quarta-feira, 1 de julho de 2020

«Quantas palavras fátuas nos foram ditas», diz Mons. Viganò a Mons. Negri



A pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, o Dies Iræ traduz e publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, a carta que Sua Excelência Reverendíssima recebeu de Monsenhor Luigi Negri, Arcebispo Emérito de Ferrara-Comacchio, assim como a resposta que lhe foi dirigida.

Milão, 16 de Junho de 2020

Excelência Caríssima,     

Como as circunstâncias da vida tendem a indicar-nos elementos de degradação, tanto na vida eclesial quanto na social, gostaria de lhe comunicar a minha adesão à sua mensagem que me parece ter reunido o coração vivo da nossa experiência eclesial. Este coração vivo da experiência eclesial é cada vez mais caracterizado pela consciência quotidiana de que o tempo que nos é dado foge e que a nossa existência permanece fortemente condicionada pela natureza temporária dos acontecimentos e dos factos.   

Parece-me que a Igreja, aos poucos, segundo um ritmo muitas vezes momentâneo, esteja a recuperar a consciência da sua própria identidade e o trabalho missionário que caracteriza a sua vida e a sua história.

Sentimos, a cada dia, mais viva a pressão dos acontecimentos que pedem para serem julgados de acordo com a clareza da palavra do Senhor e vividos como obediência à Sua vontade. Estamos felizes com tudo isso, estamos felizes porque nos abandonamos ao Senhor todos os dias com a profunda consciência de que a Sua presença nos sustenta em todos os momentos e que não há possibilidade de que a nossa existência seja privada da companhia do Senhor Jesus Cristo.  A nossa força é verdadeiramente o abandono da nossa vida à Sua vontade e, sobretudo, o desejo de que a nossa vida experimente a grande vibração da missão; que a nossa vida olhe para o futuro como uma realidade a ser investida a cada momento da consciência da presença de Cristo, pedindo que essa presença de Cristo percorra, a cada dia, a aventura da missão. Nisto e para isto, a nossa vida abre-se a cada manhã com um grande desejo de sustentar a nossa vida cristã e a dos nossos irmãos; fecha-se todas as noites com a consciência de ter contribuído pobremente, mas sempre sinceramente, para o amadurecimento da consciência cristã no mundo.   

Apegámo-nos a si, Excelência, e gostaríamos de poder acompanhar, como últimos discípulos, os seus passos no caminho da verdade, da beleza e do bem. O Senhor faça da sua presença na Igreja e entre os homens uma presença cheia de verdade, de capacidade de sacrifício e de vontade de bem para com todos os homens; assim, parece-nos corresponder de maneira pobre, mas real, ao grande convite da liturgia de cada momento, o de não perder o tempo, mas de devolvê-lo, todos os dias, com total vontade e com grande abertura, ao próprio coração de Deus, porque na vida de cada dia somos precisamente chamados a experimentar a grandeza de Deus e o desejo de contribuir de alguma maneira, mas realmente, para a criação do Reino de Deus no mundo.   

O Senhor nos abençoe e nos conforte no caminho de cada dia.            

† Luigi Negri, Arcebispo Emérito de Ferrara-Comacchio      

***

17 de Junho de 2020

Excelência Reverendíssima,      

Li com grande comoção as suas palavras, para mim verdadeiramente tocantes. É uma consolação ver que Vossa Excelência alcançou, com a perspicácia e a lucidez que sempre caracterizaram o seu juízo, o coração do problema.         

O tempo presente, especialmente para quem tem um olhar sobrenatural, leva-nos de volta às coisas básicas da vida, à simplicidade do Bem e ao horror do Mal, à necessidade de escolher o alinhamento para combater as nossas pequenas e grandes batalhas quotidianas. Há quem veja nisto uma banalização, como se a clareza do Evangelho fosse incapaz de dar respostas abrangentes a uma humanidade complexa e articulada; no entanto, enquanto alguns dos nossos irmãos Bispos se preocupam quase obsessivamente com a inclusão e a green theology, augurando a Nova Ordem Mundial e uma Casa comum para as religiões abraâmicas, vai fazendo caminho, no povo e nos sacerdotes, a persuasão de um afastamento dos próprios Pastores – felizmente, não todos – exactamente no momento do confronto épico.          

É verdade: o tempo foge-nos da mão, Excelência, e com ele desmoronam-se os castelos de areia da retórica quase iniciante daqueles que, na provisoriedade e na fragilidade do contingente, queriam construir o seu sucesso. Há algo de inexorável naquilo que acontece hoje: as miragens efêmeras que deveriam ter substituído as verdades eternas aparecem-nos, à dura luz da realidade, nos seus artefactos e falsas misérias, na sua ontológica e inexorável falsidade. Descobrimo-nos crianças, segundo as palavras de Nosso Senhor: reconhecemos quase instintivamente os bons e os maus, a recompensa e o castigo, o mérito e a culpa. Mas pode-se considerar banal a serenidade da criança que repousa no peito da mãe, a confiança orgulhosa da criança que se apega à mão do pai?             

Quantas palavras fátuas nos foram ditas, quantos paliativos inúteis nos foram dados, pensando que a Palavra eterna do Pai fosse inadequada, que era necessário actualizá-la para torná-la mais sedutora para os ouvidos surdos do mundo! E, no entanto, teria sido suficiente fazê-la nossa, aquela Palavra, para não precisar de mais nada. Se até agora nos deixamos confundir pelo rugido do século, agora podemos abandonar-nos com confiança filial e deixar-nos guiar, porque reconhecemos a voz do divino Pastor e seguimo-Lo para onde Ele nos quer conduzir. Mesmo quando outros, que também deveriam falar, ficam calados.      

A nossa pobreza não é um obstáculo, mas sim uma ajuda nestas situações: quanto mais humildes formos, mais brilhará a maestria do Artista, que nos empunhará como um instrumento nas Suas hábeis mãos, como a caneta com a qual o Escrivão escreve sabiamente a página.     

Peço a Vossa Excelência que reze para que todos nós, que na plenitude do Sacerdócio o Senhor chama não servos, mas amigos, consigamos tornar-nos instrumentos dóceis da Sua Graça, redescobrindo a simplicidade divina da Fé que Ele nos ordenou de pregar a todos os povos. Tudo o que, por orgulho, adicionarmos é um penoso falso brilho do qual devemos aprender a livrar-nos desde já, se não quisermos que o façam as chamas do Purgatório, nas quais as nossos poucas palhetas de ouro serão purificadas da escória para nos tornar dignos da visão beatífica. Não desperdicemos os dias preciosos em que a doença e a velhice nos dão a oportunidade de expiar as nossas e as culpas dos outros: são dias abençoados que podemos oferecer à Majestade de Deus pela Igreja e pelos seus Ministros.        

Receba, Excelência Caríssima, a expressão da minha profunda gratidão pelas suas inspiradas palavras, com a certeza da minha recordação no Santo Sacrifício do Altar. E reze por mim.    

Nunc dimittis servum Tuum,  
Domine, secundum verbum Tuum in pace…         

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo

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