quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A Assunção: um dogma para os nossos tempos



Há setenta anos, a 15 de Agosto de 1950, foi proclamado o dogma da Assunção ao Céu da Bem-Aventurada Virgem Maria. A promulgação do dogma ocorreu, a 1 de Novembro de 1950, com a constituição apostólica Munificentissimus Deus, mas Pio XII anunciou-o a 15 de Agosto, dia em que se celebra, desde há tempos imemoriais, a festa da Assunção.          

A Assunção é o trânsito da Santíssima Virgem, em corpo e alma, da terra para a vida celestial. Esta verdade da fé brota da Maternidade divina e da integridade virginal do Corpo de Maria. Sendo Maria Mãe de Deus e imune ao pecado original, não convinha que Ela fosse submetida à corrupção da morte, que é uma pena do pecado. O dogma da Imaculada Conceição é a premissa, a Assunção é a conclusão de uma visão coerente dos privilégios da Mãe de Deus.    

«Cristo – explica Pio XII na encíclica em que proclamou o dogma – com a Sua morte venceu o pecado e a morte; e sobre um e sobre a outra reclama vitória, em virtude de Cristo, quem foi sobrenaturalmente regenerado pelo Baptismo. Mas, pela lei geral, Deus não quer conceder aos justos o efeito pleno dessa vitória sobre a morte, excepto quando o fim dos tempos chegar».  

A seguir ao pecado original, também os corpos dos justos se dissolvem após a morte e somente no último dia cada um se reunirá com a própria alma gloriosa. «Mas Deus quis que a Bem-Aventurada Virgem Maria ficasse isenta desta lei geral. Ela, por privilégio inteiramente singular, venceu o pecado com a sua Imaculada Conceição; portanto, não foi submetida à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem deveis esperar a redenção do seu corpo até ao fim do mundo».   

A 30 de Outubro de 1950, nas vésperas do dia da definição do dogma, Pio XII teve a extraordinária graça de contemplar, nos jardins do Vaticano, o mesmo espectáculo do sol, girando no Céu como um globo de fogo, a que assistiram 70.000 peregrinos, em Fátima, Portugal, mais de trinta anos antes, a 13 de Outubro de 1917. A “dança do sol” repetiu-se diante dos olhos do Papa Pacelli a 31 de Outubro e a 8 de Novembro. O prodígio apareceu ao Pontífice como o selo celeste do dogma há pouco proclamado e o alento para desenvolver o grande movimento mariano que, depois da Imaculada Conceição e da Assunção, clamava pela proclamação da Mediação de Maria e da consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração.   

Eugenio Pacelli tinha sido sagrado Bispo, em Roma, a 13 de Maio de 1917, dia em que se iniciava o ciclo das aparições marianas aos três Pastorinhos de Fátima, Lúcia, Jacinta e Francisco, e a 31 de Outubro de 1942 consagrara a Igreja e o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Desde então, o nome e a mensagem de Fátima começaram a espalhar-se por todo o mundo católico. É por isso que muitos o consideravam o “Papa de Fátima” e estavam convencidos de que, durante o seu Pontificado, seriam atendidos os pedidos de Nossa Senhora aos três videntes da Cova da Iria: a difusão da prática reparadora dos primeiros sábados do mês e a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, feita solenemente pelo Papa em união com todos os Bispos do mundo.  

Infelizmente, as coisas aconteceram de forma diferente. Nem Pio XII, nem os Papas que o sucederam, atenderam plenamente estes pedidos. Todavia, a mensagem de Fátima ajuda-nos a iluminar, à luz da Assunção, outras verdades da fé católica e, em particular, as da Realeza de Maria e da sua Mediação universal.         

O dogma da Assunção está intimamente ligado ao privilégio da Realeza de Maria, pela qual Maria é coroada na glória celeste e reina sobre o céu e sobre a terra como soberana da Igreja militante, purgante e triunfante, rainha dos Anjos e dos Santos. O dia da Assunção é, de facto, o mesmo dia da glória e coroação de Maria no Céu e, se na eternidade se pudessem distinguir os dias, deveríamos dizer que não houve dia mais belo e extraordinário do que este.      

O grandioso desígnio que Deus, nas visões ilimitadas da Sua mente infinita, tinha previsto para Maria teve a sua plena realização no dia em que Nossa Senhora, deixando definitivamente a terra, foi colocada, em corpo e alma, no Céu, no trono da glória eterna. O profeta Elias foi transportado ao Céu por um carro de fogo que, segundo os intérpretes, era um grupo de Anjos que o ergueram da terra. Não foi apenas um grupo de Anjos que levou Maria ao Céu, mas, como diz Santo Afonso de Ligório na sua obra-prima As Glórias de Maria, foi o próprio Rei do Céu que veio buscá-la e a acompanhou ao Céu com toda a corte celeste. Por isso, São Pedro Damião define a Assunção de Maria como um espectáculo ainda mais glorioso do que a Ascensão de Jesus Cristo, porque só os Anjos vieram ao encontro do Redentor, enquanto que ao encontro de Nossa Senhora foi o próprio Senhor, Rei do Céu, com toda a multidão dos Anjos e dos Santos.      

No momento em que Nossa Senhora entrou no Céu, os habitantes da esfera celestial ficaram mudos diante de tamanha beleza e repetiram as palavras do Cântico dos Cânticos (VIII, 5); «Quem é essa que sobe do deserto?», «Quem é Ela?». Os Anjos que a acompanham respondem, segundo Santo Afonso, com estas palavras: «Esta é a Mãe do nosso rei, é a nossa rainha, é a bendita entre as mulheres: a cheia de graça, a santa dos santos, a amada de Deus, a imaculada, a pomba, a mais bela de todas as criaturas» (Glórias de Maria, 165).    

Mas se a mente humana, diz São Bernardo, não consegue compreender a imensa glória que Deus preparou no Céu para aqueles que O amaram na terra, quem conseguirá compreender, acrescenta Santo Afonso, que glória preparou Ele para a Sua dilecta Mãe, que na terra O amou mais do que todos os homens, na verdade, desde o primeiro momento em que foi criada, amou-O mais do que todos os homens e todos os Anjos juntos?         

Esperava-a um trono pensado e preparado para Ela desde a eternidade. O Céu foi iluminado por uma luz nova nunca antes vista. Maria foi elevada acima de todos os coros dos Anjos e dos Santos. Apenas um trono é superior ao seu, o de Jesus. Os outros estão todos abaixo. Santo Afonso diz que «visto que a Virgem Maria foi exaltada como a Mãe do Rei dos Reis, a Igreja, com justa razão, honra-a com o título de rainha». Pio XII, com a encíclica Ad Coeli Reginam, de 28 de Outubro de 1954, instituiu a festa de Maria Rainha, a ser celebrada, todos os anos e em todo o mundo, no dia 31 de Maio e ordenou que, nesse dia, fosse renovada a consagração do género humano ao Imaculado Coração de Maria.      

Coroando Nossa Senhora da Assunção como Rainha, o Senhor fê-la dispensadora de todas as graças.

Nossa Senhora já tinha sido associada, desde o seu primeiro Fiat, à obra redentora de Jesus. A obra da Redenção é um todo único que, não obstante, compreende duas partes: uma Jesus realizou-a com a Sua Paixão, associando a Si Nossa Senhora como “co-redentora”: nela foram adquiridas todas as graças necessárias para a nossa salvação. A segunda parte é a aplicação de tal tesouro das Graças e Jesus cumpre-a no Céu, associando a Si, mais uma vez, Nossa Senhora como medianeira de todas as graças. É uma verdade de imensa importância para a nossa vida espiritual, mas também para toda a humanidade. Na verdade, sabemos que nada podemos fazer sem a ajuda de Deus, mas, pelo contrário, com a ajuda de Deus tudo é possível. Esta ajuda de Deus vem por meio da Sua graça, à qual devemos corresponder com a nossa fé e com as nossas obras. A graça depende de Deus, mas Ele quis que a distribuição das graças dependesse de Nossa Senhora. Maria é a Medianeira universal e o canal por onde passam todas as graças. Se um homem, se uma nação, se um povo inteiro, pedem uma graça a Maria, obtê-la-ão. Caso contrário, perder-se-ão. Esta verdade de fé não precisa de ser crida por nós para ser verdadeira. É verdade independentemente de nós, mas, crendo nesta verdade, professando-a, em palavras e na prática, obteremos todos os benefícios. E dos benefícios da graça, nos tempos difíceis em que vivemos, temos uma extraordinária necessidade. Precisamos nós, cada um de nós, individualmente; precisam as nossas famílias; precisa a nossa nação; precisa, sobretudo, a Igreja, que vive uma hora dramática da sua história.           

Devemos rezar para que, depois de setenta anos da Assunção, a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria seja cumprida e novos dogmas marianos sejam proclamados pela Igreja. A proclamação oficial de um grande dogma mariano, o da mediação universal de Maria e da sua co-redenção da humanidade, poderia oferecer uma resposta decisiva à crise do nosso tempo: mostrar à humanidade que só em Maria e graças a Maria pode encontrar uma âncora de salvação face aos problemas que a afligem.    

Por vezes, temos a impressão de nos encontrarmos nas trevas, mas olhando para cima, para Nossa Senhora, um pedaço de Céu parece rasgar-se e vislumbramos o espectáculo deslumbrante de Nossa Senhora que veio, em pessoa, a Fátima prometer-nos o seu reino no Céu e na terra com as palavras: Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. Aqueles que confiam n’Ela não se desiludirão.       

Roberto de Mattei

Através de Corrispondenza Romana

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