terça-feira, 15 de setembro de 2020

A festa de Nossa Senhora das Dores



Nossa Senhora das Dores, recordada a 15 de Setembro, é o aspecto mariano mais negligenciado hoje. Tendo posto de lado a Cruz, é normal que as espadas que perfuraram o Coração Imaculado também tenham sido postas de lado.         

De facto, Jacopone de Todi, na sua composição lírica Stabat Mater, inicia a sua obra-prima, precisamente, com esta associação filial e materna: a Cruz de Cristo e as lágrimas de Maria Virgem: «Stabat Mater dolorósa / iuxta crucem lacrimósa, / dum pendébat Fílius» (Estava a Mãe dolorosa, / junto à cruz, lacrimosa, / da qual pendia o Filho). Não é por acaso que a festa da Exaltação da Santa Cruz precede um dia a da Bem-Aventurada Virgem Maria das Dores.          

Mas o choro de Maria não parou no Calvário e no Santo Sepulcro porque, apesar da Redenção do Salvador, a dor causada pelos pecados dos homens continua presente, pecados que, actualmente, já nem são reconhecidos como tal. Na civilização pós-cristã da era pós-moderna, não apenas nos distanciamos de Deus, mas ultrajámo-Lo: este mundo neopagão atropela a naturalidade e a sacralidade da vida (criada) e da morte (da qual só Deus é senhor), desprezando a Cruz e as lágrimas de Maria.           

A devoção à Virgem das Dores desenvolve-se a partir do final do século XI, quando um autor anónimo escreveu o Liber de passione Christi et dolore et planctu Matris eius, daí começaram as composições sobre o tema do Pranto de Maria. No século XII, também após as aparições de Nossa Senhora, houve uma maior sensibilidade pelos sofrimentos da Virgem, mas em âmbitos ainda limitados.           

A dar um real impulso a este importante culto foram sete santos na Florença do século XIII: Alessio Falconieri, Amadeo degli Amidei, Manetto dell’Antella, Buonfiglio Monaldi, Gherardino Sostegni, Giovanni Buonagiunta e Ricovero dei Ugoccioni. Sete homens que viviam plenamente no mundo e eram mercadores. Mas, a certa altura, ligaram-se ao oratório da Companhia de Santa Maria, ou dei Laudesi, adjacente à Catedral de Santa Reparata, onde se tributava um culto especial à Virgem. Frequentando a Companhia, tiveram ocasião de se unir, entre eles, com vínculos de santa amizade.  

Um dia, em 1233, enquanto estavam diante de uma imagem pintada de Nossa Senhora, na parede de um bairro florentino, expressando-Lhe, com louvores, todo o seu amor, viram, de repente, a imagem ganhar vida, parecer triste e vestida de luto. Foi assim que estes mercadores decidiram deixar o passado para trás, vestiram um hábito preto e fundaram a Companhia de Nossa Senhora das Dores, dita dos Servitas, retirando-se em oração, contemplação e penitência, no Monte Senário, e seguindo a Regra de Santo Agostinho.

Foi o sacerdote Jacopo de Poggibonsi, capelão dos Laudesi e seu director espiritual, a impor, a cada um, o hábito dos Irmãos da Penitência e o mais velho deles, Buonfiglio Monaldi, foi eleito superior da comunidade dos Servos da Bem-Aventurada Virgem Maria. Em 1888, Leão XIII canonizou os sete Padres devotos de Nossa Senhora das Dores e, no Monte Senário, um único sepulcro reúne os restos mortais daqueles que a comunhão da vida tinha feito um só coração e uma só alma.  

Entre 1668 e 1690, as iniciativas de culto dos Servos de Maria favoreceram, de forma incisiva, a difusão da devoção a Nossa Senhora das Dores. Entretanto, a 9 de Junho de 1668, a Sagrada Congregação dos Ritos permitiu, à Ordem, celebrar a Missa votiva das Sete Dores da Santíssima Virgem. No relativo decreto, fazia-se menção ao facto de que os Servos de Maria usavam o hábito negro em memória da viuvez de Maria e das dores que sofreu na paixão e morte do Filho. Estas dores atingiram o seu ápice aos pés do Calvário e no Sábado Santo, quando somente Maria, naquelas horas terríveis, manteve a verdadeira e íntegra Fé na Ressurreição.         

Cristina Siccardi          

Através de Corrispondenza Romana

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