segunda-feira, 20 de julho de 2020

«Loreto desempenhou um papel essencial» - Prof. Federico Catani



É com muita satisfação que o Dies Iræ publica a entrevista feita ao Prof. Federico Catani. Catani nasceu, em 1986, em Jesi, em Itália, e é formado em Ciências Políticas e em Ciências Religiosas. Para além de ter leccionado em diversas escolas, é jornalista e publicitário, colaborando com diversas revistas e blogues católicos. É, actualmente, o director-responsável da revista Spunti, da Associação Luci sull’Est.

1. Muito obrigado, Professor, por nos conceder esta entrevista. Foi com muita alegria que, em Portugal, recebemos a notícia da publicação, no Brasil, da sua obra O Milagre da Santa Casa de Loreto. O que o motivou a escrever este livro?

Durante séculos, Loreto foi o santuário mariano mais importante da Cristandade, aonde peregrinaram papas, reis e rainhas, grandes líderes e incontáveis
​​santos.   

Pensei escrever este livro porque a Santa Casa de Loreto é a casa de Nossa Senhora, ou seja, da nossa Mãe, e, portanto, é também a casa de todos nós, seus filhos. De facto, a nossa redenção começou entre aquelas paredes: a Encarnação do Verbo. E não só. Naquela casa, Nossa Senhora foi concebida imaculada e nasceu. Naquele humilde lar, a Sagrada Família passou a sua vida.

E, justamente por ser a nossa casa, é ainda mais justo defender a sua autenticidade e, acima de tudo, a verdade histórica da sua milagrosa Transladação, negada, por mais de trinta anos, precisamente por aqueles que deveriam preservar a sua memória.    

O livro foi pensado como um guia para o peregrino e, portanto, oferece uma visão geral, desde a história e demonstração das Transladações milagrosas da Santa Casa (houve cinco, entre 1291 e 1296: primeiro na Croácia, depois em várias localidades italianas), aos milagres ocorridos entre aquelas paredes, até aos acontecimentos dos santos e dos grandes da história que lá foram, e muito mais.      

2. Durante a preparação do trabalho, o que é que o fascinou mais?      

Afirmo, antes de mais, que, até há não muitos anos, eu, como muitos outros, acreditava que a Santa Casa tinha chegado a Loreto através da família Angeli e não por intervenção divina. Depois, porém, comecei a estudar o tema e converti-me à versão tradicional, àquela de que a Igreja sempre falou durante séculos. 

É realmente interessante (e triste) notar que, ao longo dos séculos, os grandes inimigos da Santa Casa e das suas milagrosas Transladações foram, primeiro, os protestantes, depois os iluministas, e, finalmente, os modernistas. Hoje, infelizmente – e isto diz muito sobre a crise da Igreja que estamos a viver –, são as próprias autoridades eclesiásticas a minimizar ou a negar tudo, tanto que agora é opinião comum entre os fiéis que a Santa Casa foi desmontada pedra por pedra e transportada por mar para Loreto. Mas não há nenhuma prova histórica que o demonstre. Nenhuma!   

Provavelmente, aqueles que minimizam ou negam o milagre pensam que podem torná-lo mais aceitável para os fiéis. Ou fazem-no porque já não têm fé. De facto, se acreditamos que Deus criou o universo e se fez homem (exactamente na Santa Casa) e que se faz presente na Eucaristia, por que deveríamos ter dificuldade em crer que pode mover paredes? Nas várias apresentações do livro que, até agora, fiz em Itália, tomei consciência de que as pessoas têm sede do sobrenatural, querem milagres e não sabem o que fazer com uma pseudo-religião meramente humanitária. Os nossos pastores apercebem-se disso? Ou estão, de forma consciente, a trabalhar para destruir o Catolicismo?       

O que mais me impressionou durante a preparação do trabalho foi que é preciso muita mais fé para crer no transporte humano do que no milagre, apoiado por papas, santos e inúmeras provas histórico-científicas.      

Em poucas palavras, basta pensar que a argamassa que une as pedras da Casa de Maria tem características químicas particulares que remontam à Palestina da época de Jesus. As escavações arqueológicas confirmaram, por outro lado, que o edifício foi colocado em terra nua, sem fundamentos e no meio de uma via pública, onde, obviamente, à época dos factos era proibido construir. Até há uma parte que se projecta sobre o vazio de um fosso e um arbusto espinhoso, que estava na beira da estrada no momento em que a Casa pousou, que ficou esmagado.    

Outro aspecto que ignorava totalmente (porque, devido à ditadura do politicamente correcto, não se fala) é que o santuário de Loreto desempenhou um papel essencial na defesa da Cristandade contra a agressão islâmica. Antes de tudo, sempre se disse que os anjos trouxeram a Santa Casa de Nazaré para não permitir que caísse nas mãos dos muçulmanos. E, depois, é bem conhecido que as batalhas de Lepanto e de Viena foram ganhas graças à intercessão de Nossa Senhora, invocada na sua Santa Casa, como explico no livro. Pego apenas no exemplo de Lepanto. Marcantonio Colonna, comandante da frota pontifícia, foi a Loreto antes da batalha, deixou a sua esposa a rezar no santuário durante a batalha naval e, posteriormente, voltou para agradecer à Mãe de Deus pela vitória. Não somente. Os prisioneiros cristãos libertados da escravidão turca doaram as suas correntes ao santuário, que foram fundidas e usadas
​​para construir portões e balaustradas das capelas laterais da basílica.       

3. A 7 de Outubro de 2019, por indicação do Papa Francisco, o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, publicou um decreto que estabelece a inscrição, no Calendário Litúrgico, da memória facultativa da Bem-Aventurada Virgem Maria de Loreto. A data escolhida é 10 de Dezembro, dia em que é celebrado o milagre da Transladação da Santa Casa. Parece-nos que, com esta mudança, a intenção é quase ostracizar o milagre de Loreto. O que tem a dizer sobre isto?          

O Decreto da Congregação para o Culto Divino insere, no Calendário Romano Geral, a 10 de Dezembro, a memória facultativa da Bem-Aventurada Virgem Maria de Loreto. Esta festa foi, assim, estendida a toda a Igreja: é, certamente, uma bela notícia. Na verdade, desde há décadas, a 10 de Dezembro festeja-se Nossa Senhora de Loreto e já não a Transladação da Santa Casa, mas trata-se um abuso tornado práxis. Infelizmente, o documento assinado pelo Cardeal Sarah oficializa tal prática abusiva. De resto, trata-se do êxito de um longo processo. Basta comparar as orações da missa ao longo do tempo.           

Até ao Missal de 1962, falava-se da Festa da Transladação da Santa Casa e fazia-se referência ao transporte milagroso das três santas paredes: «Ó Deus, que consagrastes a Casa da Bem-Aventurada Virgem Maria mediante o mistério da Encarnação e admiravelmente a colocastes no seio da Vossa Igreja: fazei que, separados da companhia dos malvados, nos tornemos dignos habitantes da Vossa Santa Igreja».   

Com a reforma litúrgica após o Concílio Vaticano II, continuou-se a celebrar formalmente a festa da Transladação da Santa Casa, mas desapareceram todas as referências ao milagre do transporte da mesma: «Ó Deus, que benignamente consagrastes a Casa da Virgem Maria com o mistério da Encarnação, concedei-nos viver longe do pecado e tornar-nos dignos de habitar a Vossa santa casa».  

O decreto de 2019 fala apenas da memória da Virgem Maria de Loreto e não faz nenhuma referência nem Casa, nem à sua Transladação: «Ó Deus, que, dando cumprimento às promessas feitas aos Pais, elegestes a Virgem Maria para ser mãe do Salvador: concedei-nos seguir os exemplos d’Aquela cuja humildade Vos foi agradável e cuja obediência foi para nós proveitosa».   

Seguindo uma prática muito comum, especialmente a partir do Concílio Vaticano II, o milagre não é formalmente negado, mas totalmente omitido, esquecido, ignorado. No entanto, o centro da devoção lauretana sempre foi a Santa Casa e a sua chegada milagrosa à região das Marcas, não a imagem de Nossa Senhora.  

E, então, pergunto-me: por que motivo Nossa Senhora de Loreto foi proclamada padroeira dos aviadores a 24 de Março de 1920? Que sentido tem celebrar, como se faz este ano, um Jubileu lauretano para recordar tal provisão do Papa Bento XV, se já não se crê na verdade da Transladação milagrosa da Santa Casa?      

4. Para terminar, gostaríamos de lhe pedir que deixasse uma mensagem ao povo português.          

Amo muito Portugal, a sua história, as suas tradições e o seu povo. Além disso, sei que, em Lisboa, a igreja dos italianos é dedicada a Nossa Senhora de Loreto: visitei-a e foi muito bonito!         

Como escrevia o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, «o primeiro móvel da alma lusa, na aventura das navegações, foi apostólico; os desbravadores de oceanos que o pequenino Portugal deitou pela vastidão dos mares tinham alma de cruzados e não de mascate. [...] Essa grande acção missionária, que é Portugal, não encerrou o ciclo dos seus feitos religiosos com as navegações. Muito recentemente, a Providência Divina confiou ao povo português outra grande obra missionária. Querendo falar ao mundo, Nossa Senhora escolheu um canto do solo português, para as suas aparições. Escolheu três pequeninos portugueses como seus arautos, fixou em Portugal essa fonte perene de milagres, que é Fátima, e, com isto, atraiu para Portugal as esperanças de todos os sofredores da terra. Em Fátima, Nossa Senhora fez revelações de um alcance universal. Ela não se limitou a falar de Portugal. [...] É impossível não ver que Nossa Senhora concedeu à antiga nação missionária uma grande tarefa histórica a realizar. Os que eram ontem arautos de Cristo, são acrescidos de mais um título: arautos da Virgem. Portugal inteiro, as nações de língua portuguesa juntamente com Portugal têm a incumbência de pregar a todos os povos o grande facto religioso do século XX, que são as aparições de Fátima» (Fátima, in O Legionário, 7 de Outubro de 1945).         

Concordo plenamente com esta análise. Os portugueses devem continuar a ser os arautos da Virgem de Fátima e da sua mensagem.        

Por esse motivo, faço meu o convite que o mesmo Plinio Corrêa de Oliveira dirigia Portugal e aos portugueses: «Assim como nenhum homem se pode dizer virtuoso no sentido real da palavra sem a graça de Deus, nenhum povo se pode dizer verdadeiramente virtuoso nem verdadeiramente grande sem a graça. A grandeza de Portugal é uma grandeza cristã. E, para que a alcancemos, é necessário que atendamos plenamente à mensagem de Fátima. Como se vê, formamos um vasto potencial de fé, cultura e riqueza, que tem por missão fazer sobreviver na terra o ideal de uma civilização voltada para o Céu» (Passado esplêndido, futuro ainda mais belo, in Catolicismo, n.º 80 – Agosto de 1957). Eis o que gostaria de dizer aos portugueses: que não esqueçam a sua missão de fazer sobreviver na terra o ideal de uma civilização voltada para o Céu.          

A obra O Milagre da Santa Casa de Loreto, ainda que em Português do Brasil, encontra-se disponível para compra aqui.    

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