segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Comunhão na boca: caminho aberto por Bento XVI (4.ª e última parte)


Um outro aspecto do livro do P. Bortoli de que falámos no artigo precedente, que confirma a posição de Mons. Laise, é a atitude do Papa Bento XVI e as declarações dos altos Prelados do Culto Divino em apoio à sua posição.

É oportuno recordar que Bento XVI reintroduziu, a partir do Corpus Domini de 2008, na liturgia papal, a administração exclusivamente na língua da Sagrada Comunhão.

A explicação de tal decisão é feita pelo Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice e publicada no site do Vaticano: recorda-se que, desde a época dos Padres, se começa a privilegiar a Comunhão na boca, essencialmente por dois motivos: para evitar ao máximo a dispersão dos fragmentos eucarísticos e favorecer o crescimento da devoção dos fiéis à presença real de Cristo na Eucaristia. Faz-se referência ao ensinamento de São Tomás de Aquino, que afirma que, por respeito ao Santíssimo Sacramento, a Eucaristia não deve ser tocada por nada que não seja consagrado, portanto, para além dos vasos sagrados e do corporal, só as mãos do sacerdote têm tal faculdade. Além disso, sublinha-se a necessidade de adorar o Senhor antes de recebê-lo, como recorda Santo Agostinho, e o estar de joelhos favorece precisamente essa atitude. Por fim, faz-se referência à advertência de João Paulo II de que nunca se corre o risco de exagerar quando se trata do cuidado do Mistério Eucarístico.           

Mas o próprio Bento XVI explicou esta escolha do seguinte modo: «Fazendo que a Comunhão seja recebida de joelhos e administrada na boca, quis dar um sinal de profundo respeito e colocar um ponto de exclamação sobre a presença real... queria dar um sinal forte; isto deve ser claro: “É qualquer coisa de particular! Aqui está Ele, é diante d’Ele que caímos de joelhos. Estai atentos! Não se trata de um ritual social em que se pode participar ou não”» (Bento XVI, Luce del mondo. Il Papa, la Chiesa e i segni dei tempi. Uma conversa com Peter Seewald, LEV, Cidade do Vaticano 2010, p. 219).       

A 10 de Abril de 2009, o Cardeal Antonio Cañizares Llovera, já nomeado Prefeito da Congregação para o Culto Divino, mas também Administrador Apostólico da Arquidiocese de Toledo, durante a celebração, na Catedral, da Santa Missa in Coena Domini, anunciou aos fiéis que, a partir daquele dia, no momento da Comunhão, seria colocado um genuflexório para convidar os fiéis a comungarem como deseja o Papa, colocando esta decisão numa tentativa de recuperar o sentido do sagrado na liturgia. A 27 de Julho de 2011, foi publicada, na ACI Prensa/EWTN Noticias, uma entrevista ao Prelado com o título: “Es recomendable comulgar en la boca y de rodillas” (“É recomendável comungar na boca e de joelhos”).         

O Cardeal Ranjith, sobretudo no período em que foi Arcebispo Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em 2008, por exemplo, constatando como a prática da Comunhão na mão se tornara, de facto, a prática regular para toda a Igreja, acredita que chegou a hora de considerar a possibilidade de abandoná-la, constatando todas as consequências negativas que trouxe, reconhecendo com muita humildade ter-se errado ao introduzi-la, esperando que a Comunhão na boca e de joelhos se tornasse a prática habitual para toda a Igreja.

Mas, além destas citações, o livro de Mons. Laise recebe posterior e autorizada confirmação do prefácio do Prefeito do Culto Divino, Card. Robert Sarah, ao texto do P. Federico Bortoli: é uma bela defesa da posição dos Papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Detemo-nos em algumas frases: «Vejamos agora como a fé na presença real pode influenciar o modo de receber a Comunhão e vice-versa. Receber a Comunhão na mão comporta, indubitavelmente, uma grande dispersão de fragmentos; pelo contrário, a atenção às mais pequenas migalhas, o cuidado a purificar os vasos sagrados, não tocar a Hóstia com as mãos suadas, tornam-se profissões de fé na presença real de Jesus, mesmo nas partes mais pequenas da espécie consagrada: se Jesus é a substância do pão eucarístico e se as dimensões dos fragmentos são apenas acidentes do pão, não importa quão grande ou pequeno é o pedaço de Hóstia! A substância é a mesma! É Ele! Pelo contrário, a falta de atenção aos fragmentos faz perder de vista o dogma: lentamente pode prevalecer o pensamento: “Se até o pároco não presta atenção aos fragmentos, se ele administra a Comunhão de modo que os fragmentos possam ser dispersos, então quer dizer que neles não está Jesus, ou está ‘até um certo ponto’”. “Porquê que insistimos em comungar em pé e na mão? Porquê esta atitude de falta de submissão aos sinais de Deus? Que nenhum sacerdote ouse pretender impor a própria autoridade sobre esta questão recusando ou maltratando aqueles que desejam receber a Comunhão de joelhos e na boca: venhamos como as crianças e recebamos humildemente de joelhos e na boca o Corpo de Cristo».                      

«O Senhor conduz o justo por “caminhos rectos” (cf. Sb 10, 10), não por subterfúgios; portanto, para além das razões teológicas mostradas acima, também a maneira como a prática da Comunhão na mão se espalhou parece ter-se imposto não de acordo com os caminhos de Deus». E conclui o Cardeal: «Possa este livro encorajar aqueles sacerdotes e aqueles fiéis que, também comovidos pelo exemplo de Bento XVI – que nos últimos anos do seu pontificado quis distribuir a Eucaristia na boca e de joelhos –, desejam administrar ou receber a Eucaristia deste último modo, muito mais adequado ao próprio Sacramento. Espero que possa haver uma redescoberta e uma promoção da beleza e do valor pastoral desta forma. Segundo a minha opinião e o meu juízo, esta é uma questão importante sobre a qual a Igreja de hoje deve reflectir. Este é mais um acto de adoração e de amor que cada um de nós pode oferecer a Jesus Cristo. Satisfaz-me muito ver tantos jovens que optam por receber Nosso Senhor tão reverentemente de joelhos e na boca».                 

Para terminar, gostaria de acrescentar um testemunho até agora inédito, a carta que Mons. Laise escreveu ao Papa Bento (com quem ele teve um longo relacionamento por tê-lo visitado várias vezes como Cardeal Prefeito da Doutrina da Fé) em 2005: «Creio também que o Sínodo sobre a Eucaristia deveria deter-se num exame de consciência sobre a extensão da permissão para dar a Comunhão na mão a quase todas as Igrejas locais, quando, em 1969, fora apenas concedida a algumas Igrejas europeias através de pedido específico dos seus pastores».   

P. Nicola Bux     

Através de La Nuova Bussola Quotidiana               

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