domingo, 3 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (IV)


Quae est ista? Quem é, portanto, Maria? São Luís responde com estas palavras: «Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cuja posse e conhecimento reservou para Si. Maria é a Mãe admirável do Filho» Maria é «a fonte selada e a Esposa fiel do Espírito Santo», Maria, enfim, «é o Santuário e o repouso da Santíssima Trindade, onde Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem exceptuar a sua morada acima dos querubins e serafins. Neste santuário, nenhuma criatura, por mais pura que seja, pode entrar a não ser por grande privilégio» (n. 5).          

São Luís Maria teve esse privilégio e nós devemos rezar a Deus para que também possamos participar um pouco dessa graça para penetrar este inefável mistério.          

Nos números sucessivos do Tratado, seguem outras palavras inspiradas: «Digo com os santos: a divina Maria é o paraíso terrestre do novo Adão, onde Ele encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis. É o grande, o divino mundo de Deus, onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência do Altíssimo, onde escondeu, como em seu seio, o seu Filho único e n’Ele tudo o que há de mais excelente e precioso» (n. 6).  

Todos os adjectivos que o santo emprega nos números 5 e 6 do Tratado para designar Maria referem-se ao seu papel na Encarnação do Verbo. Mistério profundo. Deus devia escolher um lugar para ver a luz e escolheu o estábulo de Belém, lugar humilde e escondido por excelência. Mas Ele já estava no mundo, havia nove meses sobre a terra, e escolhera como lugar o ventre de Maria: uma fonte selada, um santuário, um paraíso terrestre, um mundo grande e divino, como diz São Luís Maria.          

Essa profundíssima humildade é proporcional à glória que aguardava Maria no curso dos séculos. «Todos os dias, de uma extremidade à outra da terra, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo proclama e publica a admirável Virgem Maria» (n. 8). No entanto, São Luís Maria repete com São Bernardo e com tantos outros santos: «De Maria nunquam satis… Maria ainda não foi suficientemente louvada e exaltada, honrada, amada e servida. Merece ainda muito maior louvor, respeito, amor e serviço» (n. 10).   

Por quanto Maria, desde há séculos, seja honrada em todos os cantos da terra, a glória que recebe dos homens ainda não é nada e nunca poderá alcançar a glória que recebeu de Deus no tempo da Encarnação e que continua a receber no Paraíso.  

As últimas palavras da Introdução reafirmam o que São Luís Maria afirmou ao abrir o seu Tratado: «Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo e é também por ela que deve reinar no mundo». E agora diz: «Se, portanto, como é certo, o conhecimento e o reinado de Jesus Cristo se hão-de estabelecer no mundo, isso terá de ser uma consequência necessária do conhecimento e do reinado da Virgem Maria, que deu Jesus Cristo ao mundo na primeira vez e há-de também fazê-lo resplandecer na segunda» (n. 13).         

O mistério não diz respeito apenas ao papel de Maria na segunda vinda de Jesus, mas respeita, antes de tudo, à natureza desta segunda vinda de Jesus que, segundo São Luís, não é a Parusia que conclui a história, mas é o reino de Jesus e de Maria na história: aquele Reino de Maria que Nossa Senhora confirmou, in persona, nas aparições de Fátima, em 1917, com a divina promessa: «Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará».

Roberto de Mattei

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