segunda-feira, 31 de agosto de 2020

“Vai-te confessar”, ordenou-lhe Nossa Senhora



Na Alemanha, no início do século XVIII, um homem cometeu um pecado grave. A vergonha impedia-o de se confessar, mas ele vivia atormentado pelo remorso e decidiu suicidar-se por afogamento. Mas, quando chegou à beira da água, não mergulhou e, chorando amargamente, implorou a Deus que o perdoasse, mesmo sem a confissão.      

Durante várias noites seguidas, sentiu que alguém lhe tocava no ombro e ouviu: “Vai-te confessar”, mas ele não ia. A vergonha continuava a impedi-lo. Então, finalmente, ele foi para a igreja, mas, mais uma vez, não encontrou coragem para se confessar e, ao regressar a casa, teve a inspiração de rezar, pedindo a ajuda da Virgem Maria. 

Ao ajoelhar-se, sentiu que já não era a mesma pessoa. Voltou à igreja, pediu um confessor e declarou os seus pecados com grande contrição. Afirmou, então, que sentira mais alegria durante aquela confissão do que se tivesse ganho todo o ouro do mundo!  

Santo Afonso Maria de Ligório, in Glórias de Maria   

domingo, 30 de agosto de 2020

Para alcançar a humildade, é necessário aceitar as provações!



Estando Gertrudes a rezar por uma pessoa que tinha proferido palavras de impaciência, perguntando por que razão Deus lhe enviava provações que não eram feitas para ela, o Senhor disse-lhe: «Pergunta-lhe quais são as provações que são feitas para ela e diz-lhe que, como é impossível entrar no Reino dos Céus sem passar por provações, escolha as que são feitas para ela e, quando estas lhe acontecerem, tenha paciência». Estas palavras do Senhor permitiram-lhe compreender que a forma mais perigosa de paciência é a pessoa imaginar que aceitaria bem ser paciente noutras ocasiões, mas que não pode sê-lo naquelas que Deus lhe envia, quando, pelo contrário, temos de estar seguros de que o mais vantajoso para nós é, precisamente, aquilo que Deus envia e que, se não conseguirmos suportá-lo com paciência, temos de tomar disso ocasião para a humildade.

E o Senhor acrescentou, com ternura amorosa: «E tu, que te parece, no que te diz respeito? Não Me acontece enviar-te provações que não são feitas para ti?». Ela respondeu-Lhe: «De maneira nenhuma, meu Deus, mas confesso e confessarei até ao último suspiro que, tratando-se do corpo ou da alma, da prosperidade ou da adversidade, me governastes com tal perfeição de constância que não seria possível esperá-la da sabedoria de tempo algum, desde o começo do mundo até ao seu termo, senão de Vós, meu Deus, infinitamente terno, única Sabedoria incriada, que se estende de uma extremidade à outra do mundo, regendo todas as coisas com força e ternura» (cf Sb 8, 1).

Santa Gertrudes de Helfta, in O Arauto, Livro III, SC 143

sábado, 29 de agosto de 2020

Colômbia: revogar os Tribunais Superiores e anular o Acordo de Havana



Numa decisão histórica, o Supremo Tribunal de Justiça ordenou a prisão preventiva do ex-Presidente e Senador Álvaro Uribe Vélez, acusado dos supostos crimes de suborno de testemunhas e fraude processual. Essa decisão, sem precedentes no sistema de justiça colombiano, não foi tomada com base em pressupostos de justiça, mas atendendo a pretensões perversas da extrema-esquerda para demolir a ordem jurídica da Nação.        

Ver Álvaro Uribe Vélez na prisão é o que sempre quiseram as FARC e os seus perversos aliados: o narcotráfico, o Fórum de São Paulo e a conspiração de todas as forças comunistas do Ocidente. Quando Vélez foi Presidente da Colômbia, entre 2002 e 2010, a sua determinação em derrotar a guerrilha e a subversão salvou o País, razão pela qual todas as forças de esquerda exigem agora vingança. É também, sem dúvida, a consequência lógica e inevitável do Acordo de Paz assinado com as FARC, que foi diligentemente implementado pelo actual Presidente Ivan Duque.

O absurdo e desproporcionado auto de 1554 páginas do Supremo Tribunal Federal, ordenando a prisão do ex-Presidente Uribe, seria desnecessário se verdadeiras fossem as acusações e conclusivas as provas, pois se houvesse razões para ordenar a sua captura, algumas páginas de motivação seriam suficientes. Além disso, tal decisão judicial excessiva constitui uma violação ostensiva do devido processo e do direito de defesa, uma vez que os advogados de Uribe tiveram apenas três dias úteis para contestar tal avalanche de divagações.           

A Justiça foi penetrada pelos piores criminosos

Enquanto Álvaro Uribe foi Presidente da Colômbia, os confrontos do Tribunal com ele foram permanentes. O País esqueceu que, durante o seu mandato, o Presidente Uribe denunciou os narcotraficantes Giorgio Sale, que dava presentes caros aos magistrados, e Ascencio Reyes Serrano, que colocou um avião à disposição deles para que viajassem por diversas cidades do País participando em festas e recebendo homenagens.

Quando o terrorista Raul Reyes, segundo homem das FARC, foi morto numa operação militar, realizada na fronteira com o Equador, em 2008, o próprio Tribunal determinou que as informações contidas nos computadores, apreendidos pelo Exército Nacional às FARC na referida operação, não poderiam ser consideradas como prova legal. Para o Tribunal, essas informações
de vital importância para conhecer as alianças e cumplicidades das FARC na Colômbia e no Equador teriam sido obtidas ilegalmente, no exterior, pelas autoridades colombianas e a sua apreensão não contou com o consentimento das autoridades equatorianas.

Anos depois, em 2017, outros juízes do Supremo Tribunal demonstraram, mais uma vez, o abismo da desonra a que chegou a Justiça na Colômbia. Alguns deles estavam a vender sentenças e absolvições, em troca de grandes somas de dinheiro, para deixar impunes os responsáveis
​​por casos de corrupção extremamente graves envolvendo governadores, deputados e altos funcionários do Estado, que gozam de jurisdição especial e só podem ser julgados por aquele Tribunal.

Por tal escândalo foram julgados, até agora, três ex-Presidentes desse Tribunal Superior: Francisco Ricaurte, que está preso; Leónidas Bustos, foragido no Canadá; e Camilo Tarquino, que está a ser julgado. Além disso, o magistrado Gustavo Malo foi demitido e está preso, vários magistrados auxiliares do Tribunal já foram condenados e outros ainda estão a ser julgados. Também foi condenado e preso o chefe da Unidade Anti-corrupção do Ministério Público, Luis Gustavo Moreno, encarregado de arrecadar o dinheiro dos subornos e que, após a sua captura, confessou como funcionava a corrupção no Tribunal.

Noutro caso escandaloso, em 2019 o Tribunal decidiu libertar o guerrilheiro das FARC conhecido como Jesús Santrich, que tinha sido preso, em flagrante delito, a fazer negócios de tráfico de drogas, negando a sua extradição para os Estados Unidos. Isto permitiu-lhe ocupar um lugar no Parlamento, a qual lhe foi concedida graças ao Acordo com as FARC sem necessidade de nenhum voto electivo. Fugiu imediatamente.

Talvez em nenhum Supremo Tribunal de qualquer país livre do mundo tenha havido antecedentes de semelhante grau de corrupção, a ponto de a sabedoria popular apelidar os magistrados corruptos dos Tribunais Superiores de Cartel da Toga. Na Colômbia, temos um Tribunal que persegue, por motivos políticos, apenas aqueles que professam ideias opostas às suas, mas não os milhares de criminosos que estão em liberdade nas ruas. Temos um Tribunal Constitucional que se tornou um órgão legislativo paralelo, que expede ordens a todas as instituições do Estado e modifica a legislação em vigor sob o pretexto de interpretar a Constituição e que também protege, com a sua jurisprudência, os 250 mil hectares plantados com coca, que são, em grande parte, das FARC. Por fim, existe a Jurisdição Especial de Paz, que é um tribunal criado no âmbito do Acordo de Paz para conceder aos guerrilheiros das FARC a mais absoluta impunidade pelos crimes cometidos. 

Esta realidade escabrosa mostra-nos, mais uma vez, a degradação da nossa justiça, enquanto o País dorme na mais profunda indolência. É de se esperar que a Colômbia desperte agora que parece começar a perseguição contra aqueles que se opuseram às pretensões das FARC e de outros grupos terroristas. Esse conjunto de factos mostra uma realidade fantástica, nunca imaginada por ninguém, mais parecida com um romance de ficção científica.

Os tribunais corruptos e prevaricadores devem ser revogados

Essas são as consequências da indolência de muitos colombianos, que foram alertados por Tradición e Acción e por algumas vozes isoladas a respeito do que está estabelecido no Acordo de Paz de Havana, mas que na época não foram ouvidas. Somente agora parecem acordar e dar-se conta de que os inimigos da Pátria querem subjugar-nos, fazer da Colômbia um reduto de miséria e opressão, o que já é uma realidade em alguns dos nossos vizinhos. Que ninguém se engane! O monstro criado pela esquerda não se apazigua com pequenas concessões. Ele quer toda a Colômbia: agora e para sempre! Isso precisa de ser impedido, pois sempre se pode rectificar o caminho errado.
Mas é indispensável começar agora!

A corrupção que atingiu a administração da justiça é tão grave que somos obrigados a proclamar ser imperativo revogar todos os magistrados dos Tribunais Superiores. Todos os magistrados do Supremo Tribunal de Justiça, do Tribunal Constitucional, do Conselho de Estado e do Conselho Superior da Magistratura Judicial devem ser imediatamente substituídos por juristas honestos – existem muitos – e acabar, assim, com este cancro que nos leva ao caos. Isso é o que a maioria de nós, colombianos, deseja que o Governo faça.

Por fim, como solução para a profunda crise que atravessa a Colômbia, o Presidente da República deve declarar nulo o Acordo de Paz de Havana, o qual já fora rejeitado no Referendo de 2016. Esta promessa foi feita por ele e pelo seu Partido, o Centro Democrático, durante a campanha presidencial de 2018, graças à qual recebeu o apoio esmagador de mais de dez milhões de votos. Consequentemente, tudo o que foi feito até agora para implementar esse Acordo é ilegal, ilegítimo, espúrio e contrário à Constituição. O povo colombiano, num mandato soberano que deve ser honrado e acatado por todos os poderes do Estado, rejeitou, nas urnas, por decisão maioritária, o Acordo de Paz. E o que todos os Tribunais fizeram, com a cumplicidade do Congresso da República e do ex-Presidente Santos, foi exactamente o contrário: reconheceram o Acordo de Paz e, por meio de uma legislação ilegítima chamada fast track, elevaram-no a norma constitucional.

Há poucos dias, um confuso tribunal de justiça da cidade de Cali, violando a Constituição, tentou proibir o Presidente da República de invocar a protecção sobrenatural da Virgem de Chiquinquirá, que é a padroeira da Colômbia. Como católicos, dirigimo-nos com devoção a Ela para implorar-lhe que conceda à nossa Pátria um verdadeiro e honesto sistema de justiça, de acordo com os nossos princípios e valores cristãos.

Sociedad Colombiana Tradición y Acción
Eugenio Trujillo Villegas – Director

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Diante de Deus...



Diante de Deus, está sempre a descoberto o abismo da consciência humana: que poderia haver de oculto em mim para Deus, por mais que eu não quisesse dizer a verdade? Conseguiria apenas ocultar Deus aos meus olhos, mas não poderia ocultar-me dos Seus.     

Santo Agostinho.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Vigiemos!



Estai atentos às minhas palavras e prestai atenção aos meus humildes discursos; a todos vós brado, a todos vós exorto: «Elevai-vos a Deus, desfazei-vos do apego às vossas paixões!». Eis o que vos diz o profeta: «Vinde, subamos à montanha do Senhor e à casa do Deus de Jacob» (Is 2, 3), a casa da impassibilidade, e contemplemos com os olhos do intelecto a alegria que nos está reservada pelas promessas celestes.          

Meus filhos bem-amados, congregai o vosso ardor, tomai asas de fogo como as pombas, conforme está escrito, levantai voo (cf Sl 54, 7) e passai para as fileiras da direita (cf Mt 25, 33), que são as da virtude. Acolhei a alegria, o desejo espiritual e apaixonado de Deus. Experimentai a enorme doçura do seu amor (cf Ap 10, 9-10) e, considerando todas as coisas secundárias por Ele, pisai a vã glória, o desejo da carne e a cólera feroz!     

Preparemos as túnicas, estejamos alerta, tenhamos o olhar penetrante e o voo rápido para a viagem que nos leva da Terra ao Céu! É certo que os viajantes podem ter de sofrer, e isso também nos acontece a nós: vedes, com efeito, que sofreis em duros trabalhos, que vos cansais, que trabalhais a terra até perder o alento, que derramais o vosso suor, que estais prestes a perder as forças, famintos, sedentos, que um se esforça a lavrar, o outro a trabalhar a vinha, um terceiro a fazer o azeite, ou a cozinhar, a construir, a fazer o pão e a tratar do celeiro, cada um no seu lugar. Todos avançam pelo caminho de Deus, aproximando-se da grande cidade, e, pela morte, todos terão acesso à inefável alegria dos bens que Deus reserva àqueles que O tiverem amado.

Possamos nós ser julgados dignos do Reino de Cristo, nosso Deus, ao qual pertencem a glória e o poder, com o Pai e o Espírito Santo, agora e pelos séculos dos séculos, ámen.

São Teodoro Estudita, in Catequese 16

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Mons. Gilles Wach reeleito Superior-Geral do Instituto de Cristo Rei



No passado dia 24 de Agosto, festa de São Bartolomeu, Apóstolo, o Capítulo Geral do Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote reuniu-se, em Gricigliano, Itália, para eleger o Superior-Geral. Na presença de Mons. Patrick Incorvaja, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, o Capítulo do florescente Instituto reelegeu Mons. Gilles Wach como Superior-Geral para os próximos seis anos.         

Já ontem, segundo dia do Capítulo, Sua Eminência o Cardeal Raymond Burke proferiu uma conferência sobre a virtude da Obediência, a que se seguiu uma Santa Missa Pontifical celebrada pelo Purpurado norte-americano, na qual foi renovado o Sagrado Compromisso do Governo do Instituto, terminando com aperitivos servidos no jardim da Casa Geral, na Arquidiocese de Florença, e com uma fotografia de família.     

O Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote foi fundado, por Mons. Gilles Wach e pelo P. Philippe Mora, em 1990, no Gabão. O Instituto, presente em mais de cinquenta Dioceses de doze Países, conta com um ramo feminino, as Adoradoras do Coração Real de Jesus Cristo Sumo Sacerdote, e é uma Sociedade Apostólica de Direito Pontifício cujo fim é a santificação dos sacerdotes ao serviço da Igreja e das almas, tendo um particular cunho missionário que se traduz na propagação do Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo em todos os ambientes da vida humana. Parte integrante do ICRSP é a Liturgia Tradicional de 1962.

Créditos fotográficos ao Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote

terça-feira, 25 de agosto de 2020

São Luís IX: rei, estadista, guerreiro e homem de piedade


Hoje é a festa de São Luís, rei, confessor, modelo de estadista católico. Participou em duas Cruzadas, a sua relíquia venera-se na nossa capela, século XIII.        

Como sempre, há dois São Luís. A piedade sentimental formou uma imagem de São Luís muito diferente da imagem verdadeira. Acho interessante, por exemplo, quando se veem certas imagens de São Pio X e se as compara com a fotografia de São Pio X que está numa das salas da nossa sede. A fotografia dá a impressão de um homem agigantado no físico, forte na alma, rei espiritual consciente da sua dignidade e um espírito sobrenatural, uma coisa magnífica.  

A imagem é de um avozinho velhinho, alquebrado, com uma carinha de quem pede desculpa por ser Papa, uma certa vergonha por não ser padre-operário. Há um Pio X de legenda da piedade sentimental e um São Pio X verdadeiro, histórico, herói do anti-modernismo, etc.     

Com São Luís acontece a mesma coisa. Em primeiro lugar, há uma primeira imagem, que é a eterna história de São Luís sentado debaixo do carvalho de Vincennes distribuindo justiça. De maneira que se tem a singular impressão de um rei que morava debaixo das árvores, que, podendo dispor de um mundo de castelos, tendo que sustentar a pompa e a representação do primeiro reino da Cristandade, tendo que gerir todo um Estado, fazer guerras etc., não achava nada melhor do que puxar uma cadeirinha debaixo de uma árvore e ficar distribuindo justiça, atendendo. Naturalmente, absolvendo toda a gente, rodeado de uma réplica plebeia dele mesmo, tratando de coisas que não supõem argúcia, engenho, não supõem força de vontade: toda a gente imbecilizada em volta. O rei abóbora (amolecido), com um monte de aboborinhas em volta, aboborando em baixo de um carvalho. Essa seria a imagem “oficial” de São Luís.     

Essa imagem é explorada para se opor aos Reis que vieram depois. Então, Luís XIV no fastígio da sua glória, Castelo de Versailles, quarto de dormir pomposo etc., isso seria o rei errado. O rei simples é o rei marmiteiro, que julgava debaixo do carvalho de Vincennes.

É o momento de dissociarmos essas imagens e nos lembrarmos de alguns traços da vida de São Luís. Entre outros traços, convém lembrar São Luís como estadista, São Luís como guerreiro, São Luís como homem de piedade.       

Primeiro, devemos considerar um aspecto importante da sua vida: São Luís como rei da monarquia orgânica. Ele não foi, nem um pouco, daquele tipo de rei fait néant (que não faz nada) que abandonava todas as prerrogativas reais nas mãos dos vassalos. Pelo contrário, ele era verdadeiramente cioso do poder real e, se os vassalos procuraram enfrentar ou diminuir o poder real, ele várias vezes resistiu de frente e manteve as prerrogativas reais. 

Por outro lado, ele era tão cioso da autonomia dos senhores feudais, dos respectivos feudos, que dele se conta, entre outros, este pequeno facto: estava a rezar na Igreja e, num botequim perto da igreja, começaram a fazer desordem, perturbando a sua oração. Então, perguntaram-lhe por que não dava ordens para que aqueles botequineiros saíssem e acabassem com a desordem. A resposta dele: “mande procurar quem é o senhor desse feudo e diga-lhe que reprima esse abuso”. Seria tão natural uma ordem directa do rei de França, mas vejam a preocupação de observar, nos seus graus, os condutos feudais e de respeitar as várias hierarquias que estavam debaixo dele, para o bom amor dessa organicidade da estrutura feudal, que ele respeitava escrupulosamente, dentro dos limites em que devia ser respeitada. O que é profundamente diferente de Luís XIV, de Luís XIII, de Henrique IV, para não falar senão deles, pois poderíamos ir até Luís XI, destruidores sistemáticos da hierarquia feudal.  

Por outro lado, foi também São Luís que cuidou das corporações e mandou fazer o assento dos regulamentos dos costumes das corporações, dando estrutura e estabilidade às organizações plebeias que constituíam as unidades autónomas dentro da plebe, sendo um alentador de toda a forma de autonomia no seu reino, dentro do qual ele era o centro de gravidade enérgico e vivo.         

São Luís defendeu as prerrogativas da autoridade real, não só contra insurrectos de toda a espécie, mas até contra a Santa Sé. Está no seu processo de canonização, que foi amplamente estudado, que a Santa Sé, tendo querido fazer ingerências, de carácter político, imoderadas na França, São Luís resistiu de frente e levou as coisas longe até obter que essas ingerências cessassem.  

São Luís cruzado: São Luís, ao ser citado como cruzado, faz parte da legenda ele a morrer de peste em Tunis. Então, é o rei doente, deitado num colchão como os pobres assistidos pela Conferência de São Vicente de Paulo, toda a gente tem pena, enterra-se com lamurios e derrotado. A realidade histórica tem algo disso, mas não só isso. Devemos lembrar São Luís desembarcando, como descreve Joinville, todo armado, magnífico, o homem mais alto do seu exército, um capacete luzidio, com armadura de ouro; quando a sua barca tocou no Egipto, ele tinha tal sanha de combater que saltou armado dentro do mar e, à frente dos seus homens, saltou para terra e começou a combater.     

Depois, todos os feitos que realizou nas cruzadas, que o sagraram como um guerreiro perfeito. Isso deveríamos pôr ao lado do guerreiro ferido, doente, do guerreiro padecente que imita a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e, com isso, se torna imensamente venerável. É juntando todos esses aspectos que temos uma imagem adequada do rei São Luís.

Essa imagem deve-nos levantar a pergunta: um rei, nessas condições, é verdadeiramente amado pelo povo? O povo francês compreendia o que era esse rei? Há uma prova que é verdadeiramente tocante. As moedas da Idade Média são, em geral, caras, mas as mais baratas dentre essas moedas são as do rei São Luís. Porque, quando ele morreu, o povo começou a guardar as suas moedas, porque tinham a sua efígie, como lembrança e como medalha. Por causa disso, conservaram-se em incontáveis lares franceses, de maneira que são as mais baratas das moedas medievais, provando o respeito e veneração dos franceses pelo seu rei. Isto indica bem que a virtude, quando bem praticada, quando vivida de um modo autêntico, só pode produzir, no povo, uma reacção boa e, se não produz uma reacção boa, é porque o povo não presta.   

Aqui temos uma linda oração do Condestável Du Guesclin, companheiro de Santa Joana d’Arc – portanto, muito posterior a São Luís –, feita a São Luís:        

«Guardai-me puro como o lírio do vosso brasão, vós, que mantínheis a vossa palavra mesmo dada ao infiel, fazei que jamais a mentira passe pela minha boca, ainda que a franqueza me devesse custar a vida. Homem de proezas, incapaz de recuos, cortai as pontes para os meus fingimentos e que caminhe sempre para o ponto mais duro do combate».

«Guardai-me puro como o lírio do vosso brasão». A castidade do guerreiro católico. «Vós que mantínheis a vossa palavra, mesmo se dada a um infiel, fazei que jamais a mentira passe pela minha garganta, ainda que a franqueza me devesse custar a vida». Quer dizer, a verdade deve ser dita mesmo diante dos mais fortes e ainda que custe a vida, mas não mentir por medo de ninguém.   

Ainda que a minha vida esteja ameaçada, direi ao forte que me oprime a verdade inteira. «Homem de proezas, incapaz de recuos» – era o voto do cavaleiro que nunca recuava em batalha – «cortai as pontes às minhas acomodações e que eu sempre marche para o mais duro», é o mais duro da batalha, mas também o mais duro em tudo; o mais duro da vida, o mais duro em todas as situações.        

Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de uma conferência de 25 de Agosto de 1964

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O valor infinito da Santa Missa



Cada Missa, seja onde for e seja qual for a santidade do sacerdote, tem sempre um valor infinito. Explicamos o porquê.

Enquanto cada oração – ainda que importante – tem um valor finito, porque é o homem que reza a Deus e se oferece a Ele, a Missa tem sempre um valor infinito porque é o próprio Deus que se oferece ao Pai. Portanto, se é Deus que se oferece na Missa, esta tem um valor infinito, porque Deus tem um valor infinito.   

Vamos dar um exemplo. Peguemos numa balança, uma daquelas antigas, com os clássicos dois pratos. Num prato colocamos todas as orações deste mundo e no outro uma única Missa. Pois bem, a balança penderá apenas para o lado da Missa. Mais acções finitas formam uma realidade finita, o infinito permanece sempre infinito. Se estas coisas se compreendessem, as pessoas correriam continuamente para assistir à Missa. São Pio de Pietrelcina (1887-1968) dizia: «Se as pessoas soubessem o que é Missa, seriam necessários polícias em frente às igrejas para controlar as multidões». E o Santo Capuchinho disse ainda: «É mais fácil para o mundo ficar sem o sol do que sem a Missa».     

Um dia, há muitos anos atrás, numa pequena aldeia do Luxemburgo, um capitão da Guarda Florestal estava a conversar com o talhante quando uma senhora idosa chegou. O talhante perguntou à idosa: «De que precisa, senhora?». A mulher respondeu: «Um pedaço de carne, mas não tenho dinheiro para pagar». O capitão, que lá se encontrava, sorriu visivelmente pensando na estranheza do pedido. O talhante retorquiu: «Só um pedaço de carne, mas como me retribuirá?». A idosa disse, então, ao talhante: «Lamento não ter dinheiro, mas em troca prometo, hoje, assistir à Missa por si». Como o talhante e o capitão eram muito cépticos em relação à religião, começaram a rir. «Muito bem – disse o talhante –, pode ir à Missa por mim, voltar e dar-lhe-ei o equivalente ao valor da Missa». A senhora foi à Missa naquele dia e, depois, regressou. Dirigiu-se ao balcão e o talhante disse-lhe: «Pegue neste papel e escreva...». E a anciã escreveu: “Ofereci a Missa por si”. O talhante colocou o papel num prato da balança e, do outro lado, um miserável osso... o papel era mais pesado. Depois, colocou um pedaço de carne no lugar do osso, mas o papel foi ficando mais pesado... Os dois homens começaram a espantar-se, mas não desistiram. Um grande pedaço de carne foi colocado na balança, mas o papel estava a ficar mais pesado. Inquieto e preocupado, o talhante examinou a balança, mas funcionava muito bem. «O que quer, senhora...? Devo dar-lhe uma perna inteira de ovelha?». O talhante colocou a perna de ovelha na balança, mas o papel estava a ficar mais pesado. Colocou um pedaço de carne ainda maior, mas o peso ficou sempre do lado do papel. O facto impressionou tanto o talhante que ele prometeu à idosa dar-lhe carne todos os dias em troca de uma oração oferecida por ele durante a Missa. E converteu-se. O capitão também ficou muito abalado e ia à Missa todos os dias. Dois dos seus filhos tornaram-se sacerdotes, um Jesuíta e o outro Sacerdote do Sagrado Coração, era o famoso Padre Estanislau, grande apóstolo do Sagrado Coração. Chegou a contar: «Sou um religioso do Sagrado Coração e o capitão era meu pai. Depois dessa demonstração, o meu pai tornou-se um grande fervoroso da Missa diária e nós, seus filhos, seguimos o seu exemplo. Se puderdes, ide à Missa todos os dias, conseguireis tudo e transformar-vos-eis».              

Através de Il Cammino dei Tre Sentieri

domingo, 23 de agosto de 2020

A firmeza da Santa Igreja



Sentimo-nos cheios de segurança na cidadela da Santa Igreja. Nunca as promessas de Cristo deixaram de se cumprir; pelo contrário, mostram-se-nos ainda mais consolidadas pelas provas de tantos séculos e as vicissitudes de tantos acontecimentos. 

Os reinos e os impérios desmoronaram-se; povos que a glória do seu nome e da sua civilização tinha tornado célebres desapareceram. Assistimos à desagregação de nações, como que esmagadas pela própria vetustez. Mas a Igreja é, por natureza, imortal; o laço que a liga a seu celeste Esposo não se quebrará jamais, e ela não pode ser afectada pela caducidade, permanecendo, pelo contrário, florescente de juventude, sempre transbordante da força com a qual surgiu do coração trespassado de Cristo morto na cruz. Os poderosos da Terra ergueram-se contra ela; eles desapareceram e ela permanece! Os mestres de sabedoria imaginaram, no seu orgulho, uma variedade infinita de sistemas capazes, pensavam eles, de pôr em causa os ensinamentos da Igreja, de abalar os dogmas da fé, de demonstrar o absurdo do seu magistério. A história mostra-nos que tais sistemas caíram no esquecimento, arruinados em toda a sua dimensão. E, entretanto, do alto da cidadela de Pedro, a verdadeira luz resplandece com todo o fulgor que lhe foi transmitido por Cristo desde as origens e que Ele alimenta com esta sentença divina: «O céu e a Terra passarão, mas as minhas palavras não passarão» (Mt 24, 35).      

Por isso, dirigi os passos da vossa alma, tal como os começastes, para a firmeza desta rocha; foi sobre ela, como sabeis, que o nosso Redentor fundou a Igreja em todo o mundo, de sorte que os corações sinceros, orientando por ela a sua marcha, não se percam.

São Pio X, in Encíclica Iucunda Sane (12 de Março de 1904)

sábado, 22 de agosto de 2020

Adeus a Dom Forgeot: com ele, o monaquismo ganhou vida


No passado dia 15 de Agosto, solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, morreu Dom Antoine Forgeot, abade emérito da Abadia Beneditina de Notre-Dame de Fontgombault. Tinha oitenta e sete anos: uma meta talvez invejável, mas que empalidece em comparação com os seus 65 anos de vida monástica, assinalados no mesmo dia da sua morte, dos quais 43 vividos como abade, num período particularmente conturbado da história da Igreja.    

Tendo-se tornado abade em 1977, recebeu a herança de Dom Jean Roy, falecido, repentinamente, aos 56 anos, e de Dom Édouard Roux, primeiro abade de Fontgombault. A refundação da abadia é recente. Estamos em 1948 quando 22 monges de Solesmes decidem instalar-se em Fontgombault e, já cinco anos depois, em 1953, o mosteiro recupera o título abacial.        

A história de Fontgombault é uma história de florescimento, dor, morte e renascimento. As suas origens remontam ao século XI, quando, em 1091, o monge Petrus a Stella fundou ali um mosteiro beneditino; daí o extraordinário crescimento nos dois séculos seguintes, que levou à fundação de cerca de vinte priorados dependentes da Abadia. Depois, um progressivo e triste declínio até 1741, quando a comunidade, então reduzida a apenas cinco monges, deixou os edifícios para os Lazaristas, que os usaram como seminário. Mas o pior ainda devia acontecer e já estava às portas: em nome dos ideais “libertários” da Revolução Francesa, o mosteiro foi parcialmente destruído e o que restou tornou-se propriedade do Estado e foi vendido. 

Em 1849, os monges Trapistas conseguem resgatar a parte do mosteiro que sobreviveu à devastação e à decadência e voltam a restabelecer a vida monástica; mas apenas por pouco mais de cinquenta anos, porque, em 1904, a ruptura das relações entre a Santa Sé e a França obrigou os monges ao exílio. Poucos anos depois, em 1919, os edifícios voltaram a ser destinados ao uso religioso, tornando-se sede de um seminário interdiocesano até 1948, quando o edifício reencontrou a sua vocação monástica.           

O verdadeiro “milagre” de Fontgombault foi crescer nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, quando quase todos os mosteiros estavam em plena crise de identidade e vocações e oprimidos por um tsunami de saídas. Em 1971, durante o período abacial de Dom Roy, Fontgombault tem uma primeira fundação perto de Clermont-Ferrand, a Abadia de Notre-Dame de Randol; mas foi com Dom Forgeot que o “proliferação” se intensifica: em 1984, a Abadia de Fontgombault assumiu um castelo do século XVII, a Norte de Triors, e enviou quatorze monges para lá; hoje, a Abadia de Notre-Dame de Triors já tem mais de quarenta. Dez anos depois, Notre-Dame de Gaussan, uma comunidade monástica que, desde 2008, se mudou para Donezan, nos Pirenéus, e hoje acolhe cerca de vinte monges. Em 1999, as fundações de Fontgombault atravessaram o Oceano e chegaram a Oklahoma, Estados Unidos; treze monges, actualmente triplicados, fundam o priorado (mais tarde Abadia) de Our Lady of Clear Creek.       

Tudo é graça, mas, certamente, Deus gosta de associar os seus filhos à sua acção salvífica, sobretudo quando os encontra mansos e dóceis. É este o segredo de Dom Forgeot. Não se trata apenas um traço de carácter: Dom Forgeot foi um homem evangelicamente dócil, isto é, profundamente temente (no sentido bíblico do termo) e receptivo à grande Tradição da Igreja e à monástica, em particular ao legado de Dom Prosper Guéranger, o grande fundador da Congregação de França, da qual Solesmes é a abadia-mãe.      

Dom Antoine era tudo menos formalista: para ele, a tradição era vida, da qual haurir, à qual conformar-se, na consciência de que essa atitude para com a Tradição da Igreja não é uma forma de fixismo ou de despersonalização, mas uma entrada na vida de Deus e, portanto, verdadeira libertação do homem. Esta tradição viva envolvia-o totalmente, sobretudo na liturgia. Assim testemunha Dom Jean Pateau, seu sucessor desde 2011: «Quando se via o Padre Abade celebrar, ficava-se impressionado com a sua grande fidelidade às rubricas litúrgicas, mas também pela sua interioridade, pela sua anulação para se tornar o mais transparente possível ao mistério. Era como uma janela aberta para Deus».     

Aqui está, provavelmente, o segredo da sua fecundidade, da atracção que exercia sobre todos os que o conheciam; até o doce e humilde trato nada mais era do que a sua disposição essencial de deixar passar Deus. Dom Forgeot revela-nos a mais profunda característica – talvez inesperada – da Tradição da Igreja acolhida, preservada e transmitida: nos conteúdos, nos gestos, nos ritos observados com humildade e fidelidade é Deus que passa; o homem “desaparece” para dar Lhe dar espaço e é neste desaparecer que está toda a sua alegria e a sua realização. «Ele é que deve crescer e eu diminuir» (Jo 3, 30): as palavras de João Baptista são a síntese dos homens de Deus, que são, portanto, homens da Tradição. Não se trata de obstinação, de apego aos detalhes, mas de consciência do segredo da fecundidade: libertar-se dos próprios gostos, das próprias convicções para entrar no mundo de Deus.       

Nos anos da reforma litúrgica, procurou conciliar concretamente a sacralidade da liturgia com a prudência e um verdadeiro apego à Sé Apostólica. A princípio, o seu predecessor, Dom Roy, adoptou no mosteiro o Missal “experimental” de 1965; quando, em 1974, o Missal de Paulo VI a todos foi imposto, Dom Roy aceitou-o, embora estivesse bem ciente das suas limitações, mantendo o Ofício Divino monástico. Dom Forgeot acolheu esta herança, procurando dar toda a sua sacralidade à celebração eucarística segundo o chamado Novus Ordo; até 1984, ano em que consegue usar novamente o antigo Missal, embora não diariamente. Posteriormente, cinco anos depois, recebeu, da Comissão Ecclesia Dei, a autorização para poder usar habitualmente o Missal Tridentino, adoptando o novo calendário para o Santoral, bem como algum novo prefácio. Um caminho paciente, nem sempre fácil, feito de oração e de confiança em Deus.     

Dom Forgeot e Bento XVI estimavam-se reciprocamente e estavam ligados por uma sincera amizade e uma comunhão de pontos de vista, tanto no contexto litúrgico quanto na interpretação do Vaticano II. Dom Pateau testemunha que «depois da sua eleição como Papa, tive a oportunidade de conhecê-lo na companhia do Padre Abade Antoine. Lembro-me muito bem que estávamos ajoelhados aos pés do Santo Padre, que pegou nas minhas mãos e disse-me: “Continua fiel à herança do querido Padre Abade”».        

Esta herança não era “sua”: recebeu-a e transmitiu-a com fidelidade, inteligência e caridade pastoral. É por isso que Fontgombault não deixa de ser um mosteiro cheio de vida, um pulmão capaz de reoxigenar a Igreja nestes tempos tão difíceis. 

Luisella Scrosati          

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O grande triunfo de Thomas Hobbes na crise do COVID-19



Thomas Hobbes (1588-1679) foi um teórico político e filósofo inglês, autor do livro Leviatã (1651). Na obra Leviatã, Hobbes explanou os seus pontos de vista sobre a natureza humana e sobre a necessidade de um governo e de uma sociedade fortes. Nesse livro, o autor expõe a teoria do Contrato Social, que, segundo ele, é a única maneira de explicar como os homens possam viver em sociedade sem se matarem uns aos outros. Jean-Jacques Rousseau foi o mais famoso formulador dessa teoria, no fim do século XVIII, na Revolução Francesa.

Para Hobbes, a única forma de impedir a «guerra de todos contra todos» é através da presença de uma autoridade à qual os membros da sociedade devem render parte da sua liberdade natural em troca da paz interna e da defesa comum assegurada por um único soberano, uma autoridade inquestionável.

Antigamente, as pessoas enfrentavam desafios e riscos para obter grandes coisas na vida. Entendiam que há bens que são mais altos do que o sucesso material e mesmo a própria vida. Esses bens incluíam grandes feitos, expressões artísticas e santidade pessoal. Essas realizações trouxeram honra, glória e salvação àqueles que realizaram grandes feitos.

A presente crise do COVID-19 mostrou uma mudança fundamental de mentalidade que aflige a era da post modernidade. Muitos agora acreditam que a finalidade da vida é viver da maneira mais confortável e segura possível. Qualquer risco ou desafio tem de ser evitado a todo o custo. Esse quadro reflecte o trágico triunfo das ideias do filósofo Thomas Hobbes do século XVII.

Hobbes e o mundo do egoísmo

Thomas Hobbes não foi um homem de altos ideais. O seu mundo era um mundo pragmático de egoísmo e paixões, que acreditava serem os elementos que regiam a vida dos seres humanos.

No mundo de Hobbes, as pessoas já não precisam de agir em função do mais alto bem em união com Deus. Como, de facto, as pessoas são motivadas pelo medo do mal pior, são condicionadas pelo supremo terror em face da morte. Hobbes declarou que «todo o homem tem o desejo de obter o que é bom para si e odeia o que é mau para si, mas, especialmente, o pior dos males naturais: a morte». Assim, a finalidade da vida era satisfazer as paixões que o seu egoísmo e interesse pessoal mostravam e, ao mesmo tempo, evitar a morte o mais possível.


Ao mesmo tempo, Hobbes não era tão boçal para não perceber que as pessoas guerreiam entre si quando procuram diferentes finalidades egoísticas ao mesmo tempo. Isso foi a razão pela qual defendia a ideia de um Estado centralizado e forte, que chamou de Leviatã – título do seu principal livro –, para harmonizar esse conflito natural de interesses que, se não fosse controlado, se tornaria «a guerra de todo o homem contra todo o homem».

Um bem organizado e poderoso governo, no seu tempo um monarca absoluto, asseguraria essa cooperação e o bem estar da nação.

Visão do COVID-19 segundo Hobbes


Essa filosofia tóxica está hoje em dia a orientar a política para lidar com a crise do coronavírus. As medidas que se veem tomar são baseadas no medo irracional da morte, de Hobbes, tomado ao extremo. Os Hobbesianos de hoje dizem que o mais alto bem é a própria vida e que absolutamente tudo deve ser feito para se evitar a morte.

Assim, quando a crise do coronavírus nos atingiu, tudo foi fechado. A ideia era evitar qualquer risco, sem considerar se era remoto ou pequeno. No momento em que um possível caso de COVID-19 aparece, por exemplo, toda a área tem de ser fechada. Qualquer pessoa que o paciente de COVID-19 tenha contactado deve entrar numa quarentena voluntária. Prevalece um sentimento de pânico. Nenhum risco pode deixar de ser considerado. As medidas mais absurdas são tomadas para prevenir a mínima possibilidade de uma só morte.

Dessa maneira, nos EUA centenas de condados através do País, nos quais ninguém morreu de COVID-19, foram fechados e a sua vida comercial, social e religiosa completamente interrompidas. O Walmart permaneceu aberto, mas as igrejas foram fechadas a despeito da falta de evidência de que os serviços religiosos espalham o vírus mais do que ir comprar coisas ao supermercado. O medo irracional da morte criou uma atmosfera de paranoia. A obrigatoriedade das normas sanitárias tornou-se rígida e sem concessões. As normas draconianas deixaram de lado o bom senso e não deram margem a nenhuma excepção.

O medo irracional da morte não é natural e causa muito stress. Acaba por conduzir a conflitos com aqueles que questionam a sabedoria da supressão da maioria das actividades. Essa é a razão pela qual a visão Hobbesiana do COVID-19 necessita do Leviatã, o estado ditatorial e aplicação coercitiva de regras sem sentido. O Leviatã é necessário para manter as pessoas obedientes através do medo da morte.

A crise do COVID-19 acabou a promover políticas socialistas de governo que procuram controlar a vida das pessoas sob o pretexto de salvar vidas. Ameaça a sociedade com uma cura que é muito pior que a doença.

Destruindo a sociedade para salvar vidas


Há dois problemas principais com a política Hobbesiana do COVID-19.

O primeiro é que cria um clima de pânico que paralisa qualquer actividade. A paralisação radical torna-se a atitude padrão. Acometidas de pânico, as pessoas fogem do perigo sem medir as consequências.

A mentalidade da paralização total é de agir primeiro e lidar com as consequências depois. Num sistema que não permite nenhum risco, o lockdown é a única solução possível. E os governos socialistas estão mais do que dispostos a implementá-lo.

Contudo, tal solução nada resolve. Já todos se aperceberam que esta política demonstrou ser extremamente destrutiva. No pânico de salvar uma só vida, muitas mais vidas estão-se a perder. O inútil encerramento de hospitais impediu inúmeras pessoas de obter tratamento e diagnósticos de que precisavam. Dezenas de milhares de vidas perderam-se ou foram encurtadas. O absurdo encerramento de uma inteira economia provocou uma crise económica sem precedentes que já está a pesar fortemente na vida da população, mas vai pesar ainda muito mais nos próximos anos. As incertezas e medo da crise estão a afectar a saúde psicológica de milhões de pessoas. Isso está a provocar um aumento de depressão e suicídios.

De uma perspectiva religiosa, a interrupção da vida sacramental de incontáveis católicos causou um grande sofrimento espiritual e pôs em risco a salvação de inúmeras almas. Alguns morreram sem a Confissão ou os últimos Sacramentos.

O medo irracional Hobbesiano da morte resulta em desnecessárias mortes que não foram evitadas e vidas que não valem mais ser vividas.

Imobilizando a sociedade

O segundo problema com a política Hobbesiana do COVID-19 é que essa não permite que se encontre a solução para a crise. A sociedade que não aceita riscos pode evitar os perigos de um desastre, mas, ao mesmo tempo, liquida qualquer possibilidade de triunfo. A América está agora acorrentada através dessa política. Normalmente, a vida tem riscos. Fazer qualquer coisa com um mínimo de importância pressupõe riscos. As pessoas podem vencer obstáculos e inventar soluções originais somente quando não têm medo de falhar.

O problema com o medo Hobbesiano irracional da morte é que mesmo os riscos razoáveis são postos de lado. As mais comuns actividades diárias, como conduzir um carro, envolvem riscos, mas, mesmo assim, toda a gente sabe disso, mede as consequências e age de acordo. Muitas dessas actividades de rotina são muito mais cheias de risco que o perigo de contrair coronavírus. Infelizmente, com o medo a orientar todas as fontes de decisão, a crise do COVID-19 paralisa toda a actividade comercial e social.

Por exemplo, a maior parte dos mais importantes distritos escolares não terão a coragem de manter aulas presenciais neste Outono. Consideram-no inseguro. Essas medidas serão tomadas apesar de que The Wall Street Journal (Junho 13-14) relata que crianças abaixo de 14 anos são 6,8 a 17 vezes menos susceptíveis de morrer de COVID-19 do que da gripe ou pneumonia sazonais. As crianças são também 128 vezes mais susceptíveis de morrer de um acidente qualquer. A educação de incontáveis crianças vai sofrer sem necessidade por causa da paralização e da falta de coragem da parte dos políticos, educadores e pais.

Naturalmente, neste cenário a única entidade suficientemente grande para actuar sem medo de retaliação é o grande governo. A culpa pode ser distribuída a uma vasta rede de burocracia. O governo pode diminuir a dor causada pelos seus erros com uma maciça distribuição de dólares de débito.

Mas, numa sociedade razoável, as pessoas sabem como avaliar o perigo e esses problemas podem ser muito diminuídos.

O pesadelo Hobbesiano


A solução Hobbesiana é muito mais um pesadelo do que uma opção. Hobbes ensinou às pessoas a soltar as rédeas das suas paixões e desejos, mas, ao mesmo tempo, a cooperar com os outros por medo da morte. Ele declarou que não existe «finis ultimus, um fim último, nem um summum bonum, um grande bem, se ensinava nos livros dos antigos filósofos de moral».

A perspectiva mórbida de Hobbes declara que não há bens maiores do que o sucesso material e mesmo a vida. As pessoas são reduzidas à mediocridade dos seus caprichos e desejos.


[Hobbes diz que o ser humano não tem, de facto, uma finalidade para a vida. Os Homens são naturalmente anarquistas e só criam problemas uns aos outros.]

Ao contrário, a Igreja ensina ao fiel como se preparar para a morte, fazendo o indivíduo centrar-se no supremo bem, que é o próprio Deus. Os cristãos praticam a virtude por amor a Deus. Os cristãos são ensinados que há bens mais preciosos que a própria vida – como a virtude da Fé. Os muitos Santos e Mártires da Igreja são um testemunho dessa recta e devidamente ordenada escala de valores.

O fracasso de Hobbes

Deus estabeleceu a Igreja, através da qual as pessoas possam viver em comunidade, amando-se e ajudando-se mutuamente por amor d’Ele. Hobbes, em vez disso, queria um Leviatã de um governo central para evitar que as pessoas se matassem umas às outras enquanto iam atrás dos seus interesses egoísticos.

A maior parte dos esquemas filosóficos modernos mostraram-se inaplicáveis. Hobbes não é excepção. O desastre do COVID-19 representa o triunfo do pesadelo de Hobbes: promete a cooperação e o governo ditatorial diante do medo da morte por COVID-19.

O esquema não está a funcionar. Em vez disso, Hobbes deu-nos uma «guerra de todos contra todos».

John Horvat II 

Através de Return to Order

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

O silêncio dos fiéis



Há algum tempo, durante a Santa Missa dominical numa importante paróquia de Milão, o celebrante revelou um dado arrepiante: após a reabertura, na diocese ambrosiana, apenas 30% dos fiéis voltaram a frequentar as igrejas, “as famílias e as crianças desapareceram totalmente”. A situação não é muito melhor no resto da Itália.

Sem malícia, pensei: abandonastes os fiéis durante o período mais crítico da pandemia, agora eles pagam-vos com a mesma moeda.          

A pandemia do COVID-19 mostrou o pior lado da crise que, há mais de meio século, atormenta a Santa Madre Igreja: o abandono consciente e voluntário da sua missão salvífica por parte de muitos pastores. Os italianos ficaram chocados quando a Conferência Episcopal Italiana (CEI) suspendeu o culto público antes mesmo de o Governo decretar o seu bloqueio, privando, assim, os fiéis dos Sacramentos. Ao lockdown social juntou-se, desse modo, o espiritual, muito mais implacável. Tivemos a situação bizarra de supermercados e tabacarias estarem abertos, mas as cerimónias religiosas serem proibidas. Embora as pessoas pudessem tranquilamente fazer compras ou comprar cigarros, muitas morreram sem o auxílio do sacramento da Penitência e da Unção dos Enfermos. Mais de um Bispo até emitiu normas para proibirem os sacerdotes de se expor assistindo os enfermos. Exactamente o oposto do que a Igreja fez durante dois mil anos.                

Alguns sacerdotes corajosos, desafiando as imposições da CEI, procuraram celebrar a Missa com algumas pessoas presentes, ou ao ar livre, em perfeito cumprimento das normas sanitárias. Foram severamente punidos com pesadas multas e até ameaçados de prisão. Chegou-se ao escândalo da invasão de algumas igrejas, pela polícia, com interrupção sacrílega do Santo Sacrifício. Não apenas as autoridades eclesiásticas não protestaram contra esses actos de perseguição religiosa, mas também se aliaram com o Governo, censurando os sacerdotes “rebeldes”. Provavelmente, nunca na história da Itália a Igreja se tenha mostrado tão submissa ao Estado. 

Quando, cedendo ao clamor dos fiéis escandalizados, a CEI começou, finalmente, a levantar um pouco a voz em defesa da liberdade religiosa, esta foi imediatamente silenciada pelo Papa Francisco que, desde a cátedra de Santa Marta, exortou os Bispos a «obedecerem às disposições do Governo».         

A esta atitude servil em relação a César devemos adicionar os esforços de tantos pastores no negar qualquer significado espiritual para a pandemia. É um castigo divino? O pensamento católico tradicional tê-lo-ia considerado, pelo menos, como uma hipótese. É inegável que a Providência usa, por vezes como causas secundárias, eventos naturais como “punições” pelos pecados da humanidade. Em Fátima, por exemplo, Nossa Senhora definiu explicitamente as duas guerras mundiais como punições. Hoje, porém, esta palavra está absolutamente excluída do vocabulário católico. O Bispo de Fátima, o Cardeal António Marto, chegou a dizer: «Falar desta pandemia como castigo é ignorância, fanatismo e loucura». Recusam-se a falar de pecado público. Recusam-se a chamar os fiéis à conversão. Em suma, recusam-se a cumprir o próprio dever como pastores de almas.        

E os fiéis reagiram distanciando-se, não reconhecendo mais neles a voz do verdadeiro pastor...           

Dizem que o silêncio dos súbditos é uma lição para os Reis. O que podemos dizer do silêncio dos fiéis?     

Julio Loredo      

Através de Fatima Oggi

A Assunção: um dogma para os nossos tempos



Há setenta anos, a 15 de Agosto de 1950, foi proclamado o dogma da Assunção ao Céu da Bem-Aventurada Virgem Maria. A promulgação do dogma ocorreu, a 1 de Novembro de 1950, com a constituição apostólica Munificentissimus Deus, mas Pio XII anunciou-o a 15 de Agosto, dia em que se celebra, desde há tempos imemoriais, a festa da Assunção.          

A Assunção é o trânsito da Santíssima Virgem, em corpo e alma, da terra para a vida celestial. Esta verdade da fé brota da Maternidade divina e da integridade virginal do Corpo de Maria. Sendo Maria Mãe de Deus e imune ao pecado original, não convinha que Ela fosse submetida à corrupção da morte, que é uma pena do pecado. O dogma da Imaculada Conceição é a premissa, a Assunção é a conclusão de uma visão coerente dos privilégios da Mãe de Deus.    

«Cristo – explica Pio XII na encíclica em que proclamou o dogma – com a Sua morte venceu o pecado e a morte; e sobre um e sobre a outra reclama vitória, em virtude de Cristo, quem foi sobrenaturalmente regenerado pelo Baptismo. Mas, pela lei geral, Deus não quer conceder aos justos o efeito pleno dessa vitória sobre a morte, excepto quando o fim dos tempos chegar».  

A seguir ao pecado original, também os corpos dos justos se dissolvem após a morte e somente no último dia cada um se reunirá com a própria alma gloriosa. «Mas Deus quis que a Bem-Aventurada Virgem Maria ficasse isenta desta lei geral. Ela, por privilégio inteiramente singular, venceu o pecado com a sua Imaculada Conceição; portanto, não foi submetida à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem deveis esperar a redenção do seu corpo até ao fim do mundo».   

A 30 de Outubro de 1950, nas vésperas do dia da definição do dogma, Pio XII teve a extraordinária graça de contemplar, nos jardins do Vaticano, o mesmo espectáculo do sol, girando no Céu como um globo de fogo, a que assistiram 70.000 peregrinos, em Fátima, Portugal, mais de trinta anos antes, a 13 de Outubro de 1917. A “dança do sol” repetiu-se diante dos olhos do Papa Pacelli a 31 de Outubro e a 8 de Novembro. O prodígio apareceu ao Pontífice como o selo celeste do dogma há pouco proclamado e o alento para desenvolver o grande movimento mariano que, depois da Imaculada Conceição e da Assunção, clamava pela proclamação da Mediação de Maria e da consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração.   

Eugenio Pacelli tinha sido sagrado Bispo, em Roma, a 13 de Maio de 1917, dia em que se iniciava o ciclo das aparições marianas aos três Pastorinhos de Fátima, Lúcia, Jacinta e Francisco, e a 31 de Outubro de 1942 consagrara a Igreja e o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Desde então, o nome e a mensagem de Fátima começaram a espalhar-se por todo o mundo católico. É por isso que muitos o consideravam o “Papa de Fátima” e estavam convencidos de que, durante o seu Pontificado, seriam atendidos os pedidos de Nossa Senhora aos três videntes da Cova da Iria: a difusão da prática reparadora dos primeiros sábados do mês e a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, feita solenemente pelo Papa em união com todos os Bispos do mundo.  

Infelizmente, as coisas aconteceram de forma diferente. Nem Pio XII, nem os Papas que o sucederam, atenderam plenamente estes pedidos. Todavia, a mensagem de Fátima ajuda-nos a iluminar, à luz da Assunção, outras verdades da fé católica e, em particular, as da Realeza de Maria e da sua Mediação universal.         

O dogma da Assunção está intimamente ligado ao privilégio da Realeza de Maria, pela qual Maria é coroada na glória celeste e reina sobre o céu e sobre a terra como soberana da Igreja militante, purgante e triunfante, rainha dos Anjos e dos Santos. O dia da Assunção é, de facto, o mesmo dia da glória e coroação de Maria no Céu e, se na eternidade se pudessem distinguir os dias, deveríamos dizer que não houve dia mais belo e extraordinário do que este.      

O grandioso desígnio que Deus, nas visões ilimitadas da Sua mente infinita, tinha previsto para Maria teve a sua plena realização no dia em que Nossa Senhora, deixando definitivamente a terra, foi colocada, em corpo e alma, no Céu, no trono da glória eterna. O profeta Elias foi transportado ao Céu por um carro de fogo que, segundo os intérpretes, era um grupo de Anjos que o ergueram da terra. Não foi apenas um grupo de Anjos que levou Maria ao Céu, mas, como diz Santo Afonso de Ligório na sua obra-prima As Glórias de Maria, foi o próprio Rei do Céu que veio buscá-la e a acompanhou ao Céu com toda a corte celeste. Por isso, São Pedro Damião define a Assunção de Maria como um espectáculo ainda mais glorioso do que a Ascensão de Jesus Cristo, porque só os Anjos vieram ao encontro do Redentor, enquanto que ao encontro de Nossa Senhora foi o próprio Senhor, Rei do Céu, com toda a multidão dos Anjos e dos Santos.      

No momento em que Nossa Senhora entrou no Céu, os habitantes da esfera celestial ficaram mudos diante de tamanha beleza e repetiram as palavras do Cântico dos Cânticos (VIII, 5); «Quem é essa que sobe do deserto?», «Quem é Ela?». Os Anjos que a acompanham respondem, segundo Santo Afonso, com estas palavras: «Esta é a Mãe do nosso rei, é a nossa rainha, é a bendita entre as mulheres: a cheia de graça, a santa dos santos, a amada de Deus, a imaculada, a pomba, a mais bela de todas as criaturas» (Glórias de Maria, 165).    

Mas se a mente humana, diz São Bernardo, não consegue compreender a imensa glória que Deus preparou no Céu para aqueles que O amaram na terra, quem conseguirá compreender, acrescenta Santo Afonso, que glória preparou Ele para a Sua dilecta Mãe, que na terra O amou mais do que todos os homens, na verdade, desde o primeiro momento em que foi criada, amou-O mais do que todos os homens e todos os Anjos juntos?         

Esperava-a um trono pensado e preparado para Ela desde a eternidade. O Céu foi iluminado por uma luz nova nunca antes vista. Maria foi elevada acima de todos os coros dos Anjos e dos Santos. Apenas um trono é superior ao seu, o de Jesus. Os outros estão todos abaixo. Santo Afonso diz que «visto que a Virgem Maria foi exaltada como a Mãe do Rei dos Reis, a Igreja, com justa razão, honra-a com o título de rainha». Pio XII, com a encíclica Ad Coeli Reginam, de 28 de Outubro de 1954, instituiu a festa de Maria Rainha, a ser celebrada, todos os anos e em todo o mundo, no dia 31 de Maio e ordenou que, nesse dia, fosse renovada a consagração do género humano ao Imaculado Coração de Maria.      

Coroando Nossa Senhora da Assunção como Rainha, o Senhor fê-la dispensadora de todas as graças.

Nossa Senhora já tinha sido associada, desde o seu primeiro Fiat, à obra redentora de Jesus. A obra da Redenção é um todo único que, não obstante, compreende duas partes: uma Jesus realizou-a com a Sua Paixão, associando a Si Nossa Senhora como “co-redentora”: nela foram adquiridas todas as graças necessárias para a nossa salvação. A segunda parte é a aplicação de tal tesouro das Graças e Jesus cumpre-a no Céu, associando a Si, mais uma vez, Nossa Senhora como medianeira de todas as graças. É uma verdade de imensa importância para a nossa vida espiritual, mas também para toda a humanidade. Na verdade, sabemos que nada podemos fazer sem a ajuda de Deus, mas, pelo contrário, com a ajuda de Deus tudo é possível. Esta ajuda de Deus vem por meio da Sua graça, à qual devemos corresponder com a nossa fé e com as nossas obras. A graça depende de Deus, mas Ele quis que a distribuição das graças dependesse de Nossa Senhora. Maria é a Medianeira universal e o canal por onde passam todas as graças. Se um homem, se uma nação, se um povo inteiro, pedem uma graça a Maria, obtê-la-ão. Caso contrário, perder-se-ão. Esta verdade de fé não precisa de ser crida por nós para ser verdadeira. É verdade independentemente de nós, mas, crendo nesta verdade, professando-a, em palavras e na prática, obteremos todos os benefícios. E dos benefícios da graça, nos tempos difíceis em que vivemos, temos uma extraordinária necessidade. Precisamos nós, cada um de nós, individualmente; precisam as nossas famílias; precisa a nossa nação; precisa, sobretudo, a Igreja, que vive uma hora dramática da sua história.           

Devemos rezar para que, depois de setenta anos da Assunção, a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria seja cumprida e novos dogmas marianos sejam proclamados pela Igreja. A proclamação oficial de um grande dogma mariano, o da mediação universal de Maria e da sua co-redenção da humanidade, poderia oferecer uma resposta decisiva à crise do nosso tempo: mostrar à humanidade que só em Maria e graças a Maria pode encontrar uma âncora de salvação face aos problemas que a afligem.    

Por vezes, temos a impressão de nos encontrarmos nas trevas, mas olhando para cima, para Nossa Senhora, um pedaço de Céu parece rasgar-se e vislumbramos o espectáculo deslumbrante de Nossa Senhora que veio, em pessoa, a Fátima prometer-nos o seu reino no Céu e na terra com as palavras: Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. Aqueles que confiam n’Ela não se desiludirão.       

Roberto de Mattei

Através de Corrispondenza Romana

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Relato da quarta aparição de Nossa Senhora em Fátima (19/08/1917)



«– Que é que Vossemecê me quer?    

– Quero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13, que continueis a rezar o Terço todos os dias. No último mês, farei o milagre para que todos acreditem. [Se não tivessem abalado contigo para a Aldeia seria o Milagre mais conhecido; havia de vir São José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo e havia de vir Nosso Senhor benzer o povo, vinha Nossa Senhora do Rosário com um Anjo de cada lado e Nossa Senhora com um arco de flores à roda.]    

– Que é que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?

– Façam dois andores: um leva-lo tu com a Jacinta e outras duas meninas, vestidas de branco; o outro leva-o o Francisco com três meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário e o que sobrar é para a ajuda duma capela que hão-de mandar fazer.   

– Queria pedir-lhe a cura dalguns doentes.

– Sim, alguns curarei durante o ano.

E tomando um aspecto mais triste:    

Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios por os pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas».

terça-feira, 18 de agosto de 2020

O caso das fontes milagrosas de Fátima


«Senhor, dá-me dessa água…»[1]
O caso das fontes milagrosas de Fátima

Introdução       
É inquestionável que as Aparições da Santíssima Virgem Maria em Fátima, entre Maio e Outubro de 1917[2], foram o grande acontecimento do século XX. Sinal concreto da Providência de Deus para uma Igreja perseguida, fruto da funesta, porque assumidamente igualitária, maçónica e anti-católica, I República Portuguesa, nascida ironicamente a 5 de Outubro de 1910[3], e para um Mundo e um País em guerra e a braços com o infame comunismo soviético.

Ao contrário do que acontecera, em 1858, em Lourdes, nos Altos Pirenéus franceses, na Cova da Iria, quase seis décadas depois, não brotou água alguma. Aliás, esse era, precisamente, um facto que constituía, para a população de Fátima e das povoações vizinhas, uma adversidade sem solução consistente à vista e que unicamente era aligeirada mediante o armazenamento das águas pluviais. A seguir às Aparições, esta escassez de água levantava um outro sério problema: como é que os peregrinos poderiam ir até um lugar sem água?  

Mediante este brevíssimo e imperfeito trabalho, pretende-se dar resposta a esta e a outras questões que, ao longo de décadas, têm surgido acerca deste empreendimento divino que, há mais de cem anos, tem sido uma verdadeira fonte de bênçãos e de graças de Nossa Senhora. 

Tal trabalho deve-se, antes de mais, à bondade da Virgem Santíssima, Senhora do Rosário de Fátima e Mãe do Bom Conselho, poderosa e imbatível intercessora junto do Trono do Altíssimo, e, ainda, à preciosa colaboração e constantes incentivos de quem, ao longo de meses, me fez chegar inúmeras fontes documentais que permitiram a redacção deste sucinto escrito.         

Fátima à época das Aparições de Nossa Senhora
Segundo os dados dos Recenseamentos Gerais da População[4], em 1911, seis anos antes das Aparições, viviam aproximadamente 2.300 pessoas na freguesia de Fátima. Já os dados de 1920 apontam para um ligeiro crescimento na casa das 160 cabeças[5]. Os habitantes da localidade dedicavam-se, essencialmente, à agricultura e à pastorícia, caso dos pais de Lúcia dos Santos[6], de Jacinta[7] e de Francisco Marto[8]. Em Aljustrel, lugar de origem dos Pastorinhos, viviam unicamente 25 famílias. Esta região caracterizava-se por ser possuidora de um solo calcário e, desse modo, incapaz de absorver e conservar a humidade, o que provocava, como referido na introdução, uma grande escassez de água. Foi neste contexto que, em 1917, a Santíssima Virgem visitou o seu povo, escolhendo três pobres crianças para transmitirem ao Mundo a sua mensagem de conversão, penitência e reparação, desgraçadamente ainda não atendida.     

Da falta de água à construção de uma capela
«Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o Terço todos os dias»[9]. Foi desta forma que, na sexta aparição de Nossa Senhora em Fátima, a 13 de Outubro de 1917, a Senhora do Rosário pediu, à Lúcia, a construção de uma capela na Cova da Iria, pedido esse que, pouco tempo depois, se viria a concretizar e que levou alguns devotos locais a assumirem totalmente a construção de uma capela junto à azinheira onde aparecera a Mãe de Deus.  

Quando a Igreja tomou a responsabilidade da dita capela e aprovou o culto público, aumentou significativamente a afluência de fiéis e logo surgiu o desejo de, à semelhança de Lourdes, se edificarem «construções maravilhosas»[10] em honra de Nossa Senhora. A recém-restaurada[11] Diocese de Leiria tinha por Bispo o Sr. D. José Alves Correia da Silva[12] que, a partir daquele momento, assumiu a direcção da grande obra que visava fazer daquele lugar árido e deserto uma autêntica «cidade da Virgem»[13]. Tanto para as obras como para o abastecimento dos peregrinos e dos animais, como também para dar resposta aos inúmeros pedidos de água por devoção e para cura de doenças, era necessário que no lugar houvesse água em abundância, razão pela qual, a 9 de Novembro de 1921, depois da primeira Santa Missa campal rezada na Cova da Iria, foi feita a primeira sondagem, a uma distância de quarenta metros, que, pouco tempo depois, viria a ter como resultado prático o surgimento de água em fartura. Porém, pouco tempo depois do início das obras que tinham como objectivo aumentar a capacidade do poço, a água praticamente desapareceu, havendo como relato a indicação de se ver «apenas lacrimejar uma das paredes»[14].   

«Felizes os que creem sem terem visto[15]. Não obstante a lição dada a Tomé, a seguir à Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, muitos católicos, entre os quais alguns sacerdotes, não acreditavam na natureza sobrenatural dos acontecimentos de Fátima, sendo que muitos afirmavam só acreditar nos acontecimentos caso, naquela planície seca, surgisse água. Foi assim que, no principiar de Novembro de 1922, ao serem concluídas as obras do primeiro poço, possuidor de inúmeros metros de profundidade, a límpida água oriunda da nascente, ao rebentar com força depois das primeiras chuvas do Outono, encheu totalmente o reservatório, como, note-se, puderam constatar in loco os numerosos peregrinos presentes. Posteriormente, por ordem eclesiástica, foram abertos mais dois poços que, fornecendo água abundante, saciavam a sede dos peregrinos e lhes forneciam água para fins devocionais, permitiam aos habitantes abastecer-se e foram essenciais para o desenrolar das obras. É de notar que o segundo poço, com maior largura e profundidade em comparação com o primeiro, foi construído para armazenar as águas que, por ocasião do Inverno, transbordavam do primeiro. Depois de concluído, jorrou tanta água a partir do meio e do fundo que, em poucas horas, ficou completamente cheio. Estes acontecimentos, inicialmente considerados impossíveis, foram um dos factores decisivos para a conversão de muitos daqueles que, anteriormente, duvidavam de Fátima, chegando, sublinhe-se, a tornar-se grandes e incansáveis apóstolos da sua Mensagem.    

Fonte inesgotável de curas e de graças
As fontes de Fátima, como me permito denominar os benditos poços abertos na Cova da Iria, logo se tornaram fonte inesgotável das curas e das graças com que Nossa Senhora, por intermédio do seu Divino Filho, brindou e continua a brindar tantos dos seus filhos. Eis três relatos, número escolhido em honra e louvor da Santíssima Trindade, de curas associadas à utilização piedosa da água proveniente de Fátima:          

1. O primeiro relato diz respeito a uma jovem de vinte e dois anos, Cecília Augusta Gouveia Prestes, natural de Torres Novas, que, depois de ter sido diagnosticada com tuberculose peritoneal e ao saber que uma das irmãs lhe colocava água de Fátima nos alimentos que tomava, decidiu peregrinar a Fátima para lhe serem administrados os últimos Sacramentos. A verdade é que, a 13 de Julho de 1923, no regresso de Fátima, sentiu profundas melhoras e, depois de ter sido consultada pelo seu médico, não lhe foi encontrado qualquer sintoma da tuberculose de que padecia[16].

2. O sucessivo relato é feito pelo médico de Ana da Cunha, também ela oriunda de Torres Novas, a quem apareceu um tumor ósseo no maxilar inferior. Depois de consultados diversos médicos e de uma falhada tentativa de operação em Coimbra, foi comunicado ao seu marido que, na melhor das hipóteses, poderia viver mais um ano. O marido, aquando do surgimento de uma ferida provocada pelo cancro, começou a tratá-la com água de Fátima e, pouco tempo depois, a enferma ficou totalmente recuperada[17].          

3. «Ó minha Mãe Santíssima, dai-me os alívios e a minha cura!». Foi desta forma que Maria José dos Santos Nunes, de Lisboa, se dirigiu a Nossa Senhora do Rosário de Fátima pedindo que fosse curada do grande mal que, em Maio de 1924, com apenas dezoito anos, lhe fora diagnosticado: tuberculose pulmonar. A família, profundamente crente, costumava enrolar-lhe na cabeça uma toalha banhada em água de Fátima e dava-lhe a beber dessa mesma água. A jovem foi inteiramente curada, como comprovou o seu médico assistente, e peregrinou à Cova da Iria para agradecer à Santíssima Virgem tão grande e impagável graça[18].

São também fascinantes outros dois concisos relatos de graças obtidas por meio da ditosa água da Cova da Iria: o primeiro caso concerne a um relato vindo do Brasil e onde ficamos a saber que não poucos estudantes tinham por salutar hábito confiar a prestação nos exames a Nossa Senhora do Rosário de Fátima e, a par disso, ingerir algumas gotas da água milagrosa; o segundo relato é feito por Mons. Joaquim Carreira, à época aluno e futuro Reitor do Pontifício Colégio Português de Roma, entre 1946 e 1954, numa carta, de 22 de Maio de 1930, dirigida ao Sr. D. José Alves Correia da Silva, garantindo que «já várias pessoas cá vieram pedir água de Fátima: umas para os doentes e outras… para os exames (como, por exemplo, as Doroteias, que, no dia 13, vieram ao Colégio dizendo que já não há quem sossegue as alunas sem água de Nossa Senhora de Fátima!)»[19]. 

Uma oportunidade perdida?
Por ocasião das obras para planar o recinto do Santuário, o fontanário[20], constituído por quinze torneiras, tantas quantos os mistérios do Santo Rosário, foi soterrado, restando apenas a parte superior, ainda hoje visível, que corresponde à coluna que suporta o chamado monumento ao Sagrado Coração de Jesus. 

Surge uma questão: por que razão é que, ao contrário do que se fez em Lourdes, não se criaram, em Fátima, piscinas que permitissem aos peregrinos banhar-se nestas águas que, ao longo de um século, têm sido portadoras de autênticas curas, resultado da acção da Providência de Deus? Em Lourdes, são mais de 350 mil os peregrinos que, anualmente, passam pelas águas que a pequena Bernadette Soubirous[21] considerava «como um remédio».           

Não obstante a aparente desatenção por parte de quem deveria dar a conhecer os incontáveis milagres atribuídos à sã utilização destas águas, muitos continuam a ser os peregrinos que, dos mais diversos cantos do Mundo, se servem da água que emana das fontes de Nossa Senhora e, assim, beneficiam tanto física como espiritualmente desta dádiva sobrenatural. Supliquemos, pois, a Nossa Senhora do Rosário de Fátima que esta não seja por muito mais tempo uma oportunidade desperdiçada.     

Conclusão
Ao longo destas linhas, pretendi, especialmente, relevar a acção divina que sustenta toda a Mensagem de Fátima[22] e que, desde 1917, tem vindo a trazer ao Mundo tantas graças e a operar tantas conversões. A água de Fátima é um sinal evidente da atenção e da predilecção de Deus e de Nossa Senhora pelos Seus filhos que, necessitados de graças ou reconhecidos por tantos benefícios celestes, se dirigem à Cova da Iria para honrar Aquela que é «fulgurante como o Sol»[23] e que, um século depois, continua a pedir-nos que rezemos e nos sacrifiquemos pelo triunfo do seu Imaculado Coração.      

Possam, pois, estas pobres páginas servir para que se acelere a vinda do Reino de Maria e, com ele, do Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.

D.C.
18 de Agosto de 2020,
véspera do 103.º aniversário da quarta Aparição de Nossa Senhora em Fátima


Fontes consultadas e Notas relevantes



[1] Jo 4, 15.
[2] De facto, as seis primeiras Aparições de Nossa Senhora em Fátima são as mais conhecidas. Todavia, a Virgem Santíssima apareceu sete vezes na Cova da Iria, quer dizer, entre Maio e Outubro de 1917 e, já só à Lúcia, a 15 de Junho de 1921.
[3] Foi também a 5 de Outubro, mas de 1143, que D. Afonso Henriques e o Rei de Leão, Afonso VII, assinaram, em Zamora, o Tratado que, segundo alguns historiadores, se constituiu como a declaração da independência de Portugal, que, a 23 de Maio de 1179, viria a ser reconhecida, pelo Papa Alexandre III, através da bula Manifestis Probatum.
[4] Os dados dos Censos realizados em Portugal, entre 1861 e 2011, podem ser consultados no portal do Instituto Nacional de Estatística.
[5] A título de curiosidade, actualmente vivem mais de 10 mil pessoas na cidade de Fátima.
[6] Lúcia de Jesus Rosa dos Santos, conhecida no Carmelo como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado (Aljustrel, 28 de Março de 1907 – Coimbra, 13 de Fevereiro de 2005). Filha de António dos Santos e de Maria Rosa Ferreira. Está a decorrer o seu processo de beatificação.
[7] Jacinta de Jesus Marto (Aljustrel, 5 de Março de 1910 – Lisboa, 20 de Fevereiro de 1920). Filha de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus dos Santos. Foi canonizada, a 13 de Maio de 2017, em Fátima, por Francisco I.
[8] Francisco de Jesus Marto (Aljustrel, 11 de Junho de 1908 – Ourém, 4 de Abril de 1919). Também filho de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus dos Santos. Foi canonizado, a 13 de Maio de 2017, em Fátima, por Francisco I.          
[9] Santos, L. (2010). Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª edição, Secretariado dos Pastorinhos. Fátima.
[10] Comissão Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima. (1930). Relatório da Comissão Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima. Fátima.
[11] Extinta, por motivos políticos, a 4 de Setembro de 1882, a Diocese de Leiria foi restaurada, com a bula Quo vehementius, do Papa Bento XV, a 17 de Janeiro de 1918. A 13 de Maio de 1984, por decreto da Sagrada Congregação para os Bispos, confirmado, no mesmo dia, pela bula Qua pietate, do Papa João Paulo II, a Diocese passou a ter o título de Leiria-Fátima, numa clara alusão aos acontecimentos da Cova da Iria.
[12] D. José Alves Correia da Silva (Maia, 15 de Janeiro de 1872 – Leiria, 4 de Dezembro de 1957). Bispo de Leiria entre 5 de Agosto de 1920 e 4 de Dezembro de 1957.
[13] Comissão Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima. (1930). Relatório da Comissão Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima. Fátima.
[14] Ibidem.
[15] Jo 20, 29.
[16] Voz da Fátima, ano II, n.º 20, 13/05/1924 (disponível aqui).
[17] Voz da Fátima, ano VII, n.º 79, 13/04/1929 (disponível aqui).
[18] Voz da Fátima, ano VII, n.º 80, 13/05/1929 (disponível aqui).
[19] Carta de Mons. Joaquim Carreira para D. José Correia da Silva, 22 de Maio de 1930.
[20] O leitor interessado em ver mais fotografias do Santuário de Fátima à época da sua construção, poderá consultar o blogue Restos de Colecção, disponível aqui.
[21] Marie-Bernard Soubirous (Lourdes, 7 de Janeiro de 1844 – Nevers, 16 de Abril de 1879). Filha de François Soubirous e de Louise Castèrot Soubirous. Foi canonizada, a 8 de Dezembro de 1933, em Roma, por Pio XI.  
[22] Para ter acesso a uma colectânea de documentos relativos a Nossa Senhora de Fátima, o leitor poderá consultar o site Plinio Corrêa de Oliveira, disponível aqui.
[23] Ct 6, 10.