais um passo no reconhecimento colectivo do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Somos, de Vossa Excelência, afeiçoadamente, in Christo Rege,           

A Administração do portal católico Dies Iræ

Católicos pedem clareza a Bergoglio sobre uniões sodomitas




No seguimento das confusas declarações do Papa Francisco sobre as uniões civis entre sodomitas, o Instituto São Bonifácio, coordenado pelo austríaco Alexander Tschugguel, conhecido por, aquando do Sínodo sobre a Amazónia, ter atirado um ídolo pagão ao Tibre, promoveu, no passado sábado, junto à Praça de São Pedro, um momento de oração e, através de uma faixa, exigiu ao Pontífice clareza sobre esta questão que tanto escândalo tem gerado. 

#USElection2020 – Rejeição do sublime

«O sublime consiste naquelas coisas de excelência transcendente, cuja magnificência causa nos homens uma espécie de temor reverencial. O sublime convida homens e nações a olhar para os princípios mais elevados, para o bem comum – em última análise, para Deus – colocando-os além do interesse pessoal e da própria satisfação, e dando, assim, sentido e finalidade às suas vidas. Manifestando-se através de obras de arte, fabulosas realizações culturais, grandes feitos humanos ou da piedade religiosa, o sublime tem a capacidade de suscitar em nós sentimentos de lealdade, dedicação e devoção que podem preencher o vazio do nosso deserto moderno.      

Infelizmente, a nossa sociedade secularizada oferece forte resistência à opção pelo sublime. Geralmente, apresenta apenas o bem físico ou económico, levando os indivíduos e as nações a perderem a noção do sublime. Este torna-se um assunto abstracto ou poético, enquanto as coisas concretas são apresentadas como a única realidade
».

John Horvat II, in Retorno à Ordem, p. 77

terça-feira, 27 de outubro de 2020

As raízes católicas dos Estados Unidos da América

A presença católica em território americano afirmou-se ao longo de cerca de meio milénio. Testemunham-no, hoje, alguns importantes lugares de culto que têm sido cenário de milagres e de importantes etapas do processo de evangelização do continente.          

É o caso do Santuário de Chimayo, localizado no Novo México, nos Montes Sangre de Cristo, um segmento das Montanhas Rochosas. Tal estrutura é meta de peregrinação, principalmente durante a Semana Santa, e foi rebaptizada de «Lourdes do continente americano». A área em que se encontra parece já ter sido habitada desde o século XII. Quando os conquistadores lá chegaram, trouxeram o Cristianismo aos povos indígenas (em particular, aos índios Pueblo). Após alguns confrontos tempestuosos, no entanto, os espanhóis foram repelidos e forçados a recuar.

Alguns anos depois, entre 1692 e 1696, as tropas espanholas foram novamente engajadas no território do Novo México. Desta vez, eram comandadas pelo governador Diego de Vargas. Os índios Pueblo ainda tentaram rebelar-se, mas com menos força e tenacidade do que no passado. Foi assim que, no início do século XVIII, a Coroa Espanhola já se impunha nesta região. Na verdade, parece que o Cristianismo aqui não entrou em eclipse no período entre o primeiro desembarque dos conquistadores e o segundo. Diego de Vargas, a esse respeito, contou ter identificado, entre os índios americanos, um depósito de preciosidades pertencentes à tradição cristã, aparentemente ainda usadas diariamente.  

As famílias dos conquistadores estabeleceram-se ao longo das margens do rio Santa Cruz e na aldeia de El Potrero, onde foram lançadas as fundações do mencionado Santuário e no qual se difundiu, durante o século XIX, uma especial devoção a uma imagem milagrosa conhecida como “Nosso Senhor de Esquipulas”.

A estátua, ainda hoje preservada no Santuário, foi encontrada por um penitente, que ficou surpreso ao ver um raio de luz vindo, ao que parecia, do solo, sobre uma das quatro colinas acima mencionadas. Intrigado, escavou com as próprias mãos e encontrou um crucifixo no chão. Imediatamente, alguns homens foram até um sacerdote, frei Alvarez, para inteirá-lo desse acontecimento prodigioso. Era a noite de Sexta-Feira Santa de 1810. O religioso levou consigo a escultura e transportou-a para a sua igreja. No dia seguinte, o artefacto foi dado como desaparecido: inexplicavelmente, foi encontrado, mais tarde, no exacto local onde havia sido encontrado algumas horas antes. O episódio repetiu-se algumas vezes. As curas milagrosas, ligadas à visita àquele lugar de culto, foram tantas e tais que, passados
​​apenas três anos, se julgou oportuno erigir, no seu lugar, um Santuário de maiores dimensões: aquele que, ainda hoje, é visitado por milhares de fiéis. A sagrada imagem de Cristo é conservada atrás do altar-mor.

Também merece destaque o milagre ocorrido no pátio do convento franciscano de Santa Cruz, em Querétero, no vizinho México. Aqui, fora nomeado superior o P. Antonio Margil, homem conhecido pelo seu zelo e pela sua fé. Já estivera numa missão junto dos nativos americanos da Guatemala. Ainda em vida, contavam-se dele feitos prodigiosos. Quando os índios Talamanca o colocaram em cima de uma pira e a incendiaram, a imagem do crucifixo que ele segurava ficou carbonizada, mas o religioso saiu ileso. Além disso, segundo o testemunho de um sacerdote, o P. António carregava consigo uma bolsa cheia de trigo, para comer e para partilhar com as pessoas que encontrava durante a sua missão.         

Tal reserva foi-lhe milagrosamente suficiente para um período de cerca de três meses. No referido mosteiro de Santa Cruz, o religioso, voltando de uma pregação numa aldeia próxima, implantou no solo a sua bengala. Depois de alguns dias, a partir dela cresceu uma planta que, em vez de flores e frutos, produziu pequenos ramos em forma de cruz. De cada um deles brotaram três ramos menores, como que imitando a coroa de espinhos que Cristo usara no Calvário. Este prodígio foi lido como uma imagem eficaz daqueles missionários que se dedicaram e deram a vida pela conversão do Novo Mundo.     

Rino Zabiaffi      

Através de Radio Roma Libera

#USElection2020 – Perda do espírito de família

«Pelo fim da Idade Média, as corporações de ofício começaram a perder esse espírito de família. Também sucumbiram à intemperança frenética e perderam a solicitude fraterna de uns para com os outros. Reduzindo-se à flexibilidade de tipo familiar, adoptaram um rígido e excessivo controlo sobre os seus membros e sobre a tecnologia do ofício. Desapareceu o fervor religioso, tão essencial à temperança.

O historiador Joel Mokyr relata que “pode muito bem ter acontecido que no século XVI as corporações das cidades começaram a sufocar o progresso tecnológico para proteger a sua posição de monopólio e interesses”. Algumas corporações tornaram-se extremamente ricas, entrando no ritmo frenético da economia monetária.   

Mesmo nesse estado, ainda mantinham algo do espírito de família. Os inimigos da ordem de cristã viram naqueles restos as brasas de um fogo que se podia reacender. Por essa razão, a Revolução Francesa, e outros governos mais tarde, proibiram impiedosamente as corporações de ofício.    

Nos tempos modernos, muitos têm proposto que repitamos o sucesso das antigas corporações, ainda que sem o espírito de família. Alguns confundem o espírito de caridade cristã com o da ‘fraternidade’ socialista e propõem caricaturas do modelo de corporações, pelas quais os trabalhadores se uniriam em conselhos laicos para organizar a produção ou formar equipas autogestionárias.  Socialismo corporativo, corporativismo (especialmente na sua forma fascista) e outos movimentos do género acabariam por colocar as corporações sob o controlo do Estado.         

Por serem muito mais próximas do trabalhador, as corporações de ofício, sem o espírito de família, podem potencialmente controlar a produção e as vidas dos seus membros muito mais intensamente do que um governo socialista distante. Ou o mestre da corporação se comporta como um pai ou facilmente se torna um tirano.      

É por tudo isso que qualquer retorno às corporações deve ser feito com muito cuidado
».      

John Horvat II, in Retorno à Ordem, p. 138          

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A clamorosa ingerência de Bergoglio nas Presidenciais dos EUA

Ainda esta manhã, Bergoglio anunciou a criação de 13 novos Cardeais (incluindo 9 eleitores). São todos ultra-bergoglianos. A apressada escolha do momento, na véspera da votação dos EUA, é significativa: Trump está numa forte recuperação e, agora, o Vaticano bergogliano teme fortemente que possa vencer novamente. A Trump, Bergoglio, com todo o establishment globalista, declarou guerra total. Se Trump realmente ganhasse, este pontificado, já no fim, estaria efectivamente encerrado, esmagando-se na China, e totalmente desacreditado. Na vaga eleitoral pró-Biden, de que falo no artigo, perto do fim é apresentado o Cardeal Tagle como aquele que Bergoglio quer como seu sucessor. Tudo é explícito. Com os novos Cardeais, Bergoglio quer garantir o resultado do próximo Conclave.

O documentário “Francesco” causou enorme alvoroço pelo “sim” papal às uniões civis para as parelhas homossexuais. Mas era esse o objectivo principal?

Não exactamente. Certamente, era intenção do Vaticano dar o máximo destaque a este produto. De facto, na passada quarta-feira, antes da Audiência Geral, o Papa Bergoglio recebeu – com a presença de fotógrafos – o realizador Evgeny Afineevsky e os seus colaboradores, «dando, assim, a sua bênção ao trabalho», como escreve o Il Fatto Quotidiano, num clima de tal familiaridade que o papa argentino até ofereceu um bolo ao realizador por ser o seu aniversário.

Depois, no dia seguinte, houve a apresentação do documentário apologético no Festival de Cinema de Roma, dirigido por Antonio Monda, irmão do director do Osservatore Romano, Andrea (presente na sala), e a cerimónia de premiação do filme nos Jardins Vaticanos, onde recebeu o Prémio “Kinéo Movie for Humanity”, atribuído a quem promove temas sociais e humanitários.

Mas que objectivo se perseguia? O óbvio era o propósito de auto-celebração: o Papa Bergoglio tem sede de popularidade e de consenso mundano, especialmente hoje que o seu pontificado está em declínio e – de acordo com os seus próprios apoiantes – está totalmente atolado (basta considerar o Sínodo sobre a Amazónia e o alemão). Sobretudo, quer reconquistar o favorecimento mundano nestas semanas, quando o seu Vaticano está no centro das notícias escandalosas que mostram – também do lado da reforma interna – o fracasso do actual pontificado.

O isco usado, para ter o maior destaque possível e obter o grande e unânime aplauso dos media mainstream e das elites progressistas, foi o clamoroso sinal sobre a questão homossexual.

Era sabido que Bergoglio – como Cardeal de Buenos Aires – era a favor das “uniões civis” na Argentina. E sabemos que, como Papa, «orientou, em 2015 e em 2016, a posição da Conferência Episcopal Italiana sobre a lei desejada pelo governo italiano de Matteo Renzi, aceitando a sua formulação» (escreveu Maria Antonietta Calabrò no The Huffington Post).

No entanto, nunca tinha tido um pronunciamento público assim tão explícito, pois contradiz o magistério oficial, de sempre, da Igreja. A novidade é, portanto, enorme.

À esquerda, em Itália, há quem até o interprete como um sinal positivo para a aprovação do Projecto de Lei Zan (que, segundo a CEI, corre o risco de uma «deriva liberticida» contra as opiniões não alinhadas).

A externalização papal atirou o mundo católico para a perplexidade e para a confusão. Mas Bergoglio não está preocupado com isso. Para ele, as questões doutrinais, morais ou espirituais servem apenas instrumentalmente para atingir uma meta que é sempre, única e totalmente política.

O recente livro do professor Loris Zanatta, publicado pela Laterza, Il populismo gesuita (Peron, Fidel, Bergoglio), mostra muito bem a natureza inteiramente política do jesuitismo sul-americano e, em particular, de Bergoglio.

Então, qual era o principal objectivo político desta operação? O maior alvo, aquele contra o qual todo o sistema mediático e as elites globalistas estão lançados: Donald Trump.

É ele quem mina o projecto obamiano e clintoniano que, na frenética financeirização da economia ocidental, impôs a China como a fábrica do mundo às custas da classe média e dos trabalhadores ocidentais (e, curiosamente, o ataque mais mortal à reconfirmação de Trump – que estava seguro em Janeiro – veio da China: o COVID-19).

O pontificado de Bergoglio é filho da época Obama/Clinton e partilha a sua ideologia globalista, dentro da qual há imigracionismo e fanatismo ecológico. A eventual reconfirmação de Trump seria um golpe duríssimo para esta ideologia e para este bloco de poder.

Assim, estão a causar estragos e Bergoglio participa na campanha anti-Trump porque o eleitorado católico americano é decisivo. Deste modo, poucos dias antes da votação, foi lançado este incrível super spot a favor de Biden.

Basta ver o trailer do filme. De facto, começa com o COVID-19 em tom ecológico, porque na ideologia bergogliana o vírus seria um produto não do regime chinês, mas das nossas ofensas ao ambiente (também há imagens do terramoto que não se sabe o que tem a ver com a ecologia).

Depois, há a glorificação de Bergoglio como estrela mundial, “purificador” da Igreja e “salvador” da humanidade. E aqui estão as imagens escolhidas ad hoc: aquelas relacionadas a George Floyd (cujo trágico caso foi usado, sem razão, contra Trump); de seguida, “casualmente”, aparece o actual candidato democrata, Biden, que está ao lado de Bergoglio enquanto fala ao Congresso americano. Finalmente, é a vez da “profetisa” da religião ecologista, Greta Thunberg, enquadrada na Praça de São Pedro enquanto cumprimenta Bergoglio.

Neste ponto, inicia um longo comício imigracionista, culminando no muro entre os EUA e o México. Aqui aparece a imagem de Trump e ouvem-se as palavras de fogo de Bergoglio, que troveja: «uma pessoa que só pensa em construir muros, e não em fazer pontes, não é cristã».

É o famoso ataque a Trump que Bergoglio fez na campanha eleitoral de 2016. É reproposto, hoje, neste trailer “eleitoral”, apesar de se saber que o muro com o México foi desejado (também) pelos Democratas e, sobretudo, após quatro anos em que Trump, ao contrário dos seus predecessores, não fez sequer uma guerra e realizou muitos acordos de paz no mundo. No fim, aparece o Cardeal Tagle (filipino de origem chinesa), que é o candidato de Bergoglio à sua sucessão.

Esta é a clamorosa intrusão de Bergoglio na campanha presidencial a dez dias da votação. Como nos recordamos, há poucos dias, Bergoglio recusou-se a receber o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, que chegara a Roma para evitar a renovação do acordo Vaticano/China, porque – disse Bergoglio – teria sido uma interferência a favor de Trump na campanha presidencial.

Ele – que, entretanto, renovou o nefasto acordo com a China – tinha reservado um clamoroso comício: pró Biden.

Antonio Socci    

Através de Lo Straniero

domingo, 25 de outubro de 2020

A Alma e a Cruz

Vivendo num mundo que, a cada dia que passa, mais “soluções” apresenta para as gerações cada vez mais desejosas de rápidas respostas e de opções aparentemente fáceis, para nós, católicos, a única opção que se pode considerar como sendo segura e verdadeira é a que passa pelo caminho da Cruz. Assim, e como forma de incentivo, partilhamos, de seguida, um breve texto que uma leitora nos fez chegar. Confiámo-lo à protecção de Nossa Senhora e, neste dia da festa de Cristo Rei, pedimos-lhe que nos ajude a sermos fiéis ao Reinado de Nosso Senhor.

 

«Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: Eu já venci o mundo!» (Jo 16, 33). Cada ser humano, ao longo da sua vida, enfrentou ou enfrentará batalhas espirituais, sendo que existem duas opções: ou desistimos ou lutamos e seguimos em frente. Durante 16 anos da minha vida, achei que o caminho que estava a seguir era o correcto, mas enganei-me. O verdadeiro caminho é o caminho de Deus, não outro.

Por vezes, a nossa vida é um mar de escuridão que não desaparece e, nessas situações, achamos que o ideal será obter respostas mais rapidamente, pois o que pretendemos é que essa escuridão se transforme em luz e perceber o motivo pelo qual estamos a atravessar tamanho sofrimento. Somos seres-humanos e, como tal, cometemos erros, somos frágeis, não conseguimos superar obstáculos, entramos em depressão e, certas vezes, em colapso emocional. Há momentos em que não conseguimos explicar a dor que sentimos, o vazio, a tristeza que invade a nossa alma, há momentos assim, momentos que podem durar horas, momentos que podem durar dias, meses ou até mesmo anos.
Madre Teresa de Calcutá, durante cinquenta anos, vivenciou um vazio espiritual. Contou ela: «Chamo, aferro-me, quero e ninguém me responde. Quando tento elevar os meus pensamentos ao céu, há tal convicção de vazio que esses mesmos pensamentos retornam como facas afiadas e danificam a minha alma». Pegando no seu exemplo, ao longo da nossa vida experienciamos estes momentos, um vazio interior sem explicação, uma espécie de buraco negro – acredita-se que esteja relacionado com o fim de vida de uma estrela, isto é, esta torna-se instável, entra em colapso e explode, transformando-se, assim, num conhecido buraco negro. Podem questionar o porquê desta analogia, podem até achar que não faz qualquer tipo de sentido, todavia é interessante. E porquê? Nós, humanos, em certas circunstâncias da vida, somos essa estrela, ou seja, deparámo-nos com situações difíceis de resolver, entramos em colapso espiritual e a nossa alma parece que desvanece, parece que ficamos sem rumo, que demos início a um vazio infinito que se torna numa escuridão sem sentido. Pois bem, podia dar-vos a conhecer um livro que inclui tudo o que precisamos de saber e fazer para terminar com tamanho sofrimento, para eliminar por completo o vazio espiritual, mas não existe: a única solução, o único caminho, a única “luz ao fundo do túnel” é a Palavra de Deus.

«Cristo Crucificado fez do seu corpo uma escada, a fim de que subamos às alturas da vida celeste» (Santa Catarina de Sena). Nesta citação, podemos encontrar a nossa resposta, mas poderão questionar-se de que forma. É simples, mas, ao mesmo tempo, complexo, pois encarar a situação e vivenciá-la torna-se numa tarefa árdua. Jesus sofreu, carregou a sua cruz, foi crucificado e morreu nela por nós, que somos eternos pecadores, e Ele sabia que a vida terrena nada se compara à vida celeste, à própria eternidade. Por vezes, a resposta não é óbvia, por muito que rezemos, por muitas orações que façamos, a resposta pode não existir, mas isso não significa que Deus não nos ouça. Deus ouvir-nos-á sempre, nós é que não o ouvimos, ou melhor, nós não o escutamos e, muitas das vezes, quando sentimos o nosso mundo a desabar, quando o vazio se propaga rapidamente na nossa alma, achamos que o ideal é a procura apressada de respostas tal e qual como a propagação desta escuridão. Todavia, e falo por experiência própria, essa procura muitas das vezes leva-nos a determinados locais e pessoas que não seguem o caminho de Deus e nessas situações o mais correcto a fazer é fugir e não olhar para trás.  

Maria Martins  

Tríptico de Mantegna: Cristo desceu e venceu ascendendo

«Ora, este “subiu” que quer dizer senão que também desceu às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é, precisamente, o mesmo que subiu muito acima de todos os céus, a fim de encher o universo» (Ef 4, 9-10).    

«...uma tábua [de Mantegna], na qual há histórias de figuras não muito grandes, mas belíssimas [...] no castelo de Mântua, para a capela». Segundo Vasari e outros documentos historiográficos, o tríptico de Andrea Mantegna, agora na Galeria degli Uffizi, representando a Ascensão, a Adoração dos Magos e a Circuncisão, teria sido realizado para a capela privada do Marquês Luís III Gonzaga, no Castelo mantuano de San Giorgio. O condicional é obrigatório porque, ao pronunciar-se sobre a concepção e o destino das três tábuas, que, efectivamente, apresentam diferenças e incongruências, tanto no formato quanto no estilo, os estudiosos ainda são muito cautelosos.        

O certo é que, em 1827, as três pinturas foram reunidas numa mesma moldura neo-renascentista, entalhada e dourada. Arbitrariamente, de acordo com alguns; não para nós que, levando em grande consideração os autorizados juízos dos historiadores da arte, olhamos e lemos a obra à luz da fé e das palavras de Paulo aos Efésios: «Aquele que desceu é, precisamente, o mesmo que subiu muito acima de todos os céus…». O tríptico da Galeria degli Uffizi parece-nos uma perfeita transcrição pictórica da passagem epistolar.          

Aquele que desceu, portanto, e a quem os Magos vieram adorar. A cena central retrata um colorido e exótico cortejo – do qual fazem parte homens de diferentes nacionalidades, a julgar pelos chapéus – que serpenteia por um caminho tortuoso até ao limite da gruta. Aqui, a Virgem, rodeada de querubins, tem nos braços Jesus que abençoa: o gesto maternal já parece aludir à oferta do Filho, portanto, ao sacrifício de Cristo, do qual a gruta rochosa se torna, ao mesmo tempo, lugar de nascimento e sepulcro. Até o cometa, aqui forjado como uma longa espada que pende sobre a cabeça de Maria, refere-se à dor de Nossa Senhora, como Simeão teria profetizado pouco depois.           

Aqui está, de facto, o idoso sacerdote, no centro do sumptuoso interior clássico do Templo da Circuncisão, enquanto, com um gesto firme e decidido, se dirige ao Menino nos braços da Mãe, sob o olhar atento da profetisa Ana e de São José que, fiel à tradição do rito hebraico de purificação da mãe, traz como dom duas rolas. O ambiente, detalhadamente descrito, inclui também duas lunetas decoradas com desenhos monocromáticos, cujos temas, o Sacrifício de Isaac e a Entrega das Tábuas da Lei, remetem ao cumprimento da antiga promessa de Deus que, com a apresentação de Jesus, sanciona a Nova Aliança.   

Uma aliança estreita para a Redenção do Homem, definitivamente confirmada na Ascensão de Cristo que venceu a morte. Sinal inequívoco desta vitória é o vexilo cruzado do Jesus de Mantegna: dentro de uma matéria amendoada de nuvens e querubins, Ele eleva-se acima do grupo orante dos Apóstolos e da Virgem que, cheios de espanto, acompanham, com os olhos, a subida ao céu d’Aquele em quem se cumpre a plenitude de todas as coisas.       

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

sábado, 24 de outubro de 2020

Rejeitamos uma Igreja gay friendly!

Há alguns dias, por ocasião da apresentação, em Roma, do documentário “Francesco”, da autoria do realizador Evgeny Afineevsky e com o alto patrocínio do chifrudo, os meios de comunicação social, nacionais e internacionais, proclamavam, de forma jubilosa, que, «pela primeira vez, [o] Papa Francisco defende uniões de facto para casais homossexuais»[1].          

Após a publicação desta “bomba”, logo se multiplicaram as palavras de cumprimento a esta “corajosa” decisão de Bergoglio, referindo, a título de exemplo, o elogio de António Guterres, Secretário-Geral da ONU, e, como não poderia deixar de ser, do gay friendly P. James Martin, jesuíta norte-americano conhecido pelas suas posições anti-católicas. Também foram publicadas algumas patéticas cartas-abertas ao Papa que somente demonstram a forma anestesiada como se encontra a Igreja e a Sociedade e, claro, a insciência de quem, a cada linha, só propaga delírios e desatinos. A juntar-se a vozes como estas, surgiu, no passado dia 22, um boçal comunicado da Conferência Episcopal Portuguesa em defesa do Papa e das absurdas e imemoriais declarações que, segundo o parecer da entidade que representa os Bispos portugueses, e cada vez menos os fiéis, se é que alguma vez os representou, «revelam a atenção do Papa às necessidades reais da vida concreta das pessoas» e, acrescenta, «trata-se de um direito de protecção legal dessas uniões, que não afectam a doutrina da Igreja sobre o matrimónio». Terá sido escrita por um gay friendly? E será que é assim? O que é que diz, afinal, a Igreja sobre as uniões sodomitas? Recorrendo a uma declaração, datada de 2003, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, constatamos que «há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação»[2] e, mais à frente, que «não é verdadeira a argumentação, segundo a qual, o reconhecimento legal das uniões homossexuais tornar-se-ia necessário para evitar que os conviventes homossexuais viessem a perder, pelo simples facto de conviverem, o efectivo reconhecimento dos direitos comuns que gozam enquanto pessoas e enquanto cidadãos»[3]. Estamos, pois, diante de uma mentira de todo o tamanho. Pior: estamos diante de uma mentira de todo o tamanho provocada pelo Papa que, à semelhança daquilo a que nos tem habituado, logo se cala depois de semear a discórdia e a confusão. É uma atitude frouxa e típica de alguém duvidoso. Mas que, afinal de contas, é o Papa. Para ele, um pequeno pormenor, para nós, uma grave preocupação.       

Se já sabíamos que pouco poderíamos contar com os nossos Pastores para nos auxiliarem na hercúlea tarefa que, actualmente, constitui a defesa do depositum fidei numa sociedade amplamente secularizada, agora, com esta tomada de posição por parte da Conferência Episcopal, corroborada com as tóxicas e infelizes declarações do seu Presidente, ficamos a saber definitivamente que não podemos esperar absolutamente nada daqueles que, como fazem alarde, se demitiram das suas responsabilidades e que, consequentemente, disso serão chamados a prestar contas a Deus! Mas ainda há mais: para além de sofrerem de uma cegueira absoluta, que se traduz na maleita da sinodalidade, na heresia da adoração de ídolos e noutras práticas semelhantes, também nos foi dado a saber que são peritos em matéria de ilusionismo. A cada dia que passa, continuam a querer enganar-nos com as suas palavras duplas e desviantes, com posturas indignas até para o mais humilde sacristão de uma qualquer paróquia perdida e, agora, com a legitimação daquilo que não tem justificação, porque não é normal, logo frontalmente repudiado por Nosso Senhor!          

Graças a Deus, ainda há Pastores que, no meio de toda esta confusão doutrinal, se fazem ouvir em defesa da Tradição, como é o caso do Cardeais Gerhard Müller e Raymond Leo Burke, do Arcebispo Carlo Maria Viganò e do Bispo Auxiliar de Astana, no Cazaquistão, Athanasius Schneider, que escreveram inúmeras declarações em defesa da verdadeira doutrina. Para estas contas, não entram aqueles Prelados que se ficam sempre pelo “quase” ou que sempre falam em “off” porque têm um pavor tremendo a emitir posições de modo claro e oficial: negam continuamente Nosso Senhor! E não só por três vezes.

O erro continua a ser difundido com tons de arco-íris, muitos dos Pastores acomodam-se e tantos fiéis, na sua maioria inconscientemente, seguem-lhes o rasto, ignorando que caminham para o abismo. A cada dia que passa, a cada declaração feita, eis que se aproxima a queda fatal. O que fazer perante uma situação tão dramática como esta? Inconsoláveis por não podermos contar com os nossos Pastores, mas contando com a garantia absoluta da proximidade de Nosso Senhor e da Virgem Maria, devemos continuar e intensificar as nossas orações e os nossos sacrifícios quotidianos, sobretudo pela conversão do Papa, que há muito vociferou o seu “non serviam”, e de todos aqueles que, profundamente mergulhados no erro, têm o dever de, a cada dia, se configurarem a Cristo, Bom Pastor, e não a Satanás, inimigo perpétuo das almas!

A. B. Pimenta    



[1] Notícia do PÚBLICO de 21 de Outubro de 2020.

[2] Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre os projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 3 de Junho de 2003, n 5.

[3] Ibid., n. 9.

Profanações que surgem da ideologia da igualdade absoluta

Embora a nossa época seja amplamente secularizada, as manifestações de ódio satânico ainda são raras. O ódio a Deus disfarça-se, geralmente, de frio laicismo ou indiferença teimosa, atitude que parece mais condizente com a pós-modernidade.  

No entanto, o que aconteceu, no fim da semana passada, em Santiago do Chile, é a explosão de um rugido de ódio sinistro contra Deus como nunca, desde que me lembro, tinha sido ouvido antes.         

As duas igrejas históricas, localizadas a poucos quarteirões do epicentro dos protestos, convocados para comemorar o primeiro ano de agitação social neste País sul-americano, que já foi uma ilha de prosperidade e paz na região, tornaram-se, novamente, alvos do ódio diabólico. Digo novamente já que, há alguns meses, no decorrer de semelhantes distúrbios provocados por uma esquerda cada vez mais radicalizada, tinham sido severamente vandalizadas.         

Neste domingo, os dois templos foram literalmente destruídos. Os media internacionais divulgaram as imagens das igrejas em chamas, enquanto uma multidão de centenas de energúmenos festejava e aplaudia o colapso da torre sineira de uma das duas. Cenas que, certamente, poderiam ter inspirado Dante para a sua descrição do Inferno.          

Hoje, dois dias depois do incêndio, visitei os escombros das duas igrejas. O que vi nos pedaços de parede ainda em pé eram torpezas e obscenidades. Li uma consagração a Lúcifer, escrita num latim macarrónico, “In nomine de nostre Satanas Lucifer excelsi”, acompanhada do número 666. No lado oposto, uma condenação a Jesus Cristo: “Morre, Nazareno”. Um pouco mais adiante: “Satanás aprova”, referindo-se ao referendo, para a mudança da Constituição, que decorrerá no próximo domingo. Tudo temperado com escritos de denúncias contra o clero, a polícia e elogios à “libertação animal”.      

Caminhando entre as cinzas, observando alguns pedaços da Via-Sacra chamuscada, desfigurada, profanada, senti que estava a assistir a uma renovação da Paixão de Cristo, no meio de um inferno de insolência e brutalidade.  

Enquanto gravava algumas cenas dessa visão, vi um homem de modestas condições fazer o mesmo com o seu telefone. Dirigiu-me a palavra para me dizer consternado: “Aqui baptizei os meus netos, queira Deus que não se tornem assim”.  

Assim que saí daquele espectáculo apocalíptico, perguntei-me: como foi possível que tantos participassem nesta orgia satânica? De onde vem esta geração dos meus compatriotas? Como é que se puderam deixar perverter tanto?   

Gradualmente, as respostas vinham-me à mente. Cresceram num ambiente saturado de exigências de igualdade e liberdade. Tudo tinha que ser alcançado imediatamente e para sempre, de acordo com as promessas que lhes foram feitas, nas últimas três décadas, por sucessivos governos de esquerda socialista.

Pouco depois, lembrei-me de um artigo, do Professor Plinio Corrêa de Oliveira, intitulado O problema dos 4 irmãos, em que se argumentava que para haver caridade entre eles era necessário que fossem desiguais. Caso contrário, nenhum poderia ter dado nada aos outros, nenhum poderia receber nada dos outros. A única fraternidade verdadeira, da qual nasce a caridade, é a fraternidade que deriva da desigualdade.  

Estes incendiários são fruto de uma ideologia que exige a absoluta igualdade. E nessa ideologia não tem espaço a caridade, porque não pode ser exercida. E dizer que não há lugar para a caridade é o mesmo que dizer que não há lugar para Deus, já que “Deus caritas est”.    

Todas estas ideias acumulavam-se na minha cabeça em meio a fortes impressões e ao cheiro de fuligem impregnado nas minhas roupas. Por fim, perguntei-me: como podemos pensar que somos todos irmãos, como diz a última encíclica do Papa Francisco, e, ao mesmo tempo, proclamar a igualdade completa, como exigem os organismos internacionais?     

Como não ver que da igualdade absoluta, em que, pela força, se deve relativizar o direito à propriedade privada para colocá-lo em comum, nasce o espírito anarquista do qual surgiu a destruição destes templos?       

Não será que o espírito de rebelião, destinado a ser cada vez mais difundido na geração que cresce em meio ao abandono da Fé e das promessas utópicas de igualdade e fraternidade, também crescerá gradativamente?    

Levado por estas reflexões, parecia ouvir, ao fundo, o grito desesperado, blasfemo e rebelde: “Non serviam”.      

Juan Antonio Montes Varas        
Credo, passado, presente y futuro de Chile

Através de Duc in altum

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Card. Müller sobre Francisco: «Tudo isto criou uma grande confusão»

«Tudo isto criou uma grande confusão, recebi centenas de chamadas, os fiéis estão totalmente perdidos: o que queria dizer o Papa? Possível? Por que não se expressa claramente?». O Cardeal Gerhard Ludwig Müller, que completará 73 anos no final de Dezembro, é teólogo e curador da opera omnia de Ratzinger, foi nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, por Bento XVI, em 2012 e permaneceu no cargo até 2017. «Na Alemanha, com Bento disseram-me que eu era muito papista, agora tornei-me um inimigo do Papa! Uma coisa absurda para mim: sou católico, sacerdote, escrevi muitos livros sobre o primado do Papa, sempre o defendi contra os protestantes e os liberais. Mas...».

1. Mas, Eminência?

Mas o Papa não está acima da Palavra de Deus, que criou o ser humano homem e mulher, o matrimónio e a família. Sou Cardeal e sempre da parte do Papa, mas não em todas as condições. Não é lealdade absoluta. A primeira lealdade é para com a Palavra de Deus. O Papa é o Vigário de Cristo, não é Cristo. E eu acredito em Deus.

2. Mas Francisco não falou de matrimónio, disse que seria necessário um reconhecimento legal para os casais homossexuais, as uniões civis...

E, no fundo, qual é a diferença? Em muitos Estados, as chamadas uniões foram apenas a premissa para o reconhecimento dos casamentos gay. É por isso que muitos fiéis estão perturbados, pensam que estas palavras seriam, para a Igreja, apenas o primeiro passo para uma justificação das uniões homossexuais e isso não é possível.

3. E porquê?

Desde o início da Escritura, no Génesis, é dito que Deus criou o homem e a mulher. Jesus recorda-o aos fariseus: o homem unir-se-á com a sua mulher e os dois serão uma só carne. Por isso, o único matrimónio possível é entre homem e mulher e as relações sexuais são reservadas exclusivamente ao matrimónio. Não queremos condenar as pessoas com tendências homossexuais, pelo contrário, devem ser acompanhadas e ajudadas: mas segundo as condições da doutrina cristã.

4. A Escritura não fala de uniões civis...

Isso é um sofisma! A Palavra de Deus é válida para todos os tempos. E fala de direito natural, moral. A constituição antropológica não é respeitada nesta nova antropologia LGBT: dizem que não há natureza humana definida, homem e mulher, e o sexo seria apenas uma construção ideal, com todas as consequências do caso, incluindo o direito de mudá-lo. Mas não há futuro para a humanidade sem reconhecer a complementaridade entre homem e mulher, o dado biológico e psíquico, uma relação que está na base da cultura humana. O Papa é também o primeiro intérprete da lei natural: por que intervém nestas questões dos Estados sem enfatizar a dimensão da lei natural?

5. A Igreja não pode reconhecer as uniões civis?

Não é possível para um pensamento cristão. Por isso, a Igreja sempre se opôs: até o Estado laico deve respeitar a lei natural, reconhecer os direitos fundamentais dos Homens.

6. E onde se violariam os direitos humanos?

Com a adopção de crianças, por exemplo. Uma criança tem o direito de crescer com um pai e uma mãe. E não falemos da maternidade sub-rogada, das pobres mulheres que precisam de dinheiro e vendem o próprio corpo. Um grande mercado contra a dignidade humana.

7. O que disse aos fiéis que lhe telefonaram?

Nós respeitamos o Papa, claro, é o princípio da unidade da Igreja. Mas também Pedro e Paulo discutiram e um Papa, Honório I, foi até julgado por um Concílio. A pessoa não é totalmente idêntica com o papado. Houve pontífices que nem sempre foram claros na doutrina.

8. E desta vez?

A declaração do Papa Francisco não é oficial, saiu de uma entrevista, e isso relativiza-a e gera mal-entendidos. Tudo isto não é bom porque um Papa, assim como qualquer Bispo, deve ser sempre muito cauteloso e claro, especialmente nestes tempos tão delicados. Alguns dizem, não sei se é verdade, que combinaram diferentes citações no documentário. Por que razão a Santa Sé não deu uma explicação? E a Congregação para a Doutrina da Fé? No entanto, publicou textos, cientificamente elaborados, sobre homossexualidade e matrimónio. É um problema de confusão, no mundo agora diz-se: “o Papa abençoa as uniões homossexuais”: não o disse, mas as consequências são essas. Deveria estar mais atento.

Através de Corriere della Sera

Bergoglio «de Cristo deveria ser o Vigário e não o inimigo», sustenta Viganò

O portal Dies Iræ traduz, a pedido de Mons. Carlo Maria Viganò, um seu artigo que, hoje, foi publicado no quotidiano italiano “La Verità”. Ao longo do texto, de acessível compreensão e guiado por uma absoluta fidelidade ao Magistério, o Arcebispo Viganò aborda, mais aprofundadamente, as preocupantes declarações de Bergoglio sobre as uniões civis entre sodomitas e levanta questões eclesialmente muito relevantes.

Ontem, por ocasião do Festival de Cinema de Roma, o realizador Evgeny Afineevsky apresentou um documentário intitulado “Francesco”, no qual são repropostas algumas entrevistas feitas a Jorge Mario Bergoglio ao longo dos últimos anos de pontificado. Entre outras declarações, algumas frases sobre a legitimidade das uniões civis homossexuais têm gerado confusão: «O que devemos fazer é uma lei para as uniões civis. Desta forma, [os homossexuais] são legalmente protegidos. Eu sou a favor disso».

Penso que tanto os simples fiéis como os Bispos e os sacerdotes se sentiram traídos pelo que Bergoglio afirmou. Não é preciso ser teólogo para entender que a aprovação das uniões civis está em clara contradição com os documentos magisteriais da Igreja, mesmo os recentes. Também constitui um gravíssimo assist à ideologia LGBTQ que, hoje, é imposta globalmente.

Nestes dias, o Parlamento deverá discutir a aprovação da chamada Lei Zan, sob proposta do Partido Democrático. Em nome da protecção dos homossexuais e dos transexuais, será considerado crime afirmar que a família natural é a célula da sociedade humana e quem afirmar que a sodomia é um pecado que clama por vingança junto de Deus será punido. As palavras de Bergoglio já foram recebidas, em todo o mundo do lobby gay, como um autorizado apoio às suas reivindicações.

Lendo atentamente as declarações de Bergoglio, alguém já observou que não há uma aprovação do matrimónio homossexual, mas apenas um gesto de boas-vindas – talvez mal formulado – para aqueles que pedem uma protecção jurídica ao Estado laico. A Congregação para a Doutrina da Fé já esclareceu, sem equívocos, que em nenhum caso um Católico pode aprovar as uniões civis, porque constituem uma legitimação do concubinato público e são apenas o passo que antecede o reconhecimento dos chamados matrimónios homossexuais. Tanto é verdade que, hoje, na Itália, é possível casar-se até mesmo entre pessoas do mesmo sexo, depois de anos de garantia – até mesmo por políticos que se autodenominam católicos – de que o PACS[1] de forma alguma questionariam o matrimónio como afirmado na Constituição.

Afinal, a experiência ensina-nos que quando Bergoglio diz algo, fá-lo com um propósito muito específico: fazer com que os outros interpretem as suas palavras no sentido mais amplo possível. As primeiras páginas dos jornais de todo o mundo anunciam: “O Papa aprova os matrimónios gay”, ainda que, com rigor, não seja o que tenha dito. Mas esse era, exactamente, o resultado que ele e o lobby gay vaticano queriam alcançar. Depois, talvez a Sala de Imprensa dirá que o que Bergoglio disse foi mal-entendido, que se trata de uma antiga entrevista e que a Igreja reitera a condenação da homossexualidade como intrinsecamente desordenada. O dano, no entanto, está feito e mesmo eventuais passos para trás, em respeito ao escândalo gerado, ainda serão um passo em frente na direcção do pensamento único e do politically correct. Não esqueçamos os resultados nefastos da sua expressão, de 2013, «Quem sou eu para julgar?», que lhe rendeu a capa e o título de “homem do ano” no The Advocate.

Bergoglio afirmou: «Os homossexuais têm o direito de fazer parte de uma família. São filhos de Deus e têm o direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou infeliz por causa disso». Todos os baptizados são filhos de Deus: quem no-lo ensina é o Evangelho. Mas pode-se ser filhos bons ou maus, e se esses violam os Mandamentos de Deus, o facto de serem Seus filhos não os impedirá de serem punidos, assim como um italiano que rouba não evita a prisão pelo simples facto de ser cidadão do País em que comete o crime. A Misericórdia de Deus não prescinde da Justiça e se pensamos que, para nos redimir, o Senhor derramou o Seu Sangue na Cruz, não podemos não tender à santidade, conformando o nosso comportamento à Sua vontade. Nosso Senhor disse: «Vós sois meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando» (Jo 15, 14).

Se a exclusão familiar ou social deriva de comportamentos provocatórios ou de reivindicações ideológicas que não podem ser partilhadas – penso no Gay Pride – é apenas o resultado de uma atitude de desafio e, como tal, tem origem em quem usa essa atitude para chocar os outros. Se, por outro lado, essa discriminação deriva apenas de ser uma pessoa que se comporta como todas as outras, com respeito pelos outros e sem qualquer imposição do seu estilo de vida, deve ser justamente condenada.

Sabemos muito bem que o que o lobby homossexual quer alcançar não é a integração de pessoas normais e honestas, mas a imposição de modelos de vida gravemente pecaminosos, socialmente desestabilizadores e que sempre foram instrumentalizados para demolir a família e a sociedade. Não é por acaso que a promoção da agenda homossexual faz parte do projecto globalista em concomitância com a destruição da família natural.

O jesuíta James Martin, um dos mais fervorosos defensores da agenda LGBTQ e do acolhimento indiscriminado dos homossexuais na Igreja, aparece como consultor no Dicastério para a Comunicação da Santa Sé. Assim que foi divulgada a notícia sobre as declarações de Bergoglio, Martin encheu de post as redes sociais, expressando uma irreprimível satisfação por esse gesto que, na verdade, escandalizou a maioria dos fiéis.

Juntamente com o P. Martin estão Cardeais, Bispos, Monsenhores, Sacerdotes e Clérigos que pertencem à chamada “lavender mafia”. Alguns deles foram investigados e condenados por crimes gravíssimos, quase sempre ligados a ambientes homossexuais. Como podemos pensar que um grupo de homossexuais no posto de comando não tenha todo o interesse em pressionar Bergoglio a defender um vício que partilham e praticam?

Pelo contrário, diria que faz parte do comportamento de Bergoglio brincar com o mal-entendido, com a provocação – «Deus não é católico», disse –, ou deixando que outros terminem um discurso que é ele a iniciar. Vimos isso com Amoris laetitia: embora não tenha evidentemente contradito a doutrina católica sobre a impossibilidade de os divorciados acederem aos Sacramentos, deixou que o fizessem outros Bispos, aprovando, depois, as suas declarações e calando-se obstinadamente sobre os Dubia de quatro Cardeais.

Poder-se-ia perguntar: com que finalidade o Papa deveria agir desta forma, sobretudo quando os seus Predecessores sempre foram muito claros em matéria de moral? Não sei o que Bergoglio tem em mente: limito-me a dar um sentido às suas acções e às suas palavras. E penso que posso afirmar que o que emerge é uma atitude deliberadamente dupla e jesuítica. Por trás de todos os seus pronunciamentos está a tentativa de suscitar a reacção da parte sã da Igreja, provocando-a com afirmações heréticas, com gestos desconcertantes, com documentos que contradizem o Magistério. E, ao mesmo tempo, de agradar aos seus apoiantes, especialmente os não católicos ou os apenas de nome.

À força da provocação, espera que algum Bispo se canse de se sentir diariamente atingida a doutrina e a moral; espera que um grupo de Cardeais o acuse formalmente de heresia e peça a sua deposição. E, ao fazê-lo, Bergoglio teria o pretexto de acusar esses Prelados de serem “inimigos do Papa”, de se colocarem fora da Igreja, de quererem um cisma. Obviamente, não são os que querem permanecer fiéis ao Magistério que se separam da Igreja: seria um absurdo.

De certa forma, o comportamento de Bergoglio é da mesma matriz daquele do Presidente Conte: ambos, em retrospectiva, eram desejados nesse papel pela mesma elite, numericamente minoritária mas poderosa e organizada, com o objectivo de demolir as instituição que representam; ambos abusam do seu poder contra a lei; ambos acusam aqueles que denunciam os seus abusos de serem inimigos da instituição, quando, na verdade, a defendem deles. Finalmente, ambos se distinguem por uma desoladora mediocridade.

Se canonicamente é impensável excomungar um Católico pelo simples facto de querer permanecer assim, política e estrategicamente este abuso poderia permitir a Bergoglio expulsar os seus adversários da Igreja, consolidando o seu poder. E repito: não se trata de uma operação legítima, mas de um abuso que, no entanto, ninguém poderia impedir, já que «prima Sedes a nemine judicatura». E como a deposição de um Papa herege é uma questão canonicamente não resolvida e sobre a qual não há consentimento unânime entre os canonistas, quem quer que acusasse Bergoglio de heresia cairia num beco sem saída e muito dificilmente obteria um resultado.     

E é exactamente isso, na minha opinião, que o “círculo mágico” de Bergoglio quer alcançar: chegar à situação paradoxal em que aquele que é reconhecido como Papa está, ao mesmo tempo, em estado de cisma com a Igreja que governa, enquanto que quem é por ele declarado cismático, por desobediência, se encontra excluído da Igreja pelo facto de ser católico.

A acção de Bergoglio dirige-se, sobretudo, ao exterior da Igreja. A Encíclica Fratelli tutti é um manifesto ideológico em que não há nada de católico e nada para os Católicos; é mais um embrassons-nous maçónico, no qual a fraternidade universal não se obtém, como ensina o Evangelho, no reconhecimento da comum paternidade de Deus através da pertença a uma única Igreja, mas com a redução de todas as religiões a um mínimo denominador comum que se expressa na solidariedade, no respeito pelo meio ambiente, no pacifismo.

Com esta forma de agir, Bergoglio candidata-se a “pontífice” de uma nova religião, com novos mandamentos, nova moral e novas liturgias. Afasta-se da Religião Católica e de Cristo, e, consequentemente, da Hierarquia e dos fiéis, repudiando-os e deixando-os à mercê da ditadura globalista. Quem não se adaptar a este novo código será, portanto, condenado ao ostracismo pela sociedade e por esta nova “igreja” como corpo estranho.

A 20 de Outubro, o Papa Francisco rezou pela paz juntamente com os representantes das religiões mundiais: o lema dessa cerimónia ecuménica era “Ninguém se salva sozinho”. Mas aquela oração foi dirigida, indiferentemente, ao Deus verdadeiro como aos falsos deuses dos pagãos, deixando claro que o ecumenismo propagado por Bergoglio tem como fim a exclusão de Nosso Senhor da sociedade humana, porque Jesus Cristo é considerado «divisivo», «pedra de tropeço». Assim, o homem moderno pensa que pode obter a paz prescindindo d’Aquele que disse de si mesmo: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim» (Jo 14, 6). É doloroso constatar que a esta apostasia das Nações outrora cristãs se junta Jorge Mario Bergoglio, que de Cristo deveria ser o Vigário e não o inimigo.

Há três dias, a imprensa divulgou a notícia de que o Papa não celebrará a Missa da Meia-Noite no Natal. Limito-me a uma constatação: há poucos dias, em pleno estado de emergência COVID-19, foi considerado possível celebrar um rito ecuménico, na presença dos fiéis e das autoridades, todos com a máscara. Pelo contrário, nos espaços muito maiores da Basílica Vaticana, alguém considerou imprudente celebrar o Nascimento do Salvador na Noite Santa.

Se esta decisão for confirmada, saberemos que Jorge Mario Bergoglio prefere auto-celebrar-se, secundando o pensamento único e a ideologia sincrética da Nova Ordem Mundial, em vez de se ajoelhar aos pés da manjedoura em que foi colocado o Rei dos Reis.

Carlo Maria Viganò, Arcebispo          
22 de Outubro de 2020



[1] Patto Civile di Solidarietà, equivalente, em Portugal, às uniões civis (n.d.r.).

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Reacção do Card. Burke às afirmações de Francisco sobre a sodomia

Os meios de comunicação mundiais têm noticiado com forte ênfase, qual mudança de rumo, a notícia de que o Papa Francisco declarou que as pessoas na condição homossexual, como filhos de Deus, “têm o direito de ter uma família” e que “ninguém deve ser expulso ou infeliz por causa disso”. Além disso, escrevem que declarou: “O que temos de criar é uma união civil. Desta forma, serão legalmente protegidos. Tenho-o defendido”. As declarações foram feitas em entrevista a Evgeny Afineevsky, director do documentário “Francesco”, estreado, por ocasião do Festival de Cinema de Roma (Festa del Film di Roma), a 21 de Outubro de 2020.             

Tais declarações geram grande perplexidade e causam confusão e erro entre os fiéis Católicos, na medida em que são contrárias ao ensinamento da Sagrada Escritura e da Sagrada Tradição e do recente Magistério, através do qual a Igreja guarda, protege e interpreta todo o depósito da fé contido na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição. Causam admiração e erro, quanto ao ensinamento da Igreja, entre as pessoas de boa vontade que desejam, sinceramente, saber o que ensina a Igreja Católica. Impõem aos pastores de almas o dever de consciência de fazer os adequados e necessários esclarecimentos.         

Em primeiro lugar, o contexto e a ocasião de tais declarações tornam-nas desprovidas de qualquer peso magisterial. São correctamente interpretadas como simples opiniões pessoais da pessoa que as fez. Estas declarações não vinculam, de modo algum, as consciências dos fiéis, antes obrigados a aderir com submissão religiosa ao que ensinam sobre a matéria a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição e o Magistério ordinário da Igreja. Em particular, deve-se observar o seguinte:     

1. «Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que “os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados”» (Catecismo da Igreja Católica, n. 2357; Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Persona humana, “Declaração sobre alguns pontos de ética sexual”, n. VIII[1]), na medida em que são contrários à lei natural, fechados ao dom da vida e vazios da verdadeira afectividade e complementaridade sexual. Desta forma, não podem ser aprovados.        

2. As particulares e, por vezes, profundas tendências de pessoas, homens e mulheres, na condição homossexual, que são para eles uma prova, embora não possam por si mesmas constituir um pecado, representam, no entanto, uma inclinação objectivamente desordenada (Catecismo da Igreja Católica, n. 2358; Congregação para a Doutrina da Fé, Homosexualitatis problema, “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais”, n. 3[2]). Devem, portanto, ser recebidas com respeito, compaixão e sensibilidade, evitando qualquer discriminação injusta. A fé Católica ensina o fiel a odiar o pecado, mas a amar o pecador.          

3. Os fiéis e, em particular, os políticos Católicos são acusados
​​de se opor ao reconhecimento legal das uniões homossexuais (Congregação para a Doutrina da Fé, “Considerações sobre os projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais”, Diverse questioni concernenti l’omosessualità, n. 10[3]). O direito de constituir família não é um direito privado a reivindicar, mas deve corresponder ao desígnio do Criador que quis o ser humano na diferença sexual, «homem e mulher os criou» (Gn 1, 27), chamando, assim, o Homem, masculino e feminino, à transmissão da vida. «Porque as cópias matrimoniais têm a função de garantir a ordem das gerações e, portanto, são de relevante interesse público, o direito civil confere-lhes um reconhecimento institucional. As uniões homossexuais, invés, não exigem uma específica atenção por parte do ordenamento jurídico, porque não desempenham essa função em ordem ao bem comum» (Ibidem, n. 9[4]). Falar de união homossexual, no mesmo sentido de união conjugal dos esposos, é, de facto, profundamente enganoso, porque não pode haver tal união entre pessoas do mesmo sexo. No que diz respeito à administração da justiça, as pessoas na condição homossexual, como todos os cidadãos, podem sempre fazer uso das disposições da lei para salvaguardar os seus direitos privados.   

É fonte da mais profunda tristeza e premente preocupação pastoral que as opiniões pessoais, noticiadas com tanta ênfase pela imprensa e atribuídas ao Papa Francisco, não correspondam ao ensinamento constante da Igreja, como se expressa na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição e é guardado, protegido e interpretado pelo Magistério. Igualmente triste e preocupante é a agitação, a confusão e o erro que provocam entre os fiéis católicos, assim como o escândalo que causam, em geral, ao dar a impressão totalmente falsa de que a Igreja Católica mudou de rumo, isto é, de que mudou o seu ensinamento perene sobre estas fundamentais e críticas questões.                   

Raymond Leo Card. Burke          
Roma, 22 de Outubro de 2020                        

A tradução portuguesa também se encontra disponível na página oficial
de Sua Eminência o Cardeal Raymond Leo Burke.



[1] «...suapte intrinseca natura esse inordinatos». Sacra Congregatio pro Doctrina Fidei, Declaratio, Persona humana, “De quibusdam quaestionibus ad sexualem ethicam spectantibus”, 29 Decembris 1975, Acta Apostolicae Sedis 68 (1976) 85, n. 8. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19751229_persona-humana_po.html, p. 5, VIII.

[2] Cf. Congregatio pro Doctrina Fidei, Epistula, Homosexualitatis problema, “Ad universos catholicae Ecclesiae episcopos de pastorali personarum homosexualium cura”, 1 Octobris 1986, Acta Apostolicae Sedis 79 (1987) 544, n. 3. Tradução portuguesa: http://w2.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19861001_homosexual-persons_po.html, pp. 1-2, n. 3.

[3] Congregatio pro Doctrina Fidei, Nota, Diverse quaestioni concernenti l’omosessualità, “De contubernalibus eiusdem sexus quoad iuridica a consectaria contubernii”, 3 Iunii 2003, Acta Apostolicae Sedis 96 (2004) 48, n. 10. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homosexual-unions_po.html, pp. 5-6, no. 10.   

[4] «Poiché le coppie matrimoniali svolgono il ruolo di garantire l’ordine delle generazioni e sono quindi di eminente interesse pubblico, il diritto civile conferisce loro un riconoscimento istituzionale. Le unioni omosessuali invece non esigono una specifica attenzione da parte dell’ordinamento giuridico, perché non rivestono il suddetto ruolo per il bene comune» Ibid., 47, n. 9. Tradução portuguesa: Ibid., p. 5, n. 9.

Declaração de Mons. Viganò a propósito do documentário “Francesco”

21 de Outubro de 2020

O site Vatican News[1] deu a notícia de que, no Festival de Cinema de Roma, será, hoje, projectado um documentário intitulado “Francesco”, feito pelo realizador Evgeny Afineevsky.

Este documentário – conforme noticiado pela Catholic News Agency[2] e pelo site America, the Jesuit review[3] – torna públicos alguns pronunciamentos de Jorge Mario Bergoglio sobre o tema da homossexualidade. Entre outras afirmações, desconcertam estas frases:

«Os homossexuais têm o direito de fazer parte de uma família. São filhos de Deus e têm o direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou infeliz por causa disso»[4].

«O que devemos fazer é uma lei para as uniões civis. Desta forma, são legalmente protegidos. Eu sou a favor disso»[5].

Não é preciso ser teólogo ou moralista para saber que tais afirmações são totalmente heterodoxas e constituem um gravíssimo motivo de escândalo para os fiéis.

Mas atenção: estas palavras constituem a enésima provocação com que a parte ultra-progressista da Hierarquia tenta suscitar, astutamente, um cisma, como já tentou fazer com a Exortação Pós-Sinodal Amoris laetitia, a modificação da doutrina sobre a pena capital, o Sínodo pan-amazónico e a imunda Pachamama, a Declaração de Abu Dhabi, depois reafirmada e agravada pela Encíclica Fratelli tutti.         

Parece que Bergoglio procura descaradamente “subir a parada”, num crescendo de afirmações heréticas, a fim de forçar a parte sã da Igreja – episcopado, clero e fiéis – a acusá-lo de heresia, para, depois, declará-la cismática e “inimiga do papa”.

Jorge Mario Bergoglio tenta forçar alguns Cardeais e Bispos a separar-se da comunhão com ele, obtendo como resultado não a própria deposição por heresia, mas a expulsão dos Católicos que querem permanecer fiéis ao Magistério perene da Igreja. Essa armadilha teria – nas presumíveis intenções de Bergoglio e do seu “círculo mágico” – o propósito de consolidar o seu poder dentro de uma igreja que seria apenas nominalmente “católica”, mas, na realidade, herética e cismática.

Este engano conta com o apoio da elite globalista, dos media mainstream e do lobby LGBT, ao qual não são estranhos muitos Clérigos, Bispos e Cardeais. Não esqueçamos que, em muitas nações, existem leis em vigor que punem como crime aqueles que, mesmo com base no seu Credo, consideram repreensível e pecaminosa a sodomia ou que não aprovam a legitimação do “matrimónio” homossexual. Um pronunciamento dos Bispos contra Bergoglio numa questão como a da homossexualidade poderia autorizar a autoridade civil a persegui-los criminalmente com a aprovação do Vaticano.

Bergoglio, portanto, não teria apenas do seu lado a “deep church”, representada pelos rebeldes, como o P. James Martin, s.j., e os expoentes do “synodal path” alemão, mas também o “deep state”. Não é de surpreender que, no documentário, também haja um endorsement ao candidato democrata nas próximas eleições presidenciais americanas, juntamente com uma desconcertante condenação da política da administração Trump, acusado de separar as famílias que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos, quando, na verdade, o Presidente está a enfrentar a exploração de seres humanos e o tráfico de menores.      
Assim, enquanto aos Bispos conservadores americanos é feita a proibição de intervir no debate político em apoio ao Presidente Trump, o Vaticano pode permitir-se a desenvoltas ingerências nas eleições em favor do seu adversário democrático, unindo-se à censura das redes sociais e dos media sobre as gravíssimas acusações contra a família Biden.

Como Católicos, somos chamados a estar ao lado daqueles que defendem a vida, a família natural, a soberania nacional. Pensávamos ter o Vigário de Cristo ao nosso lado. Reconhecemos dolorosamente que, neste confronto épico, aquele que deveria conduzir a Barca de Pedro escolheu ficar ao lado do Inimigo para afundá-la. Recordando a coragem dos Santos Pontífices em defender a integridade da Fé e promover a salvação das almas, deve-se observar: «Quantum mutatus ab illis!».

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo



[1] https://www.vaticannews.va/it/papa/news/2020-10/papa-francesco-film-documentario-festival-cinema-roma.html

[2] https://www.catholicnewsagency.com/news/pope-francis-calls-for-civil-union-law-for-same-sex-couples-in-shift-from-vatican-stance-12462

[3] https://www.americamagazine.org/faith/2020/10/21/pope-francis-gay-civil-union-documentary

[4] «Homosexuals have a right to be a part of the family. They’re children of God and have a right to a family. Nobody should be thrown out, or be made miserable because of it».

[5] «What we have to create is a civil union law. That way they are legally covered. I stood up for that».