sexta-feira, 31 de julho de 2020

Comunhão na mão: ataque dos protestantes ao sacerdócio (2.ª parte)



No livro sobre a introdução da Comunhão na mão de que falámos no artigo anterior, Mons. Laise retoma os detalhes dessa reconstrução histórica a partir do precioso relato dos factos que faz, no seu livro de memórias La Riforma liturgica 1948-1975, Mons. Annibale Bugnini, que não foi apenas testemunha, mas também seu protagonista. De acordo com os documentos transcritos desse livro, com esta concessão pretendia-se, sobretudo, impedir que «nestes tempos de forte contestação (...) a autoridade não seja superada, mantendo uma proibição que dificilmente seguiria na prática». De facto, quando se consideram as diferentes soluções possíveis, tem-se em consideração que «também se deve prever uma reacção violenta em algumas zonas e uma desobediência generalizada onde o uso já foi introduzido». A vontade claramente restritiva do legislador, manifestada notoriamente no documento, deveria ter significado, porém, que a concessão fosse interpretada e aplicada de forma a favorecer a sua difusão o menos possível.          

Esta legislação nunca foi posteriormente modificada, nem as possibilidades de introdução da Comunhão na mão foram ampliadas, mas: os pedidos das conferências episcopais – embora não houvesse as condições necessárias para pedir o indulto; a insistência em reconsiderar o problema em locais onde já tinha sido previamente verificada a ausência dessas condições restritivas; a sua muito fácil concessão da parte do dicastério competente e, sobretudo, o silêncio absoluto que posteriormente se fez sobre a desobediência irredutível que, como explica claramente Mons. Laise, era exactamente o único motivo pelo qual foi concedido o indulto, fizeram com que a prática se estendesse quase universalmente.     

Um segundo ponto do estudo de Mons. Laise que chama a atenção é onde demonstra que a nova prática não seria realmente uma “redescoberta” de uma “antiga tradição” “ao voltar a receber a Comunhão como na Igreja das origens e dos Padres”, como se ouve dizer frequentemente. A esse respeito, expus diante de Mons. Laise a convicção de que o Evangelho de João e os escritos de alguns Padres, bem como o Codex Purpureus Rossanensis (século V), de proveniência siríaca, demonstram que Jesus deu a Comunhão aos Apóstolos na boca.        

Na Instrução Memoriale Domini, diz-se claramente que, embora no cristianismo primitivo a Sagrada Comunhão se recebesse normalmente na mão, «com o passar do tempo, aprofundou-se o conhecimento do mistério eucarístico, da sua eficácia e da presença de Jesus Cristo nele, de modo que, tanto pelo sentido de reverência a esse Sacramento quanto pelo sentido de humildade com que se deve recebê-lo, foi introduzida a prática de colocar na língua do fiel as Sagradas Espécies».          

Foi assim que, a determinada altura, um uso acabou por substituir o outro, a tal ponto que o primeiro foi não apenas abandonado, mas mesmo explicitamente proibido. A partir do contexto, vê-se claramente que, para Paulo VI, aquela mudança da prática constituía a passagem de um modo imperfeito a um mais perfeito.   

De facto, nos textos antigos nunca se menciona que os Padres da Igreja tenham encontrado alguma vantagem em comungar na mão, nem que tenham elogiado essa prática enquanto tal, mas simplesmente descrevem o único modo por eles conhecido. Efectivamente, como disse Mons. Laise, ao alertar repetidamente sobre os perigos a ela relacionados, os Padres evidenciam uma imperfeição inerente a esta modalidade de receber a Comunhão. Portanto, o autor acredita que se possa afirmar que a Comunhão na mão foi, certamente, o modo de comungar que tiveram os Santos Padres, mas que a Comunhão na boca era o modo que teriam desejado.

Vários séculos depois, o uso de comungar na mão, “neutro” na era patrística, foi retomado pelos reformadores protestantes com uma clara conotação doutrinária. Por exemplo, Martino Bucero, promotor da reforma anglicana, assevera que a prática de não dar a Comunhão na mão se devia a duas “superstições”: a “falsa honra” que se pretende atribuir a este Sacramento e a “crença perversa” que as mãos dos ministros, por causa da unção recebida na ordenação, são mais santas que as mãos dos leigos. A partir deste momento, o gesto de receber a Comunhão na mão tem um sentido marcadamente polémico que se opõe à Comunhão na boca como expressão de uma doutrina oposta, e isto em dois pontos fundamentais que distinguem a posição protestante da católica: a presença real e o sacerdócio. A partir desse momento, esta implicação não pode ser ignorada.

Portanto, quando, na segunda metade do século XX, a Comunhão na mão começou a penetrar nos ambientes católicos, não se tratava de um mero regresso a um uso primitivo. Logo, não é por acaso, como evidencia Monsenhor Laise, que, precisamente num dos primeiros lugares onde a Comunhão na mão foi introduzida abusivamente, foi publicado, pouco tempo depois, um “novo Catecismo” (o conhecido Catecismo Holandês) a que a Santa Sé teve que impor numerosas modificações (14 principais e 45 menores) para corrigir graves erros doutrinários. Neste texto, encomendado pelo episcopado holandês e apresentado por meio de uma “carta pastoral colectiva”, era questionada a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia, dava-se uma explicação inadmissível da transubstanciação e negava-se qualquer forma de presença de Jesus Cristo nas partículas ou fragmentos destacados da Hóstia após a Consagração. Por outro lado, fazia-se confusão entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio hierárquico.  

O terceiro aspecto que o falecido prelado argentino oportunamente destaca é que, mesmo onde é permitido o uso da Comunhão na mão, não se trata de mais uma opção proposta pela Igreja de igual valor em relação ao outro uso vigente.     

De facto, a posição da Santa Sé em relação à maneira de comungar não é indiferente: mesmo para aqueles lugares onde foi concedido o indulto, a Comunhão na boca é o único modo autorizado pela lei da Igreja e foi sempre recomendado, enquanto que o outro modo é apenas tolerado (e tal como consequência daquilo que Laise define a «mais grave desobediência à autoridade papal nos últimos tempos»), devendo-se também tomar uma série de precauções, especialmente no que diz respeito à limpeza das mãos e ao cuidado com as partículas (prescrições que, além disso, são raramente levadas em consideração na prática).          

Segundo quanto afirma a Instrução Memoriale Domini, a maneira de comungar na boca que, há mais de um milénio, substituiu universalmente a prática de receber a Comunhão na mão «é adequada à preparação necessária para receber o Corpo do Senhor da maneira mais proveitosa possível e assegura mais eficazmente que a Sagrada Comunhão seja distribuída com reverência, decoro e dignidade, eliminando, assim, qualquer perigo de profanar as Sagradas Espécies Eucarísticas», prestando muita atenção aos cuidados que a Igreja sempre recomendou também em relação às próprias partículas do pão consagrado (com a Comunhão na mão, em vez disso, é sempre necessário um milagre para que não caia no chão uma partícula ou não fique agarrado à pele um pequeno fragmento).

Por isso, Paulo VI recordava – na encíclica Mysterium Fidei – como Orígenes disse que «os fiéis se julgavam culpadose com razão», acrescenta o Papa) se, recebido o corpo do Senhor, mesmo conservando-o com toda a cautela e veneração, alguns fragmentos caíssem por negligência».

As expressões dos Padres, a mudança no modo de receber a Comunhão no fim do primeiro milénio e os argumentos de Paulo VI para negar a reintrodução do modo arcaico, reflectem todos a única fé da Igreja na presença real, substancial e permanente, mesmo nas mais pequenas partículas, que exigem atenção e adoração.    

P. Nicola Bux     

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Carta de Mons. Viganò a Mons. Taussig: «A Caridade exerce-se para o Bem»



O Dies Iræ publica, a pedido de Mons. Carlo Maria Viganò, uma carta que o antigo Núncio Apostólico em Washington enviou, hoje, ao Bispo de San Rafael, Mons. Eduardo Taussig, no seguimento da decisão do Prelado argentino de punir sacerdotes e seminaristas que se recusaram administrar e receber a Sagrada Comunhão na mão. Mons. Taussig também já decretou o encerramento do Seminário da Diocese argentina.

30 de Julho de 2020

Excelência,

Estou transtornado e magoado por saber, através da imprensa internacional, da notícia relativa à decisão de encerrar o Seminário da Diocese de San Rafael e de demitir o seu Reitor, P. Alejandro Miguel Ciarrocchi.          

Esta decisão terá sido adoptada, sob a sua zelosa recomendação, pela Congregação para o Clero, que considerou inadmissível a recusa da parte dos clérigos sob sua jurisdição em administrar e receber a Sagrada Eucaristia na mão e não na boca. Imagino que o comportamento louvável e coerente dos sacerdotes, dos seminaristas e dos fiéis de San Rafael lhe tenha dado um óptimo pretexto para fechar o maior Seminário argentino e dispersar os seminaristas para reeducá-los noutros lugares, em seminários tão exemplares que agora estão vazios. Vossa Excelência conseguiu traduzir admiravelmente na prática aquele convite à parrésia em nome da qual se deveria derrotar o flagelo do clericalismo denunciado desde o mais alto Sólio.                 

Posso compreender a sua decepção ao ver que, não obstante a obra intensiva de doutrinação ultramodernista realizada nestas décadas, ainda existem bons padres e seminaristas que não antepõem a obediência de cortesia ao devido respeito ao Santíssimo Sacramento; e posso imaginar o seu despeito ao ver que também os fiéis leigos e famílias inteiras – daquela que é chamada “a Vendeia dos Andes” – seguem os bons pastores, dos quais, como diz o Evangelho, «reconhecem a sua voz», e não os mercenários «que não se importam com as ovelhas» (Jo 10,  4.13).    

Estes episódios confirmam a acção do Espírito Santo na Igreja: o Paráclito infunde o dom da Fortaleza nos humildes e nos fracos e confunde os soberbos e os poderosos, tornando manifesta a fé no Augusto Sacramento do Altar, por um lado, e, por outro, a sua condenável profanação por respeitos humanos. Conformar-se à mentalidade do mundo talvez possa fazer com que Vossa Excelência mereça o fácil e interessado aplauso
​​dos inimigos da Igreja, mas não evitará nem a unânime deploração dos bons, nem muito menos o Julgamento de Deus, que sob os véus eucarísticos está presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. E que aos Sagrados Pastores pede que sejam Suas testemunhas, não Seus traidores e perseguidores.      

Vossa Excelência permitir-me-á que lhe faça notar uma certa incoerência do seu comportamento com o lema que escolheu para o seu brasão episcopal: Paterna atque fraterna charitate. Não vejo nada de paternal no punir os sacerdotes que não querem profanar a Hóstia Santa, nem forma alguma de verdadeira caridade para com aqueles que desobedeceram a uma ordem inadmissível. A Caridade exerce-se para o Bem e para o Verdadeiro: se tem o erro como princípio e o mal como fim, não é mais que uma grotesca paródia da Virtude. Um Bispo que, em vez de defender a honra devida ao Rei dos reis e louvar os que se esforçam por esse nobre propósito, consegue fazer fechar um florescente Seminário e repreender publicamente os seus clérigos, não cumpre uma acção de caridade, mas um deplorável abuso, do qual será chamado a responder perante o tribunal de Deus. Rezo para que compreenda quanto o gesto, avaliado sub specie aeternitatis, é em si um escândalo para os simples. Os seus estudos no Angelicum deveriam ajudar Vossa Excelência nesta obra de sã resipiscência que impõe sub gravi também a necessária reparação.              

A imprensa refere que, na Diocese de Basileia, na Igreja de Rigi-Kaltbad, uma mulher revestida de paramentos sagrados simula habitualmente a celebração da Missa, na ausência de um sacerdote ordenado, omitindo apenas as palavras da Instituição. Pergunto-me se Mons. Felix Gmür se distinguirá pelo mesmo zelo que o animou e se recorrerá aos Dicastérios Romanos para fazer punir de modo exemplar a sacrílega encenação. Temo, todavia, que a inflexibilidade por si demonstrada ao punir os sacerdotes que obedientemente lhe desobedeceram não encontrará émulos na Suíça. Certamente, se naquele altar um sacerdote tivesse celebrado a Missa em Rito Tridentino, as flechas do Ordinário teriam sido rápidas a atingi-lo; mas uma mulher que celebra abusivamente e sacrilegamente a Missa é, hoje, considerada uma coisa insignificante, tanto quanto expor à profanação o Santíssimo Sacramento do Altar.      

Juntamente com os clérigos e os leigos da sua Diocese, a quem injustamente atingiu e ofendeu gravemente, rezo por si, Excelência, pelos mandantes da Santa Sé e, em particular, pelo Cardeal Beniamino Stella, que conheci como sacerdote devoto e como Núncio Apostólico fiel, a quem, como Delegado para as Representações Pontifícias, visitei em Bogotá. Uma vez meu amigo, trabalhei com ele durante anos na Secretaria de Estado: infelizmente, desde há algum tempo, não posso mais reconhecê-lo como tal pela sua participação na obra de demolição da Igreja de Cristo.

Rezamos pela vossa conversão, uma conversão à qual todos somos chamados, mas que é improrrogável para aqueles que operam não para a glória de Deus, mas contra o bem das almas e a honra da Igreja.         

Rezamos todos pelos seminaristas pelos fiéis de San Rafael, aos quais, Excelência, declarou guerra.         

Com fraterna Caridade, na Verdade, 

Carlo Maria Viganò, Arcebispo

Comunhão na mão: uma desobediência legitimada (1.ª parte)



Até 26 de Abril de 1996, o episcopado argentino foi um dos poucos no mundo a continuar com a recusa da prática, introduzida no final dos anos 60 em aberta oposição à vontade de Paulo VI, de distribuir a Sagrada Comunhão na mão aos fiéis. Naquele mesmo dia, na Assembleia da Conferência Episcopal Argentina, obtiveram-se votos suficientes para pedir a Roma o indulto que permitiria a introdução desta prática contrária à lei universal da Igreja.      

Roma concedeu imediatamente esse indulto, mas “ad normam” da “Instrução sobre a maneira de distribuição da Santa Comunhão Memoriale Domini”, em que se estabelecia claramente que a proibição de dar a Comunhão na mão tinha que ser universalmente preservada, mas que aonde (e apenas lá) o uso já tinha sido introduzido de forma abusiva e se enraizara de tal forma que os bispos da conferência episcopal local consideravam que não havia outra escolha senão tolerá-lo, «o Santo Padre […] concede que, no território da Conferência Episcopal, cada bispo, de acordo com a sua prudência e a sua consciência, possa autorizar na própria diocese a introdução do novo rito para distribuir a Comunhão».          

O então Bispo de San Luis (Argentina), Juan Rodolfo Laise, julgou, segundo a sua prudência e consciência, que essas circunstâncias não se verificavam na sua diocese, por isso não considerou apropriado fazer uso desse indulto. Esta decisão foi imediatamente interpretada por muitos como uma ruptura da unidade do episcopado e até como uma “rebelião” contra uma disposição litúrgica em vigor a partir de então. O Bispo de San Luis consultou os vários dicastérios romanos competentes que aprovaram por unanimidade a sua decisão.         

A 22 de Julho assinalou-se o primeiro aniversário da morte de Mons. Rodolfo que, quando se tornou emérito, voltou à vida conventual da sua Ordem – os Capuchinhos – e, a partir de 2001, retirou-se para o convento de San Giovanni Rotondo (onde viveu e agora é venerado São Pio, ao qual o bispo argentino tinha grande devoção). Mons. Laise exerceu lá o seu ministério confessando os peregrinos todos os dias, por quase vinte anos, até alguns meses antes da sua morte aos 93 anos.         

Há muitos aspectos da sua figura, como religioso, sacerdote e bispo, que se poderiam evocar, mas concentremo-nos no livro por ele publicado para explicar a sua posição na situação que mencionámos acima, um livro que, a seu pedido, tive a honra de apresentar por ocasião do lançamento da edição italiana (Comunione sulla mano, Documenti e storia. Cantagalli, Siena 2016) num acto realizado na Aula Magna do Instituto Patrístico Augustinianum de Roma. Foi, provavelmente, o primeiro livro específico publicado sobre o tema da Comunhão na mão. Nele, o prelado argentino aprofunda os aspectos históricos, canónicos e teológicos de tal maneira de receber a Comunhão e a sua influência na devoção e na vida espiritual dos fiéis.  

O livro está estruturado em forma de comentário detalhado (parágrafo a parágrafo) dos documentos em que é expressa a legislação actual sobre como receber a Comunhão, à qual foi adicionado um apêndice com aspectos históricos que nos colocam no contexto em que surgiram esses documentos. Tudo isso nos permite compreender a “mens legislatoris”, ou seja, a intenção do legislador (neste caso, Paulo VI), que é um elemento-chave para interpretar a lei.  

Finalmente, e depois de responder aos principais argumentos invocados para justificar a prática da Comunhão na mão, o estudo conclui-se com uma reflexão sobre a aplicação concreta dos elementos expostos ao longo das páginas do livro.         

De seguida veremos o mais importante destes elementos, que em muitos casos são verdades esquecidas que contrastam com algumas ideias recebidas.       

Alguns poderão surpreender-se, por exemplo, ao ler este livro, ao saber que esta forma de comungar não foi discutida nem sequer mencionada no Concílio Vaticano II e que nem fez parte da sucessiva reforma litúrgica. De facto, este uso, contrário às normas, foi introduzido, sem autorização, em algumas regiões quando o Concílio terminou, a meio dos anos 60, e, embora o Papa Paulo VI tenha imediatamente comunicado (já em 1965) àqueles bispos que deveriam ter regressado imediatamente ao único uso legal, ou seja, na boca, este e outros apelos da autoridade suprema não tiveram efeito algum.          

Dado que a resistência a estas directrizes se mostrou tenaz, em 1968 começou-se a considerar a possibilidade de conceder um indulto específico para aqueles lugares que não estavam dispostos a obedecer, embora se tenha sido visto que esse uso era, na prática, «muito questionável e perigoso» e se soubesse que, se a maneira de lidar com a questão fosse errada, havia «o perigo de enfraquecer a fé do povo na presença eucarística». Foi assim que Paulo VI que, segundo as suas próprias palavras, não podia «eximir-se de considerar a eventual inovação com óbvia apreensão» fez uma consulta “sub-secreta” do episcopado mundial sobre como lidar com a desobediência. O resultado da consulta foi que uma grande maioria dos bispos classificava como perigosa qualquer tipo de concessão.

Consequentemente, o Papa ordenou que a Sagrada Congregação para o Culto Divino preparasse um projecto de documento pontifício com o qual confirmasse «o pensamento da Santa Sé sobre a administração inoportuna da Sagrada Comunhão na mão dos fiéis, indicando as razões (doutrinárias, litúrgicas, pastorais, etc.)». Foi assim que, a 29 de Maio de 1969, a Congregação para o Culto Divino publicou a instrução Memoriale Domini, contendo a legislação ainda em vigor e que se poderia sintetizar da seguinte forma: a proibição da Comunhão na mão permanece em vigor de modo universal e exorta-se vivamente bispos, sacerdotes e fiéis a submeterem-se diligentemente a esta lei novamente reafirmada.     

Todavia, aonde este uso introduzido de maneira ilícita se tivesse enraizado, a Instrução previa a possibilidade de conceder um indulto para aqueles sectores que não estivessem dispostos a obedecer a esta exortação papal de respeitar a lei universal. Nesses casos, «para ajudar as conferências episcopais a desempenhar a sua tarefa pastoral nas actuais circunstâncias, mais difíceis do que nunca», o Papa estabeleceu que as respectivas conferências (com a condição de terem obtido a aprovação de dois terços dos seus membros) poderiam pedir um indulto a Roma para que cada bispo daquela conferência, segundo prudência e consciência, pudesse permitir a prática da Comunhão na mão na sua diocese.      

P. Nicola Bux          

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Entrevista exclusiva a Juan Miguel Montes



O Dies Iræ publica, em exclusivo, uma entrevista realizada a Juan Miguel Montes*, director do Escritório da TFP – Tradição, Família e Propriedade em Roma. Ao longo das várias questões, o entrevistado fala da sua permanência em Roma desde a década de 80 do século passado, dos diversos intervenientes directos na vida da Igreja e da figura do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.


1. Muito obrigado por nos conceder esta entrevista. O senhor chegou a Roma em princípios dos anos 80. Portanto, já está há quase quatro décadas a acompanhar proximamente os acontecimentos relacionados com a vida da Igreja. Que diferenças principais destacaria entre aquela época e os dias de hoje?

Respondo-lhe como observador católico dos factos e não como teólogo, que não sou.

Desde o final do Concílio até à morte de Papa Paulo VI, houve um período de grandes dificuldades na vida da Igreja. A prática religiosa dos fiéis diminuiu muito, muitas congregações e seminários esvaziaram-se, inúmeros sacerdotes abandonaram o ministério. Indubitavelmente, o dinamismo de João Paulo II, digamos assim, “recarregou” um organismo que, pelo menos no seu aspecto visível, parecia gravemente doente. As suas viagens pelo mundo, os seus jubileus, os seus encontros com jovens restituíram grande visibilidade à Igreja. Cheguei a Roma no quinto ano do seu longo pontificado e conheço os testemunhos de muitas pessoas que viveram os dois períodos de perto. A crise parecia, de várias maneiras, ter parado um pouco; nos anos 80, houve um certo renascimento do entusiasmo e da esperança no corpo da Igreja, mesmo se, para muitos católicos mais conscientes, persistiam sérias razões de preocupação. Havia, à época, fenómenos contrastantes: por um lado, a esperança era alimentada pelas sólidas posições do magistério pontifício em questões morais, sobre a teologia da libertação, etc.; por outro lado, causavam perplexidade os gestos ecuménicos, os pedidos de perdão, a permanência de teólogos progressistas em lugares-chave do ensinamento católico.

Todavia, de uma maneira ou de outra, com altos e baixos, o impacto do pontificado de João Paulo II durou até à sua morte e continuou no pontificado do seu colaborador mais próximo, o Cardeal Ratzinger, que se tornou o Papa Bento XVI.

Hoje, o ambiente acima descrito do fim do pontificado de Paulo VI é reproposto com toda a sua força e até muito pior. É verdade que a actual situação eclesiástica alegra muitos adversários históricos da Igreja. Alegra intelectuais, políticos e jornalistas que não brilham por devoção à fé católica. Também alegra o minoritário, mas influente, sector progressista católico. Todavia, preocupa cada vez mais a um consistente número de fiéis que levam a sério a sua religião e que lutam com crescente dificuldade para conservá-la num mundo secularizado. Eles veem, mais uma vez e até mais do que nos piores anos, as igrejas fechadas ou vazias, os seminários sem vocações, os escândalos de todos os tipos que proliferaram no clero e nas instituições católicas. Neste clima, como dizem as recentes estatísticas da Alemanha e de tantos outros Países, muitos fiéis, infelizmente, estão simplesmente a afastar-se da Igreja.

Então, perguntam-se os católicos preocupados, aquele fenómeno de aparente recuperação das duas últimas décadas do século passado tinha raízes profundas? Aquela recuperação correspondia mais a uma aparência do que a uma realidade consolidada? E, depois, perguntam-se ainda: quais são as causas mais profundas que originaram esta crise de fé, que é a mãe de todas as outras crises na Igreja? Assim, neste marco histórico, abre-se um debate sobre as causas da crise na Igreja. Quando começou? Que factores a favoreceram? Não é verdade que algumas das suas causas profundas continuaram a trabalhar em profundidade, enquanto, pelo menos à primeira vista, muitos efeitos pareciam estar em via de superação nos anos 80 em comparação aos anos 60-70?

Tudo isto explica o porquê do grande debate sobre a época anterior ao Vaticano II, sobre o próprio Concílio, sobre a sua repercussão na vida da Igreja, na sociedade, etc. E este debate sobre as causas da crise na Igreja continuará a crescer à medida que os efeitos continuem a emergir um pouco de todo o lado.

Esta é a grande diferença que vejo entre os anos 80, mais optimistas, e este início de 2020, que se abre sob o signo de grandes interrogações e mais do que legítimas preocupações.

2. Foi-lhe dado viver sob três Pontificados diferentes – João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Sob a óptica da Tradição apostólica, que acontecimentos sublinharia destes três Pontificados que mais se aproximaram ou se distanciaram daquele paradigma?

O Papa Francisco falou muitas vezes da mudança radical de paradigma na Igreja. Como confirmação desta afirmação, recomendo a leitura da obra Il Cambio di Paradigma di Papa Francesco, de José Antonio Ureta, onde este estudioso descreve e analisa as muitas facetas das grandes mudanças que ocorreram nos últimos sete anos.

Os Papas João Paulo II e Bento XVI quiseram, por outro lado, propor-se como expoentes da chamada “hermenêutica da reforma na continuidade” (Bento XVI), em vez de defensores de um novo paradigma.

Como mencionado, abriu-se agora uma grande discussão se, independentemente da vontade destes dois últimos Papas e já antes deles, o próprio Concílio Ecuménico Vaticano II ou certas interpretações suas sejam responsáveis directos
​​de uma modificação do paradigma católico em algo fundamental. Por exemplo, no crer ultrapassada a afirmação de que a Igreja Católica sempre fez de si mesma a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo. O tempo e os estudos multidisciplinares revelarão cada vez mais claramente os contornos e as consequências dos últimos 60 anos. E este, sim, é um processo agora irreversivelmente iniciado.

3. Como observador privilegiado da vida romana através da sua participação nas conferências de imprensa da Santa Sé, poderia falar-nos acerca dos personagens que, neste longo período, mais pautaram a vida da Igreja?

As pessoas mais significativas da linha eclesiástica que se identifica com a chamada “hermenêutica da reforma na continuidade” foram, sem dúvida, o próprio Papa Wojtyla e o Cardeal Ratzinger, que mais tarde se tornou o Papa Bento XVI.

O sector progressista viu no Papa Bergoglio e em Cardeais como Kasper e Martini os seus principais expoentes. O Cardeal Casaroli, criador do Ostpolitik com os regimes comunistas, já não teve com João Paulo II a influência determinante que teve nos tempos de Paulo VI e os progressistas recordam-no sempre menos.

As personalidades do chamado mundo tradicionalista, mesmo não tendo uma grande ressonância no campo dos grande media ou seguidores entre os membros da inteligência dominante, tornam-se, todavia, cada vez mais conhecidas a nível universal numa resiliente parte do rebanho católico. Foi o caso, por exemplo, dos quatro Cardeais que apresentaram os dubbia ao Papa Francisco sobre a exortação apostólica Amoris Laetitia.

4. Quando o Professor Corrêa de Oliveira lhe pediu que fosse representar o Bureau das TFPs em Roma, que conselhos lhe deu? Ele próprio (cfr. O Concílio Vaticano II – Uma História Nunca Escrita, Roberto de Mattei, Caminhos Romanos, Porto, 2016) acompanhou as primeiras sessões conciliares e ficou desapontado com o andamento das mesmas. Ele abordou consigo essa questão?

Muitas vezes.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira não escondeu, nem em público nem em privado, a dura prova que representou para ele o período conciliar e as desilusões que teve em Roma já na primeira fase do Concílio. Contudo, fez o que poderia fazer um leigo, uma pessoa externa ao próprio Concílio. A ele e aos seus colaboradores imediatos se deve a iniciativa e a coordenação da recolha de assinaturas entre os Padres Conciliares para pedir à assembleia a condenação do comunismo. O facto que a questão nem sequer tenha sido levada para a agenda da aula conciliar foi objecto de um seu severo comentário na actualização que, em 1976, fez do seu livro principal, Revolução e Contra-Revolução.

No entanto, seria um exagero dizer que o evento conciliar o apanhou de surpresa. A mim, pessoalmente, contou-me detalhadamente as apreensões que o assaltavam sobre os sintomas de um avanço revolucionário na Igreja desde há, pelo menos, 25 anos antes do Concílio e que o levaram a escrever a sua primeira obra, Em Defesa da Acção Católica, em 1943. Também me explicou que um grande motivo do seu sofrimento era que as pessoas mais próximas dele, mesmo no âmbito eclesiástico, não partilhavam totalmente o seu tormento pelo facto que erros da modernidade secularizante, isto é, da grande Revolução do Ocidente, penetravam no recinto sagrado da Igreja.

De facto, quando soube da convocação do Concílio, embora de um ponto de vista diametralmente oposto, ele disse, mais ou menos, o mesmo que o purpurado progressista belga L-J Suenens: «Estes serão os Estados Gerais da Igreja». Entre as posições contrárias, mas lúcidas, do Cardeal Suenens e de Plinio Corrêa de Oliveira existe um vasto oceano de católicos mais optimistas. Os anos 60 conheceram um ápice do optimismo daquela que é chamada “ideologia do progresso”.

Como profundo estudioso do processo revolucionário que sofria a Cristandade, processo que tinha sido inaugurado com o humanismo neopagão e com o Renascimento e que, depois, continuou com a Revolução francesa e com a russa, Plinio Corrêa de Oliveira sabia com total segurança que o fenómeno revolucionário não teria poupado a Igreja. Aliás, um assalto da Revolução à Igreja já tinha acontecido antes do seu nascimento, na época do Papa São Pio X, mas, graças à acção desse Pontífice, sofreu um revés. Mas, como líder da Acção Católica no Brasil, percebeu que os erros do modernismo reapareceram na Igreja nos anos 30, importados, sobretudo, pelos “agentes pastorais” belgas, o que o levou a escrever o mencionado livro de 1943, que mais tarde foi elogiado por Pio XII. A história daquele período e da denúncia então feita por Plinio Corrêa de Oliveira são o objecto de um estudo do falecido Gonzalo Larraín que surgirá brevemente em Itália com o título Il Primo Grido di Allerta.

Nos anos sucessivos ao Concílio, fiel ao seu próprio âmbito de acção, Plinio Corrêa de Oliveira e as TFP por ele inspiradas dedicaram-se a uma intensa luta contra a crescente infiltração das ideias e das práticas marxistas na Igreja exercidas pelo progressismo católico. Celebérrima foi a recolha, feita em 1969, de dois milhões de assinaturas pedindo ao Papa Paulo VI medidas contra essa infiltração comunista na Igreja. Durante os anos de 70 e 80, realizaram-se campanhas igualmente ressonantes contra a “teologia da libertação” (o nome que o fenómeno de infiltração acima mencionado quis dar a si mesmo), bem como contra o seu braço operativo, as comunidades eclesiais de base que, para dar apenas um exemplo, conseguiram levar Lula ao poder no Brasil, o gigante do subcontinente.

Nos doze anos da minha já longa estadia romana, em que o Prof. Plinio era vivo, tive que ir por conta própria alertar muitas instâncias romanas sobre o perigo para a Igreja que se delineava, sobretudo a partir da América Latina, com a “teologia da libertação”. Hoje parece-me difícil para alguém contestar toda a previsão profética de Plinio Corrêa de Oliveira no século XX. Mas deve ser dita mais uma coisa: até à sua morte, em 1995, ele nunca duvidou da certeza de que, após a crise, se abriria uma nova época de graça para a Igreja e para a humanidade, respondendo às promessas de Nossa Senhora em Fátima sobre o futuro triunfo do Seu Imaculado Coração.

5. Ainda sobre o Vaticano II, tem-se vindo a levantar um aceso debate sobre este malfadado acontecimento na vida da Igreja do século XX. Tal debate, suscitado, sobretudo, pelas intervenções do Arcebispo Carlo Maria Viganò e de Monsenhor Athanasius Schneider, motivou cerca de meia centena de sacerdotes, académicos e intelectuais a, no passado dia 15 de Julho, endereçarem a ambos uma carta de apoio. O que pensa desta iniciativa? Poderá surtir algum efeito prático?

Do debate que se abriu neste período, já falei. Espero que seja o início de um processo que esclareça honestamente o que aconteceu nos últimos sessenta anos e, ainda mais remotamente, desde os tempos do modernismo há mais de cento e vinte anos.

O que não espero, por outro lado, é que seja um motivo para esfriamento da caridade recíproca e da estima entre aqueles que agora concordam plenamente que algo de muito grave realmente aconteceu na Igreja, porque as evidências assim o dizem. Um clima respeitoso, sereno, sem pretensões nem estrelas será o maior serviço que se poderá prestar à Igreja. Pessoalmente, creio que a carta dos intelectuais de apoio aos dois corajosos bispos mencionados vá nessa direcção, também porque, hoje, diante dos factos, quem pode negar que há dificuldades objectivas na leitura que é dada do Vaticano II? Por outro lado, quem pode conferir ao Concílio um estatuto de infalibilidade que os Padres Conciliares não lhe quiseram dar?

6. No ano em que se assinala o 25.º aniversário da morte do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que doou toda a sua vida e pensamento ao serviço da Igreja e da contra-revolução, qual será, na sua opinião, a melhor homenagem que os seus filhos espirituais lhe podem fazer?

Manter uma posição equilibrada, isto é, não esconder a extensão do abismo que se escancarou diante do mundo e no seio da Igreja, mas, ao mesmo tempo, acreditar firmemente que, após as tempestades e a noite escura, brilhará a Estrela da Manhã. Em suma, haverá o triunfo do Imaculado Coração prometido por Nossa Senhora em Fátima, naquela gloriosa terra de Portugal onde «se conservará sempre o dogma da Fé» (Terceira Aparição). Plinio Corrêa de Oliveira, assim como previu com grande clarividência a extensão desta crise, nunca deixou de prever a chegada deste dia.

7. Para terminar, pedimos-lhe que, dos milhares de escritos do Prof. Plinio, escolha um ou uma passagem que o tenha marcado particularmente.

Tantas coisas se poderiam dizer do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre o seu apostolado contra-revolucionário, tanto na ordem temporal quanto na espiritual, tanto na sua vida intelectual quanto na operacional. Por exemplo, ele combateu durante décadas contra as tentativas do comunismo de dominar o continente latino-americano, dando origem ao maior movimento católico anticomunista do mundo. Como é que o cato-comunismo só chegou ao poder em vários Países da região após a sua morte? Qual foi a sua relevância histórica como verdadeiro freio de um fenómeno que poderia ter perturbado os equilíbrios da Guerra Fria? Um ponto ainda a ser explorado, entre muitos outros, da sua multiforme personalidade.

Creio, todavia, que a maior homenagem que se lhe possa fazer é recordá-lo com as palavras que ele próprio quis no seu túmulo em São Paulo, no Brasil: Vir totus catholicus et apostolicus, plene romanus. Foi um homem inteiramente católico e apostólico, plenamente romano.


* Juan Miguel Montes nasceu, em Santiago do Chile, em 1951. Dirige, desde 1983, o Escritório da Tradição, Família e Propriedade em Roma. Enquanto jornalista, seguiu de perto a vida da Igreja Católica no Vaticano, escrevendo sobre diversos órgãos de comunicação italianos e internacionais e fazendo conferências em Itália e no estrangeiro sobre estas questões.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

A guilhotina está preparada também para o liberal Jeff Bezos



O momento mais terrível das revoluções é quando os revolucionários se atacam a si mesmos. É o sinal de que o movimento se está a radicalizar, criando uma insegurança na qual já ninguém se sente seguro. Até os mais fiéis servidores das causas revolucionárias se encontram inesperadamente debaixo de mira, apesar de terem feito concessões, facilitado e apoiado aqueles que trabalham para derrubar o establishment. Fizeram tudo, mas parece que nunca é suficiente.

Tais considerações vêm à mente quando soubemos como os manifestantes quiseram assinalar a sua presença perto da casa, em Washington, do fundador da Amazon, Jeff Bezos, proprietário do muito esquerdista Washington Post. Toda a sua simpatia pelas causas de esquerda, incluindo Black Lives Matter, parece ser inútil. Todavia, este protesto diferia da norma. Além de outros símbolos, também havia um modelo de guilhotina.

Manifestantes usam a iconografia dos revolucionários franceses

A mensagem é clara. O objectivo não é apenas Bezos, mas todos aqueles que fazem parte do establishment oficial. O multimilionário serve como figura representativa de todos aqueles que têm riqueza e que devem ser eliminados. Uma placa em frente à guilhotina dizia: “Apoia as nossas pobres comunidades. Não os nossos homens ricos”.

Esta não é a primeira vez que os manifestantes usam símbolos e técnicas provenientes da sangrenta Revolução Francesa. Também os militantes do fracassado experimento CHAZ/CHOP, de Seattle, faziam referência à guilhotina. Um activista quis que a mudança do nome no CHOP fosse uma referência ao corte das cabeças dos capitalistas (n.d.r., do inglês to chop = cortar).

Os americanos devem levar a sério estes símbolos radicais. Esta não é apenas uma comédia de rua, mas indica o desejo de implementar uma agenda sombria e trágica. As lições da história revelam quão errado é negligenciar aqueles que recorrem aos símbolos. Nas primeiras fases da Revolução Francesa, ninguém pensava que atingiria o grau de massacre que veio a alcançar.

Morte por meio da Máquina

A guilhotina é particularmente emblemática porque recorda como os revolucionários eliminavam sem piedade os seus inimigos.

O mecanismo foi idealizado pelo médico francês Joseph-Ignace Guillotin como instrumento de decapitação para os opositores durante a Revolução Francesa. Antes da Revolução, a decapitação era reservada apenas aos nobres. No entanto, a Assembleia Nacional francesa, em 1789, aprovou uma lei que impunha que todas as condenações à morte fossem executadas «por meio de uma máquina». Deste modo, seria possível executar todos de modo igualitário.

Um símbolo de morte e terror

Portanto, o simbolismo da guilhotina como instrumento de morte e terror deveria fazer tremer os americanos. E deveria levantar questões sobre as reais intenções dos manifestantes que estão a aterrorizar a América. A guilhotina para protestar contra Jeff Bezos transmite uma mensagem que os revolucionários querem colocar abertamente sobre a mesa. Uma manifestação tão radical de intenções deveria levar as autoridades a condenar os manifestantes e os seus símbolos de violência. As organizações de protesto social deveriam emitir declarações a distanciar-se destes activistas que exibem a guilhotina. Os Bispos e o clero deveriam denunciar este símbolo como contrário aos ensinamentos de Cristo. Todavia, como os seus homólogos durante a Revolução Francesa, permanecem calados sobre os promotores da guilhotina e adaptam a política de concessão ao mal. O incidente será racionalizado como uma oportunidade para mostrar “compreensão” e simpatia pelos pobres rebeldes “oprimidos” que nada fazem senão reagir à “injustiça” da sua condição. Não levarão a sério a ameaça contida na lâmina que cai.

O aparecimento da guilhotina nas proximidades de Jeff Bezos desmascara quem são os revolucionários que estão por trás dos actuais confrontos. Ninguém deveria ter ilusões sobre as suas intenções de esquerda radical. Não se trata apenas de revoltas; não são manifestações pelos direitos civis. Esta é uma revolução que visa a ordem constituída e, como tal, deve ser denunciada.

No entanto, o que mais deveria incomodar as pessoas é o facto de que são postos debaixo de mira certos esquerdistas que favorecem as causas de esquerda. Se até estes estão sob ataque, nos próximos dias ninguém estará seguro.

John Horvart II 

Através de Tradition, Family and Property (EUA)

domingo, 26 de julho de 2020

«Foi vender tudo quanto possuía»


Nosso Senhor Jesus Cristo insistiu muitas vezes no seguinte: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mt 16, 24). […] E noutro passo: «Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá o dinheiro aos pobres»; e acrescenta: «depois, vem e segue-Me» (Mt 19, 21).

Para aquele que sabe compreender, a parábola do negociante quer dizer a mesma coisa: «O Reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola». A pérola preciosa designa indubitavelmente o Reino dos Céus e o Senhor mostra-nos que nos é impossível obtê-lo se não abandonarmos tudo o que possuímos: riqueza, glória, nobreza de nascimento e tudo aquilo que tantos outros procuram avidamente.

O Senhor declarou ainda que é impossível ocuparmo-nos convenientemente do que fazemos quando o nosso espírito é solicitado por coisas diversas: «Ninguém pode servir a dois senhores», disse (Mt 6, 24). Por isso, o tesouro que está no Céu é o único a que podemos ligar o coração: «Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6, 20). […] Em suma, trata-se de transportarmos o nosso coração para a vida do Céu, de maneira que possamos dizer: «A cidade a que pertencemos está nos Céus» (Fl 3, 20). Trata-se, sobretudo, de nos tornarmos semelhantes a Cristo «que, sendo rico, Se fez pobre» por nós (2 Cor 8,9).   

São Basílio, in Regras Monásticas, Regras Maiores, §8

sábado, 25 de julho de 2020

Entrevista do Arcebispo Carlo Maria Viganò sobre o caso McCarrick



O Dies Iræ publica, em exclusivo para Língua Portuguesa e a pedido de Mons. Carlo Maria Viganò, uma entrevista de Sua Excelência Reverendíssima ao jornalista italiano Marco Tosatti.       

É bem conhecido o empenho do Arcebispo Carlo Maria Viganò, antigo Núncio Apostólico nos Estados Unidos da América, em denunciar o véu de silêncio e os encobrimentos na gestão dos casos de abuso por parte de membros do Clero. É também conhecida a resposta azeda e irritada das autoridades vaticanas – e, em particular, de alguns Prelados – aos refutados argumentos do combativo Prelado. Nesta entrevista, aprofundamos com Sua Excelência os desenvolvimentos do caso do ex-Cardeal McCarrick, também à luz de um recente artigo, publicado no Church Militant, intitulado “McCarrick Bombshell”[1].        

Mas antes de abordar o conteúdo deste artigo, vamos dar um pequeno passo atrás. De 21 a 24 de Fevereiro de 2019, realizou-se, em Roma, um encontro dos Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, tendo por tema “A protecção dos menores na Igreja”
[2]. Alguns dias antes, a 16 de Fevereiro, a Congregação para a Doutrina da Fé comunicara a demissão do estado clerical de Theodore McCarrick, acusado de abusos e outros graves delitos, e acrescentara: «O Santo Padre reconheceu a natureza definitiva, pela lei, desta decisão, que torna o caso res iudicata, ou seja, não sujeito a novo recurso»[3].           

1. Excelência, pode-nos dizer quais são, até ao momento, as novidades do caso McCarrick?         

Receio que não haja nenhuma novidade, e é precisamente esta a notícia. Com a redução ao estado laical de McCarrick, quis-se encerrar um antigo caso que veio à luz, com o meu testemunho, apenas em 2018[4], mas foi feito todo o possível para que os resultados e os detalhes do processo não surgissem. O engano perpetrado através da estratégia de prosseguir administrativamente e não judicialmente, e a decisão de Bergoglio de confirmar autoritariamente a sentença, impediu que viessem à luz, juntamente com as culpas objectivas de McCarrick, também as responsabilidades daqueles que, durante anos, ajudaram a esconder a natureza e a extensão dos crimes que ele cometeu, a proteger os seus cúmplices e aqueles que, com o seu silêncio, encobriram os seus crimes. Deste modo, a condenação do culpado não esclareceu os pontos escuros. Como simples leigo, ele agora desfruta de uma total liberdade de movimento e de acção e ainda é capaz de intervir a todos os níveis: a nível eclesial mesmo com aqueles que o encobriram e apoiaram no Vaticano e noutros lugares; a nível político, social e financeiro, através das pessoas que permaneceram em contacto com ele e que receberam favores dele. A redução ao estado laical não constitui, de forma alguma, uma pena medicinal (sendo só a sua necessária premissa, devido à comprovada indignidade do réu), não implica qualquer forma de penitência reparadora, nem faz justiça às vítimas, mas consente ao senhor McCarrick continuar, sem perturbações, as suas próprias actividades criminosas, incluindo as de predador sexual.        

O procedimento administrativo também impediu a audiência das vítimas, enquanto que os depoimentos, recolhidos apenas recentemente pelo advogado Lena, o advogado da Santa Sé, parecem escritos sob ditado: aqueles que sofreram assédio chegam a desculpar a lentidão na publicação do Relatório, atribuindo-a à quantidade de testemunhos[5], com tons indulgentes e justificativos, difíceis de conciliar com a extrema gravidade dos crimes atribuídos ao acusado[6]. Parece que algumas vítimas, protegidas por um pseudónimo, se prestaram a uma operação que visa aligeirar as responsabilidades da Santa Sé e validar a narrativa que sustenta diante da opinião pública. Também há uma suspeita de que esses testemunhos anónimos sejam pura ficção. De qualquer forma, trata-se de um engano que deve ser denunciado com força, porque se a corrupção do Prelado individual é um escândalo, o silêncio culpado daqueles que representam a Igreja é ainda mais. Se estes episódios tivessem ocorrido sob o Pontificado de Bento XVI, teriam desencadeado a fúria dos media: tão contrita compreensão em relação a Jorge Mario Bergoglio é reveladora da atitude cúmplice da informação convencional.   

2. A convocatória do encontro no Vaticano tinha sido anunciada como ocasião para dar respostas firmes e determinadas sobre os escândalos sexuais do Clero. No seu discurso introdutório, o Papa Francisco afirmou: «Sobre o nosso encontro, grava o peso da responsabilidade pastoral e eclesial que nos obriga a dialogar conjuntamente, de forma sinodal, sincera e profunda sobre o modo como enfrentar este mal que aflige a Igreja e a humanidade. O santo Povo de Deus olha para nós e espera de nós, não meras e óbvias condenações, mas medidas concretas e eficazes a implementar. Requer-se consistência»[7].      

As solenes proclamações que precederam, acompanharam e seguiram este encontro não deram absolutamente origem a nenhuma acção prática concreta, ao contrário do desejado[8]. Assim como, durante o encontro, não tiveram resposta as legítimas e insistentes perguntas feitas pelos jornalistas a Bergoglio, a 26 de Agosto de 2018, após a minha denúncia[9].    

Quanto ao conteúdo das intervenções, parece que até os escândalos sexuais do Clero serviram, em vez de exacerbar as penas e tornar mais incisivas as intervenções, para reiterar quase obsessivamente a nova estrutura “sinodal” da Igreja, que responde a uma precisa intenção de mudar a constituição em chave democrática. O próprio Arcebispo de Chicago, Blaise Cupich – amigo de Theodore McCarrick e Presidente do encontro no Vaticano –, focalizou o seu discurso à conferência na “sinodalidade”, qual passagem necessária da «reforma estrutural, legal e institucional»[10] da acção nominalmente destinada a conter os abusos.      

3.  De que modo a “sinodalidade” pode ajudar os Bispos a resolverem o problema dos abusos do Clero?

A proposta de instituir uma comissão independente de leigos que julgaria as acções dos Bispos, formulada durante a Assembleia Plenária da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, em Novembro de 2018, foi bloqueada pelo Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos[11]. Esta intervenção do Vaticano desconfessa as proclamações sobre a “sinodalidade”, não apenas as decisões das Conferências Episcopais que não coincidam com o que se deseja em Roma. No entanto, considero Sua Eminência Ouellet mero executor de manobras que lhe foram impostas de cima.

4. Não é bom que o Vaticano reivindique as decisões que envolvam questões doutrinárias e morais?

A autoridade do Romano Pontífice, que também se explicita através das Congregações Romanas, não pode, obviamente, ser delegada a meros órgãos consultivos que não têm jurisdição alguma e que não fazem parte da estrutura hierárquica da Igreja como Cristo a estabeleceu: sobre isso, devemos ser claros. Todavia, é significativo que o “synodal path” preconizado pelos líderes romanos não encontre obstáculo algum, excepto quando corre o risco de se tornar mediaticamente embaraçoso, como no caso de uma comissão especial designada para receber queixas contra os Bispos. 

Esta referência à “sinodalidade” é um tema caro à corrente teológica progressista que deseja desnaturar a estrutura hierárquica da Igreja. São muito esclarecedores, a tal propósito, os recentes artigos de Massimo Faggioli, docente na Villanova University, onde, a 11 de Outubro de 2013, o então Card. McCarrick afirmou ter favorecido a eleição do Card. Bergoglio durante as Congregações Gerais prévias ao Conclave, decorridas poucos meses antes, e ter conversado sobre isso com «a very influential Italian gentleman»[12] que lhe teria confidenciado que, no espaço de cinco anos, o novo Papa teria reformado a Igreja.    

Deveria alarmar que, da mesma Universidade, chegam inquietantes sinais de insatisfação com o trabalho de Bergoglio, cujo pontificado é definido “em crise” por “pessoas decepcionadas”[13]: talvez porque os cinco anos a que McCarrick aludiu não lhes deram os resultados desejados. 

5. Na sua Relação para o encontro no Vaticano, o Cardeal Reinhard Marx disse: «Os correctos procedimentos legais servem para estabelecer a verdade e constituem a base para impor uma punição proporcional à ofensa. As pessoas têm que ver como o juiz chega a uma sentença; na maior parte dos casos, isso não acontece e penso que, para a nossa situação, esta não seja uma coisa boa. Além disso, estabelecem confiança na organização e na sua liderança. A persistência de dúvidas sobre uma conduta apropriada dos procedimentos processuais não faz mais que prejudicar a reputação e o funcionamento de uma instituição. Este princípio também se aplica à Igreja»[14].    

A publicação dos documentos processuais deveria ser uma das pedras angulares de uma operação de transparência e de honestidade para com as vítimas dos abusos por parte de membros do Clero. Parece-me evidente que as palavras do Cardeal Marx foram desconsideradas, a começar pelo caso McCarrick, precisamente por iniciativa de Bergoglio.   

Recordo também que o Cardeal Daniel DiNardo, Presidente da Conferência Episcopal Americana, foi, com pouca consideração, desautorizado pela intervenção vaticana que, no encontro de Roma, em Fevereiro de 2019, o substituiu pelos Cardeais Blaise Cupich e Joseph William Tobin, também não isentos de suspeitas. Estas interferências, claramente desejadas de cima, criaram uma imagem mediática que não corresponde à realidade, na qual Bergoglio é apresentado como artífice de uma reforma inexistente para meros propósitos de propaganda. Até o pedido de demissão, feita a Francisco, de todo o Episcopado chileno faz parte de uma operação de fachada que foi claramente desmentida pelos factos.   

Penso que é emblemática a dupla medida reservada às Conferências Episcopais Americana e Francesa: no lado americano, a intervenção bergogliana impediu, por parte da autoridade, uma operação de transparência; enquanto que, no lado transalpino, permite violações claras da lei canónica e civil, permitindo que as investigações do foro eclesiástico sejam confiadas a um magistrado maçónico e favorável à eutanásia. O espírito jacobino ao perseguir clérigos franceses acusados
​​de abuso sexual de crianças deixa, todavia, de reconhecer as responsabilidades dos Ordinários e dos Superiores Religiosos culpados dos mesmos encobrimentos, que, na prática, se estão a consolidar também em Roma.  

6. No entanto, também ouvimos o Pontífice recordar, no discurso final, as palavras já pronunciadas à Cúria Romana em 2018: «A Igreja nunca tentará encobrir ou subestimar qualquer caso».    

Esta solene afirmação é rejeitada pelo caso mais emblemático, o de Theodore McCarrick, e faz pensar que outros interesses tenham levado à decisão de liquidar o assunto administrativamente e, ainda mais grave, sem a publicação dos actos judiciais.   

7. Na sua opinião, quais são os interesses?

Quer-se focar a atenção nos abusos sobre menores, desviando-a da contextual condenção clara e justa dos comportamentos homossexuais que, muitas vezes, são a causa desses abusos. Para Bergoglio e o seu entourage, a sodomia não é um pecado que clama por vingança aos olhos de Deus, como ensina o Catecismo. As palavras de Bergoglio sobre esse assunto – e, ainda mais, as acções e as palavras das pessoas com quem se relaciona – confirmam, infelizmente, que, sobre a homossexualidade, está em andamento uma operação de legitimação e que a conduzir este discurso são Prelados e teólogos que manifestaram inequivocamente que não são fiéis ao ensinamento católico.   

O próprio Cardeal Tobin – cujas SMS embaraçosas falam por si[15] – declarou claramente que não partilha da condenação da sodomia presente no Catecismo, recusando-se a definir os actos homossexuais como «intrinsecamente desordenados»[16]. E essas declarações seguem o apoio do Cardeal ao livro Building a bridge, do padre James Martin, sj, que tem o mesmo conteúdo. Encontramos, portanto, um Cardeal amigo de McCarrick alinhado a favor dos movimentos LGBT e o jesuíta que Bergoglio nomeou Consultor da Secretaria para as Comunicações da Santa Sé, convidando-o a falar no Encontro Mundial das Famílias de 2018, em Dublin, e recebendo-o em audiência[17]. O Cardeal Cupich também falou várias vezes a favor dos homossexuais e, durante o Sínodo dos Jovens – em que foi convidado, pelo Papa, a participar sem ter sido votado pelos Bispos americanos –, foi inserido no Instrumentum laboris o controverso tópico das homossexuais sem que nenhum grupo de jovens o tenha pedido. Recordo, en passant, que Cupich foi imposto à sede de Chicago por Bergoglio, contra a opinião da Nunciatura.           

Portanto, os interesses são claramente os do “lobby gay” que se infiltrou na Igreja e que tem, literalmente, pavor que os bons Pastores façam luz sobre a influência que exerce na Secretaria de Estado, nas Congregações, nas Dioceses e em toda a Igreja. O obsceno, aliás, sacrílego afresco homoerético que Mons. Paglia encomendou para a Catedral de Terni[18] é um arrogante manifesto ideológico que nenhuma Autoridade jamais censurou ou deplorou; os demais assuntos financeiros do Substituto da Secretaria de Estado, Mons. Edgar Peña Parra[19] – ligado ao Cardeal Maradiaga (envolvido no escândalo por abusos homossexuais do seu Bispo Auxiliar, Pineda, sem que haja notícias de uma iniciativa eclesiástica em relação a ele) –, e as gravíssimas acusações de Sexto que pesam sobre ele[20] e que denunciei amplamente[21], não interromperam, de forma alguma, o cursus honorum no Vaticano; o mesmo se aplica a Mons. Gustavo Óscar Zanchetta[22], que Bergoglio promoveu e, enquanto aguarda um julgamento penal, renomeou, recentemente, Assessor para a Administração do Património da Sé Apostólica[23]. Após a ordem de fazer confluir todas as contas correntes das Dioceses e das Congregações religiosas do mundo para a APSA, Zanchetta encontra-se a administrar as finanças da Igreja (podendo exaltar no seu curriculum o respeitável diploma de mecânico electricista) e sendo, ao mesmo tempo, fácil objecto de chantagens internas e externas[24]. E não esqueçamos o trabalho de Mons. Ilson de Jesus Montanari, Arcebispo, Secretário da Congregação dos Bispos, Secretário do Sacro Colégio e Vice-Camerlengo da Santa Igreja Romana, em nome e por conta daqueles que o elevaram aos mais altos escalões da Cúria Romana como recompensa pela sua fidelidade.    

Creio que é indispensável esclarecer, de uma vez por todas, a estreita ligação entre a sodomia e a pedofilia, também confirmada pelas próprias estatísticas: uma ligação que o encontro no Vaticano manteve escrupulosamente em silêncio para não ofender a mentalidade actual difundida mesmo entre muitos Prelados. Mas seria hipócrita e grave condenar a pedofilia na linha da legislação civil vigente sem também condenar a sodomia, que o pensamento único não considera criminalmente relevante, mas que a Igreja indica entre os pecados que clamam por vingança aos olhos de Deus.         

Mas há também outro interesse, de natureza política, que não deve ser subestimado... 

8. A que se refere?     

Falo do papel político de McCarrick, que menciona também o último artigo de Church Militant: «Foi McCarrick quem elaborou o acordo Vaticano-China, uma missão que lhe dada pessoalmente dada pelo Papa Francisco. Francisco suspendeu as restrições impostas por Bento poucas semanas depois de se tornar Papa – um facto confirmado pelo Arcebispo Viganò. Da mesma forma, fontes na China […] mostram que McCarrick pode ter sido determinante para elaborar os pagamentos secretos em andamento, de biliões de dólares, enviados pelos comunistas chineses ao Vaticano de Francisco. Se isto é verdade (e parece plausível, dados os laços comunistas e a amizade de McCarrick com Pequim), tal pode ser crucial para explicar por que o relatório permanece parado na mesa do Papa, mas não publicado».

Precisamente nestes dias, foi divulgada, no Christian Today, a notícia segundo a qual «China has ordered Christian villagers to renounce their faith and worship the nation’s Communist Party leaders instead»[25]. Diante desta perseguição aos Cristãos – e Católicos fiéis à Sé Apostólica – pela ditadura comunista, o silêncio de Santa Marta é, literalmente, ensurdecedor, como ocorreu, há alguns dias, quando, no Angelus, Bergoglio omitiu a apelo a Hong Kong, que também tinha sido divulgado à imprensa[26]. O mesmo Acordo secreto estipulado entre a Santa Sé e Pequim, e denunciado publicamente pelo Card. Zen, demonstra a sujeição da igreja bergogliana aos ditames da ditadura comunista, entregando a Hierarquia local nas mãos dos seus perseguidores e silenciando as violações dos direitos humanos perpetradas pela acção do regime.        

Recordo que, na Primavera de 2014, escrevi ao Secretário de Estado Parolin perguntando-lhe se as medidas tomadas por Bento XVI contra McCarrick ainda eram válidas ou não, no seguimento de um artigo publicado no Washington Time no qual era dada a notícia da sua viagem à República Centro-Africana em nome do Departamento de Estado americano[27]. O Cardeal Parolin nunca me respondeu, mas as notícias que emergem por estes dias parecem esclarecer também esses aspectos. A liberdade de movimento concedida a McCarrick também era conhecida[28] e, em 2012, ele próprio o escreveu: «I was in Doha last week and go to Ireland… and following that… I begin one of my longest trips – Beirut, Jordan, Egypt, Thailand, Myanmar, Cambodia and Hong Kong… before I start again in the Holy Land and Belarus»[29]. E em 2014: «I leave for China on Thursday the 27th… I am sure that [Secretary of State] Cardinal Parolin would see me since he is involved with my China trip»[30].     

Entre outras coisas, a cooperação da Companhia de Jesus nos movimentos diplomáticos do Vaticano com a ditadura de Pequim – a começar pela edição especial em chinês da Civiltà Cattolica – confirma a vontade da Santa Sé de prestar um endorsement à China, precisamente enquanto se concretizam as suspeitas sobre a sua responsabilidade na difusão do COVID-19 para desestabilizar os equilíbrios geopolíticos internacionais. O papel de Antonio Spadaro e de outros jesuítas – todos visitantes assíduos da Villanova University – é emblemático e demonstra o fio vermelho que liga o progressismo doutrinário à perversão moral e à corrupção política. Por outro lado, estes três elementos – heresia, sodomia, corrupção – são tão recorrentes que são quase uma marca registada do deep state e da deep church. 

Falando de deep state, não é de surpreender que a OMS se tenha tornado cúmplice nesta operação de engenharia social para agradar a China, nem que o Presidente Trump tenha decidido revogar os financiamentos de que beneficiava até hoje. Aquilo que surpreende e escandaliza é o silêncio cúmplice do Vaticano, confrontado com uma espécie de golpe de estado que visa tornar a igreja bergogliana o braço espiritual do Governo Mundial sob a égide da tirania comunista e com a cumplicidade dos partidos globalistas. A Itália, com o seu governo não eleito e a maioria numa gravíssima crise política, parece seguir a agenda e não parece querer rever as próprias posições em relação a Pequim: as constantes ameaças de um regresso à emergência COVID-19 e ao lockdown são claramente instrumentos para a manutenção de um poder que, na presença de eleições democraticamente convocadas, demonstraria a sua inconsistência. Certo é que uma oposição um pouco mais incisiva e menos alinhada à narrativa mainstream poderia ser vista positivamente tanto pelo eleitorado como pelos parceiros internacionais da Itália.      

9. Voltemos à questão dos escândalos do Clero. Precisamente no dia 19 de Fevereiro, dois dias antes do início do encontro presidido pelo Card. Cupich, foi publicada uma Carta Aberta dos Cardeais Raymond Burke e Walter Brandmüller aos Presidentes das Conferências Episcopais: «Diante da deriva, parece que a dificuldade se reduz à do abuso de menores, um crime horrível, especialmente quando é perpetrado por um sacerdote, que é, no entanto, só uma parte de uma crise muito maior. O abuso sexual é atribuído ao clericalismo. Mas a primeira e principal culpa do clero não se baseia no abuso de poder, mas em ter-se afastado da verdade do Evangelho. Diante desta situação, os cardeais e os bispos guardam silêncio. Também ficarão em silêncio por ocasião da reunião convocada, no Vaticano, para o próximo dia 21 de Fevereiro? Hoje em dia, esses dubia não só não tiveram nenhuma resposta, mas são parte de uma crise da Fé mais geral. Por isso, encorajamos-vos a que levanteis as vossas vozes para salvaguardar e proclamar a integridade da doutrina da Igreja»[31]. Que resultado teve este apelo de eminentes Prelados?         

Os Cardeais Burke e Brandmüller, como outros Prelados, não fizeram nada além de reafirmar louvavelmente a doutrina católica: a coisa inédita é que sejam eles a ser considerados “estranhos” na estrutura eclesial, enquanto que é dada voz a personagens que, pelas suas frequências, pelo seu “endorsement” à agenda LGBT e, nalguns casos, também pelas sombras que pesam sobre a sua conduta, deveriam ser afastados da Igreja e severamente censurados. 

Bento XVI, em Abril de 2019, publicou uma forte intervenção, em Klerusblatt, posteriormente recuperada, em Itália, pelo Corriere della Sera[32], que foi ferozmente censurada por Marco Politi no Il Fatto Quotidiano[33]. Aquele artigo destinava-se, na verdade, ao encontro de Roma através da Secretaria de Estado, mas foi boicotado, confirmando a intervenção da “lavender mafia” para impedir que o Santo Padre apresentasse aos Bispos a sua posição sobre o assunto.           

10. Pode-nos recordar em que consistia a intervenção de Bento XVI? 

O ponto focal do artigo de Ratzinger, que enfureceu os apoiantes de Bergoglio, foi, precisamente, ter evidenciado o vínculo entre homossexualidade e pedofilia, bem como entre o relaxamento da moralidade após o Concílio e a disseminação do flagelo dos abusos.  

Insistindo em fechar os olhos diante das evidências, o progressista Politi escreveu: «O quê que o abandono, por parte da Igreja, de uma ética baseada no direito natural tem a ver com a pedofilia? O quê que as mudanças na teologia moral católica têm a ver com isso, o quê as camarilhas gay nos seminários têm a ver com isso, o quê que os filmes pornográficos têm a ver com isso, o quê que a relativização dos valores e do julgamento moral têm a ver com isso?»[34]. No entanto, é evidente que, onde a formação de candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa elimina a disciplina e a vida interior, multiplicam-se os vícios e os pecados, que, depois, degeneram em crimes muito graves contra menores, mas não só.  

A causa desta mudança reside precisamente no “espírito do Concílio”, que Bento XVI apenas quis mencionar, mas que não deixou de ser imediatamente atacado por quem viu o super-dogma questionado: «Até grotesca [sic] é a tentativa do ex-pontífice de atribuir ao espírito “conciliar” a extrema garantia dos processos eclesiásticos, destinada a proteger o acusado “a ponto de praticamente excluir – está escrito no ensaio – a condenação do culpado”. Portanto, a culpa seria dos defensores do Concílio, dito em poucas palavras, culpa dos reformadores, se a rede dos silenciadores e dos pedantes, que de, qualquer modo, tentaram e continuam a tentar impedir o processo e a condenação dos clérigos predadores, se revelasse sempre assim arrogante e poderosa?»[35].        

11. Considera que Marco Politi tem razão? 

Eu acredito que a resposta a essa pergunta retórica do vaticanista Politi possa ser indiscutivelmente afirmativa: existe uma relação muito estreita entre a crise doutrinária da Igreja e a imoralidade do Clero, que escandalosamente chega aos mais altos graus da Hierarquia. Mas também é evidente que esta crise é usada pela ala ultra-progressista não apenas para impor uma falsa moral juntamente com uma falsa doutrina, mas também para desacreditar irremediavelmente a Santa Igreja e o Papado diante dos fiéis e do mundo pela mão dos seus próprios líderes.

12. Não crê que, no final, o Relatório que todos aguardam seja publicado?  

Se se conseguir esclarecer esta história, isto acontecerá apesar do Vaticano: os interesses em jogo são enormes e afectam directamente o topo da Igreja, e não apenas por questões doutrinárias, morais ou canónicas, mas também por questões políticas e diplomáticas que viram a Santa Sé objecto de um golpe de estado com a cumplicidade daqueles que deveriam tê-la defendido na sua soberania e independência. O que falhou durante o Pontificado de Bento XVI, foi concretizado após a sua renúncia. Como podemos esperar que aqueles que são devedores, mesmo para a própria eleição, a McCarrick – que foi um dos principais defensores do Acordo secreto com a China – possam esclarecer uma série de acontecimentos que o envolveriam pessoalmente, demonstrando as conivências com a ditadura chinesa perante os danos contra os Católicos fiéis à Sé Apostólica e talvez também as responsabilidades desse regime na renúncia do Papa Bento? Como podemos imaginar que os acontecimentos obscuros de São Galo se tornem claros quando foi lá que os conspiradores organizaram a eleição de Bergoglio? E como podemos acreditar que a Igreja se purifique da corrupção e do vício dos seus clérigos e Prelados, quando estes assumiram o poder e são promovidos aos mais altos níveis, numa rede de cumplicidade entre hereges, pervertidos e traidores?

Quem deve indagar sobre os escândalos está fortemente envolvido na nomeação, na promoção e na protecção dos culpados: Bergoglio rodeou-se de personagens comprometidos e, portanto, chantageáveis, dos quais não tem escrúpulos em se livrar assim que arriscarem comprometê-lo na sua imagem mediática.    

Não esqueçamos que a legitimação da homossexualidade faz parte da agenda da Nova Ordem – à qual a igreja bergogliana adere aberta e incondicionalmente – não apenas pelo seu valor desestabilizador no corpo social, mas também porque a sodomia é a principal ferramenta com a qual o Inimigo pretende destruir o Sacerdócio católico, corrompendo na alma os Ministros de Deus.      

Por isso, pelo menos até onde lhe for possível, toda a verdade sobre McCarrick nunca virá oficialmente à tona.         

13. Como podemos responder a esta corrupção?           

O que, hoje, é indistinguível é uma acção conjunta dos bons – aqueles que, na Carta Aberta ao Presidente Trump, definia biblicamente «os filhos da Luz» – para trazer à luz as cumplicidades e os crimes daqueles que fazem guerra contra o Bem para estabelecer a Nova Ordem Mundial. Nesta operação de verdade e de transparência, o papel dos Estados Unidos pode ser decisivo, sobretudo quando aqueles que deveriam e poderiam contribuir da parte vaticana ficam calados. Como disse o Senhor: «Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras»[36].   

Mas há um aspecto mais importante, de natureza espiritual. Devemos compreender que a crise eclesial foi causada por querer tirar a coroa ao seu Rei, Nosso Senhor: é necessário que Ele volte a reinar não apenas nos nossos corações e nas nossas famílias, mas também na sociedade civil e, especialmente, na Igreja. Oportet illum regnare. E, com o Rei dos reis, deve reinar também Nossa Senhora, Rainha e Mãe da Igreja, a quem culposamente se desobedeceu não consagrando a Rússia ao Seu Imaculado Coração. Este é o meu desejo mais sincero, ao qual peço que se juntem todas as pessoas de boa vontade.


[1]https://www.churchmilitant.com/video/episode/vortex-mccarrick-bombshell
[2]http://www.vatican.va/resources/index_it.htm
[3]https://www.vaticannews.va/it/vaticano/news/2019-02/ex-cardinale-theodore-mccarrick-dimesso-stato-clericale.html
[4]http://www.marcotosatti.com/2018/09/05/la-testimonianza-di-mons-vigano-i-documenti-dellex-nunzio-fino-al-4-settembre-2018/
[5]https://essayforthefaithful.com/
[6]Crimes a que, recentemente, se juntaram outros documentados:
https://www.catholicnewsagency.com/news/lawsuit-claims-ex-cardinal-theodore-mccarrick-headed-abusive-sex-ring-names-alleged-procurer-63583
[7]http://w2.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2019/february/documents/papa-francesco_20190221_incontro-protezioneminori-apertura.html
[8]Cfr., por exemplo: https://www.ilpost.it/2019/02/25/incontro-abusi-sessuali-vaticano/
[9]http://www.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2018/august/documents/papa-francesco_20180826_irlanda-voloritorno.html
[10]http://www.vatican.va/resources/resources_card-cupich-protezioneminori_20190222_it.html
[11]https://www.lastampa.it/vatican-insider/it/2018/11/13/news/le-ragioni-del-rinvio-del-voto-sulle-norme-anti-abusi-negli-usa-1.34060080
[12]https://youtu.be/b3iaBLqt8vg
[13]https://international.la-croix.com/news/the-limits-of-a-pontificate-part-i/12170
[14]http://www.vatican.va/resources/resources_card-marx-protezioneminori_20190223_it.html
[15]https://www.churchmilitant.com/news/article/tobin-tarmac-tweet-raises-eyebrows
[16]https://www.today.com/video/how-cardinal-joseph-tobin-found-his-calling-in-the-catholic-church-1496688707952
[17]http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2019/09/30/075501540.htm
[18]https://lanuovabq.it/it/e-paglia-ando-in-cielo-con-trans-e-gay
[19]https://www.repubblica.it/cronaca/2020/06/07/news/vaticano_il_verbale_di_mos_carlino_pe
[20]https://espresso.repubblica.it/attualita/2018/10/12/news/le-condotte-immorali-del-nuovo-braccio-destro-del-papa-spunta-un-dossier-che-fa-tremare-il-vaticano-1.327763
[21]https://www.marcotosatti.com/2019/08/01/accuse-di-vigano-a-pena-parra-conferme-da-maracaibo-vigano-accuses-pena-parra-confirmations-from-maracaibo/
[22]http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2017/12/28/vaticano-senza-pace-soldi-sesso-e-presepe-lgbt/
[23]http://www.korazym.org/44412/lo-strano-caso-del-presunto-abusatore-zanchetta-riapparso-e-il-processo-promesso-dal-papa-a-carico-del-suo-amico/
[24]http://www.korazym.org/44391/saga-60sa-inchiesta-della-magistratura-vaticana-per-scandalo-finanziario-in-segreteria-di-stato-riflettore-sulle-normative-vaticane-vigenti/
[25]https://www.christiantoday.com/article/china-tells-christians-renounce-faith-in-jesus-worship-president-xi-jinping/135221.htm
[26]https://www.lanuovabq.it/it/hong-kong-la-santa-sede-si-inchina-al-regime-cinese e https://www.liberoquotidiano.it/news/italia/23616123/papa-francesco-socci-hong-kong-cina-angelus-passaggio-sparito.html
[27]McCarrick, na sua correspondência com o seu secretário, Mons. Figueiredo, qualifica-se como: «an adjunct member of the foreign service». Cfr. cfr.https://www.cbsnews.com/news/cardinal-theodore-edgar-mccarrick-vatican-restrictions-anthony-figueiredo-letters-report-2019-05-28/
[28]Assim escreve Catholic News Agency: «In a 2009 visit to China, then-Speaker of the House Nancy Pelosi conveyed McCarrick’s greetings to Bishop Aloysius Jin of Shanghai, a priest who was a leading Chinese Jesuit, then spent decades in prison on charges of aiding counterrevolution before his release in 1982. He was ordained na auxiliary bishop without Vatican approval in 1985, though he received Vatican recognition in 2005. The bishop said he and Cardinal McCarrick had exchanged visits “beginning when the latter was Bishop of Newark (sic)”. Pelosi said she would convey the bishop’s greetings back to Cardinals McCarrick and William Keeler, then an Archbishop emeritus of Baltimore». Cfr. https://www.catholicnewsagency.com/news/despite-mccarrick-abuse-claims-state-department-leaves-questions-unanswered-70448
[29]https://www.cbsnews.com/news/cardinal-theodore-edgar-mccarrick-vatican-restrictions-anthony-figueiredo-letters-report-2019-05-28/
[30]Ibidem
[31]http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2019/02/19/anche-il-summit-sugli-abusi-crea-seri-%e2%80%9cdubia%e2%80%9d-la-lettera-aperta-di-due-cardinali/
[32]https://www.corriere.it/cronache/19_aprile_11/papa-ratzinger-chiesa-scandalo-abusi-sessuali-3847450a-5b9f-11e9-ba57-a3df5eacbd16.shtml
[33]https://www.ilfattoquotidiano.it/2019/04/12/pedofilia-qualcosa-non-torna-nel-contromanifesto-di-papa-ratzinger/5104990/
[34]Ibidem
[35]Ibidem
[36]Lc 19, 39