sábado, 25 de julho de 2020

Entrevista do Arcebispo Carlo Maria Viganò sobre o caso McCarrick



O Dies Iræ publica, em exclusivo para Língua Portuguesa e a pedido de Mons. Carlo Maria Viganò, uma entrevista de Sua Excelência Reverendíssima ao jornalista italiano Marco Tosatti.       

É bem conhecido o empenho do Arcebispo Carlo Maria Viganò, antigo Núncio Apostólico nos Estados Unidos da América, em denunciar o véu de silêncio e os encobrimentos na gestão dos casos de abuso por parte de membros do Clero. É também conhecida a resposta azeda e irritada das autoridades vaticanas – e, em particular, de alguns Prelados – aos refutados argumentos do combativo Prelado. Nesta entrevista, aprofundamos com Sua Excelência os desenvolvimentos do caso do ex-Cardeal McCarrick, também à luz de um recente artigo, publicado no Church Militant, intitulado “McCarrick Bombshell”[1].        

Mas antes de abordar o conteúdo deste artigo, vamos dar um pequeno passo atrás. De 21 a 24 de Fevereiro de 2019, realizou-se, em Roma, um encontro dos Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, tendo por tema “A protecção dos menores na Igreja”
[2]. Alguns dias antes, a 16 de Fevereiro, a Congregação para a Doutrina da Fé comunicara a demissão do estado clerical de Theodore McCarrick, acusado de abusos e outros graves delitos, e acrescentara: «O Santo Padre reconheceu a natureza definitiva, pela lei, desta decisão, que torna o caso res iudicata, ou seja, não sujeito a novo recurso»[3].           

1. Excelência, pode-nos dizer quais são, até ao momento, as novidades do caso McCarrick?         

Receio que não haja nenhuma novidade, e é precisamente esta a notícia. Com a redução ao estado laical de McCarrick, quis-se encerrar um antigo caso que veio à luz, com o meu testemunho, apenas em 2018[4], mas foi feito todo o possível para que os resultados e os detalhes do processo não surgissem. O engano perpetrado através da estratégia de prosseguir administrativamente e não judicialmente, e a decisão de Bergoglio de confirmar autoritariamente a sentença, impediu que viessem à luz, juntamente com as culpas objectivas de McCarrick, também as responsabilidades daqueles que, durante anos, ajudaram a esconder a natureza e a extensão dos crimes que ele cometeu, a proteger os seus cúmplices e aqueles que, com o seu silêncio, encobriram os seus crimes. Deste modo, a condenação do culpado não esclareceu os pontos escuros. Como simples leigo, ele agora desfruta de uma total liberdade de movimento e de acção e ainda é capaz de intervir a todos os níveis: a nível eclesial mesmo com aqueles que o encobriram e apoiaram no Vaticano e noutros lugares; a nível político, social e financeiro, através das pessoas que permaneceram em contacto com ele e que receberam favores dele. A redução ao estado laical não constitui, de forma alguma, uma pena medicinal (sendo só a sua necessária premissa, devido à comprovada indignidade do réu), não implica qualquer forma de penitência reparadora, nem faz justiça às vítimas, mas consente ao senhor McCarrick continuar, sem perturbações, as suas próprias actividades criminosas, incluindo as de predador sexual.        

O procedimento administrativo também impediu a audiência das vítimas, enquanto que os depoimentos, recolhidos apenas recentemente pelo advogado Lena, o advogado da Santa Sé, parecem escritos sob ditado: aqueles que sofreram assédio chegam a desculpar a lentidão na publicação do Relatório, atribuindo-a à quantidade de testemunhos[5], com tons indulgentes e justificativos, difíceis de conciliar com a extrema gravidade dos crimes atribuídos ao acusado[6]. Parece que algumas vítimas, protegidas por um pseudónimo, se prestaram a uma operação que visa aligeirar as responsabilidades da Santa Sé e validar a narrativa que sustenta diante da opinião pública. Também há uma suspeita de que esses testemunhos anónimos sejam pura ficção. De qualquer forma, trata-se de um engano que deve ser denunciado com força, porque se a corrupção do Prelado individual é um escândalo, o silêncio culpado daqueles que representam a Igreja é ainda mais. Se estes episódios tivessem ocorrido sob o Pontificado de Bento XVI, teriam desencadeado a fúria dos media: tão contrita compreensão em relação a Jorge Mario Bergoglio é reveladora da atitude cúmplice da informação convencional.   

2. A convocatória do encontro no Vaticano tinha sido anunciada como ocasião para dar respostas firmes e determinadas sobre os escândalos sexuais do Clero. No seu discurso introdutório, o Papa Francisco afirmou: «Sobre o nosso encontro, grava o peso da responsabilidade pastoral e eclesial que nos obriga a dialogar conjuntamente, de forma sinodal, sincera e profunda sobre o modo como enfrentar este mal que aflige a Igreja e a humanidade. O santo Povo de Deus olha para nós e espera de nós, não meras e óbvias condenações, mas medidas concretas e eficazes a implementar. Requer-se consistência»[7].      

As solenes proclamações que precederam, acompanharam e seguiram este encontro não deram absolutamente origem a nenhuma acção prática concreta, ao contrário do desejado[8]. Assim como, durante o encontro, não tiveram resposta as legítimas e insistentes perguntas feitas pelos jornalistas a Bergoglio, a 26 de Agosto de 2018, após a minha denúncia[9].    

Quanto ao conteúdo das intervenções, parece que até os escândalos sexuais do Clero serviram, em vez de exacerbar as penas e tornar mais incisivas as intervenções, para reiterar quase obsessivamente a nova estrutura “sinodal” da Igreja, que responde a uma precisa intenção de mudar a constituição em chave democrática. O próprio Arcebispo de Chicago, Blaise Cupich – amigo de Theodore McCarrick e Presidente do encontro no Vaticano –, focalizou o seu discurso à conferência na “sinodalidade”, qual passagem necessária da «reforma estrutural, legal e institucional»[10] da acção nominalmente destinada a conter os abusos.      

3.  De que modo a “sinodalidade” pode ajudar os Bispos a resolverem o problema dos abusos do Clero?

A proposta de instituir uma comissão independente de leigos que julgaria as acções dos Bispos, formulada durante a Assembleia Plenária da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, em Novembro de 2018, foi bloqueada pelo Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos[11]. Esta intervenção do Vaticano desconfessa as proclamações sobre a “sinodalidade”, não apenas as decisões das Conferências Episcopais que não coincidam com o que se deseja em Roma. No entanto, considero Sua Eminência Ouellet mero executor de manobras que lhe foram impostas de cima.

4. Não é bom que o Vaticano reivindique as decisões que envolvam questões doutrinárias e morais?

A autoridade do Romano Pontífice, que também se explicita através das Congregações Romanas, não pode, obviamente, ser delegada a meros órgãos consultivos que não têm jurisdição alguma e que não fazem parte da estrutura hierárquica da Igreja como Cristo a estabeleceu: sobre isso, devemos ser claros. Todavia, é significativo que o “synodal path” preconizado pelos líderes romanos não encontre obstáculo algum, excepto quando corre o risco de se tornar mediaticamente embaraçoso, como no caso de uma comissão especial designada para receber queixas contra os Bispos. 

Esta referência à “sinodalidade” é um tema caro à corrente teológica progressista que deseja desnaturar a estrutura hierárquica da Igreja. São muito esclarecedores, a tal propósito, os recentes artigos de Massimo Faggioli, docente na Villanova University, onde, a 11 de Outubro de 2013, o então Card. McCarrick afirmou ter favorecido a eleição do Card. Bergoglio durante as Congregações Gerais prévias ao Conclave, decorridas poucos meses antes, e ter conversado sobre isso com «a very influential Italian gentleman»[12] que lhe teria confidenciado que, no espaço de cinco anos, o novo Papa teria reformado a Igreja.    

Deveria alarmar que, da mesma Universidade, chegam inquietantes sinais de insatisfação com o trabalho de Bergoglio, cujo pontificado é definido “em crise” por “pessoas decepcionadas”[13]: talvez porque os cinco anos a que McCarrick aludiu não lhes deram os resultados desejados. 

5. Na sua Relação para o encontro no Vaticano, o Cardeal Reinhard Marx disse: «Os correctos procedimentos legais servem para estabelecer a verdade e constituem a base para impor uma punição proporcional à ofensa. As pessoas têm que ver como o juiz chega a uma sentença; na maior parte dos casos, isso não acontece e penso que, para a nossa situação, esta não seja uma coisa boa. Além disso, estabelecem confiança na organização e na sua liderança. A persistência de dúvidas sobre uma conduta apropriada dos procedimentos processuais não faz mais que prejudicar a reputação e o funcionamento de uma instituição. Este princípio também se aplica à Igreja»[14].    

A publicação dos documentos processuais deveria ser uma das pedras angulares de uma operação de transparência e de honestidade para com as vítimas dos abusos por parte de membros do Clero. Parece-me evidente que as palavras do Cardeal Marx foram desconsideradas, a começar pelo caso McCarrick, precisamente por iniciativa de Bergoglio.   

Recordo também que o Cardeal Daniel DiNardo, Presidente da Conferência Episcopal Americana, foi, com pouca consideração, desautorizado pela intervenção vaticana que, no encontro de Roma, em Fevereiro de 2019, o substituiu pelos Cardeais Blaise Cupich e Joseph William Tobin, também não isentos de suspeitas. Estas interferências, claramente desejadas de cima, criaram uma imagem mediática que não corresponde à realidade, na qual Bergoglio é apresentado como artífice de uma reforma inexistente para meros propósitos de propaganda. Até o pedido de demissão, feita a Francisco, de todo o Episcopado chileno faz parte de uma operação de fachada que foi claramente desmentida pelos factos.   

Penso que é emblemática a dupla medida reservada às Conferências Episcopais Americana e Francesa: no lado americano, a intervenção bergogliana impediu, por parte da autoridade, uma operação de transparência; enquanto que, no lado transalpino, permite violações claras da lei canónica e civil, permitindo que as investigações do foro eclesiástico sejam confiadas a um magistrado maçónico e favorável à eutanásia. O espírito jacobino ao perseguir clérigos franceses acusados
​​de abuso sexual de crianças deixa, todavia, de reconhecer as responsabilidades dos Ordinários e dos Superiores Religiosos culpados dos mesmos encobrimentos, que, na prática, se estão a consolidar também em Roma.  

6. No entanto, também ouvimos o Pontífice recordar, no discurso final, as palavras já pronunciadas à Cúria Romana em 2018: «A Igreja nunca tentará encobrir ou subestimar qualquer caso».    

Esta solene afirmação é rejeitada pelo caso mais emblemático, o de Theodore McCarrick, e faz pensar que outros interesses tenham levado à decisão de liquidar o assunto administrativamente e, ainda mais grave, sem a publicação dos actos judiciais.   

7. Na sua opinião, quais são os interesses?

Quer-se focar a atenção nos abusos sobre menores, desviando-a da contextual condenção clara e justa dos comportamentos homossexuais que, muitas vezes, são a causa desses abusos. Para Bergoglio e o seu entourage, a sodomia não é um pecado que clama por vingança aos olhos de Deus, como ensina o Catecismo. As palavras de Bergoglio sobre esse assunto – e, ainda mais, as acções e as palavras das pessoas com quem se relaciona – confirmam, infelizmente, que, sobre a homossexualidade, está em andamento uma operação de legitimação e que a conduzir este discurso são Prelados e teólogos que manifestaram inequivocamente que não são fiéis ao ensinamento católico.   

O próprio Cardeal Tobin – cujas SMS embaraçosas falam por si[15] – declarou claramente que não partilha da condenação da sodomia presente no Catecismo, recusando-se a definir os actos homossexuais como «intrinsecamente desordenados»[16]. E essas declarações seguem o apoio do Cardeal ao livro Building a bridge, do padre James Martin, sj, que tem o mesmo conteúdo. Encontramos, portanto, um Cardeal amigo de McCarrick alinhado a favor dos movimentos LGBT e o jesuíta que Bergoglio nomeou Consultor da Secretaria para as Comunicações da Santa Sé, convidando-o a falar no Encontro Mundial das Famílias de 2018, em Dublin, e recebendo-o em audiência[17]. O Cardeal Cupich também falou várias vezes a favor dos homossexuais e, durante o Sínodo dos Jovens – em que foi convidado, pelo Papa, a participar sem ter sido votado pelos Bispos americanos –, foi inserido no Instrumentum laboris o controverso tópico das homossexuais sem que nenhum grupo de jovens o tenha pedido. Recordo, en passant, que Cupich foi imposto à sede de Chicago por Bergoglio, contra a opinião da Nunciatura.           

Portanto, os interesses são claramente os do “lobby gay” que se infiltrou na Igreja e que tem, literalmente, pavor que os bons Pastores façam luz sobre a influência que exerce na Secretaria de Estado, nas Congregações, nas Dioceses e em toda a Igreja. O obsceno, aliás, sacrílego afresco homoerético que Mons. Paglia encomendou para a Catedral de Terni[18] é um arrogante manifesto ideológico que nenhuma Autoridade jamais censurou ou deplorou; os demais assuntos financeiros do Substituto da Secretaria de Estado, Mons. Edgar Peña Parra[19] – ligado ao Cardeal Maradiaga (envolvido no escândalo por abusos homossexuais do seu Bispo Auxiliar, Pineda, sem que haja notícias de uma iniciativa eclesiástica em relação a ele) –, e as gravíssimas acusações de Sexto que pesam sobre ele[20] e que denunciei amplamente[21], não interromperam, de forma alguma, o cursus honorum no Vaticano; o mesmo se aplica a Mons. Gustavo Óscar Zanchetta[22], que Bergoglio promoveu e, enquanto aguarda um julgamento penal, renomeou, recentemente, Assessor para a Administração do Património da Sé Apostólica[23]. Após a ordem de fazer confluir todas as contas correntes das Dioceses e das Congregações religiosas do mundo para a APSA, Zanchetta encontra-se a administrar as finanças da Igreja (podendo exaltar no seu curriculum o respeitável diploma de mecânico electricista) e sendo, ao mesmo tempo, fácil objecto de chantagens internas e externas[24]. E não esqueçamos o trabalho de Mons. Ilson de Jesus Montanari, Arcebispo, Secretário da Congregação dos Bispos, Secretário do Sacro Colégio e Vice-Camerlengo da Santa Igreja Romana, em nome e por conta daqueles que o elevaram aos mais altos escalões da Cúria Romana como recompensa pela sua fidelidade.    

Creio que é indispensável esclarecer, de uma vez por todas, a estreita ligação entre a sodomia e a pedofilia, também confirmada pelas próprias estatísticas: uma ligação que o encontro no Vaticano manteve escrupulosamente em silêncio para não ofender a mentalidade actual difundida mesmo entre muitos Prelados. Mas seria hipócrita e grave condenar a pedofilia na linha da legislação civil vigente sem também condenar a sodomia, que o pensamento único não considera criminalmente relevante, mas que a Igreja indica entre os pecados que clamam por vingança aos olhos de Deus.         

Mas há também outro interesse, de natureza política, que não deve ser subestimado... 

8. A que se refere?     

Falo do papel político de McCarrick, que menciona também o último artigo de Church Militant: «Foi McCarrick quem elaborou o acordo Vaticano-China, uma missão que lhe dada pessoalmente dada pelo Papa Francisco. Francisco suspendeu as restrições impostas por Bento poucas semanas depois de se tornar Papa – um facto confirmado pelo Arcebispo Viganò. Da mesma forma, fontes na China […] mostram que McCarrick pode ter sido determinante para elaborar os pagamentos secretos em andamento, de biliões de dólares, enviados pelos comunistas chineses ao Vaticano de Francisco. Se isto é verdade (e parece plausível, dados os laços comunistas e a amizade de McCarrick com Pequim), tal pode ser crucial para explicar por que o relatório permanece parado na mesa do Papa, mas não publicado».

Precisamente nestes dias, foi divulgada, no Christian Today, a notícia segundo a qual «China has ordered Christian villagers to renounce their faith and worship the nation’s Communist Party leaders instead»[25]. Diante desta perseguição aos Cristãos – e Católicos fiéis à Sé Apostólica – pela ditadura comunista, o silêncio de Santa Marta é, literalmente, ensurdecedor, como ocorreu, há alguns dias, quando, no Angelus, Bergoglio omitiu a apelo a Hong Kong, que também tinha sido divulgado à imprensa[26]. O mesmo Acordo secreto estipulado entre a Santa Sé e Pequim, e denunciado publicamente pelo Card. Zen, demonstra a sujeição da igreja bergogliana aos ditames da ditadura comunista, entregando a Hierarquia local nas mãos dos seus perseguidores e silenciando as violações dos direitos humanos perpetradas pela acção do regime.        

Recordo que, na Primavera de 2014, escrevi ao Secretário de Estado Parolin perguntando-lhe se as medidas tomadas por Bento XVI contra McCarrick ainda eram válidas ou não, no seguimento de um artigo publicado no Washington Time no qual era dada a notícia da sua viagem à República Centro-Africana em nome do Departamento de Estado americano[27]. O Cardeal Parolin nunca me respondeu, mas as notícias que emergem por estes dias parecem esclarecer também esses aspectos. A liberdade de movimento concedida a McCarrick também era conhecida[28] e, em 2012, ele próprio o escreveu: «I was in Doha last week and go to Ireland… and following that… I begin one of my longest trips – Beirut, Jordan, Egypt, Thailand, Myanmar, Cambodia and Hong Kong… before I start again in the Holy Land and Belarus»[29]. E em 2014: «I leave for China on Thursday the 27th… I am sure that [Secretary of State] Cardinal Parolin would see me since he is involved with my China trip»[30].     

Entre outras coisas, a cooperação da Companhia de Jesus nos movimentos diplomáticos do Vaticano com a ditadura de Pequim – a começar pela edição especial em chinês da Civiltà Cattolica – confirma a vontade da Santa Sé de prestar um endorsement à China, precisamente enquanto se concretizam as suspeitas sobre a sua responsabilidade na difusão do COVID-19 para desestabilizar os equilíbrios geopolíticos internacionais. O papel de Antonio Spadaro e de outros jesuítas – todos visitantes assíduos da Villanova University – é emblemático e demonstra o fio vermelho que liga o progressismo doutrinário à perversão moral e à corrupção política. Por outro lado, estes três elementos – heresia, sodomia, corrupção – são tão recorrentes que são quase uma marca registada do deep state e da deep church. 

Falando de deep state, não é de surpreender que a OMS se tenha tornado cúmplice nesta operação de engenharia social para agradar a China, nem que o Presidente Trump tenha decidido revogar os financiamentos de que beneficiava até hoje. Aquilo que surpreende e escandaliza é o silêncio cúmplice do Vaticano, confrontado com uma espécie de golpe de estado que visa tornar a igreja bergogliana o braço espiritual do Governo Mundial sob a égide da tirania comunista e com a cumplicidade dos partidos globalistas. A Itália, com o seu governo não eleito e a maioria numa gravíssima crise política, parece seguir a agenda e não parece querer rever as próprias posições em relação a Pequim: as constantes ameaças de um regresso à emergência COVID-19 e ao lockdown são claramente instrumentos para a manutenção de um poder que, na presença de eleições democraticamente convocadas, demonstraria a sua inconsistência. Certo é que uma oposição um pouco mais incisiva e menos alinhada à narrativa mainstream poderia ser vista positivamente tanto pelo eleitorado como pelos parceiros internacionais da Itália.      

9. Voltemos à questão dos escândalos do Clero. Precisamente no dia 19 de Fevereiro, dois dias antes do início do encontro presidido pelo Card. Cupich, foi publicada uma Carta Aberta dos Cardeais Raymond Burke e Walter Brandmüller aos Presidentes das Conferências Episcopais: «Diante da deriva, parece que a dificuldade se reduz à do abuso de menores, um crime horrível, especialmente quando é perpetrado por um sacerdote, que é, no entanto, só uma parte de uma crise muito maior. O abuso sexual é atribuído ao clericalismo. Mas a primeira e principal culpa do clero não se baseia no abuso de poder, mas em ter-se afastado da verdade do Evangelho. Diante desta situação, os cardeais e os bispos guardam silêncio. Também ficarão em silêncio por ocasião da reunião convocada, no Vaticano, para o próximo dia 21 de Fevereiro? Hoje em dia, esses dubia não só não tiveram nenhuma resposta, mas são parte de uma crise da Fé mais geral. Por isso, encorajamos-vos a que levanteis as vossas vozes para salvaguardar e proclamar a integridade da doutrina da Igreja»[31]. Que resultado teve este apelo de eminentes Prelados?         

Os Cardeais Burke e Brandmüller, como outros Prelados, não fizeram nada além de reafirmar louvavelmente a doutrina católica: a coisa inédita é que sejam eles a ser considerados “estranhos” na estrutura eclesial, enquanto que é dada voz a personagens que, pelas suas frequências, pelo seu “endorsement” à agenda LGBT e, nalguns casos, também pelas sombras que pesam sobre a sua conduta, deveriam ser afastados da Igreja e severamente censurados. 

Bento XVI, em Abril de 2019, publicou uma forte intervenção, em Klerusblatt, posteriormente recuperada, em Itália, pelo Corriere della Sera[32], que foi ferozmente censurada por Marco Politi no Il Fatto Quotidiano[33]. Aquele artigo destinava-se, na verdade, ao encontro de Roma através da Secretaria de Estado, mas foi boicotado, confirmando a intervenção da “lavender mafia” para impedir que o Santo Padre apresentasse aos Bispos a sua posição sobre o assunto.           

10. Pode-nos recordar em que consistia a intervenção de Bento XVI? 

O ponto focal do artigo de Ratzinger, que enfureceu os apoiantes de Bergoglio, foi, precisamente, ter evidenciado o vínculo entre homossexualidade e pedofilia, bem como entre o relaxamento da moralidade após o Concílio e a disseminação do flagelo dos abusos.  

Insistindo em fechar os olhos diante das evidências, o progressista Politi escreveu: «O quê que o abandono, por parte da Igreja, de uma ética baseada no direito natural tem a ver com a pedofilia? O quê que as mudanças na teologia moral católica têm a ver com isso, o quê as camarilhas gay nos seminários têm a ver com isso, o quê que os filmes pornográficos têm a ver com isso, o quê que a relativização dos valores e do julgamento moral têm a ver com isso?»[34]. No entanto, é evidente que, onde a formação de candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa elimina a disciplina e a vida interior, multiplicam-se os vícios e os pecados, que, depois, degeneram em crimes muito graves contra menores, mas não só.  

A causa desta mudança reside precisamente no “espírito do Concílio”, que Bento XVI apenas quis mencionar, mas que não deixou de ser imediatamente atacado por quem viu o super-dogma questionado: «Até grotesca [sic] é a tentativa do ex-pontífice de atribuir ao espírito “conciliar” a extrema garantia dos processos eclesiásticos, destinada a proteger o acusado “a ponto de praticamente excluir – está escrito no ensaio – a condenação do culpado”. Portanto, a culpa seria dos defensores do Concílio, dito em poucas palavras, culpa dos reformadores, se a rede dos silenciadores e dos pedantes, que de, qualquer modo, tentaram e continuam a tentar impedir o processo e a condenação dos clérigos predadores, se revelasse sempre assim arrogante e poderosa?»[35].        

11. Considera que Marco Politi tem razão? 

Eu acredito que a resposta a essa pergunta retórica do vaticanista Politi possa ser indiscutivelmente afirmativa: existe uma relação muito estreita entre a crise doutrinária da Igreja e a imoralidade do Clero, que escandalosamente chega aos mais altos graus da Hierarquia. Mas também é evidente que esta crise é usada pela ala ultra-progressista não apenas para impor uma falsa moral juntamente com uma falsa doutrina, mas também para desacreditar irremediavelmente a Santa Igreja e o Papado diante dos fiéis e do mundo pela mão dos seus próprios líderes.

12. Não crê que, no final, o Relatório que todos aguardam seja publicado?  

Se se conseguir esclarecer esta história, isto acontecerá apesar do Vaticano: os interesses em jogo são enormes e afectam directamente o topo da Igreja, e não apenas por questões doutrinárias, morais ou canónicas, mas também por questões políticas e diplomáticas que viram a Santa Sé objecto de um golpe de estado com a cumplicidade daqueles que deveriam tê-la defendido na sua soberania e independência. O que falhou durante o Pontificado de Bento XVI, foi concretizado após a sua renúncia. Como podemos esperar que aqueles que são devedores, mesmo para a própria eleição, a McCarrick – que foi um dos principais defensores do Acordo secreto com a China – possam esclarecer uma série de acontecimentos que o envolveriam pessoalmente, demonstrando as conivências com a ditadura chinesa perante os danos contra os Católicos fiéis à Sé Apostólica e talvez também as responsabilidades desse regime na renúncia do Papa Bento? Como podemos imaginar que os acontecimentos obscuros de São Galo se tornem claros quando foi lá que os conspiradores organizaram a eleição de Bergoglio? E como podemos acreditar que a Igreja se purifique da corrupção e do vício dos seus clérigos e Prelados, quando estes assumiram o poder e são promovidos aos mais altos níveis, numa rede de cumplicidade entre hereges, pervertidos e traidores?

Quem deve indagar sobre os escândalos está fortemente envolvido na nomeação, na promoção e na protecção dos culpados: Bergoglio rodeou-se de personagens comprometidos e, portanto, chantageáveis, dos quais não tem escrúpulos em se livrar assim que arriscarem comprometê-lo na sua imagem mediática.    

Não esqueçamos que a legitimação da homossexualidade faz parte da agenda da Nova Ordem – à qual a igreja bergogliana adere aberta e incondicionalmente – não apenas pelo seu valor desestabilizador no corpo social, mas também porque a sodomia é a principal ferramenta com a qual o Inimigo pretende destruir o Sacerdócio católico, corrompendo na alma os Ministros de Deus.      

Por isso, pelo menos até onde lhe for possível, toda a verdade sobre McCarrick nunca virá oficialmente à tona.         

13. Como podemos responder a esta corrupção?           

O que, hoje, é indistinguível é uma acção conjunta dos bons – aqueles que, na Carta Aberta ao Presidente Trump, definia biblicamente «os filhos da Luz» – para trazer à luz as cumplicidades e os crimes daqueles que fazem guerra contra o Bem para estabelecer a Nova Ordem Mundial. Nesta operação de verdade e de transparência, o papel dos Estados Unidos pode ser decisivo, sobretudo quando aqueles que deveriam e poderiam contribuir da parte vaticana ficam calados. Como disse o Senhor: «Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras»[36].   

Mas há um aspecto mais importante, de natureza espiritual. Devemos compreender que a crise eclesial foi causada por querer tirar a coroa ao seu Rei, Nosso Senhor: é necessário que Ele volte a reinar não apenas nos nossos corações e nas nossas famílias, mas também na sociedade civil e, especialmente, na Igreja. Oportet illum regnare. E, com o Rei dos reis, deve reinar também Nossa Senhora, Rainha e Mãe da Igreja, a quem culposamente se desobedeceu não consagrando a Rússia ao Seu Imaculado Coração. Este é o meu desejo mais sincero, ao qual peço que se juntem todas as pessoas de boa vontade.


[1]https://www.churchmilitant.com/video/episode/vortex-mccarrick-bombshell
[2]http://www.vatican.va/resources/index_it.htm
[3]https://www.vaticannews.va/it/vaticano/news/2019-02/ex-cardinale-theodore-mccarrick-dimesso-stato-clericale.html
[4]http://www.marcotosatti.com/2018/09/05/la-testimonianza-di-mons-vigano-i-documenti-dellex-nunzio-fino-al-4-settembre-2018/
[5]https://essayforthefaithful.com/
[6]Crimes a que, recentemente, se juntaram outros documentados:
https://www.catholicnewsagency.com/news/lawsuit-claims-ex-cardinal-theodore-mccarrick-headed-abusive-sex-ring-names-alleged-procurer-63583
[7]http://w2.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2019/february/documents/papa-francesco_20190221_incontro-protezioneminori-apertura.html
[8]Cfr., por exemplo: https://www.ilpost.it/2019/02/25/incontro-abusi-sessuali-vaticano/
[9]http://www.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2018/august/documents/papa-francesco_20180826_irlanda-voloritorno.html
[10]http://www.vatican.va/resources/resources_card-cupich-protezioneminori_20190222_it.html
[11]https://www.lastampa.it/vatican-insider/it/2018/11/13/news/le-ragioni-del-rinvio-del-voto-sulle-norme-anti-abusi-negli-usa-1.34060080
[12]https://youtu.be/b3iaBLqt8vg
[13]https://international.la-croix.com/news/the-limits-of-a-pontificate-part-i/12170
[14]http://www.vatican.va/resources/resources_card-marx-protezioneminori_20190223_it.html
[15]https://www.churchmilitant.com/news/article/tobin-tarmac-tweet-raises-eyebrows
[16]https://www.today.com/video/how-cardinal-joseph-tobin-found-his-calling-in-the-catholic-church-1496688707952
[17]http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2019/09/30/075501540.htm
[18]https://lanuovabq.it/it/e-paglia-ando-in-cielo-con-trans-e-gay
[19]https://www.repubblica.it/cronaca/2020/06/07/news/vaticano_il_verbale_di_mos_carlino_pe
[20]https://espresso.repubblica.it/attualita/2018/10/12/news/le-condotte-immorali-del-nuovo-braccio-destro-del-papa-spunta-un-dossier-che-fa-tremare-il-vaticano-1.327763
[21]https://www.marcotosatti.com/2019/08/01/accuse-di-vigano-a-pena-parra-conferme-da-maracaibo-vigano-accuses-pena-parra-confirmations-from-maracaibo/
[22]http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2017/12/28/vaticano-senza-pace-soldi-sesso-e-presepe-lgbt/
[23]http://www.korazym.org/44412/lo-strano-caso-del-presunto-abusatore-zanchetta-riapparso-e-il-processo-promesso-dal-papa-a-carico-del-suo-amico/
[24]http://www.korazym.org/44391/saga-60sa-inchiesta-della-magistratura-vaticana-per-scandalo-finanziario-in-segreteria-di-stato-riflettore-sulle-normative-vaticane-vigenti/
[25]https://www.christiantoday.com/article/china-tells-christians-renounce-faith-in-jesus-worship-president-xi-jinping/135221.htm
[26]https://www.lanuovabq.it/it/hong-kong-la-santa-sede-si-inchina-al-regime-cinese e https://www.liberoquotidiano.it/news/italia/23616123/papa-francesco-socci-hong-kong-cina-angelus-passaggio-sparito.html
[27]McCarrick, na sua correspondência com o seu secretário, Mons. Figueiredo, qualifica-se como: «an adjunct member of the foreign service». Cfr. cfr.https://www.cbsnews.com/news/cardinal-theodore-edgar-mccarrick-vatican-restrictions-anthony-figueiredo-letters-report-2019-05-28/
[28]Assim escreve Catholic News Agency: «In a 2009 visit to China, then-Speaker of the House Nancy Pelosi conveyed McCarrick’s greetings to Bishop Aloysius Jin of Shanghai, a priest who was a leading Chinese Jesuit, then spent decades in prison on charges of aiding counterrevolution before his release in 1982. He was ordained na auxiliary bishop without Vatican approval in 1985, though he received Vatican recognition in 2005. The bishop said he and Cardinal McCarrick had exchanged visits “beginning when the latter was Bishop of Newark (sic)”. Pelosi said she would convey the bishop’s greetings back to Cardinals McCarrick and William Keeler, then an Archbishop emeritus of Baltimore». Cfr. https://www.catholicnewsagency.com/news/despite-mccarrick-abuse-claims-state-department-leaves-questions-unanswered-70448
[29]https://www.cbsnews.com/news/cardinal-theodore-edgar-mccarrick-vatican-restrictions-anthony-figueiredo-letters-report-2019-05-28/
[30]Ibidem
[31]http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2019/02/19/anche-il-summit-sugli-abusi-crea-seri-%e2%80%9cdubia%e2%80%9d-la-lettera-aperta-di-due-cardinali/
[32]https://www.corriere.it/cronache/19_aprile_11/papa-ratzinger-chiesa-scandalo-abusi-sessuali-3847450a-5b9f-11e9-ba57-a3df5eacbd16.shtml
[33]https://www.ilfattoquotidiano.it/2019/04/12/pedofilia-qualcosa-non-torna-nel-contromanifesto-di-papa-ratzinger/5104990/
[34]Ibidem
[35]Ibidem
[36]Lc 19, 39

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