sábado, 1 de agosto de 2020

Comunhão na mão: Bettazzi e os outros que criticaram Wojtyla (3.ª parte)


Talvez alguém se pergunte se um livro escrito como o de Monsenhor Laise, sobre o qual falámos aqui e aqui, escrito há um quarto de século atrás, já não será obsoleto. As sucessivas reimpressões, com várias actualizações e em vários idiomas – cinco edições em espanhol (1.ª a 3.ª em 1997, 4.ª em 2005, 5.ª, em Nova Iorque, em 2014), duas francesas (Paris, 1999 e 2001), duas italianas (2015), uma polaca (Cracóvia, 2007) e cinco inglesas (2010, 2011, 2013, 2018, 2020 –, provam, como o próprio autor evidenciou, que, para além das circunstâncias de tempo e de lugar que suscitaram este estudo, há aspectos permanentes que ainda podem interessar ao leitor e fornecer: 

a) O acesso à legislação autêntica relativa a esta matéria, absolutamente desconhecida entre os fiéis e também por inúmeros pastores;   

b) A situação histórica em que esta legislação se realizou;         

c) Algumas ideias para entender as dramáticas consequências que a prática da Comunhão na mão pode ter sobre a fé na presença real e a piedade eucarística;       

d) Alguns elementos sobre a relação entre o Bispo e a sua Conferência Episcopal, e a sua independência nos confrontos com esta em relação ao governo da sua Diocese;   

e) Uma reflexão sobre o funcionamento de alguns “mecanismos de pressão” dentro da Igreja, capazes de reverter uma decisão papal, que reflectem uma maneira de agir que foi e ainda é usada noutros campos.  

Gostaria também de acrescentar mais dois testemunhos da relevância que o livro ainda tem, o primeiro é um artigo do professor P. Mauro Gagliardi (ex-Consultor do Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice), na Revista da Faculdade de Filosofia e Teologia da Pontifícia Universidade Regina Apostolorum, intitulado “L’autorità legislativa del Vescovo diocesano circa la distribuzione della Comunione sulla mano. Note di diritto liturgico”. Alpha Omega, XVI, n.º 1, 2013 – pp. 127-138. Não é apenas dedicada uma secção deste artigo ao Bispo Laise e às suas decisões, citando também o seu livro (n.º 9, pp. 135-136. Un caso di non applicazione dell’indulto), mas todo o artigo coincide com a posição e a exegese do Prelado argentino. Como é notório nesta declaração: «Se um Bispo decidisse não aplicar o indulto na sua Diocese, não seria ele a proibir a distribuição da Sagrada Comunhão na mão, mas a norma geral confirmada pela Suprema Autoridade (o Sumo Pontífice Paulo VI) através da Memoriale Domini. O Bispo simplesmente escolheria não fazer uso de um indulto àquela norma. Ou seja, na sua Diocese continuar-se-ia a observar, sem excepções, a norma tradicional e vigente, reconfirmada por Paulo VI e nunca modificada até hoje» (p. 135).       

O outro testemunho é a tese de doutoramento em Direito Canónico do P. Federico Bortoli, publicada posteriormente como “La distribuzione della comunione sulla mano: Profili storici, giuridici e pastorali”. Cantagalli, Siena 2018. Também aqui encontramos um capítulo inteiro sobre o Bispo de San Luis (2.6.3. L’indulto in Argentina, pp. 178-188). Diz o P. Bortoli de Mons. Laise: «Como bom canonista, agiu de acordo com a lei e a correcção da sua acção foi confirmada por dois dicastérios da Cúria Romana» e, depois, no livro: «Além disso, das respostas das Conferências Episcopais ao inquérito de 1976, para além do testemunho de Mons. Laise, vimos claramente que a prática da Comunhão na mão foi promovida e incentivada pelas próprias Conferências e apresentada como a melhor maneira para receber a Eucaristia, transmitindo a ideia de que era essa a vontade da Santa Sé e do Santo Padre. Na verdade, como evidenciou o próprio Laise, o objectivo, a finalidade do indulto não era promover o uso da Comunhão na mão, mas ajudar as Conferências Episcopais onde a prática já se tinha espalhado e era difícil de remover».

O livro do P. Bortoli constitui uma necessária “actualização” do trabalho de Laise, uma vez que publicou material inédito no contexto da sua investigação doutoral e que, dali em diante, se tornou uma referência obrigatória sobre o tema. Mas esta “actualização”, longe de corrigir ou negligenciar aspectos do trabalho do Prelado argentino, dá a conhecer outros que confirmam tudo quanto argumentou e mostram a que consequências levaram, que ele não teria imaginado.   

É assim que não apenas é confirmada a recusa de Paulo VI de introduzir este modo de receber a Comunhão nos anos 60, apoiada em evidências históricas por Mons. Laise, mas também a sua intenção de limitá-lo e desaconselhá-lo, porém, a 19 de Janeiro de 1977, enviou, através da Secretaria de Estado, para o Prefeito da Congregação para o Culto Divino, um memorando com a seguinte indicação: «Tratando-se de matéria altamente delicada e importante, Sua Santidade encarregou-me de enviar a Vossa Eminência Reverendíssima cópia dos escritos, com pedido para estudar como se poderá dar aplicação às sugestões indicadas pelo Eminentíssimo Prefeito da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos (Card. Bafile)».      

As sugestões eram as seguintes: «Suspender a concessão de novos indultos, dizer explicitamente que, onde não foi concedido o indulto, a prática da Comunhão na mão é ilícita, e recordar que, mesmo onde foi concedido o indulto, a prática em questão é, contudo, desaconselhada». As razões para isto eram «a diminuição da piedade eucarística, a dispersão dos fragmentos, a facilitação de sacrilégios com o furto da hóstia consagrada e a impossibilidade de o sacerdote recusar-se a distribuir a Comunhão na mão, apesar de todos esses inconvenientes». Mas esta indicação não foi aceite pelo Prefeito do Culto, Cardeal Knox. Um ano depois, a 1 de Fevereiro de 1978, há uma nova carta do Secretário de Estado, que novamente pede, da parte de Paulo VI, que proibisse o uso da Comunhão na mão, mas a resposta é novamente negativa.          

Finalmente, a Secretaria de Estado transmitiu, uma vez mais, a ordem do Papa (desta vez João Paulo II) para suspender a concessão de novos indultos, e desta vez com sucesso, mas tal disposição encontrou fortes resistências; por exemplo, a 21 de Dezembro de 1984, o Bispo de Ivrea, Dom Luigi Bettazzi, escreveu a João Paulo II para as saudações natalícias e aproveitou a ocasião para lhe expressar a sua opinião sobre o que definiu «um problema, talvez muito marginal, mas emblemático», ou seja, a prática da Comunhão na mão. Bettazzi lamenta-se que a Conferência Episcopal Italiana ainda não tenha recebido o indulto e critica João Paulo II por ter suspendido novas concessões, dizendo-lhe: «Não me parece correcto usar dessa maneira a sua autoridade».      

Após cinco anos, em Fevereiro de 1985, começa-se a conceder os indultos como antes. 

P. Nicola Bux     

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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