sábado, 1 de agosto de 2020

Porciúncula e indulgências: dom do amor de Deus



Segundo o Diploma de Teobaldo, quando São Francisco, juntamente com frei Masseo, se dirigiu a Honório III para lhe perguntar quanto, numa confiante e audaciosa conversa, já tinha “obtido” do próprio Senhor, as palavras endereçadas ao Pontífice foram as seguintes: «Santo Padre, quero, se isso agradar a Vossa Santidade, que aqueles que vierem a esta igreja confessados, arrependidos e, como deve ser, absolvidos pelo sacerdote, sejam libertados da culpa e da pena no céu e na terra, desde o dia do Baptismo até ao dia e à hora da entrada nesta igreja».         

São Francisco pediu, portanto, uma indulgência completa ou plenária, ou seja, a remissão de toda a pena temporal devida aos pecados cometidos. Em suma, uma coisa grande.        

A das indulgências é uma doutrina e uma prática, infelizmente, cada vez mais em desuso e, muitas vezes, objecto de perplexidade, se não de crítica e escárnio; pensamos em Lutero, nos abusos e assim por diante com as usuais histórias de uma Igreja agarrada ao dinheiro, enganadora das almas, etc.       

Se se reflectisse seriamente sobre as indulgências, não se poderia deixar de ficar de boca aberta pela admiração e cheios de gratidão a Deus e à Igreja. Cada pecado nosso, quer o saibamos ou não, envolve sempre uma desordem; a ruptura da ordem, depois, causa, inevitavelmente, uma série de problemas que caem sobre nós mesmos e sobre os outros; e cada problema anda de braço dado com uma pena a suportar. Percebe-se, pois, que restaurar a ordem violada pela culpa significa experimentar, ao mesmo tempo, sincero arrependimento pelo que foi cometido e a disposição de reparar adequadamente os danos provocados. A culpa e a pena estão intrinsecamente ligadas, embora seja claro que são irredutíveis uma à outra; conexas, mas distintas.   

Quando pensamos que cada pecado é uma ofensa contra Deus, Sumo e Eterno Bem, e contra o nosso próximo, mesmo se se trata de um pecado cometido na solidão do próprio quarto, quando pensamos nisto é claro que também devemos admitir que a pena proporcional não pode ser uma brincadeira. A absolvição sacramental liberta-nos da culpa e também da pena eterna que merecíamos, mas não de todo aquele cortejo de penas temporais que acumulamos dia após dia, hora após hora, com a nossa malícia, indiferença, frieza, duplicidade em relação a Deus e em relação ao próximo. «Meu filho, tudo se paga, e a alto preço», dizia Padre Pio.   

Não se trata de contabilidade fria, mas da realidade das coisas. Se eu ofendo uma pessoa, e talvez lhe cause uma grave lesão, posso ser perdoada, mas não posso evitar ter causado sofrimento, seja físico quanto moral. Portanto, devo reparar e compensar de maneira proporcional à ofensa. Essas dores pesam sobre nós de várias maneiras, fazendo desta vida um vale de lágrimas. E não apenas esta vida, porque este processo de purificação e expiação continua, se necessário, também na outra; é a realidade do Purgatório, um grande dom da misericórdia de Deus, sem o qual nenhum de nós seria digno de viver a vida dos bem-aventurados.          

Esta misericórdia também está na origem das indulgências, que aliviam o fardo a carregar por causa das nossas culpas; e aliviam também o peso das penas dos outros, porque temos a possibilidade de lucrá-las seja para sufragar os defuntos, seja para ceder aos nossos irmãos ainda neste mundo a parte satisfatória das indulgências.          

A realidade das indulgências abre diante dos nossos olhos a maravilha da comunhão dos santos. O dominicano Hugo de Saint-Cher foi o primeiro a sustentar a ideia de um thesaurus Ecclesiae, um tesouro de méritos à disposição da Igreja acumulado pelos méritos de Cristo, da Santíssima Virgem e dos santos, sejam canonizados ou não, como fundamento das indulgências. Este imenso tesouro vem em nosso auxílio e, assim, permite-nos abreviar a pena que merecemos ou que merecem outros pelos quais cedemos o efeito da indulgência. Paulo VI, na belíssima Constituição Apostólica Indulgentiarum doctrina, retoma este ensinamento, bem como a expressão “tesouro da Igreja”, descrevendo-o não «uma soma de bens comparáveis às riquezas materiais acumuladas no decorrer dos séculos, mas é o valor infinito e inesgotável que têm junto a Deus as expiações e os méritos de Cristo Senhor, oferecidos para que a humanidade toda seja libertada do pecado e chegue à comunhão com o Pai» (n. 5). Os méritos de Cristo, de Nossa Senhora e de todos os santos estão à disposição de toda a Igreja em virtude daquela «relação sobrenatural. Esta faz com que o pecado de um prejudique também os outros, assim com a santidade de um traga benefícios aos outros. Assim se prestam os fiéis socorros mútuos para atingirem o seu fim eterno» (n. 4).     

Não se deve pensar que Hugo tenha inventado as indulgências; ele apenas orientou o motivo pelo qual a Igreja pode conceder indulgências precisamente virado para a verdade deste tesouro, enquanto outros autores argumentavam que a indulgência fazia sentido como substituto das obras da Igreja militante.      

Tal como a conhecemos nós, a prática das indulgências teve origem por volta dos séculos XI-XII e disparou na época das Cruzadas, para se prolongar, depois, nas indulgências jubilares. Na realidade, a ideia de fundo remonta aos primeiros séculos da Igreja, onde já encontramos algo semelhante (mas não igual) na relaxatio e na redemptio. Então, a penitência era uma coisa extremamente séria; poderia durar anos e exigir práticas muito pesadas, que eram condição para poder ser readmitido à comunhão eclesial. Por conseguinte, confessava-se a culpa, submetia-se a uma longa penitência e, depois, era-se “absolvido”. A relaxatio, como sugere o termo, era, essencialmente, uma substituição de pena: de uma pesada a uma mais ligeira. Também a redemptio, que começa a ser mencionada no século VII, era uma comutação da pena; é nessa época que se começam a introduzir jejuns, orações e esmolas em substituição das penas mais severas. 

Também na Idade Média se difunde o uso da absolutio, ou seja, fórmulas de remissão dos pecados na véspera de certas festas litúrgicas, praticadas, sobretudo, nos mosteiros ou até inseridas nos textos litúrgicos, como atesta a fórmula absolutória, ainda presente no Missal de 1962, depois do Confiteor. Não é claro se estas absolutiones fossem verdadeiras indulgências, mas, certamente, atestam um maior zelo em procurar ocasiões para alcançar este tesouro da Igreja.    

Estes podem ser considerados pródromos do sucessivo desenvolvimento histórico da prática das indulgências, que deve ser, portanto, entendido como «um progresso, não uma mudança, na doutrina e na disciplina da Igreja, e da raiz que é a revelação brotou um novo bem para a utilidade dos fiéis e de toda a Igreja» (Indulgentiarum doctrina, n. 7).  

São Francisco tinha-o bem claro; e também o Senhor, que se preocupou em enviar o Seu servo ao Papa para pedir o Perdão de Assis ou a Indulgência da Porciúncula (ver aqui as condições para lucrá-la), para que se manifestasse ao mundo a magnanimidade do Seu amor.

Luisella Scrosati          

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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