quinta-feira, 14 de maio de 2020

Schneider: «um dia, a História recordará com pesar os clérigos do regime»



A 8 de Maio de 2020, foi publicado um texto intitulado Apelo para a Igreja e para o mundo – aos fiéis Católicos e aos homens de boa vontade. Entre os primeiros signatários estavam, entre outros, três Cardeais, nove Bispos, onze médicos, vinte e dois jornalistas e treze advogados. 

É surpreendente como os representantes do establishment eclesiástico e político e dos media desacreditaram, em uníssono, segundo o pensamento mainstream, a preocupação do Apelo com o argumento demolidor (“knock-out argument”) da “teoria da conspiração”, de modo a cortarem pela raiz qualquer discussão ulterior. Recordo uma semelhante forma de reacção e de linguagem no tempo da ditadura soviética, quando os dissidentes e os críticos da ideologia e da política dominante eram acusados
​​de cumplicidade com a teoria da conspiração do Ocidente capitalista.       

Os críticos do Apelo recusam-se a tomar nota das evidências, como, por exemplo, a comparação entre os dados oficiais da taxa de mortalidade do mesmo período para a época gripal de 2017/18 e a actual epidemia do COVID-19 na Alemanha, onde a taxa de mortalidade é muito menor. Há Países com moderadas medidas de segurança e prevenção para o Coronavírus que, por este motivo, não têm uma taxa de mortalidade mais elevada. Se o reconhecimento de factos óbvios e a sua discussão é rotulado como uma “teoria da conspiração”, então os motivos de preocupação acerca da existência de subtis formas de ditadura na nossa sociedade são bem fundamentados para todas as pessoas que ainda pensam autonomamente. Como é sabido, a eliminação ou o descrédito do debate social e das vozes não alinhadas é uma característica principal de um regime totalitário, cuja principal arma contra os dissidentes não são os argumentos factuais, mas o recurso a uma retórica demagógica e populista. Somente as ditaduras temem debates objectivos em caso de divergências de opinião.

O Apelo não nega a existência de uma epidemia e a necessidade de combatê-la. No entanto, algumas das medidas de segurança e prevenção implicam a imposição forçada de formas de vigilância total das pessoas, que, sob o pretexto de uma epidemia, violam as liberdades civis fundamentais e a ordem democrática do Estado. Também é extremamente perigosa a anunciada vacinação obrigatória, que exclui qualquer alternativa, com as consequências previsíveis da restrição das liberdades pessoais. Consequentemente, os cidadãos estão-se a habituar às formas de uma tirania tecnocrática e centralizada, com a consequência de que a coragem cívica, o pensamento independente e, acima de tudo, qualquer resistência estão seriamente paralisadas. 

Um aspecto das medidas de segurança e prevenção, implementado analogamente em quase todos os Países, consiste na proibição drástica do culto público, que em tal implacabilidade existia apenas em tempos de uma sistemática perseguição dos Cristãos. A coisa absolutamente nova é também o facto de que as autoridades estatais, em alguns lugares, até prescrevem normas litúrgicas à Igreja, como o modo de distribuir a Sagrada Comunhão: uma interferência em questões que pertencem à responsabilidade imediata da Igreja. Um dia, a História recordará com pesar os clérigos do regime do nosso tempo que aceitaram servilmente tais interferências da parte da autoridade estatal. A História sempre deplorou o facto de que, em tempos de grande crise, a maioria permaneceu em silêncio e as vozes dos dissidentes foram abafadas. Ao Apelo para a Igreja e para o Mundo deveria ser dada, com equidade, pelo menos, a oportunidade de iniciar um debate honesto, sem medo de represálias sociais e morais, como é exigido numa sociedade democrática.                

† Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana       
13 de Maio de 2020

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