sexta-feira, 31 de julho de 2020

Comunhão na mão: ataque dos protestantes ao sacerdócio (2.ª parte)



No livro sobre a introdução da Comunhão na mão de que falámos no artigo anterior, Mons. Laise retoma os detalhes dessa reconstrução histórica a partir do precioso relato dos factos que faz, no seu livro de memórias La Riforma liturgica 1948-1975, Mons. Annibale Bugnini, que não foi apenas testemunha, mas também seu protagonista. De acordo com os documentos transcritos desse livro, com esta concessão pretendia-se, sobretudo, impedir que «nestes tempos de forte contestação (...) a autoridade não seja superada, mantendo uma proibição que dificilmente seguiria na prática». De facto, quando se consideram as diferentes soluções possíveis, tem-se em consideração que «também se deve prever uma reacção violenta em algumas zonas e uma desobediência generalizada onde o uso já foi introduzido». A vontade claramente restritiva do legislador, manifestada notoriamente no documento, deveria ter significado, porém, que a concessão fosse interpretada e aplicada de forma a favorecer a sua difusão o menos possível.          

Esta legislação nunca foi posteriormente modificada, nem as possibilidades de introdução da Comunhão na mão foram ampliadas, mas: os pedidos das conferências episcopais – embora não houvesse as condições necessárias para pedir o indulto; a insistência em reconsiderar o problema em locais onde já tinha sido previamente verificada a ausência dessas condições restritivas; a sua muito fácil concessão da parte do dicastério competente e, sobretudo, o silêncio absoluto que posteriormente se fez sobre a desobediência irredutível que, como explica claramente Mons. Laise, era exactamente o único motivo pelo qual foi concedido o indulto, fizeram com que a prática se estendesse quase universalmente.     

Um segundo ponto do estudo de Mons. Laise que chama a atenção é onde demonstra que a nova prática não seria realmente uma “redescoberta” de uma “antiga tradição” “ao voltar a receber a Comunhão como na Igreja das origens e dos Padres”, como se ouve dizer frequentemente. A esse respeito, expus diante de Mons. Laise a convicção de que o Evangelho de João e os escritos de alguns Padres, bem como o Codex Purpureus Rossanensis (século V), de proveniência siríaca, demonstram que Jesus deu a Comunhão aos Apóstolos na boca.        

Na Instrução Memoriale Domini, diz-se claramente que, embora no cristianismo primitivo a Sagrada Comunhão se recebesse normalmente na mão, «com o passar do tempo, aprofundou-se o conhecimento do mistério eucarístico, da sua eficácia e da presença de Jesus Cristo nele, de modo que, tanto pelo sentido de reverência a esse Sacramento quanto pelo sentido de humildade com que se deve recebê-lo, foi introduzida a prática de colocar na língua do fiel as Sagradas Espécies».          

Foi assim que, a determinada altura, um uso acabou por substituir o outro, a tal ponto que o primeiro foi não apenas abandonado, mas mesmo explicitamente proibido. A partir do contexto, vê-se claramente que, para Paulo VI, aquela mudança da prática constituía a passagem de um modo imperfeito a um mais perfeito.   

De facto, nos textos antigos nunca se menciona que os Padres da Igreja tenham encontrado alguma vantagem em comungar na mão, nem que tenham elogiado essa prática enquanto tal, mas simplesmente descrevem o único modo por eles conhecido. Efectivamente, como disse Mons. Laise, ao alertar repetidamente sobre os perigos a ela relacionados, os Padres evidenciam uma imperfeição inerente a esta modalidade de receber a Comunhão. Portanto, o autor acredita que se possa afirmar que a Comunhão na mão foi, certamente, o modo de comungar que tiveram os Santos Padres, mas que a Comunhão na boca era o modo que teriam desejado.

Vários séculos depois, o uso de comungar na mão, “neutro” na era patrística, foi retomado pelos reformadores protestantes com uma clara conotação doutrinária. Por exemplo, Martino Bucero, promotor da reforma anglicana, assevera que a prática de não dar a Comunhão na mão se devia a duas “superstições”: a “falsa honra” que se pretende atribuir a este Sacramento e a “crença perversa” que as mãos dos ministros, por causa da unção recebida na ordenação, são mais santas que as mãos dos leigos. A partir deste momento, o gesto de receber a Comunhão na mão tem um sentido marcadamente polémico que se opõe à Comunhão na boca como expressão de uma doutrina oposta, e isto em dois pontos fundamentais que distinguem a posição protestante da católica: a presença real e o sacerdócio. A partir desse momento, esta implicação não pode ser ignorada.

Portanto, quando, na segunda metade do século XX, a Comunhão na mão começou a penetrar nos ambientes católicos, não se tratava de um mero regresso a um uso primitivo. Logo, não é por acaso, como evidencia Monsenhor Laise, que, precisamente num dos primeiros lugares onde a Comunhão na mão foi introduzida abusivamente, foi publicado, pouco tempo depois, um “novo Catecismo” (o conhecido Catecismo Holandês) a que a Santa Sé teve que impor numerosas modificações (14 principais e 45 menores) para corrigir graves erros doutrinários. Neste texto, encomendado pelo episcopado holandês e apresentado por meio de uma “carta pastoral colectiva”, era questionada a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia, dava-se uma explicação inadmissível da transubstanciação e negava-se qualquer forma de presença de Jesus Cristo nas partículas ou fragmentos destacados da Hóstia após a Consagração. Por outro lado, fazia-se confusão entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio hierárquico.  

O terceiro aspecto que o falecido prelado argentino oportunamente destaca é que, mesmo onde é permitido o uso da Comunhão na mão, não se trata de mais uma opção proposta pela Igreja de igual valor em relação ao outro uso vigente.     

De facto, a posição da Santa Sé em relação à maneira de comungar não é indiferente: mesmo para aqueles lugares onde foi concedido o indulto, a Comunhão na boca é o único modo autorizado pela lei da Igreja e foi sempre recomendado, enquanto que o outro modo é apenas tolerado (e tal como consequência daquilo que Laise define a «mais grave desobediência à autoridade papal nos últimos tempos»), devendo-se também tomar uma série de precauções, especialmente no que diz respeito à limpeza das mãos e ao cuidado com as partículas (prescrições que, além disso, são raramente levadas em consideração na prática).          

Segundo quanto afirma a Instrução Memoriale Domini, a maneira de comungar na boca que, há mais de um milénio, substituiu universalmente a prática de receber a Comunhão na mão «é adequada à preparação necessária para receber o Corpo do Senhor da maneira mais proveitosa possível e assegura mais eficazmente que a Sagrada Comunhão seja distribuída com reverência, decoro e dignidade, eliminando, assim, qualquer perigo de profanar as Sagradas Espécies Eucarísticas», prestando muita atenção aos cuidados que a Igreja sempre recomendou também em relação às próprias partículas do pão consagrado (com a Comunhão na mão, em vez disso, é sempre necessário um milagre para que não caia no chão uma partícula ou não fique agarrado à pele um pequeno fragmento).

Por isso, Paulo VI recordava – na encíclica Mysterium Fidei – como Orígenes disse que «os fiéis se julgavam culpadose com razão», acrescenta o Papa) se, recebido o corpo do Senhor, mesmo conservando-o com toda a cautela e veneração, alguns fragmentos caíssem por negligência».

As expressões dos Padres, a mudança no modo de receber a Comunhão no fim do primeiro milénio e os argumentos de Paulo VI para negar a reintrodução do modo arcaico, reflectem todos a única fé da Igreja na presença real, substancial e permanente, mesmo nas mais pequenas partículas, que exigem atenção e adoração.    

P. Nicola Bux     

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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