segunda-feira, 14 de setembro de 2020

«Joe Biden não é católico. Ponto», afirma Mons. Viganò em entrevista




Publica-se, a pedido de Monsenhor Carlo Maria Viganò, antigo Núncio Apostólico nos Estados Unidos da América, uma entrevista que o jornalista italiano Marco Tosatti fez a Sua Excelência Reverendíssima sobre a situação eclesiástica e política dos Estados Unidos da América por ocasião da preparação para as eleições presidenciais do próximo dia 3 de Novembro. A entrevista, datada de 12 de Setembro, festa do Santíssimo Nome de Maria, foi hoje, dia da Exaltação da Santa Cruz, tornada pública.


A mão do Senhor foi magnífica;
a mão do Senhor fez maravilhas
.
Salmo 117


1. Excelência, o senhor foi Núncio nos Estados Unidos, uma realidade que, consequentemente, conhece muito bem. O candidato democrata, Joe Biden, afirma ser católico, mas é a favor do aborto até ao nono mês e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. É possível, então, ser-se católico e, a nível oficial, isto é, com opções políticas tornadas públicas, opor-se ao ensinamento da Igreja, e não em elementos secundários, mas em questões vitais? 

A pergunta que me faz, caro Tosatti, exige uma resposta articulada, mas exige, antes de tudo, uma reflexão séria e o lúcido reconhecimento das responsabilidades daqueles que criaram as condições para se chegar à situação actual.

Era o dia 22 de Setembro de 2015, dia da chegada do Papa Francisco a Washington por ocasião da sua viagem apostólica aos Estados Unidos. Durante o jantar na Nunciatura, que contou com a presença de alguns membros da comitiva papal, disse ao Papa Francisco: “Acredito que, na história dos Estados Unidos, nunca houve um Governo com tantos católicos no topo: o Vice-Presidente, Joe Biden, o Secretário do Estado John Kerry, a Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi. Os três declaram-se ostensivamente católicos, abortistas, a favor do casamento homossexual e da ideologia de género, desprezando o ensinamento da Igreja. Como se explica esta contradição?”. E acrescentei: “Um jesuíta, P. Robert Frederick Drinan, s.j., do Boston College, foi Representante do Estado de Massachusetts na Câmara dos Representantes, em Washington, por dez anos, de 1971 a 1981. O P. Drinan foi um dos mais ferrenhos defensores e promotores do aborto!”. O Papa Francisco não reagiu minimamente, como não reagiu no dia 23 de junho de 2013 quando, respondendo a uma sua específica questão, lhe revelei quem era, realmente, o Cardeal McCarrick.         

Um outro jesuíta, P. Vincent O’Keefe, s.j. (que Bergoglio, como Provincial da Companhia de Jesus, não pode não ter conhecido, tendo sido O’Keefe Vigário-Geral do P. Arrupe), como Presidente da Fordham University, juntamente com o então Reitor da Notre Dame University, P. Theodore M. Hesburgh, organizaram, em 1967, dois anos após o encerramento do Concílio, uma reunião de todos os Presidentes das Universidades Católicas dos Estados Unidos, em Land O’Lakes, no Wisconsin, durante a qual assinaram um documento, conhecido como Land O’Lakes Statement, que declarava a independência das suas universidades e colégios católicos de qualquer autoridade e de qualquer vínculo de fidelidade ao Magistério da Igreja. Este documento – que denunciei, de forma vigorosa, num meu Relatório a Bergoglio e aos competentes Dicastérios Romanos – teve consequências devastadoras para a Igreja e para a sociedade civil nos Estados Unidos.  

Não é de estranhar, portanto, se a formação de centenas de milhares de jovens católicos – alguns dos quais, mais tarde, se tornaram líderes políticos – determinou esta traição do Evangelho, de que, hoje, vemos as desastrosas consequências. Entre os subscritores daquele documento de rebelião, comparecia, não por acaso, também Theodore McCarrick, então Presidente da Universidade Católica de Porto Rico.        

2. A sua análise, por conseguinte, não se limita a uma constatação do fenómeno actual, mas remonta a causas remotas, por trás das quais há uma mente que planeou um projecto a longo prazo.   

O que quero enfatizar é a estreita ligação entre a rebelião do Clero ultraprogressista – Jesuítas na frente – e a formação das gerações de católicos, moldados de acordo com a ideologia modernista, confluídas no Concílio, que serviu de premissa não só para o Maio de 68, na esfera política, mas também, na esfera eclesial, para a revolução doutrinal e moral. Sem o Vaticano II, não teríamos sequer a revolução estudantil que mudou radicalmente a vida do mundo ocidental, a visão da família, o papel da mulher, o próprio conceito de autoridade.         

Resumindo: a responsabilidade por esta traição dos autodenominados políticos católicos assenta inteiramente sobre o clero infiel, secular e regular, subserviente à ideologia modernista, e sobre a Hierarquia, que não soube nem quis intervir com a devida firmeza para impedir este dano incalculável a todo o corpo social. Neste sentido, deep state e deep church actuaram, evidentemente, em conjunto, com o objectivo de desestabilizar, no plano científico, tanto a ordem civil quanto a eclesiástica. Hoje, temos a oportunidade de compreender a situação presente e cabe, mais uma vez, à Autoridade fazer o possível para travar esta corrida para o abismo: a Santa Sé e a Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB) têm o dever de chamar à obediência tanto os clérigos rebeldes quanto os leigos que os primeiros continuam a enganar e, melhor, a apoiar publicamente.

3. O senhor acredita que seja necessária uma intervenção autorizada dos Bispos para um apelo à coerência sobre os princípios não negociáveis?

Quando a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu instruções muito claras sobre a exclusão de políticos católicos, incoerentes com o ensinamento da Igreja, da Sagrada Comunhão, foi precisamente McCarrick, juntamente com o Arcebispo Wilton Gregory, então Presidente da USCCB, a esforçar-se para evitar que fossem aplicadas nos Estados Unidos. A corrupção moral e o desvio doutrinal estão intrinsecamente ligados e, para curar, com eficácia, essas chagas do corpo eclesial, é fundamental actuar em ambas as frentes. Se esta devida intervenção não acontecer, os Bispos e os líderes da Igreja responderão a Deus pela traição à sua missão de pastores.      

4. Como vê uma relação entre o Concílio e a contestação estudantil?   

É inegável, mesmo apenas do ponto de vista histórico e sociológico, que existe uma relação muito estreita entre a revolução conciliar e o Maio de 68. Admitem-no os próprios protagonistas do Vaticano II, entre os quais se destaca Joseph Ratzinger:   

«A adesão a um marxismo anárquico e utópico [...] foi apoiada, na linha de frente, por muitos capelães universitários e por associações de jovens, que viram florescer as esperanças cristãs. O facto dominante encontra-se nos eventos do Maio de 1968, em França. Nas barricadas estavam dominicanos e jesuítas. A intercomunhão, realizada durante uma Missa ecuménica de apoio às barricadas, foi considerada uma espécie de marco na história da salvação, uma espécie de revelação que inaugurava uma nova era do cristianismo»[1].        

Um dos especialistas do Concílio, o P. René Laurentin, escreve:          

«Os pedidos do movimento do Maio de 68 coincidiam, em grande medida, com as grandes ideias do Concílio, em particular a Constituição conciliar sobre a Igreja e o mundo. Já o Vaticano II foi, em certa medida, o desafio de um grupo de bispos contra a Cúria, que tentava realizar um concílio institucionalmente pré-fabricado»[2].      

E o teólogo argentino P. Álvaro Calderón afirma:  

«Se há algo que imediatamente chama a atenção de quem estuda o Concílio Vaticano II, é a mudança liberal do conceito de autoridade. O Papa despojou-se da sua autoridade suprema em favor dos bispos (colegialidade); os bispos despojaram-se da sua própria autoridade em favor dos teólogos; os teólogos renunciaram à própria ciência em favor da escuta dos fiéis. E a voz dos fiéis não é senão fruto da propaganda»[3].      

Esta visão é largamente afirmada, com orgulho, mesmo na frente progressista[4] que, em 1968, viu realizadas as mesmas demandas da revolução conciliar. Reitera-o Mons. Jacques Noyer, Bispo emérito de Amiens:         

«Estou convicto de que o espírito que inspirou a preparação, celebração e implementação do Concílio Vaticano II seja uma grande oportunidade para a Igreja e para o mundo. É o Evangelho oferecido aos homens de hoje. Em profundidade, o Maio de 68 foi um movimento espiritual, mesmo místico, coerente com o sonho do Concílio»[5].          

Sem a “luz verde” da Igreja, o mundo nunca teria aceitado ou mesmo feito suas as instâncias de rebelião do movimento estudantil. Para além dos Actos do Concílio, foi precisamente o espírito do Vaticano II que marcou o fim da sociedade hierarquicamente constituída, dos valores tradicionais comuns ao mundo ocidental: até então, conceitos como autoridade, honra, respeito pelos idosos, espírito de mortificação e de serviço, sentido do dever, defesa da família e da Pátria eram partilhados e, mesmo que de forma fragilizada em relação ao passado, ainda praticados.   

Ver que a Igreja Católica, farol de verdade e de civilidade para as Nações, tinha aberto as suas portas ao mundo, não hesitava em desfazer-se da sua gloriosa herança, chegando a revolucionar a Liturgia e a diluir a Moral, foi, para as massas, um sinal inequívoco, uma espécie de aprovação da agenda que, na altura, ainda não ousava revelar-se inteiramente, mas da qual se podiam colher todos os sinais distintivos. A Igreja e a sociedade saíram destruídas, as autoridades civis e religiosas ficaram comprometidas, o matrimónio e a família foram desacreditados, o amor à pátria e o sentido de dever foram ridicularizados ou acusados 
​​de fascismo. No silêncio de uma Hierarquia conivente! Qualquer pessoa, como eu, que entrou no Seminário imediatamente após o Concílio, pode testemunhar que, mesmo os Pontifícios Seminários Romanos, foram imediatamente conquistados por esse frémito de contestação, de emancipação e de dissolução de todas as regras e disciplina.   

Não pode haver dúvida sobre isto. Se assim não fosse, não se explicariam os substanciais financiamentos que organizações globalistas, como a Open Society, de Soros, têm alocado para as actividades da Companhia de Jesus e, presumivelmente, para outras entidades católicas[6]. Todas as premissas postas in nuce com o Vaticano II e com a revolução estudantil, encontram-se, hoje, coerentemente propostas, pela hierarquia vaticana, na frente eclesial e, pelos governantes, na frente política globalista. Assim, não é surpreendente que as prioridades do programa político de Bergoglio coincidam com as prioridades de Joe Biden. O imigracionismo, o ambientalismo, o ecologismo malthusiano, a ideologia de género, a dissolução da família, o globalismo são comuns à agenda do deep state e da deep church. A formal oposição de Bergoglio ao aborto e à doutrinação LGBT das crianças é, na prática, renegada tanto pelo apoio, por parte do Episcopado, àqueles que a promovem na política, quanto para aqueles que teorizam o recurso ao controlo da natalidade e o reconhecimento dos direitos dos sodomitas. O caso do P. James Martin, s.j., é emblemático porque confirma um idem sentire entre os expoentes do globalismo e a intelligencija progressista católica. A marca comum destes movimentos é a mentira e o engano, a divisão e a destruição, o ódio pela Tradição e pela civilização cristã. Em última análise, a aversão teológica a Cristo, típica de Lúcifer e dos seus seguidores.   

5. Excelência, o senhor não crê que esta correspondência entre deep state e deep church também encontre uma confirmação nas relações com a China?         

A ditadura comunista chinesa é cortejada tanto pelo deep state quanto pela deep church: Joe Biden é subserviente aos interesses económicos e políticos de Pequim tanto quanto Jorge Mario Bergoglio. Pouco importa se os direitos humanos são sistematicamente violados na China, se os Católicos fiéis à Igreja Católica são perseguidos ou se uma odiosa ditadura massacra milhões de pessoas inocentes com o planeamento do aborto em massa: os interesses da agenda globalista também prevalecem sobre a evidência dos horrores cometidos pela ditadura chinesa.   

Acrescento: é significativa a actividade de apoio realizada pelos Jesuítas desde que McCarrick ia à China para preparar o famoso acordo que, mais tarde, seria ratificado, pelo Vaticano, no Pontificado de Bergoglio. Um acordo que despertou fortíssima perplexidade até na imprensa secular. É recente um artigo, no Times, intitulado The Pope is Beijing’s unlikely admirer, no qual Dominic Lawson denunciou que «cada vez mais nações expressaram a sua preocupação com as crescentes provas da existência de campos de concentração e, até mesmo, de genocídio na província chinesa do Xinjiang», especificando que «houve silêncio por parte da única entidade que tem toda a humanidade sofredora no centro da sua missão. Refiro-me à Santa Sé». E acrescenta: «Não condenar o genocídio é imperdoável»[7]. Por outro lado, durante o Angelus de 5 de Julho passado, provocou reboliço a omissão da referência, por parte de Francisco, aos acontecimentos de Hong Kong, depois de ter divulgado o texto à imprensa[8], para não enfadar Xi Jinping…

Esta subordinação do movimento globalista e da Santa Sé à China é alarmante e também é confirmada pelos encontros do P. Spadaro, s.j., e de outros jesuítas com membros do Partido Comunista, durante o lockdown, para a difusão de La Civiltà Cattolica em edição chinesa.    

6. Além da situação actual, em que os candidatos católicos do Partido Democrático evidentemente não são coerentes com o Magistério da Igreja, como deve ser um verdadeiro político católico?    

Um católico, para ser tal, não deve apenas ser baptizado, mas deve viver coerentemente com a Fé que recebeu na sagrada Fonte. A Fé é acompanhada pelas boas obras, como ensina a Sagrada Escritura: sem pôr em prática o facto de nos termos tornado filhos de Deus através da incorporação ao Corpo Místico, as nossas palavras são vazias e o nosso testemunho é incoerente, até mesmo um escândalo para os fiéis e para aqueles que não acreditam. Erra, portanto, o P. James Martin, s.j., a limitar-se ao aspecto meramente burocrático; as suas palavras são refutadas pelas do Salvador: «Vós sois meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando» (Jo 15, 14). A amizade com Deus – que consiste no estado de Graça da alma – depende da nossa obediência às ordens de Nosso Senhor. Não a sugestões ou conselhos: às ordens! E ainda: «Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu» (Mt 7, 21).        

Acrescento que o inferno não está reservado aos não católicos: entre as chamas eternas há muitas almas baptizadas, mesmo de religiosos, de padres e de bispos, que mereceram a condenação por se rebelarem contra a vontade do Senhor. Pensem bem os ditos católicos adultos e os seus preceptores antes de ouvirem ressoar as palavras de Cristo: «Nunca vos conheci; afastai-vos de mim vós que praticais a iniquidade» (Mt 7, 23).   

Um católico que apoia o aborto ou a ideologia de género, renega não apenas o Magistério, mas a própria Lei da natureza, que constitui a base moral comum a todos os povos de todos os tempos e lugares. A gravidade da incoerência entre a pertença à Igreja e a fidelidade ao seu ensinamento é, porém, afectada pela dicotomia artificial entre doutrina e pastoral, que se insinuou desde o Vaticano II e alcançou a sua formulação mais evidente com Amoris laetitia. Mas, olhando mais de perto, mesmo a chamada “laicidade do Estado” apresenta graves problemas, porque reconhece, à sociedade civil, o direito de negar a divina Realeza de Cristo e de rejeitar a Sua Lei, mas, ao mesmo tempo, pede aos leigos que deem testemunho de Fé, em que o primado da Verdade católica é rebaixado ao mesmo nível do erro.         

No entanto, é claro que o político “católico” que não traduz na prática a integridade da doutrina da Igreja não pode ser votado pelos católicos, muito menos ser aprovado pela Hierarquia. O autodenominado católico Joe Biden, que apoia o aborto pré-natal, ou seja, o infanticídio, que, antes mesmo de Obama, apoia a ideologia de género e celebra o casamento de dois homens, não é católico. Ponto.         

7. Joe Biden escolheu como Vice-Presidente Kamala Harris, que, no seu cargo de magistrada, na Califórnia, defendeu a Planned Parenthood, a maior organização mundial de abortos, quando foi acusada de vender partes de fetos abortados. Qual é o significado desta escolha?     

A cultura de morte que está na base da ideologia anticristã, que prevalece hoje, é coerente consigo mesma: o homicídio de criaturas inocentes é um dos pontos essenciais de quem quer eliminar não só a Cristandade, mas a humanidade e a criação, na qual se mostra a obra do divino Criador.

Como já disse várias vezes, este processo de dissolução realiza-se em dois planos: um ideológico, por aqueles que querem deliberadamente o mal e pretendem realizar o seu próprio plano infernal em etapas forçadas; um económico, por parte de quem apoia a ideologia não necessariamente por convicção, mas por lucro. Assim, os sacrifícios humanos que, mesmo durante a emergência do COVID-19, continuaram a ser celebrados nas clínicas de aborto, trazem lucro para a Planned Parenthood e para toda a fileira de morte que comercializa os órgãos dos bebés abortados. Não nos esqueçamos de que o lobby do aborto – a par do movimento LGBT – está entre os principais financiadores das campanhas eleitorais da esquerda em todo o mundo. Se empresas ideologicamente orientadas a favor da cultura da morte financiam generosamente certos partidos políticos, não é surpreendente que os candidatos desses partidos, por sua vez, apoiem os seus patrocinadores com leis que os favoreçam.  

8. Um bispo americano, Mons. Thomas Tobin, disse que, pela primeira vez, os Democratas não apresentam candidatos católicos. Padre James Martin, s.j., respondeu que Biden foi baptizado como católico e, portanto, é católico. O que é que este diálogo cerrado nos faz compreender do estado da Igreja americana?    

Já disse acima que por “candidaturas católicas” se entendem candidaturas de políticos que não apenas se dizem católicos, mas que também são coerentes com a Fé e a Moral ensinadas pela Igreja. Se o ser católico não tivesse algum impacto concreto, não faria sentido votar num candidato que, de facto, não se diferencia dos demais. O do Padre Martin, s.j., é um sofisma porque pretende fingir não ver a distância entre o parecer e o ser católico, entre o explorar a “denominação” para obter vantagens eleitorais e o ser verdadeiras testemunhas do Evangelho na vida privada, na civil e política, e nas instituições. O que dizer do P. James, s.j.? Baptizado, confirmado, ordenado sacerdote, até emitiu votos solenes de castidade e obediência, é s.j... é LGBT. Um outro, um dos Doze, traiu-O. Padre Martin, sempre impecável com o seu clergyman, olhe-se ao espelho da alma e veja a quem se assemelha!  

9. Porquê, Excelência, que a Igreja olha com tanto interesse para a ideologia dominante, que também é, claramente, anticristã?     

Este é um problema que carregamos há setenta anos. O Clero católico, e em particular a Hierarquia, têm sofrido, desde então, um sentimento de inferioridade que os coloca abaixo dos seus interlocutores no mundo. Sentem-se ontologicamente inferiores. Consideram inadequado o ensinamento de Cristo, que tentam, de forma desajeitada, adaptar à mentalidade secular. Têm medo de parecer desactualizados, em desacordo com os tempos, mesmo com séculos de atraso, como disse um outro ilustre jesuíta (R.I.P.)…         

Este gravíssimo complexo é a directa consequência de uma dramática perda de Fé. A mensagem salvadora de Cristo é irreconciliável com as seduções do mundo; é indigno e ilegítimo adulterar o Magistério para agradar ao mundo, abusando de uma autoridade sagrada que, na verdade, tem por finalidade a pregação «a todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28, 19-20).        

Enquanto os líderes da Igreja persistirem em não se comportar, em primeiro lugar, de acordo com a sua própria missão e com o ensinamento de Cristo, será impossível pedir igual coerência aos leigos, que deles seguem o exemplo. A confirmação vem-nos, precisamente, do facto de que existem políticos que se autodenominam “católicos” que, hoje, contam com o apoio de clérigos e Bispos que se autodenominam “católicos”. E que quem, apesar de não ser católico, defende a vida e as leis da natureza, é acusado de populismo, mesmo em comparação com os ditadores do século passado[9], e nem mesmo cristão[10]. Ou como no caso do P. James Altman, recentemente acusado, pelo próprio Bispo, de ser «causador de divisão e motivo de escândalo»[11]

10. Qual é o papel da Planned Parenthood na política americana? É um instrumento de liberdade e de afirmação dos direitos, como afirmam os “progressistas”, ou...

Planned Parenthood desempenha, na sociedade globalista, o papel oposto e especular àquele que tinham, nas Nações cristãs, as instituições caritativas e as fundações para a protecção da vida. Na sociedade cristã, as crianças eram acolhidas com amor e, mesmo em situações de pobreza e de dificuldade, eram assistidas, criadas e educadas para se tornarem bons cristãos e honestos cidadãos, traduzindo para a prática a palavra do Evangelho. Na sociedade anticristã, Planned Parenthood assume a responsabilidade de matar esses inocentes, traduzindo na prática a cultura de morte inspirada por aquele que foi «assassino desde o princípio» (Jo 8, 44). Não esqueçamos que Planned Parenthood, juntamente com as outras multinacionais do aborto, são funcionais para o delírio malthusiano da Cúpula globalista que está a programar uma drástica dizimação da população mundial.     

11. Soros e outros estão a tentar pressionar Zuckerberg para que o Facebook limite a presença e a actividade dos pró-vida. As escolhas de Biden e Kamala Harris, e essas manobras de limitar aqueles que defendem a vida, a que tipo de cenário mundial conduzem?       

O Evangelho espalhou-se por todo o mundo graças à pregação dos Apóstolos e ao testemunho dos Mártires e dos Confessores da Fé. Da mesma forma, o anti-evangelho da Sinagoga de Satanás propaga-se graças à pregação dos filhos das trevas, ao testemunho de figuras públicas, da gente do espectáculo, dos autodenominados filantropos. No final, volta sempre a divisão em dois campos: de um lado os bons e de outro os maus, na guerra bíblica entre o bem e o mal. E se, uma vez, os nossos Santos destruíram os ídolos e os templos pagãos para não deixar espaço aos adoradores do demónio, hoje é inevitável que os seguidores do pensamento único se unam para profanar e destruir as igrejas, derrubar as cruzes e as estátuas dos Santos, apagar toda a memória da Fé em Cristo. Ontem, havia a censura dos livros proibidos para proteger os simples que teriam sido envenenados na alma; hoje, existe a censura do bem porque o mal não o tolera.

O cenário mundial que se forma está sob os nossos olhos: até que entendamos que não pode haver diálogo com os feitores de iniquidade (Mt 7, 22), que não há compatibilidade entre a luz de Cristo e as trevas de Satanás, não seremos capazes de vencer a batalha porque nem sequer teremos reconhecido que estamos em guerra com os poderes infernais. E, numa guerra, há, necessariamente, dois lados opostos: quem se recusa a servir sob a bandeira de Cristo acaba, inevitavelmente, por ajudar os servos do Maligno. Esta consciência é clara nos nossos inimigos, mas não parece tão clara em quantos não consideram a vida cristã como uma “milícia”.     

Permitam-me relembrar as palavras do Presidente Trump no fim da recente Convenção: «Os nossos adversários dizem-vos que a vossa redenção só pode vir do poder que lhes derdes». Esta “redenção” consiste em negar os direitos soberanos de Deus sobre os indivíduos, sobre as sociedades, sobre as Nações, substituindo o jugo suave de Cristo pela odiosa tirania de Satanás. E é, com efeito, uma reversão da Redenção – isto é, do resgate do escravo – que o Salvador realizou no madeiro da Cruz. Desse modo, não nos deixemos enganar pelas melífluas palavras daqueles que usurpam a metáfora bíblica dos filhos da luz e dos filhos das trevas para estabelecer o reino de Lúcifer: as trevas e o caos que vemos nas cidades americanas são o fruto da mesma ideologia que aprova o aborto pós-natal e os casamentos homossexuais, assim como os financiadores dos BLM e dos movimentos Antifa são, precisamente, os Democratas e as fundações “filantrópicas” que se opõem furiosamente à reeleição de Trump. 

A menção de Biden, ou melhor, a ignominiosa usurpação da famosa exortação, de João Paulo II, «Não tenhais medo!», soa, pois, como o insidioso engano da Serpente para colher o fruto da árvore, mais do que como o corajoso convite que o Pontífice polaco lançou ao mundo afastado de Cristo. E é estranho que a indignação do Arcebispo Wilton Gregory, prontíssimo a censurar a visita do casal presidencial ao Santuário de São João Paulo II, hoje não fulmine nem mesmo o adversário Joe Biden, que instrumentaliza, para a sua campanha eleitoral de católico perverso, a imagem do mesmo Pontífice e de Bergoglio.         

Aquelas palavras fortes e autoritárias de João Paulo II, hoje, fariam tremer os Democratas e, talvez, os próprios Bispos:        

«Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! E ajudai o Papa e todos aqueles que querem servir a Cristo e, com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira! Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas económicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem “o que é que está dentro do homem”. Somente Ele o sabe!».      

Hoje, o poder salvador de Cristo é substituído pela «voz da criação que nos admoesta a regressar ao nosso justo lugar na ordem natural criada». A Paixão redentora de Nosso Senhor é substituída pelo «gemido da criação» e os flagelos da Justiça divina pela «ira da Mãe Terra», da pachamama...

O Presidente Trump declarou: «Os nossos adversários dizem-vos que a vossa redenção só pode vir do poder que lhes derdes. Neste País não olhamos aos políticos para obter a salvação, não nos confiamos ao governo para salvar as nossas almas, mas colocamos a nossa fé em Deus Omnipotente». Creio que esta confiança em Deus, a que, obviamente, deve corresponder uma coerência de vida e de testemunho cristão, confirmará, também nesta circunstância das eleições presidenciais, que «a mão do Senhor fez maravilhas», como nos recorda o Salmo 117.       


[1] Joseph Ratzinger, Les principes de la théologie catholique, Téqui, Paris 1985, p. 433.
[2] René Laurentin, Crisi della Chiesa e secondo Sinodo episcopale, Morcelliana, Bréscia 1969, p. 16.
[3]  Álvaro Calderón, La lámpara bajo el celemín. Cuestión disputada sobre la autoridad doctrinal del magisterio eclesiástico desde el Concilio Vaticano II, Ed. Rio Reconquista, Argentina 2009.

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