quarta-feira, 3 de junho de 2020

Os direitos e os deveres na época do coronavírus



A confusão sanitária, política, económica e, sobretudo, religiosa agravou-se, certamente, nos últimos três meses. Como orientar-se nos tempos de confusão, como é a época do coronavírus?          

O segredo é dar as justas prioridades, o que também significa dar a cada coisa o seu justo lugar ou recuperar uma recta noção da ordem das coisas.        

A ordem nunca é horizontal, mas sempre vertical e hierárquica. Na ordem há um alto e um baixo, um mais e um menos, e isto também acontece em todos os problemas da vida, individual e social.           

Para quem ostenta o nome de cristão, dar a justa prioridade significa dar a Deus a primazia em tudo: procurar, sempre e acima de tudo, o Reino de Deus e a Sua justiça. Diante deste ou daquele problema, nesta ou naquela situação, ocorre perguntar-se sempre, não quais são os nossos interesses, o que nos convém, mas quais são os interesses de Deus, aquilo a que Deus tem direito. Devemos procurar os direitos de Deus e recordar que, diante de Deus, não temos direitos, mas só deveres. E se existem direitos diante dos homens, é porque tais direitos se baseiam numa lei divina que Deus gravou na natureza de cada homem e que, portanto, a nossa mente e o nosso coração são capazes de reconhecer e de amar. Por exemplo, o nosso direito à vida funda-se no preceito da lei natural que proíbe de matar o inocente. Uma proibição absoluta, sancionada pelo quinto mandamento, que se aplica seja aos indivíduos seja ao Estado. Temos um direito de conservar a pureza, baseado, por sua vez, na proibição de cometer actos impuros, mesmo com os desejos, estabelecida por dois mandamentos divinos, o sexto e o nono. Por outro lado, não temos o direito de transgredir os mandamentos que proíbem os actos e os desejos impuros.        

Da mesma forma, não temos o direito absoluto de ser imunes a restrições físicas, a menos que essas restrições impeçam ou dificultem o exercício dos nossos deveres. A liberdade de pensamento, de palavra e de movimento, reivindicada por tantos hereges ao longo da história, foi condenada pela Igreja justamente porque alegava basear-se na autodeterminação do homem e não na lei divina e natural. A lei divina e natural exige que o homem seja livre para observar os preceitos de Deus e da Igreja, começando por prestar a Deus o culto que Lhe é devido, mas não concede essa liberdade fora da ordem estabelecida por Deus.     

Todo o processo de globalização, de que a União Europeia é parte importante, foi construído sobre o princípio do direito absoluto do homem à liberdade de circulação e de acção, condenado por Gregório XVI, na Mirari vos, e por Pio IX, no Syllabus Errorum. O estado totalitário não o é porque nega a liberdade, mas porque, como o comunismo e o nacional-socialismo, atropela a Verdade, que é só aquela protegida pela Igreja Católica e está contida na lei natural.        

Qualquer crítica aos Estados modernos e aos lobbies revolucionários que hoje dominam a sociedade só tem significado e valor se parte deste princípio: Deus, e não o homem, acima de tudo. 

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

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