quarta-feira, 15 de julho de 2020

Carta aberta a Mons. Carlo Maria Viganò e a Mons. Athanasius Schneider



Consenso internacional acerca do debate sobre o Vaticano II
aberto pelos bispos Carlo Maria Viganò e Athanasius Schneider



A revisão crítica do Concílio Vaticano II é um facto inevitável. Foi dado um novo impulso para o debate, nas últimas semanas, através de algumas intervenções articuladas do Arcebispo Carlo Maria Viganò, antigo Núncio Apostólico nos Estados Unidos, e por Mons. Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Astana no Cazaquistão.    

Hoje, mais de quarenta académicos, jornalistas e intelectuais de todo o mundo publicam um documento de apoio aos dois bispos, renovando o pedido de «um debate aberto e honesto sobre o que realmente aconteceu no Vaticano II e sobre a possibilidade de que o Concílio e a sua actuação contenham erros ou aspectos que favoreçam erros ou prejudiquem a Fé». Disponibilizamos o texto completo, publicado, hoje, em seis idiomas.         

Excelências,

Nós, abaixo-assinados, queremos expressar a nossa sincera gratidão pela Vossa firmeza e pela Vossa solicitude pelas almas dos fiéis durante a actual crise de Fé na Igreja Católica. As Vossas declarações públicas, que exortam a inaugurar um debate honesto e aberto sobre o Concílio Vaticano II e as mudanças dramáticas operadas na Fé e na práxis por esse provocadas, representaram uma fonte de esperança e de consolação para muitos fiéis católicos. Hoje, isto é, mais de cinquenta anos após o seu encerramento, os eventos do Concílio Vaticano II mostram-se como algo único na história da Igreja. Nunca antes um concílio ecuménico tinha sido acompanhado por um período tão longo de confusão, corrupção, perda de Fé e humilhação para a Igreja de Cristo.   

O catolicismo sempre se distinguiu das falsas religiões pela sua insistência sobre o facto de que o Homem deve considerar-se uma criatura racional e que a crença religiosa, longe de suprimi-la, estimula a reflexão crítica dos católicos. Muitos, incluindo o actual Santo Padre, parecem colocar o Vaticano II, os seus textos, os seus actos e as suas aplicações práticas numa fortaleza fora do alcance da análise crítica e do debate. Contra as preocupações e as objecções levantadas pelos católicos de boa vontade, o Concílio foi elevado ao status de “super-concílio”[1],cuja menção põe fim aos debates em vez de encorajá-los. A Vossa exortação a reencontrar as raízes da presente crise na Igreja e o Vosso apelo a agir para corrigir todos os desvios do Vaticano II – que, agora, parece ter sido um erro – são um excelente exemplo de cumprimento do ministério episcopal de modo a transmitir a Fé tal como a Igreja a recebeu. 

Somos gratos pela Vossa exortação a iniciar um debate aberto e honesto sobre o que realmente aconteceu no Vaticano II e sobre a possibilidade de que o Concílio e a sua actuação contenham erros ou aspectos que favoreçam erros ou prejudiquem a Fé. Um debate deste tipo não pode partir da conclusão de que o Vaticano II esteja per se, tanto na sua totalidade quanto nas suas partes, em continuidade com a Tradição. Submeter o debate a uma condição preliminar do género significa matar à nascença a análise crítica e qualquer discussão, permitindo exclusivamente a apresentação de evidências que sustentem a conclusão mencionada. A questão se o Vaticano II possa ou não conciliar-se com a Tradição é o ponto a debater, não a premissa obrigatória a ser seguida cegamente, mesmo que isso se mostre contrário à razão. A continuidade do Vaticano II com a Tradição é uma hipótese a ser verificada e discutida, não um facto incontestável. Há já muitas décadas que a Igreja vê poucos pastores permitirem – e, muito menos, incentivarem – um debate deste tipo.       

Há onze anos, Monsenhor Brunero Gherardini endereçou um pedido filial ao Papa Bento XVI: «Há já muito tempo que tenho em mente esta ideia (que me permito expor a Vossa Santidade): refiro-me à possibilidade de fornecer uma clarificação grandiosa e definitiva a todos os aspectos e conteúdos do último Concílio. Na realidade, pareceria uma coisa lógica – e parece-me urgente – que tais aspectos e conteúdos sejam estudados em si mesmos e no seu contexto, juntamente com todos os outros, com um exame minucioso de todas as fontes e do ponto de vista específico da continuidade com o anterior Magistério da Igreja, tão solene quanto ordinário. Sobre a base de um trabalho científico e crítico – o mais amplo e irrepreensível possível – de comparação com o Magistério tradicional da Igreja, será, então, possível abordar esta questão alcançando uma avaliação certa e objectiva do Vaticano II»[2].           

Também Vos somos gratos por quererem identificar alguns dos pontos doutrinais mais importantes a serem abordados em semelhante análise crítica e por terem fornecido um modelo para um debate franco, mas equilibrado, que tolere o desacordo. Reunimos alguns exemplos das Vossas recentes intervenções sobre argumentos que – como bem indicaram – devem ser abordados e – se se demonstrar que são errados – corrigidos. A nossa esperança é que esta recolha possa servir de base para uma discussão e um debate mais detalhados. Não reivindicamos que esta lista seja exclusiva, perfeita ou completa. Nem estamos necessariamente todos de acordo sobre a natureza exacta de cada uma das críticas citadas abaixo ou sobre as respostas às perguntas por Vós levantadas, mas concordamos que as Vossas perguntas merecem respostas honestas e não ser simplesmente descartadas com argumentos ad hominem contendo alegadas acusações de desobediência ou de ruptura da comunhão. Mesmo que tudo o que afirmais fosse falso, os interlocutores que o provem; caso contrário, a hierarquia deve atender às Vossas solicitações.     

A liberdade religiosa para todas as religiões como direito natural desejado por Deus

i) Bispo Schneider: «Os exemplos incluem algumas expressões do Concílio sobre o tema da liberdade religiosa (entendida como um direito natural – portanto, querida, de certa forma, por Deus – de praticar e difundir uma falsa religião, incluindo a idolatria e até pior)...»[3].   

ii) Bispo Schneider: «Infelizmente, apenas algumas frases mais adiante, o Concílio [na Dignitatis Humanae] afecta esta verdade ao introduzir uma teoria nunca antes ensinada pelo Magistério constante da Igreja, a saber, que o homem teria o direito, fundado na sua própria natureza, “de não ser impedido de agir de acordo com a própria consciência em matérias religiosas, tanto em privado como em público, tanto individualmente como em associação com outras pessoas, dentro dos devidos limites” (ut in re religiosa neque impediatur, quominus iuxta suam conscientiam agat privatim et publice, vel solus vel aliis consociatus, intra debitos limites, n. 2). Segundo esta declaração, o homem teria o direito, baseado na sua própria natureza (e, portanto, desejado, de certa forma, por Deus), de não ser impedido de escolher, praticar e difundir, mesmo colectivamente, a adoração de um ídolo ou até a veneração de Satanás, uma vez que também existem religiões que veneram Satanás, por exemplo, a ‘igreja de Satanás’, que, em algumas nações, é reconhecida com o mesmo valor legal que todas as outras religiões»[4].

A identidade da Igreja de Cristo com a Igreja Católica e o novo ecumenismo      


i) Bispo Schneider: «[A sua] [do Concílio] distinção entre Igreja de Cristo e Igreja Católica (o problema do subsistit in dá a impressão de que existem duas realidades distintas: por um lado, a Igreja de Cristo, por outro a Igreja Católica); e a sua posição em relação às religiões não-cristãs e ao mundo contemporâneo»[5].      

ii) Bispo Schneider: «Afirmar que os muçulmanos veneram connosco o único Deus (“nobiscum Deum adorant”), como fez o Concílio Vaticano II na Lumen Gentium, n. 16, constitui, de um ponto de vista teológico, uma declaração extremamente ambígua. Não é verdade que nós, católicos, veneramos o único Deus com os muçulmanos. Não o veneramos com eles. No acto de veneração, veneramos sempre a Santíssima Trindade; não veneramos simplesmente “o único Deus”, mas, conscientemente, a Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo. O islão rejeita a Santíssima Trindade. Quando os muçulmanos veneram, fazem-no sem atingir o nível sobrenatural da fé. Também o nosso acto de veneração é radicalmente diferente. É diferente na sua essência. Precisamente porque nos dirigimos a Deus e veneramo-Lo como filhos constituídos como tal dentro da inefável dignidade da divina adopção filial e porque o fazemos com fé sobrenatural. Os muçulmanos, por outro lado, não têm a fé sobrenatural»[6].

iii) Arcebispo Viganò: «Sabemos bem que, suportados pelo dito evangélico Littera enim occidit, spiritus autem vivificat, os progressistas e os modernistas souberam ocultar astuciosamente, nos textos conciliares, aquelas expressões ambíguas que, à época, pareciam inofensivas para a maioria, mas que hoje se manifestam na sua valência subversiva. É o método do subsistit in: dizer uma meia verdade não tanto para não ofender o interlocutor (assumindo que seja lícito silenciar a verdade de Deus por respeito a uma Sua criatura), mas com o objectivo de poder usar o meio erro que a verdade inteira dissiparia instantaneamente. Assim, “Ecclesia Christi subsistit in Ecclesia Catholica” não especifica a identidade das duas, mas a existência de uma na outra e, por consistência, também noutras igrejas: eis a passagem aberta às celebrações interconfessionais, às orações ecuménicas, ao fim implacável da necessidade da Igreja em ordem à salvação, da sua singularidade, da sua missionariedade»[7].

O primado papal e a nova colegialidade    

i) Bispo Schneider: «Por exemplo, o simples facto de que seja necessária uma ‘praevia Nota’ ao documento Lumen Gentium, demonstra que o texto da Lumen Gentium, no n. 22, é ambíguo sobre o tema da relação entre o primado papal e a colegialidade episcopal. Os documentos que esclareceram o Magistério em tempos pós-conciliares, como as encíclicas Mysterium Fidei, Humanae Vitae e o Credo do Povo de Deus, de Paulo VI, foram de grande valor e ajuda, mas não esclareceram as mencionadas declarações ambíguas do Concílio Vaticano II»[8].

O Concílio e os seus textos são a causa de muitos escândalos e erros actuais       

i) Arcebispo Viganò: «Se a pachamama pôde ter sido adorada numa igreja, devemo-lo à Dignitatis humanae. Se temos uma liturgia protestante e, às vezes, até paganizada, devemo-lo às acções revolucionárias de Mons. Annibale Bugnini e às reformas pós-conciliares. Se se assinou o Documento de Abu Dhabi, deve-se à Nostra Aetate. Se chegamos a delegar as decisões nas Conferências Episcopais – mesmo em gravíssima violação da Concordata, como aconteceu em Itália –, devemo-lo à colegialidade e à sua versão actualizada da sinodalidade. Graças à qual nos encontramos, com a Amoris Laetitia, a dever procurar uma maneira de impedir que aparecesse o que era evidente a todos, ou seja, que aquele documento, preparado por uma impressionante máquina organizacional, deveria legitimar a Comunhão aos divorciados e concubinários, assim como a Querida Amazónia será usada como legitimação de mulheres sacerdotes (o caso de uma “vigária episcopal”, em Friburgo, é muito recente) e a abolição do Sagrado Celibato»[9].    

ii) Arcebispo Viganò: «Mas se à época poderia ser difícil pensar que a liberdade religiosa condenada, por Pio XI, na Mortalium Animos pudesse ser afirmada pela Dignitatis Humanae, ou que o Romano Pontífice pudesse ver usurpada a própria autoridade por um fantasmagórico Colégio Episcopal, hoje compreendemos que aquilo que no Vaticano II era habilmente dissimulado hoje é afirmado ore rotundo nos documentos papais, precisamente em nome da aplicação coerente do Concílio»[10].   

iii) Arcebispo Viganò: «Podemos, portanto, afirmar que o espírito do Concílio é o próprio Concílio, que os erros do pós-concílio estão contidos in nuce nos Actos Conciliares, exactamente como se diz com razão que o Novus Ordo é a Missa do Concílio, mesmo se, na presença dos Padres, se celebrava a Missa que os progressistas chamam de significativamente pré-conciliar»[11].

iv) Bispo Schneider: «Para qualquer pessoa intelectualmente honesta que não tente fazer a quadratura do círculo, torna-se claro que a afirmação feita na Dignitatis Humanae, segundo a qual cada homem tem o direito – baseado na sua própria natureza (e, portanto, querido, de certo modo, por Deus) – de praticar e difundir uma religião de acordo com a própria consciência, não difere substancialmente da afirmação contida na Declaração de Abu Dhabi, segundo a qual: O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferente”»[12]. 

Tomámos nota das diferenças por Vós destacadas entre as soluções que cada um de Vós propôs para reagir à crise que eclodiu com o Concílio Vaticano II. Por exemplo, o Arcebispo Viganò argumentou que seria melhor “esquecer” completamente o Concílio, enquanto que o bispo Schneider, em desacordo com ele sobre este ponto específico, propõe oficialmente corrigir apenas as partes dos documentos do Concílio que contêm erros ou que são ambíguas. A Vossa troca de opiniões educada e respeitosa deveria servir de modelo para um debate ainda mais robusto que, tanto Vós como nós, desejamos. Frequentemente, nos últimos cinquenta anos, ao desacordo com o Vaticano II replicou-se com meros ataques ad hominem, em vez de recorrer a argumentos civilizados. Exortamos todos aqueles que desejam unir-se a este debate que sigam o Vosso exemplo.     

Pedimos à Nossa Santa Mãe, a São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, a Santo Atanásio e a São Tomás de Aquino para protegerem e preservarem Vossas Excelências. Possam eles recompensar-vos pela Vossa fidelidade à Igreja e confirmar-vos na Vossa defesa da Fé da Igreja.          

In Christo Rege,               


Subscritores

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P. Michael Menner
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P. Dean Perri
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P. Luis Eduardo Rodríguez Rodríguez 
P. Tullio Rotondo
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Robert Siscoe, Escritor
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Marco Tosatti, Jornalista
Giovanni Turco, Professor Associado de Filosofia do Direito Público na Universidade de Udine
Jose Antonio Ureta
Aldo Maria Valli, Jornalista
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John-Henry Westen, Co-fundador e director de LifeSiteNews
Willy Wimmer, Ex-Secretário de Estado da Defesa






[1] Cardeal Joseph Ratzinger, Santiago do Chile, 13 de Julho de 1988.
[2] Concilio Vaticano II: Un discorso da fare (Frigento, Casa Maria Editrice, 2009), posteriormente publicado em inglês com o título The Ecumenical Vatican Council II: A Much Needed Discussion. Este excerto foi retirado de: https://cutt.ly/KpP4JK2.

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