sexta-feira, 18 de setembro de 2020

A nova Teologia do Concílio Vaticano II (2/3)

 


O Concílio, um todo coerente

Os textos do Vaticano II não são uma série de escritos, independentes uns dos outros, reunidos numa colecção. Pelo contrário, formam um todo coerente com a mesma inspiração e propósito. Apoiam-se mutuamente.

Muitos afirmam que o Vaticano II também tem afirmações tradicionais que contrabalançam as inovações. Entretanto, as primeiras não se opõem às segundas, para condená-las; elas simplesmente “coexistem”. Para os progressistas, duas afirmações contraditórias podem ser consideradas verdadeiras. Isto porque as filosofias modernas, fenomenológicas e existencialistas, rejeitam o princípio de causa e efeito e o princípio de não-contradição.

Na encíclica Humani Generis, Pio XII apontou esse aspecto dialéctico dos seguidores da Nouvelle Théologie: «Eles sustentam, contrariamente, que as verdades, principalmente as transcendentes, só podem ser expressas por doutrinas divergentes que mutuamente se completam, embora pareçam opor-se entre si»
[52].

Mudança do conceito de Igreja

O Cardeal Avery Dulles, S.J., num ensaio de 1989, Meio Século de Eclesiologia, mostra o papel desempenhado pela eclesiologia do P. Yves Congar
[53] na preparação do Concílio. E acrescenta: «A eclesiologia do Vaticano II, nas suas linhas principais, é bem conhecida. De modo geral, seguiu as orientações da Nouvelle Théologie e não as da neo-escolástica»[54].

De facto, seguindo a Nouvelle Théologie, o Concílio abandonou o conceito de que a Igreja Católica é o Corpo Místico de Cristo, ensinado pelos Papas Leão XIII, Pio XI, e Pio XII.

Na sua encíclica Humani Generis, condenando a Nouvelle Théologie, Pio XII afirma que os seus seguidores rejeitam essa verdade. Escreve o Papa: «Alguns não se consideram obrigados a abraçar a doutrina que há poucos anos expusemos numa encíclica [Mystici Corporis Christi, 1943] e que está fundamentada nas fontes da revelação, segundo a qual o corpo místico de Cristo e a Igreja católica romana são uma mesma coisa»
[55].

A própria encíclica Mystici Corporis Christi reitera que o Corpo Místico de Cristo é a Igreja Católica:

«A doutrina do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja (cf. Cl 1, 24), recebida dos lábios do próprio Redentor...» (n. 1).

«Para definir e descrever esta verdadeira Igreja de Cristo – que é a santa, católica, apostólica Igreja romana (Conc. Vat. I, Const. Dei Filius de fide cath., cap. 1)
  nada há mais nobre, nem mais excelente, nem mais divino do que o conceito expresso na denominação corpo místico de Jesus Cristo; conceito que imediatamente resulta de quanto nas Sagradas Escrituras e dos Santos Padres frequentemente se ensina» (n. 13).

«Prova-se que este corpo místico, que é a Igreja, é realmente distinguido com o nome de Cristo, porque deve ser considerado, de facto, como sua cabeça» (n. 33)
[56].

Toda a encíclica gira em torno destas duas afirmações fundamentais:

1. A verdadeira Igreja de Cristo «é a santa, católica, apostólica Igreja romana» (n. 13);

2. O Corpo Místico de Cristo é a Igreja Católica (n 1).

Na sua encíclica Satis Cognitum, de 1896, Leão XIII ensinou: «O Corpo Místico de Cristo é a verdadeira Igreja, somente porque as suas partes visíveis extraem vida e poder dos dons sobrenaturais e outras coisas de onde brotam a sua própria natureza e essência» (n. 3)
[57].

E Pio XI, na sua encíclica de 1928, Mortalium Animos, ensinou: «Portanto, dado que o Corpo Místico de Cristo, isto é, a Igreja, é um só (1 Cor 12, 12), compacto e conexo (Ef 4, 15), à semelhança do seu corpo físico, seria inépcia e estultice alguém afirmar que esse pode constar de membros desunidos e separados: quem, pois, não estiver unido com ele, não é seu membro, nem está unido à cabeça, Cristo (Cfr. Ef 5, 30; 1, 22)» (n. 16)
[58].

Substituição de “Est” por “Subsistit in

Na primeira sessão do Concílio, em Dezembro de 1962, o texto do esquema sobre a Igreja dado aos Padres Conciliares dizia: «A Igreja Católica Romana é o Corpo Místico de Cristo»
[59].

Vários Cardeais e Bispos da corrente da Nouvelle Théologie levantaram-se para questionar esta afirmação que vinha da encíclica Mystici Corporis Christi. Alegavam que o Corpo Místico de Cristo era mais amplo que a Igreja Católica, incluindo também os protestantes.

O Cardeal Lienart, Bispo de Lille, França, um dos líderes desta corrente, argumentou que «O Corpo Místico é (...) muito mais inclusivo do que a Igreja Romana na Terra. (...) Eu não ousaria dizer que eles [os cristãos separados] não pertencem, de modo algum, ao Corpo Místico de Cristo, apesar de não estarem incorporados na Igreja Católica»
[60].

Então, o Cardeal Montini, que logo seria eleito Papa, também se levantou em apoio daqueles que se opunham à doutrina ensinada na Mystici Corporis Christi
[61].

Os Padres Conciliares abandonaram a fórmula tradicional e clara de identificar o Corpo Místico de Cristo com a Igreja Católica com base na falsa premissa de que o Corpo Místico de Cristo era mais amplo do que a Igreja Católica. Esta falsa premissa constitui a base do ecumenismo.

Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M., lembra: «Após longo debate, o é foi substituído por subsiste em, “de modo a estar mais de acordo com o ensinamento sobre elementos eclesiais a serem encontrados em outro lugar que não a Igreja Romana”»
[62].

Nos muitos debates que se seguiram ao Concílio, foram invocadas subtilezas filológicas para provar a “continuidade” do Concílio com os ensinamentos anteriores do Magistério. Assim, encontrou-se no verbo “subsistir” (subsistit in) o mesmo significado que o do verbo “ser” (est)
[63]. Ora, se o significado era o mesmo, porquê mudar a expressão? E por que motivo aqueles que exigiam a mudança argumentaram que não havia uma identidade perfeita entre a Igreja Católica e o Corpo Místico de Cristo, porque este último também incluía os protestantes?

O Espírito Santo santifica fora da Igreja Católica?

Num parágrafo, a Constituição Dogmática Lumen Gentium (L. G.) afirma claramente a necessidade de pertencer à Igreja para ser salvo: «Pelo que não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja Católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar» (n. 14).

No entanto, a secção seguinte contradiz essa afirmação. Referindo-se àqueles que «embora não professem integralmente a fé ou não guardem a unidade de comunhão com o sucessor de Pedro» (isto é, hereges e cismáticos), a L. G. afirma que o Espírito Santo «actua neles com os dons e graças do Seu poder santificador, chegando a fortalecer alguns deles até ao martírio» (n. 15).

Esta declaração contradiz o Concílio de Florença: «A Igreja crê firmemente, confessa e anuncia que “nenhum dos que estão fora da Igreja católica, não só os pagãos”, mas também os judeus ou hereges e cismáticos, poderá chegar à vida eterna, mas irão para o fogo eterno “preparado para o diabo e para os seus anjos” [Mt 25,41], se antes da morte não tiverem sido a ela reunidos»
[64].

Também é contrário ao que Pio XII ensina na encíclica Mystici Corporis Christi:

«Ele [o Espírito Santo] enfim, que cada dia produz na Igreja, com a sua graça, novos incrementos, mas não habita com a graça santificante nos membros totalmente cortados do corpo. Essa presença e acção do Espírito de Jesus Cristo exprimiu-a sucinta e energicamente o Nosso sapientíssimo predecessor, de imortal memória, Leão XIII, na encíclica
Divinum Illud, por estas palavras: “Baste afirmar que, sendo Cristo cabeça da Igreja, o Espírito Santo é a sua alma”»[65].

De facto, se o Espírito Santo, a alma incriada da Igreja, concedesse graça santificante àqueles que estão em heresia e cisma, não haveria necessidade de se pertencer à Igreja Católica para ser salvo. É muito diferente de dizer que o Paráclito concede graças actuais a todo o homem
mesmo aos que estão no paganismo, na heresia e no cisma para que, correspondendo a elas, os não-católicos se possam converter e unir à Igreja Católica, e assim serem salvos[66].

O “desígnio da salvação” inclui judeus e muçulmanos?

Para a Lumen Gentium, a Igreja estaria “relacionada”, de uma forma especial, com os judeus, «povo que, segundo a eleição, é muito amado por causa dos Patriarcas» (n. 16). Os judeus participariam, assim, no “desígnio da salvação”.

O documento também discute o Islão: «Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão e connosco adoram o Deus único e misericordioso»
[67].

Esta afirmação de que cristãos e muçulmanos adoram juntos o único Deus é mais uma manifestação do aspecto dialéctico dos documentos conciliares, negando o princípio da  não-contradição. Pois, enquanto os católicos crêem e professam a doutrina da Santíssima Trindade e adoram o Deus Uno e Trino, os seguidores de Maomé não só negam esta verdade, mas combatem-na, acusando os cristãos de serem politeístas
[68].

Esse “desígnio da salvação” incluiria também os ateus de “boa vontade”?

L. G. fala, a seguir, daqueles que procuram o “Deus desconhecido” (Deum ignotum quaerunt) ou daqueles que, sem culpa, «não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus» (n. 16)
isto é, os ateus de «boa vontade»[69].

Em suma, a Igreja Católica estaria supostamente ligada aos hereges e cismáticos, bem como àqueles que negam a Santíssima Trindade, aos animistas, panteístas e até mesmo aos ateus.

A doutrina da L. G. sobre a Igreja (completada por Unitatis Redintegratio, sobre ecumenismo, e Nostra Aetate, sobre diálogo com religiões não-cristãs) não ficou no papel, mas foi posta em prática. Um dos muitos exemplos disso pode ser visto no encontro inter-religioso em Assis, em 27 de Outubro de 1986. Nele estavam presentes trinta e dois grupos cristãos e onze não-cristãos. Orações tanto cristãs quanto pagãs foram feitas e foram realizadas cerimónias
[70]. O mesmo vale para a reunião de Abu Dhabi, em 4 de Fevereiro de 2019. O seu Documento sobre a Fraternidade Humana afirma que Deus quer «o pluralismo e as diversidades de religião»[71]. 

Luiz Sérgio Solimeo  

é um estudioso católico, professor e escritor de diversos livros, ensaios e artigos. Ingressou, em 1960, na Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família, Propriedade (TFP). Actualmente, ensina Filosofia e História no Instituto Sedes Sapientiæ, da TFP americana.



[52] Pio XII, encíclica Humani Generis, n. 32.

[53] «Nos anos entre Mystici Corporis e o Concílio Vaticano II, o eclesiologista mais influente foi, sem dúvida, [P.] Yves Congar». Avery Dulles, “A Half Century of Ecclesiology” Theological Studies 50, n.° 3 (1 de Setembro de 1989): 424.

[54] Ibid., 429.

[55] Pio XII, encíclica Humani Generis, n. 27.

[56] Pio XII, encíclica Mystici Corporis Christi (O Corpo Místico de Cristo), 29 de Junho de 1943. http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_29061943_mystici-corporis-christi_po.html.

[58] Carta encíclica Mortalium Animos, do Sumo Pontífice Pio XI, 6 de Janeiro de 1928, http://www.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19280106_mortalium-animos.html.

[59] Bonaventure Kloppenburg, O.F.M., The Ecclesiology of Vatican II (Chicago: Franciscan Herald Press, 1974), 63.

[60] Ibid., 64-5.

[61] Cf. Ibid., 65.

[62] Ibid., 66.

[63] Ver Christopher J. Malloy, “Subsistit In: Identidade Não Exclusiva ou Identidade Completa?” The Thomist 72, n.° 1 (Jan. 2008): 1-44.

[64] Eugénio IV: Concílio de Florença: Bula Cantate Domino (união com os coptas e os etíopes), 4 Fev. 1442, in Denzinger-Hünermann 1352 [Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral da Igreja Católica, traduzido, com base na 40.ª edição alemã (2005), aos cuidados de Peter Hünermann, por †José Marino Luz e Johan Konings. Paulinas – Edições Loyola São Paulo, Brasil, 2006.].

[65] Pio XII, Encíclica Mystici Corporis Christi (O Corpo Místico de Cristo), 29 de Junho de 1943, n.° 55. http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_29061943_mystici-corporis-christi_po.html.     

[66] «Na presente ordem [depois que Jesus consumou a Redenção e fundou a Sua Igreja], nenhuma graça sobrenatural é dada a não ser em ordem à Igreja de Cristo. Por esta razão, o Espírito Santo impele e ajuda os homens a chegarem ao conhecimento da verdade e, depois, serem incorporados como membros da Igreja». Ludovico Lercher, S.J., Institutiones Theologiae Dogmaticae (Barcelona: Herder, 1945), vol. 1, 252.

[67] Concílio Vaticano II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 16. http://www.catolicoorante.com.br/docs/vaticanoii/constituicoes/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html.

[68] Luiz Sérgio Solimeo, Islam and the Suicide of the West (Spring Grove, Penn.: The American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property, 2018), 118.

[69] Pode alguém professar o ateísmo sem culpa? O Homem pode conhecer a Deus naturalmente, através da razão. Além disso, também recebe graças actuais para ajudar a chegar a esse conhecimento.

[70] Ver Henry Sire, Phoenix from the Ashes (Kettering, OH: Angelico, 2015), 382-8; William F. Murphy, “Remembering Assisi After 20 Years”, America 195, n.° 12 (23 de Outubro de 2006), https://www.americamagazine.org/issue/588/article/remembering-assisi-after-20-years.

[71] Luiz Sérgio Solimeo, “Theological and Canonical Implications of the Declaration Signed by Pope Francis in Abu Dhabi”, TFP.org, 27 de Fevereiro de 2019, https://www.tfp.org/theological-and-canonical-implications-of-the-declaration-signed-by-pope-francis-in-abu-dhabi/.

2 comentários:

  1. Lidas a primeira e a segunda parte: tudo muito claro. Só quem não conhece a documentação conciliar e os acontecimentos recentes na Igreja Católica, ou quem for Esquerdista/Modernista lato senso discordará. A Igreja Católica necessita urgentemente de um papa que a re-centre: erros e heresias terão de ser expurgados dos documentos, ou os documentos conciliares terão de ser considerados nulos. Por uma questão de segurança jurídica, os documentos do C. Vaticano II terão de ser apreciados individualmente e declarados nulos. Ainda assim resta o concilio em si: tendo sido o seu propósito foi de facto o erro e a heresia, não haverá volta a dar e o C. Vaticano II terá de ser considerado inexistente como fonte de Direito Canónico. Para grandes males, grandes remédios.

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  2. Vaticano II,é o mesmo de,protestantes já estão dentro da Igreja Católica! E neste momento,têm a cadeira e o ceptro papal! Quem não gosta come menos,porque é o que temos!!

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