quinta-feira, 28 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXIX)

O sétimo capítulo do Tratado é dedicado aos efeitos maravilhosos da devoção a Maria numa alma que lhe é fiel.           

O primeiro efeito é o conhecimento e o desprezo de si mesmo. Escreve São Luís: «Pela luz que o Espírito Santo te dará por intermédio de Maria, sua querida Esposa, conhecerás o teu mau fundo, a tua corrupção e incapacidade para todo o bem, se não for Deus o princípio enquanto autor da natureza e da graça, e, em consequência deste conhecimento, desprezar-te-ás e não pensarás em ti mesmo senão com horror» (n. 213).        

São Luís retoma o que disse no número 79 e, no número 213, diz: «Ver-te-ás como uma lesma que tudo estraga com a sua baba, ou como um sapo que tudo envenena com a sua peçonha, ou como uma serpente maliciosa que só se preocupa em enganar».

Se estas imagens nos parecem muito fortes, exageradas, se ferem a nossa sensibilidade, tal significa que temos uma excessiva estima por nós mesmos e precisamos de nos exercitar a pensar como ensina São Luís. A verdadeira devoção a Maria ajudar-nos-á nisso. «Porém, a Virgem humilde tornar-te-á participante da sua profunda humildade e esta fará com que te desprezes a ti mesmo, mas não desprezarás os demais, e amarás o próprio desprezo» (n. 213).  

A humildade é o fundamento da fé. E o segundo efeito da verdadeira devoção é o de fazer-nos participar da fé de Maria e mantê-la em toda a sua pureza e integridade. Já no número 209 o santo disse que «um verdadeiro filho de Maria não será enganado pelo maligno e não cairá em qualquer heresia formal. Ali, onde Maria é guia, não se encontram nem o espírito maligno com as suas ilusões, nem os heréticos com as suas astúcias. Ipsa tenente, non curruis: “Se ela te sustenta, não cairás”».              

No número 214 afirma que «a Santíssima Virgem tornar-te-á participante da sua fé que, na terra, foi maior que a de todos os patriarcas, profetas, apóstolos e que a de todos os santos».

«Por isso, quanto mais benevolência granjeares desta augusta Princesa e Virgem fiel, mais fé pura acharás na tua conduta: uma fé pura que fará com que bem pouco te preocupes com o que é sensível e extraordinário; uma fé viva, animada pela caridade, que te levará a que todas as tuas acções não tenham outro motivo que não seja o puro amor; uma fé firme e inquebrantável como um rochedo que te fará permanecer constante e firme no meio das tempestades e das tormentas; uma fé activa e penetrante que, como uma misteriosa chave-mestra, te dará entrada em todos os mistérios de Jesus Cristo, nos fins últimos do homem, e até no coração do próprio Deus; uma fé corajosa que, sem que hesites, te fará empreender e levar a bom porto grandes coisa por Deus e pela salvação das almas; enfim, uma fé que será o teu facho inflamado, a tua vida divina, o teu tesouro escondido da divina Sabedoria e a tua forma omnipotente de que te servirás para iluminar os que estão nas trevas e nas sombras da morte para tocar e revolver, com as tuas palavras doces e poderosas, os corações de mármore e os cedros do Líbano e, finalmente, para resistir ao demónio e a todos os inimigos da salvação» (n. 214).

Fortalecidos por esta fé, os filhos e escravos de Maria, os apóstolos dos últimos tempos, avançam tranquilamente contra os inimigos e Nossa Senhora, diz São Luís no número 210, «acompanha-os como um exército formado em ordem de batalha: ut castrorum acies ordinata». As palavras do Cântico dos Cânticos, um cântico de amor e de guerra, ainda ressoam no Tratado que se aproxima da conclusão.

Roberto de Mattei      

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