domingo, 24 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXV)


Os três primeiros capítulos do Tratado introduziram o que está no seu coração: a descrição da prática da verdadeira devoção a Maria. «Posto isto – diz o santo –, tendo lido quase todos os livros que tratam da devoção à Santíssima Virgem, e tendo conversado familiarmente com as personagens mais santas e doutas destes últimos tempos, tenho de protestar vivamente que não conheci nem aprendi qualquer outra prática de devoção para com Nossa Senhora semelhante à que quero aqui apresentar, que exija duma alma mais sacrifícios feitos para Deus, que mais a esvazie de si mesma e do seu amor próprio, que mais fielmente a conserve na graça, e a graça nela, que a una mais perfeita e facilmente a Jesus Cristo, e, finalmente, que mais glória dê a Deus, e que seja mais santificante para a alma e mais útil ao próximo» (n. 118).

Chegamos ao ponto central, que São Luís expõe no número 120: «A consagração perfeita a Jesus Cristo mais não é do que uma perfeita e total consagração de si mesmos à Santíssima Virgem, e é essa a devoção que pretendo ensinar; ou, por outras palavras, uma perfeita renovação dos votos e promessas do santo baptismo» (n. 120).

A perfeita devoção monfortina é, por conseguinte, um supremo acto de doação e de oferta com o qual nos desenraizamos, por assim dizer, do nosso eu, e morremos para nós mesmos para pertencer totalmente a Maria e viver apenas nela, com ela e por ela.

«Esta forma de devoção – explica São Luís – consiste, portanto, em dar-se por inteiro à Virgem Santíssima, a fim de se ser, por seu intermédio, inteiramente de Jesus Cristo. É preciso dar-lhe: 1.º o nosso corpo, com todos os seus sentidos e membros; 2.º a nossa alma, com todas as suas faculdades; 3.º os nossos bens exteriores, que chamamos de fortuna, presentes e futuros; 4.º os nossos bens interiores e espirituais, ou seja, os nossos méritos, virtudes e boas obras passadas, presentes e futuras. Numa palavra, tudo quanto temos na ordem da natureza e na ordem da graça, e tudo quanto possamos vir a ter no futuro na ordem da natureza, na da graça e ainda na ordem da glória; e isto sem qualquer reserva, nem mesmo um centavo, nem um cabelo ou a menor boa acção, e assim por toda a eternidade, sem pretendermos ou esperarmos qualquer outra recompensa pelo nosso oferecimento e serviços, além da honra de pertencer a Jesus Cristo por ela e nela, ainda que não fora esta amável Senhora – como de facto o é, e sempre – a mais generosa e agradecida entre todas as criaturas» (n. 121).

Nesta devoção não damos a Maria uma parte, pequena ou grande, do que nos pertence, mas damos-lhe tudo: damos-lhe nós mesmos. Não lhe damos apenas os nossos bens da alma e do corpo, mas também as satisfações e os méritos de todas as nossas boas obras. A essência da verdadeira devoção reside na totalidade do acto de oferta. Na medida em que falta esta totalidade, falha a prática de Montfort, que só é eficaz se for radical. Nem todos compreendem a radicalidade desta devoção, explica São Luís, no número 119, que a apresenta como um monte alto ao qual só Jesus nos permite subir.

«Como o essencial desta devoção consiste no interior que ela deve formar, não será compreendida igualmente por todos. Uns ficarão no que é exterior e não passarão além, e estes serão a maioria. Outros, um pequeno número, conseguirão entrar no seu interior, mas não subirão senão um degrau. Quem conseguirá subir ao segundo? Quem chegará ao terceiro? E, por fim, quem aí permanecerá por ser esse o seu próprio estado? Só aquele a quem o Espírito de Jesus Cristo revelar este segredo. Será Ele próprio quem conduzirá a alma fidelíssima para lá, para que avance de virtude em virtude, de graça em graça, de luz em luz, até alcançar a transformação de si mesma em Jesus Cristo e chegar à plenitude da sua idade na terra e da sua glória no Céu» (n. 119).

Roberto de Mattei      

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