sábado, 18 de julho de 2020

Putin desfaz ilusões



O artigo escrito por Vladimir Putin, verdadeira proclamação, abaixo trechos comentados, desfaz ilusões, uma vez mais. Traz afirmações elucidativas para gente de espírito objectivo. Contudo, para viciados em fantasias – legiões que, infelizmente, ainda veem no ocupante do Kremlin um líder que justifica esperanças –, as crendices resistem à evidência. No caso, à evidência do preto no branco sobre o papel.          

Em 10 de Junho último, o presidente russo publicou, em New Europe, matéria extensa, a bem dizer ensaio, sobre as suas convicções e orientação política. Mereceria análise dos que têm por ofício esclarecer a opinião pública no Brasil – não a vi. Afinal, trata-se de político com chance, por enquanto, de permanecer no poder até 2036, ultrapassando em tempo (como primeiro-ministro e presidente) no leme do país importante, intervencionista e imperialista, de muito, os anos de chumbo da ditadura estalinista (1927-1953).

O artigo de Putin intitula-se 75.º aniversário da grande vitória: responsabilidade histórica compartilhada e o nosso futuro  em inglês, 75th Anniversary of the Great Victory: Shared Responsability to history and our Future. Está na rede. Coloca a Rússia actual como continuadora, em especial na política externa, da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). E enfatiza que o norte, segundo ele, lá na era estaliniana e cá na era putiniana, é e sempre foi a protecção e defesa dos interesses nacionais russos. Nesse aspecto, faz clara e argumentada defesa da política estalinista, adornando o seu autor com os adereços de grande e avisado nacionalista. Por alto, só uma vez, circunlóquio rápido para minorar o peso a reserva, censura a perseguição comunista à religião e os ataques à história russa («troças contra a nossa história nacional, tradições e fé que os bolchevistas tentaram impor, em especial nos primeiros anos»).

Ponto curioso: em nenhum momento, Putin diz que o povo russo lutou na II Guerra Mundial pela defesa do comunismo. A guerra é patriótica, os russos defendiam a terra ancestral, a terra do pai, a terra da mãe, os lares, crianças, pessoas amadas, famílias. Estaline, de facto, lançou mão desse artifício, sofreria estrondosa derrota se apelasse para a defesa do comunismo contra o nazismo. O povo russo tinha horror ao comunismo, que o escravizara. E Putin embarca aqui; hoje, como ontem foi com Estaline, o foco é defender a Mãe Pátria. Mas, é claro, a Rússia com a guerra consolidou e expandiu o comunismo, realidade ovante calada por Putin.

Esbofeteando a história, o líder russo atribui papel decisivo à contribuição da URSS na derrota do nazismo (seria maior que o concurso norte-americano): «A União Soviética e o Exército Vermelho, não importa o que se está a tentar provar hoje, foram as principais e centrais contribuições para a derrota do nazismo». Desvaloriza, congruentemente, o amparo norte-americano à Rússia soviética enviada em especial por meio do Lend and Lease Act, evidenciando que a mentira, da qual era useira e vezeira a União Soviética, continua amplamente usada como instrumento de propaganda na Rússia actual: «Seremos sempre gratos ao apoio aliado fornecendo ao Exército Vermelho munição, matéria prima, alimento e equipamento. Ajuda significativa em torno de 7% da produção militar total da União Soviética».

De passagem, alguns dados sobre o Lend and Lease Act. Mais de um terço de todos os explosivos usados durante a Guerra. 55% do alumínio, mais de 80% do cobre, 57% do combustível dos aviões, 35 mil rádios, 32 mil motocicletas, 33% dos veículos, 20 mil lançadores de foguetes foram montados em cima de camiões norte-americanos, recuperação do sistema ferroviário, 2 mil locomotivas, metade dos trilhos para o sistema ferroviário. Um enorme etc.

Justifica o autocrata russo, inteiramente, qualificando-o como medida de defesa nacional, o pacto Ribbentrop-Molotov, bem como de justa a anexação tirânica à URSS da Estónia, Lituânia e Letónia «feita com base contratual com o assentimento das autoridades eleitas». Afirma, em relação às nações do Leste europeu que foram esmagadas por Estaline (Estados satélites): «[A União Soviética e o Exército Vermelho] libertaram Varsóvia, Belgrado, Viena, Praga. [...] E, assim, o Exército Vermelho começou a sua missão de libertação na Europa. Salvou nações inteiras da destruição, da escravidão e do horror do Holocausto».

Enfim, a Rússia de hoje, continuando a mesma política, seria a herdeira reconhecida da União Soviética. E o que é que ela propõe? De começo, como herdeira, Putin articula nova rodada de negociações, semelhante às conferências de Ialta e Potsdam, que, como aquelas, reconfigurariam o mapa mundial (em especial, certamente, zonas de influência). «Hoje, como em 1945, é importante demonstrar vontade política e discutirmos juntos o futuro. Os nossos colegas, Xi Jinping, Macron, Trump e Johnson, apoiam a iniciativa russa de termos uma reunião de líderes dos cinco estados com bombas nucleares, membros permanentes do Conselho de Segurança». Os temas são os mais esperados, amplos e genéricos – tudo o que é especialmente importante. O Chefe de Estado russo julga fundamental o encontro das cinco potências para dar rumo novo e estável ao mundo inteiro.

Acontecerá? Não sei, julgo pouco provável, para não dizer impossível. Trump está em posição fraca nas sondagens. Poderá ser substituído por Biden. Índia, Japão, Alemanha, Paquistão aceitarão que, como no passado, outros países decidam o seu futuro?  Quem acredita nisso? E Argentina, México, Brasil, Indonésia, Canadá, Austrália? Israel? Os povos muçulmanos? Os árabes? Entre outros, o que pensarão da tal reunião que os coloca, disfarçada mas inequivocamente, em condição análoga à do menor de idade?

Há mais. A Rússia – hoje tratada como potência inescrupulosa (mais no ponto, país bandido) – não tem autoridade moral para convocar nada. Depois da anexação violenta da Crimeia, foi excluída do G8. Foi excluída também das competições desportivas internacionais por quatro anos, o que inclui os próximos Jogos Olímpicos. Está a ser acusada de roubar pesquisas sobre a vacina contra o coronavírus. Enfiou o nariz nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Paro por aqui.

Em suma, por todo o visto, parece improvável que os grandes de 1945 (e a China) se reúnam só entre eles e se julguem com poderes para decidir o destino do mundo. Contudo, é preciso ter sempre em vista a proposta de Putin, reiteração do desejo de estabelecer uma espécie de pax romana estável e permanente pela divisão do mundo em áreas de influência, como se deu em Ialta. É proposta perigosa, com consequência, quiçá, mortais; poderá voltar com outros adornos.

Entretanto, o governo russo continua expansionista: lembro apenas que apoia movimentos nacionalistas, as ditaduras venezuelana, síria e cubana. Objectivo sempre presente: minar o poder dos Estados Unidos. Em suma, na sua política, Putin descreve-se como autêntico continuador de Estaline. E, aqui, concordamos com ele.

Péricles Capanema    

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