segunda-feira, 15 de junho de 2020

Esclarecimento do Arcebispo Carlo Maria Viganò sobre o Vaticano II



Publica-se, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma carta que o Arcebispo Carlo Maria Viganò, Núncio Apostólico, enviou a Maria Guarini, redactora do blogue italiano Chiesa e post Concilio, que nos permite conhecer um pouco melhor a perspectiva de Mons. Viganò acerca da posição tomada recentemente em relação ao Concílio Vaticano II e que tanta discussão tem causado.

14 de Junho de 2020
Domingo na oitava do Corpus Christi

Caríssima Dr.ª Guarini, 

Recebi as notas do Prof. Pasqualucci, que gentilmente me quis transmitir e às quais procurarei responder, na medida do possível, de modo conciso.      

Sobre a possibilidade de submeter os actos do Concílio Vaticano II a correcção, penso que podemos encontrar pontos comuns: as proposições heréticas ou que favorecem a heresia devem ser alvo de condenação e só podemos esperar que tal aconteça o quanto antes.  

A minha objecção a Mons. Schneider versa mais sobre a oportunidade de manter entre os actos oficiais da Igreja um hapax que, para além das formulações ambíguas e em descontinuidade, foi desejado e concebido pelo seu valor subversivo e que, como tal, causou muitos males. Do ponto de vista jurídico, talvez se possa encontrar a solução mais idónea; mas sob o ponto de vista pastoral – isto é, no que diz respeito à sua utilidade na edificação dos fiéis – é preferível deixá-lo cair completamente e esquecê-lo. E se é verdade, como afirma o Prof. Pasqualucci, que o erro não faz doutrina, é igualmente verdade que uma condenação das proposições heterodoxas não remove as sombras que pesam sobre o Concílio como um todo, e que prejudicam todo o corpus, nem as consequências dele decorrentes. Também é bom lembrar que o evento conciliar supera em muito os Documentos por ele produzidos.

O simples facto que o Vaticano II seja susceptível de correcção deve ser suficiente para declarar o seu esquecimento, uma vez feita clareza sobre os erros mais evidentes. Não é por acaso que o Prof. Pasqualucci o define como conciliábulo, à semelhança do de Pistoia, que mereceu uma condenação geral, para além da refutação dos erros individuais nele formulados. Faço minha esta sua frase: «Depois de colocar bem em evidência as iniquidades processuais e os erros contra a fé espalhada nos documentos, um Papa pode muito bem anular todo o Concílio, “confirmando, assim, os seus irmãos na fé”, finalmente. Isto entraria perfeitamente na sua summa potestas iurisdictionis em toda a Igreja, iure divino. O Concílio não é superior ao Papa. Se o Concílio se desviou da fé, o Papa tem o poder de invalidá-lo. Aliás, é um seu dever».  

Permito-me acrescentar que, diante da situação desastrosa que a Igreja enfrenta e dos muitos males que a afligem, as desavenças entre “especialistas” parecem inadequadas e inconclusivas. Ocorre restituir urgentemente a Esposa de Cristo à sua bimilenária Tradição e restabelecer os tesouros que foram saqueados e dispersos, permitindo, assim, que o rebanho desorientado e disperso novamente deles desfrute abundantemente.

Cada discussão, nas legítimas divergências de opinião, não deve ter como objectivo o compromisso contra a Verdade, mas o seu triunfo. A virtude é o justo meio entre dois vícios, como um cume entre dois afundamentos: deve ser essa a nossa meta.         

Parece-me que, deste profícuo confronto com o meu Irmão, o bispo Athanasius, tenha emergido o quão temos unicamente no coração o restabelecimento da Fé Católica como base imprescindível para a união na Caridade. Não há nenhum conflito, nenhuma oposição: o nosso zelo nasce e cresce no Coração Eucarístico de Nosso Senhor e a Ele retorna para ser consumido no Seu amor.           

Permita-me, caríssima Dr.ª Guarini, que convide os seus leitores a rezar assiduamente pelos Pastores e, em particular, por aqueles que vivem com dor e sofrimento a crise presente e se esforçam para cumprir com fidelidade o mandato recebido do Divino Mestre. Numa época em que estamos todos sob ataque, sitiados por muitos lados, é, mais do que nunca, necessário aconchegarmo-nos com confiança e humildade sob o manto da nossa Comandante: o amor pela Rainha das Vitórias que une os Seus filhos é a mais evidente prova que entre nós não podem e não devem existir divisões, que são a marca do Inimigo.     

Para si e para os leitores, a minha Bênção. 

Carlo Maria Viganò

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