quarta-feira, 27 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXVIII)

O sexto capítulo do Tratado é dedicado a uma página bíblica que prefigura a verdadeira devoção a Maria. É a história de Jacob e de Esaú, narrada na Bíblia, mais precisamente no livro do Génesis, do capítulo 25 ao capítulo 27. A premissa é que Esaú vendeu a Jacob os direitos de primogenitura por um prato de lentilhas. O direito de primogenitura tinha um grande significado espiritual: era a bênção celestial prometida por Deus à posteridade de Abraão. Mas Esaú, mesmo obedecendo ao pai e sendo por ele amado, desprezava a primogenitura a ponto de vendê-la por um ínfimo bem terrestre como um prato de lentilhas. Foi um acto formal que teve as suas consequências quando Isaac, antes de morrer, ordenou a Esaú que fosse caçar para ter o que comer e, depois, abençoá-lo. A mãe Rebeca, que amava muito Jacob, ordenou-lhe que vestisse as roupas do irmão e o substituísse para lhe assegurar este privilégio, diz o santo, «por meio dum santo expediente todo cheio de mistérios» (n. 184).

Isaac, que era cego, acreditava que estava a abençoar Esaú mas, em vez disso, abençoou Jacob. Esaú, quando descobriu o que havia acontecido, ficou furioso, mas Isaac, embora surpreso, não retratou o que havia feito, mas confirmou-o, porque viu o dedo de Deus naquele acontecimento e a bênção divina, uma vez dada, é irrevogável. Então Esaú pediu ao pai uma outra bênção, que Isaac lhe deu, mas era diferente da divina porque era uma bênção da terra, o que fez Esaú conceber um ódio tão venenoso contra Jacob que aguardava pela morte do pai para matá-lo. E Jacob «não teria podido evitar essa morte se Rebeca, sua querida mãe, o não tivesse salvo pelas diligências e bons conselhos que lhe deu e que ele seguiu» (n. 184).

São Luís lembra que, de acordo com todos os santos Padres e intérpretes da Sagrada Escritura, Jacob é a figura de Jesus Cristo e dos predestinados e Esaú é a figura dos réprobos. Esses réprobos vendem os seus direitos de primogenitura, ou seja, as delícias do Paraíso por um prato de lentilhas, isto é, pelos prazeres da terra e odeiam e perseguem sempre os predestinados, aberta ou secretamente. Os predestinados amam a vida interior e são submissos e obedientes à sua mãe, a Santíssima Virgem, como Jacob foi a Rebeca; «os Esaús, pelo contrário, esses perdem a sua bênção por falta de submissão à Santíssima Virgem» (n. 198).

Maria ama os seus consagrados «mais ternamente do que todas as mães juntas». Ou melhor, diz o santo, «juntai, se puderdes, o amor natural que as mães do mundo inteiro têm pelos seus filhos, num só coração de mãe e por um filho único: certamente que essa mãe amará muito esse filho, apesar disso, pode-se afirmar, em verdade, que Maria ama ainda mais ternamente os seus filhos do que aquela mãe amaria o seu» (n. 202).

Apenas imaginando a vastidão deste amor podemos entender como Maria guia, defende e protege, em cada ocasião, os seus filhos e escravos e, enfim, conclui São Luís: «depois de ter cumulado dos seus favores os seus filhos e fiéis servos, depois de lhes ter obtido a bênção do Pai celeste e a união com Jesus Cristo, conserva-os em Jesus Cristo e Jesus Cristo neles; guarda-os e vela sempre por eles, não venham eles a perder a graça de Deus e a cair nas ciladas dos seus inimigos: In plenitudine sanctos detinet: “Ela mantém os santos na sua plenitude” e fá-los perseverar até ao fim dos tempos» (n. 212).

Roberto de Mattei

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