sexta-feira, 10 de julho de 2020

«Não há Caridade onde não há Verdade», diz Mons. Viganò a religiosa



A pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, antigo Núncio Apostólico nos Estados Unidos da América, traduzimos e publicamos a troca de correspondência entre Sua Excelência Reverendíssima e a cato-comunista teóloga dominicana Antonietta Potente, onde é possível, uma vez mais, constatar o assolador estado de grande parte dos Institutos Religiosos que, seguindo o espírito do Concílio Vaticano II e pérfidas ideologias, se tornaram, nalguns casos, “tubos de ensaio” de verdadeiros ataques à Fé e, por conseguinte, a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Estamos profundamente indignadas com as palavras que você, cristão e bispo, expressou em apoio ao Presidente Trump, defensor de uma política que, nos últimos meses, se mostrou cada vez mais discriminatória e violenta, seja na emergência sanitária, seja nestes últimos factos de racismo. Parece-nos que usar as Escrituras para justificar a política violenta do Presidente Trump é como dar «pérolas aos porcos», de acordo com as palavras evangélicas: «Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés» (cf. Mt 7, 6). A linguagem que usa na sua mensagem ao Presidente dos Estados Unidos (ver carta de 7 de Junho de 2020), para nós, mulheres, cristãs e religiosas dominicanas, impressiona-nos, mas, ao mesmo tempo, incita-nos a distanciar-nos e a denunciar a ambiguidade do seu pensamento e da sua posição; tratando-se, além disso, de linguagem dualista e discriminatória.

Não nos resignamos a pensar que um membro do Magistério da Igreja Católica possa usar as Escrituras para apoiar tal política que vai contra qualquer princípio evangélico. Já tínhamos lamentado o seu pedido de demissão do Papa Francisco, mas agora parece-nos uma verdadeira blasfémia usar o termo bíblico «filhos da luz» para declarar que Trump, você e todo o seu séquito são vítimas de particulares conspirações eclesiais e sociopolíticas. Negar a evidência destes últimos acontecimentos racistas por parte de membros da polícia, apoiados e defendidos pelo próprio Presidente Trump, julgamo-lo contrário ao Evangelho. Os filhos da luz, de que tanto fala, são aqueles que, na luz, caminham, veem e, com parrésia, denunciam o que veem.    

Nos lábios de Jesus de Nazaré, dos seus primeiros discípulos e discípulas, nunca se encontraram bem-aventurados os fortes, os prepotentes, os opressores, mas bem-aventurados os humildes, os mansos, os amantes da justiça e da paz, mesmo na precariedade da condição humana e histórica. Não conseguimos compreender como é que pode esquecer esta mensagem e extrapolar a linguagem joanina de luz e trevas para apoiar um governo tão violento como é o actual governo dos Estados Unidos. Violento em palavras (basta ver as mensagens do Presidente Trump nos últimos dias) e em actos. E isto não apenas nos Estados Unidos, mas também na política mundial, nas relações internacionais, mesmo no desejo de se apropriar de uma vacina que, como qualquer método de tratamento, deveria ser património da humanidade. Estamos verdadeiramente chocadas, mas, ao mesmo tempo, estamos confiantes de que estes extravasamentos de racismo, que você atribui – fazendo uma grande confusão – aos filhos das trevas, não encontrem lugar no espírito humano e, sobretudo, no das mulheres e homens que sofrem. Nós, mulheres religiosas, sentimo-nos realmente «filhas de Eva», mas não de acordo com a metáfora por si usada. Aliás, pensamos que certas atitudes, assim como a linguagem que usa, não são alimentadas pelos filhos de Eva, como diz, mas por uma mentalidade homofóbica e, portanto, discriminatória, como demonstra o Presidente Trump, por si apoiado. Saiba que também nós rezamos por Trump e pelo seu País, mas não com a mesma intenção por si desejada. Nós rezamos, como mulheres de fé, com as mesmas palavras que a verdadeira tradição bíblica nos ensinou: pedimos para colaborar para que os humildes e não os ricos sejam exaltados; pedimos que não existam mais poderosos e prepotentes que humilham e que destroem a esperança dos povos. Por isso, rezamos também por Trump e por si que diz que o apoia. Seja claro, no entanto, que estamos do lado dos mais fracos e oprimidos, certas de que somente a eles foi revelada a sabedoria que os dominadores deste mundo não puderam conhecer (cf. 1 Cor 2, 8).       

Ir. Antonietta Potente e Comunidade
Teóloga da União das Irmãs Dominicanas de São Tomás de Aquino   
 
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Noli aemulari in malignantibus,
neque zelaveris facientes iniquitatem.


6 de Julho de 2020
Santa Maria Goretti, Virgem e Mártir

Reverenda Madre,           

Li a carta aberta que, também em nome da sua Comunidade religiosa, quis endereçar-me no passado dia 17 de Junho; uma carta no seguimento da que eu enviei ao Presidente dos Estados Unidos. Visto que é a mim pessoalmente que se dirige, peço-lhe que me dê espaço no seu site para lhe responder.          

Fiquei desconcertado com algumas expressões da sua carta: não tanto as que dizem respeito à minha pessoa, mas a deturpação da realidade ao acusar o Presidente Trump de ser «defensor de uma política que, nos últimos meses, se mostrou cada vez mais discriminatória e violenta, seja na emergência sanitária, seja nestes últimos factos de racismo». Na verdade, não vejo como se lhe possa atribuir a responsabilidade pelos factos do racismo, nascidos num contexto em que a polícia e as instituições locais estão nas mãos do Partido Democrático e que as provas que emergem gradualmente confirmam ser false flag financiadas pela elite globalista precisamente para se opor ao Partido Republicano e ao Presidente em funções. Internacionalmente, o mandato de Trump é o único em que não houve conflitos e, aliás, em muitos casos foram concluídos acordos de paz e foram retirados contingentes militares do exterior. A ocupação (até à emergência do COVID-19) estava em forte crescimento, assim como a tutela dos direitos dos trabalhadores.

Se você acredita que restaurar a ordem pública e exigir respeito pela lei seja uma acção discriminatória, temo dever recordar-lhe que, do ponto de vista moral, a Autoridade civil tem o dever de impor respeito pelas leis e que, para obtê-lo, é legitimada a usar a força proporcional: ensina-o a doutrina e explica-o admiravelmente São Tomás de Aquino, patrono do Instituto a que pertence. Não creio que o Presidente seja «violento em palavras e em actos», certamente não mais do que aqueles que, no próprio programa político, favorecem e promovem a matança de milhões de crianças até um instante antes de nascer e até mesmo após o nascimento: esta violência, tanto mais odiosa quanto mormente se encarniça sobre aqueles que são mais indefesos, não me parece que encontrem muito espaço no seu compromisso de religiosa.        

Censura-me por uma «linguagem dualista e discriminatória»: é-o, de facto, e penso que não possa ser de outro modo quando está em questão a eterna luta entre bem e mal. A Verdade é sempre discriminatória quando o erro a mete em discussão. E também é discriminatória a luz, que não tolera as trevas e quantos nela se escondem. Assim como é discriminatório e divisivo Nosso Senhor, pedra de tropeço, que acolherá os justos à Sua direita e expulsará os ímpios à Sua esquerda. «Vós sois meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando», disse o Salvador (Jo 15, 14). A condição para a amizade com Deus é a obediência aos Seus Mandamentos, à Sua Lei, no vínculo da Caridade. Também esta é uma discriminação porque aqueles que, abusando da própria liberdade, não se conformam com a vontade de Deus, não poderão desfrutar da visão beatífica, nem participar da Sua glória eterna. E sempre para uma «mentalidade homofóbica e, portanto, discriminatória» foi-nos dado o Sexto Mandamento, que condena a sodomia como pecado que clama por vingança aos olhos de Deus: São Paulo discriminou, como discriminou Cristo, e como, no Éden, discriminou o Pai Eterno, expulsando os nossos progenitores que Lhe desobedeceram.

Mas é precisamente esta discriminação que, se nos tornou dignos do castigo divino por nossa culpa, também mereceu, desde a primeira queda, a promessa de um Redentor nascido da Virgem, de um novo Adão e de uma nova Eva. Foi esta visão «dualista» que levou os nossos pais à terra prometida, ao abandono da idolatria e a adorar o único Deus verdadeiro. E discriminaram também os Mártires, quando preferiram enfrentar os tormentos da tortura em vez de queimar incenso aos ídolos. Discriminaram os Doutores da Igreja, incluindo o Doctor Angelicus, quando combateram as heresias e pregaram a verdadeira doutrina. Discriminou São Domingos quando pregou o Rosário. Discrimina também você, Reverenda Madre, quando se posiciona contra as minhas palavras, contra Trump, contra a discriminação. Discrimina quando fala de «nós, religiosas», enfatizando as «mulheres», que parece querer reivindicar um papel que não se baseia na adesão à ordem desejada por Deus, nem na advertência do Apóstolo dos Gentios.     

Afirma: «pedimos para colaborar para que os humildes e não os ricos sejam exaltados; pedimos que não existam mais poderosos e prepotentes que humilham e que destroem a esperança dos povos». Recorde-se, Reverenda Madre, que os humildes de que fala o Evangelho não são necessariamente aqueles que o mundo de hoje explora para cínicos projectos de engenharia social, nem aqueles que são arrancados da sua Pátria para apoiar planos de desestabilização que enriquecem sempre os mesmos personagens. E os ricos não são sempre e necessariamente malvados: se a Providência lhes concedeu bens materiais, a eles lhes pede que sejam Seus cooperadores na assistência aos pobres e aos necessitados. Nem os poderosos devem ser censurados se o seu poder é colocado ao serviço do Bem: são aqueles que abusam do próprio poder e da autoridade com que foram investidos que merecem a censura dos cidadãos e o castigo divino.      

Temo que, nas suas palavras, encontre demasiado espaço uma atenção ao pensamento do mundo, em vez de uma visão sobrenatural sustentada pela sã doutrina e alimentada por uma sólida piedade. Em substância, essa ausência de um sinal externo e visível dos seus votos religiosos parece-me revelar implicitamente a sua vontade de ocultar a sua identidade religiosa (talvez para não ofender a sensibilidade dos outros?), com o risco, porém, de deixá-la num vazio interior que nenhuma ideologia deste mundo poderá preencher. No entanto, é exactamente isto que se espera de uma filha de São Domingos e de São Tomás: garantir que as legítimas aspirações dos últimos encontrem a sua raiz mais autêntica na Revelação, na ordem social cristã, na fiel aplicação da doutrina social da Igreja. Não há Caridade onde não há Verdade: você ensina-me que ambas são atributos essenciais de Deus e não é possível amar a Deus se não se aceita incondicionalmente também a íntegra Verdade que Ele nos transmitiu na Santa Igreja, única Arca da Salvação.     

Você escreve: «Seja claro, no entanto, que estamos do lado dos mais fracos e oprimidos, certas de que somente a eles foi revelada a sabedoria que os dominadores deste mundo não puderam conhecer (cf. 1 Cor 2, 8)»: imagino que, nas fileiras dos mais fracos e oprimidos, inclui os pais e as mães de família que desejam educar cristãmente os próprios filhos; quantos quotidianamente são perseguidos apenas porque se professam Católicos; os milhões de inocentes que o Moloch moderno sacrifica todos os dias no imundo altar do aborto; os idosos que as especulações e os interesses económicos condenam ao abandono ou fazem morrer por serem considerados inúteis; as crianças apanhadas nos seus anos mais frágeis pela infernal ideologia de género; os jovens corrompidos na moral pelo pensamento LGBT; os idosos fiéis de St. Louis que foram agredidos, há alguns dias, por um grupo de pessoas que exaltavam o Black Lives Matter.         

Afinal, a sua carta aberta confirma o que escrevi várias vezes: os alinhamentos estão-se a definir e isso é, certamente, um tributo à verdade que permite a muitos compreender o que está a acontecer e de que parte cada um pretende tomar partido.      

A si, Reverenda Madre, e à sua Comunidade, envio de coração a Bênção de Nosso Senhor, confiando nas vossas orações.             

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo

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