sábado, 11 de julho de 2020

Golpe de Estado no Brasil?



Perante o total silêncio dos media italianos, está em andamento um golpe de Estado no Brasil.           

Numa operação coordenada desde a capital federal, Brasília, pouco antes do amanhecer do passado dia 27 de Maio, equipas da Polícia Federal, armadas com metralhadoras, invadiram as casas de dezenas de jornalistas, publicitários, activistas e políticos em diferentes cidades. Ao exibirem mandados de captura claramente irregulares, por não indicarem o motivo da intervenção, os soldados apreenderam computadores, telemóveis, câmaras fotográficas, arquivos digitais e em papel. Os perseguidos foram levados à força para cadeias militares para serem interrogados.        

Não, caro leitor, não se trata de uma pancada do Presidente Jair Bolsonaro para silenciar a oposição. Pelo contrário! Se assim fosse, tenho a certeza de que os nossos media teriam estampado a notícia em primeira página, gritando ao golpe, com uma foto imerecida do odiado mandatário. É o exacto oposto: foram para a cadeia cidadãos conservadores e anti-comunistas, principalmente apoiantes do Presidente Bolsonaro. Assim, de uma só vez, grande parte da estrutura mass mediática e política conservadora no Brasil foi exterminada.   

É necessário ter em mente que Bolsonaro é apenas a ponta do iceberg de um vasto fenómeno de opinião pública que se estende por todo o território brasileiro e em todos os ambientes sociais. Este fenómeno é visível a olho nu. Multiplicam-se os bloggers e os youtubers de centro-direita, principalmente muito jovens, alguns com milhões de follower. Surgem novos grupos políticos e culturais de orientação conservadora. Ganham notoriedade as conferências online de orientação tradicionalista. Após décadas de virtual monopólio cultural da esquerda, publicam-se cada vez mais livros e realizam-se cada vez mais conferências da área do centro-direita. Os analistas falam de uma “onda conservadora”.           

Tal situação é intolerável para a esquerda e, em concreto, para o Partido dos Trabalhadores, de orientação marxista, afastado do poder nas últimas eleições após quatorze anos de domínio incontestado. Por isso, decidiu contra-atacar usando o poder judicial, largamente controlado pelos próprios petistas.  

Após um primeiro momento de perplexidade com a demonstração maciça de força militar de 27 de Maio – que a mais de uma pessoa recordou o golpe militar de 1964 –, soube-se que a ordem partira do juiz Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da investigação das chamadas fake news.         

A investigação começou em Abril de 2019, quando a revista Crusoé e o site O Antagonista publicaram documentos a associar o político petista José Antonio Dias Toffoli ao escândalo Odebrecht. Incapaz de responder sobre a questão, Toffoli voltou-se para os seus colegas magistrados. Mediante uma sua precisa solicitação, o juiz Alexandre de Moraes ordenou que as duas publicações retirassem a notícia, impondo-lhes também uma multa de cem mil reais (dezasseis mil euros), por dia, caso não o fizessem.         

Tal acto de censura à liberdade de imprensa provocou a reacção indignada de todos os órgãos da categoria, da Associação Nacional de Jornais, da Associação Nacional de Editores de Revistas e da Associação Brasileira de Imprensa. Até a Associação dos Juízes Federais do Brasil repudiou a decisão do colega Moraes, qualificando-a como «inadmissível». Era claramente uma manobra antidemocrática. Moraes foi forçado a retirar a intimação.    

A esquerda sofreu o golpe, mas não desistiu. Com o voto da oposição, foi criada, em Setembro de 2019, a Comissão Parlamentar Mista sobre fake news, encarregada de «indagar sobre a difusão de notícias falsas e a desinformação e sobre o incitamento a práticas criminosas nas campanhas políticas». Afinal, qualquer notícia desfavorável à esquerda é passível de ser qualificada como fake news. Qualquer apelo a rejeitar a ideologia marxista é susceptível de ser definido um incitamento a práticas criminosas. Qualquer crítica da área conservadora à esquerda pode ser considerada um acto de “ódio”. A expressão “gabinete do ódio” foi cunhada para indicar uma central fantasma, financiada quiçá por quem, encarregada de difundir notícias e opiniões contrárias à esquerda. A expressão “milícias digitais” também foi cunhada para designar os bloggers de centro-direita como se fossem paramilitares. A Comissão Parlamentar Mista (Senado e Câmara) é liderada pelo Senador Ângelo Coronel e pela Deputada Lídice da Mata, ambos do Partido Socialista.  

A Comissão concentrou-se, sobretudo, no uso da Internet, observando como as novas tecnologias permitem contornar os meios de comunicação tradicionais. Hoje, qualquer pessoa pode-se tornar um comentador influente. Basta-lhe um bom cérebro, um computador e capacidade de comunicação. Este desenvolvimento favoreceu os conservadores que, assim, conseguem fazer chegar as suas ideias a milhões de brasileiros. Há bloggers e youtubers conservadores e anti-comunistas com dois e até três milhões de seguidores. A esquerda que, seguindo os conselhos de Gramsci, tinha feito do controlo da imprensa um ponto central da sua estratégia, viu-se ultrapassada.   

Em Abril de 2020, o mandato da Comissão foi prorrogado por mais seis meses.  

Os trabalhos da Comissão Parlamentar serviram de pretexto e de veículo para uma fortíssima campanha de propaganda contra o centro-direita e, em concreto, contra o Presidente Bolsonaro. A Presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, admitiu-o sem véus: «As provas reunidas pelo Supremo Tribunal Federal servem de base para as acções movidas pelo PT contra o Presidente Bolsonaro. O Brasil precisa de novas eleições políticas».  

O binómio Comissão Parlamentar Mista-Supremo Tribunal Federal demonstrou-se bem-sucedido. Gradualmente, os trabalhos da Comissão, apoiados pelo juiz Moraes, transformaram-se numa “caça aos fascistas”, compreendendo com este termo quem não professe a ideologia socialista. «O Poder Judicial não pode ficar indiferente diante das inúmeras e gravíssimas ofensas – afirma Moraes –, é importante identificar quem organiza, quem dialoga com estes criminosos. O Brasil não é fascista».

Mais recentemente, a Comissão também começou a apontar os seus canhões contra as associações pró-vida e anti-LGBT. Em meados de Maio, por exemplo, sempre por ordem do juiz Moraes, a conhecida activista anti-feminista Sara Winter foi presa, estando ainda em casa e com a obrigação de pulseira electrónica.  

E chegámos, assim, à grande demonstração de força do passado 27 de Maio, quando equipas da Polícia Federal invadiram as casas de dezenas de jornalistas, comentadores e políticos conservadores. Até o congressista Luiz Philippe d’Orléans e Bragança, membro da Família Imperial, foi revistado. Segundo a deputada Lídice da Mata: «A operação de hoje, conduzida pela Polícia Federal, em conformidade com as ordens de busca e apreensão lançadas pelo STF, prossegue e demonstra a linha de investigação da Comissão». A 16 de Junho, a cena repetiu-se com o mesmo número de buscas, sempre ao amanhecer e com grande destacamento de força militar. A intenção, nem mesmo velada, é aterrorizar os conservadores.           

Tudo isto configura uma situação de gravíssimo perigo para a liberdade de opinião e de imprensa no Brasil, no fundo um gravíssimo perigo para a democracia: precisamente um golpe de estado, não tão “claro”. É para todos claro que a esquerda, perdedora no campo eleitoral e com crescentes dificuldades diante de uma opinião pública cada vez mais conservadora, decidiu usar o seu “arsenal atómico”: o poder judicial, apoiado pela Polícia Federal, forçada a executar as suas ordens.  

Esta deriva totalitária da esquerda brasileira é muito preocupante também porque coincide com semelhantes desenvolvimentos noutros países. Para falar sobre a nossa Itália, aqui está o projecto de lei Zan-Scalfarotto, “de contraste à homofobia e à transfobia”, recentemente apresentado em Montecitorio. Trata-se de um decreto totalitário e liberticida, digno da mais sombria ditadura. Se fosse aprovado, um padre que lê-se no púlpito o Catecismo da Igreja Católica sobre o sexto mandamento (n. 2331 e seguintes) arriscaria seis anos de prisão, além da suspensão do seu bilhete de identidade, da carta de condução e do passaporte, para não falar do recolher obrigatório e da perda dos direitos políticos por três anos.          

Parece que, diante da onda conservadora – visível na Europa e no Brasil –, a esquerda está a abandonar o discurso liberal, dialogante e permissivo, e está, por outro lado, a mostrar a sua face totalitária e tirânica, aliás, sempre presente por trás da máscara sorridente.             

Se, por um lado, isto é muito preocupante, por outro, creio que seja também muito animador. Ninguém usa a força bruta como primeiro argumento. É muito melhor ganhar convencendo as pessoas. Paradoxalmente, o uso da força é um sinal de fraqueza. Isto significa que o discurso da esquerda dá sinais de exaustão. Já não convence a opinião pública como antes. Cada vez mais pessoas estão a sair do comboio da Revolução. Algumas estão até a começar a caminhar em sentido contrário.     

A hegemonia da Revolução quebrou-se. E este é um facto que nos deve dar muito ânimo. A nós cabe-nos saber interceptar as reacções e direccioná-las no caminho da grande conversão espiritual desejada por Nossa Senhora, em Fátima, que deverá levar ao triunfo do seu Imaculado Coração.

Julio Loredo      

Através de Tradizione, Famiglia, Proprietà

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