quarta-feira, 12 de agosto de 2020

De Spadaro aos jesuítas: por que Bergoglio apoia Draghi



O que pode ligar o peronista (de simpatias juvenis) Jorge Mario Bergoglio ao globalista Mario Draghi? O que podem ter em comum o campeão argentino dos últimos, dos oprimidos, dos pobres, com o representante italiano dos poderes fortes, da oligarquia financeira, da plutocracia globalista? O que tem a partilhar o Pontífice dos pobres com um dos que se tornou responsável pela carnificina socioeconómica europeia, o que tem a ver o Vigário de Cristo com um proeminente expoente do Pensamento Único, da ideologia do politicamente correcto, do novo humanismo europeu?      

A questão é mais do que lícita, visto que o Papa in persona quis nomear Draghi membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais e considerando que só o encontrou algumas vezes na sua vida.      

A primeira ocasião foi a 19 de Outubro de 2013, durante uma audiência pessoal concedida a Mario Draghi e família, enquanto a segunda ocorreu a 6 de Maio de 2016, quando o Papa recebeu o prestigioso Prémio Internacional Carlos Magno – o máximo reconhecimento europeu – na Sala Régia do Palácio Apostólico. Naquele caso, Mario Draghi estava sentado entre os massivos níveis políticos e económicos da União, juntamente com Angela Merkel, Jean-Claude Junker, Martin Schulz e Donald Tusk. Foi precisamente naquela ocasião que Bergoglio, no discurso de agradecimento pelo prémio recebido, disse expressamente «sonhar uma Europa capaz de fazer nascer um novo humanismo assente em três capacidades: a capacidade de integrar, a capacidade de dialogar e a capacidade de gerar». Quem escreveu o discurso ao Papa esqueceu-se de mencionar Jesus Cristo, mas agora há muitos nos Sagrados Palácios que acreditam que o novo conceito de “humanismo” também possa prescindir da figura do Filho de Deus. 

Qual é, então, o fio vermelho que liga Bergoglio a Draghi? Os bem informados identificam-no com um nome e sobrenome: Antonio Spadaro. Sim, o jesuíta director de Civiltà Cattolica, o homem que sussurra ao Papa, a eminência parda de Francisco I.       

Acontece, de facto, que Mario Draghi se orgulha de ser um ex-aluno do Instituto Massimiliano Massimo, a prestigiosa escola católica romana administrada precisamente pelos jesuítas.       

Não foi por acaso que, a 2 de Novembro de 2019, Civiltà Cattolica, a revista dos jesuítas dirigida por Spadaro, publicou um artigo elogiando Mario Draghi. O artigo, de treze páginas, intitula-se ll contributo di Mario Draghi all’Europa, encontra-se no caderno 4065, pp. 220-233, Ano 2019, Volume IV, e é assinado pelo jesuíta Guido Ruta, doutor em Economia pela New York University. No referido artigo, Mario Draghi é considerado «protagonista de uma das fases mais complexas da história recente da Europa» e o seu serviço como Presidente do Banco Central Europeu é reconhecido como «decisivo para salvar a União Económica e Monetária».          

Segundo a revista dos jesuítas, o precioso contributo de Draghi poderia finalmente representar, hoje, a «extraordinária oportunidade de completar» definitivamente tal união, rejeitando de uma vez por todas as «instância populistas» eurocépticas e implementando as «necessárias reformas» para completar a construção europeia.        

Os elogios ao Super Mario, por parte do jesuíta Ruta, perdem-se: «Em contextos completamente novos, dominados pela incerteza e pelo cepticismo, Draghi soube tomar decisões com base em análises rigorosas, com audácia e orientado por uma visão muito elevada da Europa, unida muito além do dinheiro, como no projecto dos Pais fundadores. Criou, assim, as condições para que o processo de união dos nossos Países chegue a cumprimento».     

No artigo chega-se a pedir o seu envolvimento directo na política: «Mario Draghi surge como policymaker de altíssima estatura: à gratidão acrescenta-se a esperança de que a sua maneira de proceder sem retórica, com aprofundamento e visão, seja assumida em áreas mais amplas da política, seja europeia ou italiana». Seguem-se exaltados elogios ao euro e ataques às «desarticuladas instâncias populistas de um regresso à autonomia monetária», que actualmente se registam em Itália. Se não fosse pela capa, pareceria o Wall Street Journal ou o Financial Times. Seja como for, agora parece suficientemente claro por que Bergoglio nomeou Draghi para a Pontifícia Academia das Ciências Sociais.      

Recordamos que, depois de ter sido Director Executivo do Banco Mundial, como Diretor Geral do Banco de Itália foi o artífice das privatizações das sociedades públicas participadas. Esteve no iate Britannia, da Rainha Isabel, ao largo de Civitavecchia, com os representantes das finanças internacionais para definir o programa de venda ao desbarato do património industrial e empresarial italiano, a começar pelo IRI, pela ENI, pela Telecom, pela Enel, pela Comit e pelo Credit. Em 2002, foi nomeado Vice-Presidente do Goldman Sachs, o maior Banco de investimento privado do mundo. Em 2005, foi nomeado Governador do Banco de Itália e, em 2011, foi nomeado Presidente do Banco Central Europeu. Um currículo estrelar, de todos os aspectos, para delinear o perfil de um “poderoso”.

Gianfranco Amato      

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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