segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Reacção de Mons. Carlo Maria Viganò ao catecismo sobre o Concílio



A pedido de Monsenhor Carlo Maria Viganò, traduziu-se e publica-se uma carta que Michael Matt, do portal católico norte-americano The Remnant, enviou a Sua Excelência, no seguimento do debate sobre o Concílio Vaticano II, e a elucidativa resposta do Arcebispo e antigo Núncio Apostólico em Washington.     

Excelência, 

Talvez possa considerar isto interessante. Como sabe, o Bispo Robert Barron não é, certamente, o pior Bispo dos Estados Unidos. Beneficiei de algumas das suas lições no passado e não quero questionar a sua sinceridade. Dito isto, considero que a sua recente posição sobre o Vaticano II, conforme detalhado aqui, seja problemática a muitos níveis.           

Não tenho ideia se o lançamento desta iniciativa teve ou não algo a ver com as suas recentes cartas sobre o assunto, mas parece-me uma tentativa, não tão velada, de desqualificar (se não de difamar) a tradicional resistência católica às desastrosas e não vinculativas novidades do Concílio Vaticano II.       

Gostaria de saber a sua reacção aos argumentos do Bispo Barron e da sua equipa de World on Fire. E, se lhe interessar partilhá-la com os nossos leitores, ficarei feliz em torná-la pública. Deus o abençoe e Maria o proteja.

In Christo Rege,    
Michael J. Matt

***

14 de Agosto de 2020
Vigília da Assunção de Maria Santíssima

Caro Michael,        

Vi o catecismo sobre o Concílio, publicado pela Word on fire, e, como me pediu, envio-lhe uma breve reflexão. Não entrarei em detalhes sobre as FAQs, que me parecem mais adequadas para o uso de um utensílio ou para a gestão de um call center. Em vez disso, concentrar-me-ei na frase introdutória de Bento XVI:          

«Defender a verdadeira tradição da Igreja, hoje significa defender o Concílio. [...] Devemos permanecer fiéis ao hoje da Igreja, não ao ontem e ao amanhã. E este hoje da Igreja são os documentos do Vaticano II, sem as reservas que lhe amputam e sem as arbitrariedades que o distorcem».        

O Santo Padre afirma apoditicamente que «defender a verdadeira tradição da Igreja, hoje significa defender o Concílio» e que «devemos permanecer fiéis ao hoje da Igreja». Estas duas proposições que se complementam não encontram apoio na Tradição, visto que o presente da Igreja está sempre indissoluvelmente ligado ao seu passado.   

A Igreja consta de três dimensões: uma triunfante no Céu, uma militante na terra e uma padecente no Purgatório. Essas três dimensões da mesma Igreja estão intimamente ligadas e é evidente que a triunfante e a purgante se encontram numa realidade metafísica metaistórica ou metatemporal; enquanto apenas a Igreja militante tem um hoje, uma contingência dada pelo fluir do tempo, que nada pode mudar da sua essência, da sua missão e, sobretudo, da sua doutrina. Não há, portanto, uma Igreja só do hoje, na qual o ontem passou irremediavelmente e o amanhã ainda não aconteceu: o que Cristo ensinou ontem, repetimo-lo hoje e os Seus Vigários professá-lo-ão amanhã; aquilo que os Mártires testemunharam ontem, guardamos hoje e os nossos filhos confessá-lo-ão amanhã.    

Depois, há esta outra proposição «devemos permanecer fiéis ao hoje da Igreja, não ao ontem e ao amanhã», que foi significativamente adoptada pelos defensores do Vaticano II precisamente para apagar o passado, para, no hoje de então, afirmar a revolução conciliar e preparar a crise daquele amanhã em que nos encontramos agora. E os Inovadores que quiseram aquele Concílio, operaram, precisamente – parafraseando as palavras de Ratzinger –, «com as reservas que amputaram» o ininterrupto Magistério da Igreja e «com as arbitrariedades que o distorceram». Não vejo porquê que aquilo que os Inovadores fizeram ontem, com o Vaticano II, contra a Tradição, não possa valer hoje para eles: quem não hesitou em demolir, em nome da pastoralidade, o edifício doutrinal, moral, litúrgico, espiritual e disciplinar da velha religião – como lhe chamam – em nome do Concílio, hoje pretenderia poder reivindicar para as próprias ousadas inovações aquela submissão e defesa obsequiosa que não quis aplicar a dois mil anos de Magistério infalível. E nós deveríamos manifestar uma adesão incondicional não à Tradição, mas ao único evento que aquela Tradição contradisse e adulterou. Parece-me que este raciocínio, ainda que apenas de um ponto de vista meramente lógico, não tenha muita credibilidade e se limite a reiterar aquela auto-referencialidade da igreja conciliar, em ruptura com o ensinamento ininterrupto dos Sumos Pontífices que a precederam.           

Também me parece que a citação de Bento XVI está em contradição com a hermenêutica da continuidade, segundo a qual o Concílio deveria ser acolhido não em ruptura com o passado da Igreja, mas em continuidade – precisamente – com ele: mas se não houver uma Igreja de ontem, a que se deve referir a continuidade da pretensa hermenêutica conciliar? Um outro calembour filosófico que, infelizmente, mostra sinais de enfraquecimento desde a sua formulação e que hoje é desmentido desde o mais alto Sólio.  

Podemos observar com “espanto” o empenho dos zeladores do Vaticano II na defesa do seu concílio, chegando a compor nada menos que uma espécie de catecismo do Concílio. Se se tivessem dado ao trabalho de reafirmar com igual empenho a doutrina imutável da Igreja, quando esta era negada ou silenciada precisamente em nome da renovação conciliar, hoje espalhar-se-ia menos ignorância da Fé e menos confusão. Mas, infelizmente, a defesa do Vaticano II é mais importante do que a do perene depositum fidei.  

Deus vos abençoe!

Carlo Maria Viganò

2 comentários:

  1. Viganó é o nome mais lúcida da Igreja. Talvez a pedra mais valiosa da Jerusalém que desce do Céu...e tão rara quanto.

    ResponderEliminar
  2. Deus abençoe o bispo Vigano para continuár a luta e nos esclarecer,pq é visível as mudanças na igreja Católica

    ResponderEliminar

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
Para esclarecimentos e comentários, queira contactar: info@diesirae.pt