sábado, 23 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXIV)

Deus é tudo, nós não somos nada. Esta verdade profunda é difícil de entender, ainda mais difícil de praticar nas suas consequências. Mas é a pura verdade.      

«Dito isto – afirma São Luís no n. 80 –, será para admirar que Nosso Senhor tenha dito que quem O quisesse seguir deveria renunciar a si mesmo e odiar a própria alma, e que quem a amasse a perderia, e quem a odiasse a salvaria? Esta Sabedoria infinita, que não impõe mandamentos sem uma razão, não nos mandaria que nos odiássemos a nós mesmos se não fôssemos grandemente dignos de ódio. Nada há de mais digno de amor do que Deus, e nada de mais digno de ódio do que nós mesmos».          

Não basta amar a Deus, devemos odiar-nos a nós mesmos; ou melhor, o amor de Deus é medido pelo ódio que temos de nós mesmos. Mais uma vez, as palavras de São Luís exprimem com radicalidade a doutrina das duas cidades de Santo Agostinho: uma cidade na qual o amor de Deus chega ao ponto do desprezo de si e uma outra na qual o amor de si é levado ao desprezo de Deus.

Com uma radicalidade ainda maior, São Luís substitui a palavra desprezo por ódio, que significa separação, separação total. Odiar não apenas o próprio corpo, mas o que há de mais profundo na nossa alma. Claro que fomos criados por Deus e tudo o que é criado por Deus é bom, mas a criatura é boa porque é criada e, como é criada, depende de Deus em todos os momentos da sua existência. É boa a sua dependência de Deus. A criatura torna-se má quando se separa de Deus para se tornar autónoma, auto-suficiente.   

Portanto, devemos esvaziar-nos do que há de mau em nós para «morrermos para nós mesmos todos os dias», caso contrário «se não morremos para nós mesmos, e se as nossas devoções mais santas não nos levam a esta morte necessária e fecunda, não daremos fruto algum que valha» (n. 81). O que significa “morrer para nós mesmos”? Significa não se apegar a nada, desligar-se de tudo. O que São Paulo chama de «morrer todos os dias para nós mesmos» (1 Cor 15, 31) nada mais é do que servir-se das coisas do mundo sem sentir necessidade delas. Para morrer para nós mesmos, encher-nos de Deus e nos tornarmos santos, precisamos de descobrir o grande meio, o verdadeiro caminho, ou seja, a perfeita devoção a Nossa Senhora.         

Depois de ter exposto as cinco verdades fundamentais que constituem o pressuposto da verdadeira devoção a Maria, São Luís dedica um outro capítulo da sua obra, o terceiro, para nos alertar contra as falsas devoções a Maria e elenca sete espécies de falsos devotos à Santíssima Virgem: isto é, os devotos críticos, que são espíritos orgulhosos que em nada acreditam e que tudo criticam (n. 93); os devotos escrupulosos, que temem desonrar o filho honrando a Mãe (nn. 94-95); devotos exteriores, desprovidos de espírito interior (n. 96); os devotos presunçosos, que são pecadores entregues às suas paixões (nn. 97-101); os devotos inconstantes, que praticam a devoção da Santíssima Virgem em intervalos e segundo os seus caprichos (n. 101); os devotos hipócritas, que escondem os seus pecados sob uma aparente devoção à Virgem (n. 102); os devotos interesseiro, que recorrem à Virgem apenas para obter algum favor (n. 103).       

A verdadeira devoção, por outro lado, deve ser interior, terna, o que não quer dizer sentimental, mas simples; santa; constante e desinteressada, isto é, conduzir a alma à procura não de si mesma, mas de Deus somente na sua santa Mãe. A verdadeira devoção a Maria consiste numa completa renúncia de nós mesmos para pertencermos completamente a Ela.   

Roberto de Mattei

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