sábado, 22 de agosto de 2020

Adeus a Dom Forgeot: com ele, o monaquismo ganhou vida


No passado dia 15 de Agosto, solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, morreu Dom Antoine Forgeot, abade emérito da Abadia Beneditina de Notre-Dame de Fontgombault. Tinha oitenta e sete anos: uma meta talvez invejável, mas que empalidece em comparação com os seus 65 anos de vida monástica, assinalados no mesmo dia da sua morte, dos quais 43 vividos como abade, num período particularmente conturbado da história da Igreja.    

Tendo-se tornado abade em 1977, recebeu a herança de Dom Jean Roy, falecido, repentinamente, aos 56 anos, e de Dom Édouard Roux, primeiro abade de Fontgombault. A refundação da abadia é recente. Estamos em 1948 quando 22 monges de Solesmes decidem instalar-se em Fontgombault e, já cinco anos depois, em 1953, o mosteiro recupera o título abacial.        

A história de Fontgombault é uma história de florescimento, dor, morte e renascimento. As suas origens remontam ao século XI, quando, em 1091, o monge Petrus a Stella fundou ali um mosteiro beneditino; daí o extraordinário crescimento nos dois séculos seguintes, que levou à fundação de cerca de vinte priorados dependentes da Abadia. Depois, um progressivo e triste declínio até 1741, quando a comunidade, então reduzida a apenas cinco monges, deixou os edifícios para os Lazaristas, que os usaram como seminário. Mas o pior ainda devia acontecer e já estava às portas: em nome dos ideais “libertários” da Revolução Francesa, o mosteiro foi parcialmente destruído e o que restou tornou-se propriedade do Estado e foi vendido. 

Em 1849, os monges Trapistas conseguem resgatar a parte do mosteiro que sobreviveu à devastação e à decadência e voltam a restabelecer a vida monástica; mas apenas por pouco mais de cinquenta anos, porque, em 1904, a ruptura das relações entre a Santa Sé e a França obrigou os monges ao exílio. Poucos anos depois, em 1919, os edifícios voltaram a ser destinados ao uso religioso, tornando-se sede de um seminário interdiocesano até 1948, quando o edifício reencontrou a sua vocação monástica.           

O verdadeiro “milagre” de Fontgombault foi crescer nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, quando quase todos os mosteiros estavam em plena crise de identidade e vocações e oprimidos por um tsunami de saídas. Em 1971, durante o período abacial de Dom Roy, Fontgombault tem uma primeira fundação perto de Clermont-Ferrand, a Abadia de Notre-Dame de Randol; mas foi com Dom Forgeot que o “proliferação” se intensifica: em 1984, a Abadia de Fontgombault assumiu um castelo do século XVII, a Norte de Triors, e enviou quatorze monges para lá; hoje, a Abadia de Notre-Dame de Triors já tem mais de quarenta. Dez anos depois, Notre-Dame de Gaussan, uma comunidade monástica que, desde 2008, se mudou para Donezan, nos Pirenéus, e hoje acolhe cerca de vinte monges. Em 1999, as fundações de Fontgombault atravessaram o Oceano e chegaram a Oklahoma, Estados Unidos; treze monges, actualmente triplicados, fundam o priorado (mais tarde Abadia) de Our Lady of Clear Creek.       

Tudo é graça, mas, certamente, Deus gosta de associar os seus filhos à sua acção salvífica, sobretudo quando os encontra mansos e dóceis. É este o segredo de Dom Forgeot. Não se trata apenas um traço de carácter: Dom Forgeot foi um homem evangelicamente dócil, isto é, profundamente temente (no sentido bíblico do termo) e receptivo à grande Tradição da Igreja e à monástica, em particular ao legado de Dom Prosper Guéranger, o grande fundador da Congregação de França, da qual Solesmes é a abadia-mãe.      

Dom Antoine era tudo menos formalista: para ele, a tradição era vida, da qual haurir, à qual conformar-se, na consciência de que essa atitude para com a Tradição da Igreja não é uma forma de fixismo ou de despersonalização, mas uma entrada na vida de Deus e, portanto, verdadeira libertação do homem. Esta tradição viva envolvia-o totalmente, sobretudo na liturgia. Assim testemunha Dom Jean Pateau, seu sucessor desde 2011: «Quando se via o Padre Abade celebrar, ficava-se impressionado com a sua grande fidelidade às rubricas litúrgicas, mas também pela sua interioridade, pela sua anulação para se tornar o mais transparente possível ao mistério. Era como uma janela aberta para Deus».     

Aqui está, provavelmente, o segredo da sua fecundidade, da atracção que exercia sobre todos os que o conheciam; até o doce e humilde trato nada mais era do que a sua disposição essencial de deixar passar Deus. Dom Forgeot revela-nos a mais profunda característica – talvez inesperada – da Tradição da Igreja acolhida, preservada e transmitida: nos conteúdos, nos gestos, nos ritos observados com humildade e fidelidade é Deus que passa; o homem “desaparece” para dar Lhe dar espaço e é neste desaparecer que está toda a sua alegria e a sua realização. «Ele é que deve crescer e eu diminuir» (Jo 3, 30): as palavras de João Baptista são a síntese dos homens de Deus, que são, portanto, homens da Tradição. Não se trata de obstinação, de apego aos detalhes, mas de consciência do segredo da fecundidade: libertar-se dos próprios gostos, das próprias convicções para entrar no mundo de Deus.       

Nos anos da reforma litúrgica, procurou conciliar concretamente a sacralidade da liturgia com a prudência e um verdadeiro apego à Sé Apostólica. A princípio, o seu predecessor, Dom Roy, adoptou no mosteiro o Missal “experimental” de 1965; quando, em 1974, o Missal de Paulo VI a todos foi imposto, Dom Roy aceitou-o, embora estivesse bem ciente das suas limitações, mantendo o Ofício Divino monástico. Dom Forgeot acolheu esta herança, procurando dar toda a sua sacralidade à celebração eucarística segundo o chamado Novus Ordo; até 1984, ano em que consegue usar novamente o antigo Missal, embora não diariamente. Posteriormente, cinco anos depois, recebeu, da Comissão Ecclesia Dei, a autorização para poder usar habitualmente o Missal Tridentino, adoptando o novo calendário para o Santoral, bem como algum novo prefácio. Um caminho paciente, nem sempre fácil, feito de oração e de confiança em Deus.     

Dom Forgeot e Bento XVI estimavam-se reciprocamente e estavam ligados por uma sincera amizade e uma comunhão de pontos de vista, tanto no contexto litúrgico quanto na interpretação do Vaticano II. Dom Pateau testemunha que «depois da sua eleição como Papa, tive a oportunidade de conhecê-lo na companhia do Padre Abade Antoine. Lembro-me muito bem que estávamos ajoelhados aos pés do Santo Padre, que pegou nas minhas mãos e disse-me: “Continua fiel à herança do querido Padre Abade”».        

Esta herança não era “sua”: recebeu-a e transmitiu-a com fidelidade, inteligência e caridade pastoral. É por isso que Fontgombault não deixa de ser um mosteiro cheio de vida, um pulmão capaz de reoxigenar a Igreja nestes tempos tão difíceis. 

Luisella Scrosati          

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

1 comentário:

  1. Vejam este interessante vídeo e comprovem como tudo o que aqui é dito é a mais pura das verdades! Que Deus ajude e proteja o nosso queridíssimo Santo Padre Bento XVI Amén!
    https://www.youtube.com/watch?v=_FWaqisTE5E&t=1408s

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