sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O grande triunfo de Thomas Hobbes na crise do COVID-19



Thomas Hobbes (1588-1679) foi um teórico político e filósofo inglês, autor do livro Leviatã (1651). Na obra Leviatã, Hobbes explanou os seus pontos de vista sobre a natureza humana e sobre a necessidade de um governo e de uma sociedade fortes. Nesse livro, o autor expõe a teoria do Contrato Social, que, segundo ele, é a única maneira de explicar como os homens possam viver em sociedade sem se matarem uns aos outros. Jean-Jacques Rousseau foi o mais famoso formulador dessa teoria, no fim do século XVIII, na Revolução Francesa.

Para Hobbes, a única forma de impedir a «guerra de todos contra todos» é através da presença de uma autoridade à qual os membros da sociedade devem render parte da sua liberdade natural em troca da paz interna e da defesa comum assegurada por um único soberano, uma autoridade inquestionável.

Antigamente, as pessoas enfrentavam desafios e riscos para obter grandes coisas na vida. Entendiam que há bens que são mais altos do que o sucesso material e mesmo a própria vida. Esses bens incluíam grandes feitos, expressões artísticas e santidade pessoal. Essas realizações trouxeram honra, glória e salvação àqueles que realizaram grandes feitos.

A presente crise do COVID-19 mostrou uma mudança fundamental de mentalidade que aflige a era da post modernidade. Muitos agora acreditam que a finalidade da vida é viver da maneira mais confortável e segura possível. Qualquer risco ou desafio tem de ser evitado a todo o custo. Esse quadro reflecte o trágico triunfo das ideias do filósofo Thomas Hobbes do século XVII.

Hobbes e o mundo do egoísmo

Thomas Hobbes não foi um homem de altos ideais. O seu mundo era um mundo pragmático de egoísmo e paixões, que acreditava serem os elementos que regiam a vida dos seres humanos.

No mundo de Hobbes, as pessoas já não precisam de agir em função do mais alto bem em união com Deus. Como, de facto, as pessoas são motivadas pelo medo do mal pior, são condicionadas pelo supremo terror em face da morte. Hobbes declarou que «todo o homem tem o desejo de obter o que é bom para si e odeia o que é mau para si, mas, especialmente, o pior dos males naturais: a morte». Assim, a finalidade da vida era satisfazer as paixões que o seu egoísmo e interesse pessoal mostravam e, ao mesmo tempo, evitar a morte o mais possível.


Ao mesmo tempo, Hobbes não era tão boçal para não perceber que as pessoas guerreiam entre si quando procuram diferentes finalidades egoísticas ao mesmo tempo. Isso foi a razão pela qual defendia a ideia de um Estado centralizado e forte, que chamou de Leviatã – título do seu principal livro –, para harmonizar esse conflito natural de interesses que, se não fosse controlado, se tornaria «a guerra de todo o homem contra todo o homem».

Um bem organizado e poderoso governo, no seu tempo um monarca absoluto, asseguraria essa cooperação e o bem estar da nação.

Visão do COVID-19 segundo Hobbes


Essa filosofia tóxica está hoje em dia a orientar a política para lidar com a crise do coronavírus. As medidas que se veem tomar são baseadas no medo irracional da morte, de Hobbes, tomado ao extremo. Os Hobbesianos de hoje dizem que o mais alto bem é a própria vida e que absolutamente tudo deve ser feito para se evitar a morte.

Assim, quando a crise do coronavírus nos atingiu, tudo foi fechado. A ideia era evitar qualquer risco, sem considerar se era remoto ou pequeno. No momento em que um possível caso de COVID-19 aparece, por exemplo, toda a área tem de ser fechada. Qualquer pessoa que o paciente de COVID-19 tenha contactado deve entrar numa quarentena voluntária. Prevalece um sentimento de pânico. Nenhum risco pode deixar de ser considerado. As medidas mais absurdas são tomadas para prevenir a mínima possibilidade de uma só morte.

Dessa maneira, nos EUA centenas de condados através do País, nos quais ninguém morreu de COVID-19, foram fechados e a sua vida comercial, social e religiosa completamente interrompidas. O Walmart permaneceu aberto, mas as igrejas foram fechadas a despeito da falta de evidência de que os serviços religiosos espalham o vírus mais do que ir comprar coisas ao supermercado. O medo irracional da morte criou uma atmosfera de paranoia. A obrigatoriedade das normas sanitárias tornou-se rígida e sem concessões. As normas draconianas deixaram de lado o bom senso e não deram margem a nenhuma excepção.

O medo irracional da morte não é natural e causa muito stress. Acaba por conduzir a conflitos com aqueles que questionam a sabedoria da supressão da maioria das actividades. Essa é a razão pela qual a visão Hobbesiana do COVID-19 necessita do Leviatã, o estado ditatorial e aplicação coercitiva de regras sem sentido. O Leviatã é necessário para manter as pessoas obedientes através do medo da morte.

A crise do COVID-19 acabou a promover políticas socialistas de governo que procuram controlar a vida das pessoas sob o pretexto de salvar vidas. Ameaça a sociedade com uma cura que é muito pior que a doença.

Destruindo a sociedade para salvar vidas


Há dois problemas principais com a política Hobbesiana do COVID-19.

O primeiro é que cria um clima de pânico que paralisa qualquer actividade. A paralisação radical torna-se a atitude padrão. Acometidas de pânico, as pessoas fogem do perigo sem medir as consequências.

A mentalidade da paralização total é de agir primeiro e lidar com as consequências depois. Num sistema que não permite nenhum risco, o lockdown é a única solução possível. E os governos socialistas estão mais do que dispostos a implementá-lo.

Contudo, tal solução nada resolve. Já todos se aperceberam que esta política demonstrou ser extremamente destrutiva. No pânico de salvar uma só vida, muitas mais vidas estão-se a perder. O inútil encerramento de hospitais impediu inúmeras pessoas de obter tratamento e diagnósticos de que precisavam. Dezenas de milhares de vidas perderam-se ou foram encurtadas. O absurdo encerramento de uma inteira economia provocou uma crise económica sem precedentes que já está a pesar fortemente na vida da população, mas vai pesar ainda muito mais nos próximos anos. As incertezas e medo da crise estão a afectar a saúde psicológica de milhões de pessoas. Isso está a provocar um aumento de depressão e suicídios.

De uma perspectiva religiosa, a interrupção da vida sacramental de incontáveis católicos causou um grande sofrimento espiritual e pôs em risco a salvação de inúmeras almas. Alguns morreram sem a Confissão ou os últimos Sacramentos.

O medo irracional Hobbesiano da morte resulta em desnecessárias mortes que não foram evitadas e vidas que não valem mais ser vividas.

Imobilizando a sociedade

O segundo problema com a política Hobbesiana do COVID-19 é que essa não permite que se encontre a solução para a crise. A sociedade que não aceita riscos pode evitar os perigos de um desastre, mas, ao mesmo tempo, liquida qualquer possibilidade de triunfo. A América está agora acorrentada através dessa política. Normalmente, a vida tem riscos. Fazer qualquer coisa com um mínimo de importância pressupõe riscos. As pessoas podem vencer obstáculos e inventar soluções originais somente quando não têm medo de falhar.

O problema com o medo Hobbesiano irracional da morte é que mesmo os riscos razoáveis são postos de lado. As mais comuns actividades diárias, como conduzir um carro, envolvem riscos, mas, mesmo assim, toda a gente sabe disso, mede as consequências e age de acordo. Muitas dessas actividades de rotina são muito mais cheias de risco que o perigo de contrair coronavírus. Infelizmente, com o medo a orientar todas as fontes de decisão, a crise do COVID-19 paralisa toda a actividade comercial e social.

Por exemplo, a maior parte dos mais importantes distritos escolares não terão a coragem de manter aulas presenciais neste Outono. Consideram-no inseguro. Essas medidas serão tomadas apesar de que The Wall Street Journal (Junho 13-14) relata que crianças abaixo de 14 anos são 6,8 a 17 vezes menos susceptíveis de morrer de COVID-19 do que da gripe ou pneumonia sazonais. As crianças são também 128 vezes mais susceptíveis de morrer de um acidente qualquer. A educação de incontáveis crianças vai sofrer sem necessidade por causa da paralização e da falta de coragem da parte dos políticos, educadores e pais.

Naturalmente, neste cenário a única entidade suficientemente grande para actuar sem medo de retaliação é o grande governo. A culpa pode ser distribuída a uma vasta rede de burocracia. O governo pode diminuir a dor causada pelos seus erros com uma maciça distribuição de dólares de débito.

Mas, numa sociedade razoável, as pessoas sabem como avaliar o perigo e esses problemas podem ser muito diminuídos.

O pesadelo Hobbesiano


A solução Hobbesiana é muito mais um pesadelo do que uma opção. Hobbes ensinou às pessoas a soltar as rédeas das suas paixões e desejos, mas, ao mesmo tempo, a cooperar com os outros por medo da morte. Ele declarou que não existe «finis ultimus, um fim último, nem um summum bonum, um grande bem, se ensinava nos livros dos antigos filósofos de moral».

A perspectiva mórbida de Hobbes declara que não há bens maiores do que o sucesso material e mesmo a vida. As pessoas são reduzidas à mediocridade dos seus caprichos e desejos.


[Hobbes diz que o ser humano não tem, de facto, uma finalidade para a vida. Os Homens são naturalmente anarquistas e só criam problemas uns aos outros.]

Ao contrário, a Igreja ensina ao fiel como se preparar para a morte, fazendo o indivíduo centrar-se no supremo bem, que é o próprio Deus. Os cristãos praticam a virtude por amor a Deus. Os cristãos são ensinados que há bens mais preciosos que a própria vida – como a virtude da Fé. Os muitos Santos e Mártires da Igreja são um testemunho dessa recta e devidamente ordenada escala de valores.

O fracasso de Hobbes

Deus estabeleceu a Igreja, através da qual as pessoas possam viver em comunidade, amando-se e ajudando-se mutuamente por amor d’Ele. Hobbes, em vez disso, queria um Leviatã de um governo central para evitar que as pessoas se matassem umas às outras enquanto iam atrás dos seus interesses egoísticos.

A maior parte dos esquemas filosóficos modernos mostraram-se inaplicáveis. Hobbes não é excepção. O desastre do COVID-19 representa o triunfo do pesadelo de Hobbes: promete a cooperação e o governo ditatorial diante do medo da morte por COVID-19.

O esquema não está a funcionar. Em vez disso, Hobbes deu-nos uma «guerra de todos contra todos».

John Horvat II 

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