quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Meditação de Mons. Carlo Maria Viganò sobre a Realeza de Nosso Senhor



O ter beata civitas
cui rite Christus imperat,
quae jussa pergit exsequi
edicta mundo caelitus!

«Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: “Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-se e, tocando-os, disse: “Levantai-vos e não temais”. Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos”» (Mt 17, 1-9).   

Permitam-me, caros amigos, partilhar convosco algumas reflexões sobre a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, manifestada na Transfiguração que hoje [6 de Agosto] celebramos, depois de outros episódios significativos da vida terrena do Senhor: desde os Anjos na gruta de Belém à adoração dos Magos e ao Baptismo no Jordão.                   

Escolhi este tema porque acredito que nele se possa resumir, de alguma forma, o ponto focal do nosso e do vosso compromisso como Católicos; não só na vida privada e familiar, mas também, e sobretudo, na vida social e política.     

Reavivemos, antes de mais, a nossa fé na Realeza universal do nosso divino Salvador.  

Ele é verdadeiramente Rei universal, isto é, possui uma soberania absoluta sobre toda a criação, sobre o género humano, sobre todos os homens, mesmo aqueles que estão fora do seu rebanho, a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.   

Na verdade, cada pessoa é verdadeiramente criatura de Deus. A Ele deve todo o seu ser, tanto no todo da sua natureza, como em cada uma das partes de que essa se compõe: corpo, alma, faculdade, inteligência, vontade e sensibilidade; também os actos destas faculdades, bem como de todos os órgãos, são dons de Deus, cujo domínio se estende até todos os seus bens, enquanto frutos da Sua inefável liberalidade. A simples consideração do facto de que ninguém escolhe ou pode escolher a família a que deverá pertencer na terra é suficiente para nos convencermos desta verdade fundamental da nossa existência.          

Disto deriva que Deus nosso Senhor é o soberano de todos os homens, tanto individualmente considerados como reunidos em grupos sociais, a partir do momento em que, pelo facto de constituírem as várias comunidades, eles não perdem a sua condição de criaturas. De facto, a própria existência da sociedade civil obedece aos desígnios de Deus, que tornou social a natureza do homem. Portanto, todos os povos, todas as nações, desde as mais primitivas às mais civilizadas, das mais pequenas às superpotências, estão todas sujeitas à soberania divina e, em si mesmas, têm a obrigação de reconhecer este suave domínio celeste.         

REALEZA DE JESUS
​​CRISTO     

Como atestam frequentemente as Sagradas Escrituras, Deus conferiu esta soberania ao seu Filho unigénito.    

São Paulo afirma, de um modo geral, que Deus «constituiu herdeiro de todas as coisas» (Heb 1, 2) o seu Filho. São João, por sua vez, confirma o pensamento do Apóstolo dos gentios em muitas passagens do seu Evangelho. Por exemplo, quando recorda que «o Pai, aliás, não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo o julgamento» (Jo 5, 22). A prerrogativa de administrar a justiça pertence, de facto, ao rei, e quem a possui, a detém, enquanto revestido de poder soberano.    

Esta realeza universal que o Filho herdou do Pai não deve ser entendida apenas como a herança eterna, por isso, com a natureza divina, Ele recebeu todos os atributos que o fazem igual e consubstancial à primeira Pessoa da Santíssima Trindade, na unidade da essência divina.          

Essa é atribuída, de modo especial, a Jesus Cristo enquanto homem, mediador entre o céu e a terra. Com efeito, a missão do Verbo Encarnado foi precisamente a instauração na terra do Reino de Deus. Constatamos que as expressões da Sagrada Escritura relativas à Realeza de Jesus Cristo referem-se, sem sombra de dúvida, à sua condição de homem.          

Ele é apresentado ao mundo como Filho do rei David, por isso vem a herdar o trono paterno, estendido até aos confins da terra e eterno, sem cálculo de anos. Foi assim que o Arcanjo Gabriel anunciou a dignidade do Filho de Maria: «Hás de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim» (Lc 1, 31-33). É, além disso, como Rei que O procuram os Magos vindos do Oriente para adorá-Lo: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?», perguntam a Herodes ao chegarem a Jerusalém (Mt 2, 2). A missão que o Pai eterno confiou ao Filho, no mistério da Sua Encarnação, era a de estabelecer um reino na terra, o Reino dos Céus. Mediante a instauração deste Reino, vai-se concretizando aquela Caridade inefável com que, desde toda a eternidade, Deus amou os homens e os atraiu misericordiosamente para si: «Dilexi te, ideo attraxi te, miserans» (Jr 31, 3).    

Jesus consagra a sua vida pública ao anúncio e à instauração deste seu Reino, ora chamado de Reino de Deus, ora de Reino dos Céus. Seguindo o costume oriental, Nosso Senhor serve-se de parábolas fascinantes para inculcar a ideia e a natureza deste reino que veio fundar. Os seus milagres visam convencer o povo de que o seu reino chegara, encontrava-se no meio do povo. «Si in digito Dei eiicio daemonia, profecto pérvenit in vos regnum Dei», «Mas se Eu expulso os demónios pela mão de Deus, então o Reino de Deus já chegou até vós» (Lc 11, 20).           

A constituição deste seu Reino absorveu a tal ponto a sua missão que a apostasia dos seus inimigos aproveitou tal ideia para justificar a acusação levantada contra Ele diante do tribunal de Pilatos: «Si hunc dimittis, non es amicus Caesaris», «Se libertas este homem, não és amigo de César», vociferavam a Pôncio Pilatos: «Todo aquele que se faz rei declara-se contra César» (Jo 19, 12). Corroborando a opinião dos seus inimigos, Jesus Cristo confirma ao governador romano ser verdadeiramente rei: «É como dizes: Eu sou rei!» (Jo 18, 37). 

REI EM SENTIDO PRÓPRIO       

Não é possível colocar em questão o carácter real da obra de Jesus Cristo. Ele é Rei.      

A nossa fé, todavia, exige que conheçamos bem o alcance e o sentido da Realeza do divino Redentor. Pio XI exclui imediatamente o sentido metafórico pelo qual chamamos rei e real a quanto é de excelente num modo de ser ou de agir humano. Não: Jesus Cristo não é rei neste sentido metafórico. É Rei no sentido próprio da palavra. Na Sagrada Escritura, Jesus aparece no exercício de prerrogativas reais de governo soberano, ditando leis e impondo penas contra os transgressores. No famoso Sermão da Montanha, pode-se dizer que o Salvador promulgou o códice do seu Reino. Como verdadeiro Soberano, exige obediência às suas leis sob pena de nada menos do que a condenação eterna. E também na cena do julgamento, que anuncia no fim do mundo, quando o Filho de Deus virá para administrar a sua justiça aos vivos e aos mortos: «Quando o Filho do Homem vier na sua glória […] separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos […]. O Rei dirá, então, aos da sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai!” […]. Em seguida dirá aos da esquerda: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” […]. Estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna» (Mt 25, 31 e seguintes). Sentença dulcíssima e tremenda. Dulcíssima para os bons, pela excelência incomparável do prémio que os espera; tremenda e assustadora para os ímpios, devido ao alucinante castigo a que estão condenados para a eternidade.  

Uma consideração deste tipo é suficiente para perceber como para os homens é de extrema importância identificar bem onde se encontra o reino de Jesus Cristo aqui na terra, porque a ele pertencer ou não pertencer decide o nosso destino eterno. Dissemos “aqui na terra”, desde o momento em que homem merece o prémio ou o castigo além-túmulo neste mundo. Na terra, portanto, os homens devem fazer parte deste inefável reino de Deus, temporal e eterno, visto que se forma no mundo e floresce no céu.   

A SITUAÇÃO ACTUAL         

A fúria do Inimigo, odiento do género humano, desencadeia-se, principalmente, contra a doutrina da Realeza de Cristo, porque essa Realeza encontra-se unida na Pessoa de Nosso Senhor, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. O laicismo oitocentista, alimentado pela maçonaria, conseguiu reorganizar-se numa ideologia ainda mais perversa desde que estendeu a negação dos direitos reais do Redentor não só à sociedade civil, mas também ao corpo eclesial.                    

Este ataque foi consumado com a renúncia do Papado ao próprio conceito de Realeza vicária do Romano Pontífice, trazendo para dentro da Igreja as demandas de democracia e parlamentarismo já usadas para minar as Nações e a autoridade dos governantes. O Concílio Vaticano II enfraqueceu fortemente a Monarquia papal, como consequência da negação implícita da divina Realeza do Sumo e Eterno Sacerdote, e com isto infligiu um golpe magistral à instituição que até então se apresentava como antemural à secularização da sociedade cristã. Diminuída a soberania do Vigário, conseguiu-se progressivamente também a negação dos direitos soberanos de Cristo sobre o Corpo Místico. E quando Paulo VI depôs ostensivamente o triplo diadema real, quase renegando a sagrada Monarquia vicária, também tirou a coroa a Nosso Senhor, confinando a sua Realeza a um âmbito meramente escatológico. Prova disso são as significativas amputações da liturgia da festa de Cristo Rei e a sua transferência para o fim do ano litúrgico.        

A finalidade da festa, ou seja, a celebração da realeza social de Cristo, ilumina também o seu lugar no calendário. Na liturgia tradicional, era-lhe atribuído o último domingo de Outubro, para que a festa de todos os santos, que reinam por participação, fosse precedida pela festa de Cristo, que reina por direito próprio. Com a reforma litúrgica, aprovada por Paulo VI em 1969, a festa de Cristo Rei foi transferida para o último domingo do ano litúrgico, apagando a dimensão social da realeza de Cristo e relegando-a à dimensão espiritual e escatológica.          

Todos esses Padres conciliares que deram o seu voto a Dignitatis Humanae e proclamaram com Paulo VI a liberdade religiosa, perceberam que, de facto, destronaram Nosso Senhor Jesus Cristo arrebatando-lhe a coroa da sua realeza social? Compreenderam que destronaram muito concretamente Nosso Senhor Jesus Cristo do trono da sua divina realeza sobre nós e o mundo? Compreenderam que, fazendo-se porta-vozes de nações apóstatas, faziam subir ao Seu trono estas execráveis
​​blasfémias: «Não queremos que ele seja nosso rei» (Lc 19, 14); «Não temos outro rei senão César» (Jo 19, 15)? Mas Ele, diante daquele rumor confuso de insensatos, retirava deles o Seu Espírito.     

Não é possível, para quem não está cegado pelo facciosismo, não reconhecer a perversa intenção de redimensionar a festa instituída por Pio XI e a doutrina nela afirmada. Destronar Cristo, não só da sociedade, mas também da Igreja, foi o maior crime de que se poderia manchar a Hierarquia, tendo falhado o seu papel de guardiã do ensinamento do Salvador. Como consequência inevitável desta traição, a autoridade conferida por Nosso Senhor ao Príncipe dos Apóstolos falhou substancialmente, e temos a confirmação disso desde o anúncio do Vaticano II, quando a autoridade infalível do Romano Pontífice foi deliberadamente excluída, para a vantagem de uma pastoralidade que, depois, criou as condições para formulações equívocas e fortemente suspeitas de heresia, se não heréticas tout-court. Encontrámo-nos, portanto, não apenas sitiados na esfera civil, na qual as forças das trevas recusaram há séculos o jugo suave de Cristo para impor às Nações a odiosa tirania da apostasia e do pecado; mas também na esfera religiosa, na qual a Autoridade se destrói e nega que o Rei divino deva reinar também sobre a Igreja, sobre os seus Pastores e sobre os seus fiéis. Também neste caso, o suave jugo de Cristo é substituído pela odiosa tirania dos Inovadores que, com um autoritarismo semelhante ao dos seus leigos solidários, impõem uma nova doutrina, uma nova moral, uma nova liturgia em que a mera menção da Realeza de Nosso Senhor é considerada um incómodo legado de uma outra religião, de uma outra Igreja. Já dizia São Paulo: «Deus manda-lhes uma força que leva ao erro para que acreditem na mentira» (2 Ts 2, 11).

Não admira, portanto, ver que, como na vida civil, os magistrados subverteram a justiça condenando os inocentes e absolvendo os culpados; como os governantes abusam do seu poder para tiranizar os cidadãos; como os médicos negam o juramento de Hipócrates tornando-se cúmplices daqueles que querem espalhar a doença e transformar os enfermos em doentes crónicos; assim como os professores não ensinam o amor pelo conhecimento, mas cultivam nos alunos a ignorância e a manipulação ideológica, também na Esposa de Cristo há Cardeais, Bispos e clérigos que escandalizam os fiéis pela sua conduta moral reprovável, semeiam a heresia dos púlpitos, favorece a idolatria celebrando a pachamama e o culto da Mãe Terra, em nome de um ecologismo de matriz claramente maçónica e perfeitamente coerente com o plano de dissolução desejado pelo globalismo. «Esta é a vossa hora e o domínio das trevas» (Lc 22, 53). O kathèkon parece ter falhado se não tivéssemos a certeza das promessas do Salvador, Senhor do mundo, da história e da própria Igreja.    

CONCLUSÃO      

Apesar disso, enquanto eles destroem, nós temos a alegria e a honra de reconstruir. Felicidade ainda maior: uma nova geração de leigos e sacerdotes participam com zelo nesta obra de reconstrução da Igreja para a salvação das almas e fá-lo com a consciência das próprias fraquezas, das próprias misérias, mas também deixando-se usar por Deus como dóceis instrumentos nas suas mãos. Mãos disponíveis, mãos fortes, mãos do Omnipotente. A nossa fragilidade evidencia ainda mais a obra do Senhor, especialmente onde esta fragilidade humana é acompanhada pela humildade.   

Esta humildade deve levar-nos a instaurare omnia in Christo, partindo do coração da Fé, que é a oração oficial da Igreja: voltemos à liturgia em que a Nosso Senhor é reconhecido o primado absoluto, ao culto que os Inovadores adulteraram precisamente em ódio à divina Majestade e para exaltar orgulhosamente a criatura humilhando o Criador, para reivindicar, num delírio de omnipotência, a rebelião do súbdito contra o Rei, o non serviam contra a adoração devida ao Senhor.      

A nossa é uma guerra: a Sagrada Escritura lembra-nos isso. Mas uma guerra em que «sub Christi Regis vexillis militare gloriamur» e na qual temos armas espirituais muito poderosas, um conjunto de forças angélicas diante das quais nenhum poder terrestre e infernal tem poder algum.         

Se Nosso Senhor é Rei por direito hereditário (por ser de linhagem real), por direito divino (em razão da união hipostática) e por direito de conquista (tendo-nos redimido com o seu Sacrifício na Cruz), não devemos esquecer que ao seu lado, nos planos da divina Providência, este divino Soberano quis colocar como nossa Senhora e Rainha a própria augusta mãe, Maria Santíssima. Não pode haver Realeza de Cristo sem a doce e maternal Realeza de Maria, que São Luís Maria Grignon de Montfort nos recorda ser nossa Medianeira junto do trono da Majestade do seu Filho, como uma rainha intercede ao trono do rei.

A premissa para o triunfo do Rei divino na sociedade e nas Nações é que Ele já reine nos nossos corações, nas nossas almas, nas nossas famílias. Que reine, pois, Cristo em nós e, com Ele, a sua Santíssima Mãe. Adveniat regnum tuum: adveniat per Mariam.      

Marana Tha, Veni Domine Iesu!         

Carlo Maria Viganò

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