terça-feira, 16 de junho de 2020

O “conspiracionismo” à luz da doutrina católica



O Secretário-Geral da ONU, o ex-Presidente da Internacional Socialista António Guterres, deu uma entrevista ao Osservatore Romano, que há cerca de 160 anos funciona como órgão oficioso da Santa Sé. À pergunta de como enfrentar o sentimento de pânico que se tem difundido ultimamente entre as pessoas, o alto dignitário respondeu que «nas últimas semanas houve um aumento das teorias da conspiração e dos sentimentos xenófobos», fazendo uma referência velada às acusações levantadas contra o governo comunista da China. O alimento do pânico seria «uma epidemia de desinformação», uma verdadeira «montanha de histórias e publicações enganosas reproduzidas nas redes sociais».

Para rectificar a informação, Guterres informa ter «lançado uma iniciativa das Nações Unidas de resposta às comunicações chamada Verified, com o objectivo de fornecer às pessoas informações precisas e baseadas em factos», e encoraja os líderes religiosos a utilizar as próprias redes de comunicação para «apoiar os governos na promoção das medidas de saúde pública recomendadas pela Organização Mundial de Saúde – do distanciamento físico a uma boa higiene – e para desmentir falsas informações e rumores»[1].

O que a entrevista deixa claro é que há, actualmente, um entrechoque entre duas visões da chamada “crise do coronavírus”, que melhor seria chamá-la de “crise do confinamento”: uma é a versão oficial, amplamente disseminada pela grande media, e a outra é a versão alternativa, restringida às redes sociais. Mas esta versão alternativa está de tal maneira a ganhar adeptos que a ONU se viu obrigada a montar uma dupla ofensiva de descrédito: o sistema Verified de monitoramento e réplica àquilo que se diz nas redes sociais e a etiqueta infamante de “conspiracionismo” para os que questionam a versão oficial. Uma etiqueta que serve o mesmo propósito que o velho rótulo de “fascista”: denigrar e silenciar os opositores.

Já antes dessa entrevista de Guterres, a expressão tinha sido usada pelos bispos alemães para qualificar o Apelo promovido pelo Arcebispo Carlo Maria Viganò, mero estratagema vergonhoso para fugir do debate com os Cardeais e Prelados que o assinaram.

Qual é o valor dessa etiqueta? Tem algum cabimento, desde o ponto de vista da doutrina católica, a hipótese de uma conjuração anticristã? Como interpretar a “nova normalidade” pós-confinamento: uma evolução espontânea ou o resultado da maior operação de engenharia social e de transbordo ideológico da história, como denunciou recentemente o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira?

São os três aspectos da questão que mereceriam um livro, mas que abordaremos o mais sumariamente possível no presente artigo.


Qual é o valor científico do rótulo “conspiracionista” e dos estudos sociológicos sobre as “teorias da conspiração”

Os sociólogos que popularizaram o conceito de “Teorias da Conspiração” descrevem-nas como explicações simplistas de eventos naturais ou humanos que resultariam da acção maligna de um grupo de pessoas – uma minoria ou todo um “sistema” – que agem em segredo para um fim distinto da versão “oficial” ou “óbvia”. Aos olhos dos adeptos da teoria, a trama oculta ficaria ao descoberto vinculando diversos eventos ou detalhes desconexos, mas discrepantes com a versão geralmente admitida (ou não explicáveis por ela), e que só se esclareceriam caso se admitisse a hipótese de uma maquinação.

Segundo tais sociólogos, os inventores e os seguidores de tais explicações seriam pessoas ofuscadas pela complexidade da realidade ou, pior, espíritos paranoides que julgam que a força motriz por trás dos eventos da história não é o operar livre das pessoas ou o azar, mas uma conspiração de dimensão apocalíptica, fruto da luta entre o bem absoluto e o mal absoluto, diante da qual tais espíritos doentios se sentem vítimas impotentes.

A popularidade das teorias da conspiração seria também o resultado da ansiedade experimentada pelas sociedades ocidentais contemporâneas diante dos cenários inquietantes da actualidade: catástrofes ecológicas, terrorismo, fragmentação e complexidade crescentes da realidade, rapidez das mudanças, velocidade da informação, riscos associados às novas tecnologias, etc. Contribuiria igualmente para tal sucesso a sensação da perda de valores éticos e religiosos e de regras sociais claras, conduzindo a uma desconfiança em relação às instituições sociais existentes e à impressão de não ter controlo sobre o entorno em que a pessoa vive.

Daí o número elevado de pessoas que hoje acreditam em diversas “conspirações”: desde as que teriam provocado o assassinato de John Kennedy (atribuído à CIA ou à máfia siciliana), a morte de Lady Di (tramada pelos serviços secretos britânicos) e o atentado islamista às Torres Gémeas (supostamente organizado pelo Mossad israelense ou a CIA), até as fantasiosas teses de que a chegada do homem à lua foi uma fotomontagem ou de que a Terra na realidade é plana.

Dois aspectos são contestáveis nesse conceito sociológico de “teorias da conspiração” e da etiqueta “conspiracionista” esgrimida contra aqueles que questionam a versão oficial ou a explicação mediática de algum acontecimento ou realidade.

O primeiro aspecto contestável é que esse conceito atribui a teses ridículas e carentes de provas que circulam em grupúsculos insignificantes o mesmo nível intelectual que a estudos de grande calibre científico produzidos por intelectuais ou instituições de renome. Assim, por exemplo, a etiqueta “teoria da conspiração” permite desqualificar intelectualmente os milhares de cientistas que, desde diferentes áreas de investigação, questionam, com dados fundamentados, as previsões ou conclusões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Ou, então, as denúncias muito bem fundamentadas das associações de pais que se inquietam pelos programas educativos visando impor a ideologia de género no currículo escolar dos seus filhos, uma evolução que tem claramente por detrás o poderoso lobby LGBT.

O segundo aspecto contestável desse conceito sociológico é que as “teorias da conspiração”, assim ridicularizadas, são, na sua imensa maioria, “de direita” e raramente “de esquerda”. E isso apesar de que nos meios ditos progressistas seja oficialmente ensinado que a burguesia está alinhada com os políticos para explorar os proletários, ou que os homens se articulam entre si para impedir o desmantelamento do patriarcado e a libertação das mulheres ou, ainda, que as grandes companhias petrolíferas compram políticos, órgãos da media e cientistas para promover o actual modelo de desenvolvimento industrial não sustentável. Porquê dois pesos e duas medidas, se é notória a existência de grupos de pressão nos dois sentidos? Por que seria “teoria da conspiração” somente a denúncia daquilo que vai contra a doxa oficial ou mediaticamente correcta e não as denúncias diametricamente opostas formuladas pelas correntes de esquerda contra os representantes e os defensores da ordem actual?

A conspiração anticristã é uma realidade ou uma hipótese paranoica?

A teologia e a filosofia da história são as ciências que fornecem elementos para responder à pergunta em epígrafe, de grande actualidade. Que há no curso da história humana uma luta entre a Cidade de Deus e a Cidade do Homem é uma convicção ensinada pela Igreja desde os tempos de Santo Agostinho. Mas, pergunta-se: tal luta implica, necessariamente, numa conspiração por parte das forças do mal?

Vários teólogos, filósofos e historiadores católicos têm-se debruçado sobre o assunto tendo chegado a um consenso, pelo menos genérico, da existência de uma “conjuração anticristã”, para assumir o título da conhecida obra de Mons. Henri Delassus.

As razões teológicas são assaz evidentes e resume-as muito apropriadamente o Pe. Henri Ramière S.J. no seu trabalho O Reino de Jesus Cristo na história – Introdução ao estudo da Teologia da História. Após demostrar que Deus teve um fim ao criar e segue um plano no governo do mundo («o Reino de Jesus Cristo, eis a expressão que melhor resume o plano divino e que melhor exprime a restauração e a recapitulação universal que São Paulo nos mostra como termo de todos os desígnios de Deus (Ef 1, 10)»), o grande promotor da devoção ao Sagrado Coração de Jesus passa a estudar «o plano satânico»[2] que visa vingar na Terra a derrota que o chefe dos espíritos rebeldes sofreu no Céu. «É o que indica o nome Satanás, que significa adversário», pois ele «só tem luz, energia e poder para se opor ao Bem e lutar contra o divino Amor».

Segundo o Pe. Ramière, Satanás não visa apenas entravar e destruir o plano divino, mas ambiciona executar uma sua contrafacção: «O sonho do seu ódio é arrastrar os filhos de Deus como escravos, para poder, na pessoa deles, insultar Aquele que o venceu». Mas, para isso, o demónio «precisa, como Jesus Cristo, de apóstolos, de soldados, de confessores, de padres e até de mártires».

No paganismo da Antiguidade, já ele tinha, à imitação de Deus, templos de sacrifícios, oráculos, mistérios, sacerdotes e adoradores. Mas, «assim como a Igreja verdadeira estava ainda apenas no esboço, também a igreja diabólica não tinha recebido a última organização» e, além do mais, «os homens ainda não estavam suficientemente esclarecidos para chegar ao grau de perversidade necessário a Satanás para a execução completa dos seus pavorosos objectivos». Os idólatras só o reconheciam como deus porque não conheciam o Deus verdadeiro, mas ele quer aderentes que se unam a ele com inteiro conhecimento de causa e por um mistério de iniquidade:

«Quando o homem chega ao ponto de considerar a obediência voluntariamente prestada a Deus como a pior das infelicidades, fica capaz de se ligar a um amor aparente por aquele que o leva à revolta e que procura ajudá-lo com todo o seu poder. O ódio à ordem produz, ao mesmo tempo, o ódio ao amor e o amor ao ódio. É a perversidade completa».

E, assim como a santidade consiste em amar a Deus até ao esquecimento de si, a perfeita iniquidade consiste em amar o mal ao ponto de se sacrificar pelos seus interesses.

Para realizar os seus desígnios maléficos de contrafacção e melhor desenvolver os seus planos de perdição, Satanás procura copiar a hierarquia da Igreja de Jesus Cristo, estabelecendo poderes diversos que sobem de grau em grau para dirigir a obra do mal. «À medida que as dificuldades de comunicação entre os diferentes povos foram vencidas pelas descobertas científicas e que o plano de Satanás se tornou mais compreendido pelos seus seguidores, facilitou-se a acção uniforme e conjugada da perversidade», acrescenta o P. Ramière. «Este exército também aprendeu, hoje, uma disciplina que antes lhe era desconhecida. Obedece, de facto, com espantosa pontualidade a palavras de ordem, ora ficando imóvel, ora retrocedendo, ora avançando com ímpeto furioso. Todos os meios de que dispõe disparam ao mesmo tempo e atacam sem descanso os alvos que lhes são designados».

Esse plano diabólico, passando pelas vicissitudes da História, deverá atingir a sua plenitude no Fim do Mundo com a chegada «do homem que deverá ser a manifestação suprema do ódio satânico e para oferecer à adoração dos outros homens o mal encarnado na sua pessoa». Esse homem do pecado «será o Anticristo por excelência e completará a obra que todos os anticristos parciais esboçaram», produzindo aquilo que São Paulo chamou a suprema «apostasia» (2 Ts 2, 3). No entanto, «esse supremo êxito de Satanás trará a intervenção suprema d’Aquele que já o venceu, no momento em que ele triunfava no mundo inteiro», conclui o P. Ramière.

Com base no anterior, pode-se afirmar, sem reticências, que negar a possibilidade de uma conjuração anticristã implica negar dados incontrovertíveis da fé: a rebelião de Lúcifer e a sua obra de perdição, as nefandas consequências do pecado e o mistério de iniquidade ao qual ele conduz, a vida humana como um campo de batalha cujo desenlace final dar-se-á na Parusia, entre outras.

Algum leitor de mentalidade liberal poderia objectar que isso é válido em tese, mas que, na prática, pela diversidade de caracteres e a oposição de interesses, dificilmente um grupo de homens chegará a conjurar-se para fazer o mal de modo universal.

Dom Bosco, o grande pedagogo e conhecedor das profundidades da alma humana, verificou exactamente o contrário daquilo que os liberais pressupõem:

«No que se refere aos maus, direi apenas uma coisa, que talvez pareça inverossímil, mas que é verdade certa, tal qual a digo: suponhamos que entre 500 alunos de um colégio haja um de vida depravada; chega depois um novo aluno pervertido; são de regiões e lugares diferentes, até de nacionalidades diversas, estão em cursos e lugares diferentes, nunca se viram nem se conheceram; apesar de tudo isto, no segundo dia de permanência no colégio, e talvez após algumas horas, vê-los-eis juntos durante o recreio. Parece que um espírito mau os faz adivinhar quem está manchado do seu mesmo negrume, ou, então, é como se um ímã demoníaco os atraísse para travar íntima amizade. O “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” é um meio facílimo de dar com as ovelhas sarnentas antes que se transformem em lobos vorazes»[3].

Comentando esse trecho, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira observou que, atingido um certo nível de profundidade, o mal dota as almas más de uma penetrante agudeza de vistas e de uma recíproca atraçcão. A união que daí resulta acentua nessas almas as suas características más e aumenta o seu ódio ao bem, incitando-as à luta para modificar o ambiente, o que, por sua vez, as conduz ao proselitismo e à combinação de esforços, de cuja articulação resulta uma organização:

«Oculta como a maçonaria, semi-oculta como o jansenismo ou o modernismo, declarada como o luteranismo ou o comunismo, esta associação propõe-se ao combate em todos os terrenos – ideológico, artístico, político, social, económico, etc. – para a conquista dos seus objectivos. Numa palavra, faz revolução»[4], observa o ilustre pensador brasileiro.

Uma Revolução que tem sido a espinha dorsal dos acontecimentos nos últimos séculos, conforme a luminosa descrição feita por Pio XII do misterioso “inimigo” que tem ameaçado há séculos a Igreja e o mundo inteiro:

«Ele encontra-se em todo o lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graça; a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes, a autoridade sem a liberdade. É um “inimigo” que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente, o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma política sem Deus»[5].

Defende a Igreja o anti-maçonismo primário de algumas correntes de direita laica?

Na construção desse mundo sem Deus, a Maçonaria tem desempenhado um papel relevante, que a própria reconhece.

Na visita que François Hollande fez, em Paris, à principal loja do Grande Oriente em ocasião dos 300 anos de existência da Maçonaria no país, o então presidente gaulês exaltou o seu trabalho dizendo enfaticamente: «A República sabe o que vos deve». Segundo ele, «a Maçonaria não fez a Revolução Francesa, mas preparou-a», já que «muitos maçons foram os artesãos dos grandes textos desta Revolução».


Igualmente, reconheceu que a maioria «das leis de liberdade adoptadas entre 1870 e 1914 foram amadurecidas e trabalhadas nas lojas», entre as quais a famosa lei de separação da Igreja e do Estado. Depois de três séculos, acrescentou, são sempre os mesmos valores que a Maçonaria promove: «Primeiramente, a liberdade. A liberdade contra o obscurantismo, contra o fanatismo, contra o fundamentalismo. A liberdade absoluta de consciência, contra os dogmas. A liberdade de pensamento contra aqueles que pretendem censurar». (Referência preocupante porque foi em nome da luta pela liberdade e contra o “obscurantismo” e o “fanatismo” que milhares de sacerdotes católicos foram guilhotinados, fuzilados, afogados, encarcerados e banidos do território durante a Revolução Francesa, de cuja preparação as lojas se orgulham...).

Esse reconhecimento eloquente do papel da Maçonaria na descristianização da França não impediu François Hollande de denunciar os «conspiracionistas» que põem em destaque dito rol: «Basta clicar na Internet para fazer ressurgir os conspiradores, ou seja, todos aqueles que pensam que vós estais aqui a preparar não sei que conspiração, não sei que organização, não sei que preparação. Tudo isso é perfeitamente disparatado», afirmou. Não parece tão disparatado, uma vez que pouco adiante afirma que, na questão temível do «trans-humanismo», a utopia de um homem «aumentado», «o olhar da Maçonaria é uma bussola preciosíssima neste período e uma luz que ajuda a entender os desafios e a dar-lhes uma resposta»[6].

Visto que membros ou amigos da Maçonaria, como François Hollande, reconhecem o seu papel central no avanço da descristianização do Ocidente, é legítimo indagar se um católico deve aceitar sem hesitações as denúncias de um certo anti-maçonismo laico ou pagão que atribui às lojas um plano meramente político ou económico de dominação mundial e a cada mudança política, económica ou social uma intervenção delas directa.

O aspecto deficiente desse anti-maçonismo simplório – que abre o flanco para a acusação aviltante de “conspiracionismo” – é que evacua inteiramente da sua visão da realidade o aspecto religioso explicado acima. Ou seja, o papel do demónio e das más paixões que levam os homens a afastar-se de Deus.

Para Plinio Corrêa de Oliveira, a força propulsora mais dinâmica da Revolução é aquela das paixões desordenadas e nomeadamente do orgulho e da sensualidade, que levam o homem à revolta contra a ordem que Deus colocou no universo e a sonhar com uma utopia anárquica, na qual coexistam a plena igualdade e a plena liberdade. Dessas tendências profundas de rebeldia – expressas em mil aspectos da vida quotidiana e nos ambientes e costumes de uma sociedade – emergem, depois, ideias revolucionárias que as justificam e que preparam os espíritos para uma mudança na situação concreta dos factos, que pode ser súbita e radical ou lenta e gradual, dependendo do estado de apodrecimento moral e religioso daquela sociedade. Noutros termos, aquilo que, segundo Antonio Gramsci, tem sido chamado de Revolução Cultural é, de longe, o factor mais importante do processo revolucionário, sem o qual a Revolução, nas ideias e nos factos, não poderia desenvolver-se ou fracassaria.

O anti-maçonismo primário desconhece inteiramente essa realidade mais profunda do processo revolucionário e leva os seus adeptos a pensar que esse resulta exclusivamente das más ideias espalhadas na sociedade e das manobras políticas de grupos de pressão ocultos.

Outra diferença fundamental reside no facto deste anti-maçonismo primário acreditar que a finalidade última desses lobbies é apenas a conquista de um poder absoluto para submeter a população a uma escravidão universal e, assim, obter para si grandes riquezas e uma situação privilegiada. Na realidade, como vimos acima, o que as forças coligadas dos maus procuram – às vezes com o sacrifício dos próprios interesses – é o afastamento das almas de Deus e a conquista delas pelo demónio, assim como a construção de um mundo cuja desordem e vulgaridade sejam uma ofensa contínua ao divino Criador.

Dessa diferença abissal entre uma visão religiosa e moral do processo revolucionário e dos seus agentes e uma visão laica e exclusivamente política resulta, posteriormente, uma total disparidade no foco da atenção e nas hipóteses de interpretação dos factos.

A “crise do coronavírus” à luz do conceito católico de conjuração anticristã

A crise ocasionada pela difusão, a partir de Wuhan, do vírus Sars-Cov-2 é um bom study case para ver, na prática, a diferença entre a visão católica e contra-revolucionária da acção dos agentes da Revolução e a visão laica e simplória de alguns adeptos do anti-maçonismo.

Hoje é provado que as projecções da OMS e do Imperial College sobre o eventual número de vítimas do COVID-19 resultavam de modelos matemáticos falhados e com base em índices exagerados da letalidade do vírus. Já estamos quase no fim da sua difusão e o número global de mortos é 5 vezes inferior às previsões menos alarmistas, não havendo indícios de uma segunda onda expansiva. É voz comum que o estrondo publicitário feito em torno dessas previsões apocalípticas provocou pânico na população, o que, por sua vez, levou a imensa maioria dos governantes a tomar medidas drásticas de confinamento, sob pena de ser estigmatizados como irresponsáveis, quando não genocidas. É patente que a brusca e prolongada redução da actividade económica já está a ter efeitos desastrosos para o desemprego e para a sobrevivência de milhares de pequenas e médias empresas, requerendo uma intervenção massiva do Estado na economia, para alegria da esquerda e dos ecologistas, que aproveitam para exigir que os planos de resgate sejam condicionados à aceitação de um novo modelo de desenvolvimento sustentável. Igualmente, os defensores de um governo mundial apontam para o facto de que apenas uma resposta solidária e global é capaz de resolver uma crise global.

Por outras palavras, o grande beneficiário da “nova normalidade” é a Revolução anticristã, de que os seus corifeus sempre sonharam com uma República Universal cujos contornos foram mudando com o tempo e agora se apresentam como uma sociedade aberta, multicultural, socialista e ecológica.

Porém, a visão católica e matizada da conjuração anticristã e a sua caricatura laica e simplória tiram observações e conclusões muito diferentes a respeito dessa imensa manobra de engenharia social e de baldeação ideológica da humanidade.

O “conspiracionismo” simplista fixa a sua atenção na suspeita de que o vírus teria sido produzido intencionalmente, num laboratório de Wuhan, como parte de um programa de fabricação de armas biológicas, ou que, pelo menos, teria escapado de lá após uma manipulação errada. Por outro lado, desenterra estudos de antecipação de crise ou romances de ficção científica que já evocavam, em caso de uma nova pandemia, medidas estritas de distanciamento social, os quais, segundo eles, provariam que os governantes que as aplicaram não fizeram mais que obedecer a um plano detalhado de antemão; e, finalmente, conjecturam que as mudanças têm como objectivo prioritário impor a vacinação obrigatória à população mundial, em benefício do Big Pharma e como preparação para a inserção subcutânea, em todo o género humano, de microchips colectores de informações, com vista a transformá-los em zombies de uma Nova Ordem Mundial.

O foco das hipóteses e análises de uma visão autenticamente contra-revolucionária é absolutamente outro.


Primeiramente, procura esquadrinhar as causas culturais remotas da atitude da população face à epidemia, assim como dos condicionamentos psicológicos que levaram as autoridades a tomar atitudes imediatas, ainda que desastrosas a longo prazo. Pelo facto de dar prevalência aos factores religiosos e morais, põe em relevo o abandono da pregação dos quatro novíssimos – morte, juízo, céu e inferno – e a sua concomitância com a queda gradual da prática religiosa e, acima de tudo, com a difusão, na sociedade, de uma concepção pagã e hedonista da vida, que transformou a saúde no valor supremo da existência e passou a considerar a morte como um mistério incompreensível e maléfico, facilitando as atitudes de pânico.

Até o filósofo agnóstico Luc Ferry, ex-Ministro da Educação de França entre 2002 e 2004, o reconhece numa coluna recente do jornal Le Figaro. Comparando a reacção da população diante da pandemia actual e a de gripe de Honk Kong, de 1968-1969 (que não alarmou quase ninguém apesar de ter feito um número similar de vítimas mortais que o COVID-19), deduziu que, nesses cinquenta anos, houve uma mudança na relação à morte, que deixa os agnósticos ou os menos religiosos numa situação trágica: «Eles são, ao mesmo tempo, menos protegidos pelas promessas das grandes religiões diante da morte, mas também mais expostos do que nunca por causa da afectividade que cresceu exponencialmente na família moderna. Para a maioria deles, o céu ficou vazio, não há cosmos ou divindades que possam dar o menor significado à morte de um ente querido». Não resta a esses agnósticos outra alternativa a não ser «meter o pé a fundo no freio diante da morte, o que explica, na minha opinião, a nova escala estritamente inédita de reacções de ansiedade e de contenção que observamos diante da pandemia»[7].

Em segundo lugar, a visão autenticamente contra-revolucionária destaca o impacto que essa mudança profunda nas tendências teve no campo das ideias, cujas conclusões serviram, por sua vez, de guia para as decisões adoptadas para frear a epidemia. Ou seja, como o medo neo-pagão da morte favoreceu aquilo que o filósofo americano Matthew Crawford rotulou de “precaucionismo”: «Uma tendência que vem ganhando força há décadas e que, hoje, está a passar por um momento de triunfo por causa do vírus. Trata-se de uma determinação a eliminar todos os riscos da vida e corresponde claramente a uma sensibilidade burguesa». O precaucionismo leva a um paradoxo : «Quanto mais seguros estamos, mais mais o risco nos parece intolerável».

Para Crawford, «a facilidade com que recentemente aceitamos o poder dos especialistas em saúde de mudarem os contornos da nossa vida comunitária – talvez permanentemente – deve-se ao facto de o precaucionismo ter suplantado amplamente outras sensibilidades morais que lhe possam oferecer alguma resistência. (...) A precaução tornou-se um meio de intimidação moral
»[8].

Uma intimidação dos espíritos que, por sua vez, acarretou uma mudança de paradigma em matéria de segurança sanitária, que teve como gatilho a transferência do antigo temor de uma conflagração atómica – evanescido após o colapso da URSS – ao medo em face de riscos emergentes, tais como um ataque bioterrorista ou novas doenças infecciosas particularmente letais ou resistentes.

Se até ao fim do século XX as políticas de prevenção tentavam calcular as probabilidades reais de uma ameaça sanitária, com base em dados seguros das epidemias passadas, na passagem do milénio entrou em vigor um novo critério: o princípio da preparedness (preparação); ou seja, a convicção de que um país deve estar em condições de enfrentar qualquer eventualidade, até a pior, levando os responsáveis pela segurança sanitária a concentrar os seus exercícios de antecipação em acontecimentos de escassa probabilidade, mas de consequências catastróficas.

Esse deslizamento intelectual foi muito bem analisado por Patrick Sylberman, professor de História da Saúde na Escola Superior de Estudos de Saúde Pública de Paris, num livro publicado, em 2013, sob o título Tempêtes microbiennes.
Essai sur la politique de sécurité sanitaire dans le monde transatlantique (Tempestades micróbicas. Ensaio sobre a política de segurança sanitária no mundo transatlântico).

O autor identificou três eixos principais na mudança de paradigma do conceito de segurança sanitária: 1.º a importância crescente atribuída a cenários fictícios para imaginar respostas e treinar os reflexos; 2.º a preferência sistemática pela lógica do pior como critério de racionalidade, mesmo sabendo que os eventos raramente ocorrem como se imagina e que, portanto, a fixação no pior obstaculiza o pensamento para chegar a uma avaliação realista; e 3.º a tentação de impor um civismo superlativo à população, na esperança de fortalecer a adesão às instituições políticas e a aceitação de quarentenas, vacinações ou a constituição de grandes reservas sanitárias[9].

«A segurança sanitária é, hoje, o objecto ou o pretexto de uma decadência vertiginosa na ficção», concluía, em 2013, o professor Zylberman. E acrescentava: «Cifras exageradas, analogias sem fundamento, cenários de terror biológico são exemplos assinalados dessa decadência»[10]. Como declaravam os antigos filmes, qualquer semelhança com a actualidade é mera coincidência...

De tudo isto se depreende que as medidas de confinamento radical da população e a actual chantagem consiste em oferecer uma libertação parcial da “prisão domiciliária” em troca de um maior controlo da vida privada das pessoas (com aplicativos nos telefones ou registos de visitas nos restaurantes e outros lugares públicos) não são apenas a execução de um plano de filme de science fiction (um punhado de conspiradores à procura de imensos ganhos financeiros ou políticos), mas o resultado de um longo processo psicológico e ideológico a partir do neo-paganismo hedonista que se disseminou no Ocidente depois da Segunda Guerra Mundial. As forças que favoreceram essa evolução não a criaram ex nihilo, mas cavalgaram, orientaram e exacerbaram – por meio do cinema, da televisão, da arte, da cultura, etc. – as tendências mais profundas da população, favorecidas pelas paixões desordenadas e as tentações diabólicas.

Como afirma Plinio Corrêa de Oliveira, já no seu início, o processo revolucionário possuía «as energias necessárias para reduzir a actos todas as suas potencialidades, que nos nossos dias conserva bastante vivas para causar, por meio de supremas convulsões, as destruições últimas que são o seu termo lógico». Tais destruições últimas são, hoje, os restos de civilidade e de ordem que serão varridos pela “nova normalidade” miserabilista e ecológica.

Esse processo revolucionário segue, por vezes, caminhos bem sinuosos, mas sem deixar de progredir incessantemente para o seu trágico fim. Porque, no seu curso, é influenciado e condicionado, em sentidos diversos, «por factores extrínsecos de toda a ordem – culturais, sociais, económicos, étnicos, geográficos e outros», afirma o autor de Revolução e Contra-Revolução.

O que importa destacar para a boa intelecção do tema que nos ocupa, ou seja, como distinguir a verdadeira denúncia da conjuração anticristã do falso “conspiracionismo”, é que os agentes da Revolução – a Maçonaria e as demais forças secretas – são apenas um desses fatores extrínsecos, mas não a principal força propulsora, que permanecem as paixões desordenadas do orgulho e a sensualidade. Convém repeti-lo até a saciedade: a Revolução não é um mero processo político; ela resulta de uma imensa crise religiosa e moral.

É verdade, porém, que sem o concurso desses agentes a Revolução não conseguiria chegar à vitória que almeja. Pensar que sem eles a Revolução teria chegado ao estado em que se encontra ou que pode avançar ainda mais, «é o mesmo que admitir que centenas de letras atiradas por uma janela poderiam dispor-se espontaneamente no chão, de maneira a formar uma obra qualquer, por exemplo, a “Ode a Satã”, de Carducci», conclui o saudoso fundador da TFP.

Uma visão teologicamente e historicamente fundamentada e tão equilibrada do papel limitado dos agentes da Revolução, merece o rótulo depreciativo de “conspiracionismo”? Claro que não. Surge, então, a pergunta: A quem favorece a disseminação de várias “teorias da conspiração”, das quais as melhores são simplistas e as piores são simplesmente ridículas, senão aos próprios agentes da Revolução, que passam a ter maior liberdade de acção pelo descrédito em que fica a denúncia de uma conjuração anticristã, rotulada de “conspiracionista”?

Por infelicidade, nesta matéria, mais do que em muitas outras, «os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz» (Lc 16, 8).         

José António Ureta    

Através de Fatima Oggi



[1] https://www.vaticannews.va/it/vaticano/news/2020-05/intervista-osservatore-romano-antonio-guterres.html
[2] Ed. Civilização, Porto, 2001, pp. 95-106.
[3] Biografia S.D.B. - B.A.C. – Madrid, 1955 – pp. 457-458
[4] https://www.pliniocorreadeoliveira.info/OUT_1959_Elcruzadoespanhol.html
[5] http://www.vatican.va/content/pius-xii/it/speeches/1952/documents/hf_p-xii_spe_19521012_uomini-azione-cattolica.html
[6] https://iatranshumanisme.com/2017/03/04/francois-hollande-declare-que-la-franc-maconnerie-est-une-boussole-precieuse-face-au-transhumanisme/ 
[7] https://www.lefigaro.fr/vox/societe/luc-ferry-notre-rapport-a-la-mort-a-change-20200506
[8] https://www.lefigaro.fr/vox/monde/matthew-crawford-le-precautionnisme-refus-de-tout-risque-de-la-vie-connait-un-moment-de-triomphe-20200526
[9] https://www.20minutes.fr/livres/1146107-20130511-20130427-tempetes-microbiennes-essai-politique-securite-sanitaire-monde-transatlantique-patrick-zylberman-chez-gallimard-paris-france
[10] https://laviedesidees.fr/Scenarios-de-catastrophes-sanitaires.html

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