sábado, 2 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (III)


O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignon de Montfort, divide-se em oito capítulos, precedidos de uma Introdução e seguidos de um suplemento dedicado ao modo de praticar a devoção na Sagrada Comunhão. Na sua obra, verdadeiramente inspirada pela graça divina, o santo francês avança através de breves parágrafos, num total de duzentos e sessenta e cinco pontos.  

Seguiremos esta numeração, mas, não havendo a possibilidade de analisar e meditar estes pontos um por um, limitar-nos-emos a escolher aqueles que nos parecem mais importantes e a mostrar o vínculo lógico que os une a todo o Tratado.

De fundamental importância é a Introdução, na qual, como vimos, em primeiro lugar São Luís Maria enuncia o princípio-chave da sua obra: «Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo e é também por ela que deve reinar no mundo».        

Igualmente importante é o segundo ponto: «Maria levou uma vida muito oculta; é por isso que é chamada pelo Espírito Santo e pela Igreja: Alma Mater, Mãe escondida e secreta. A sua humildade foi tão profunda que não teve na terra atractivo mais poderoso nem mais contínuo do que ocultar-se diante de si mesma e diante de toda a criatura, para que só Deus a conhecesse».           

A humildade de Maria é a causa da Encarnação do Verbo. O Santo repeti-lo-á nos números 16 e seguintes do Tratado.                

A humildade é a consciência da própria pequenez, do próprio nada, diante da imensa grandeza de Deus. A humildade é o fundamento da vida sobrenatural e contrapõe-se à soberba. No Magnificat, uma das mais belas orações cristãs, contida no Evangelho de São Lucas, Nossa Senhora, assumida na glória, diz de si «Magnificat anima mea dominum», A minha alma glorifica o Senhor, «quia respexit humilitatem Ancillae suae», porque pôs os olhos na humildade da sua serva. A tradução, no entanto, não assume o significado profundo daquele respexit, que é o olhar em que Deus parece quase contemplar a sua obra-prima, Maria. E, no mesmo Magnificat, Nossa Senhora diz que o Senhor dispersou os soberbos nos pensamentos do seu coração, derrubou os poderosos dos tronos e exaltou os humildes: ispersit superbos mente cordis sui, deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles.      

Nestas palavras, está toda a história da criação, que começa com um acto de soberba, o de Lúcifer e dos anjos rebeldes, a que se contrapõe um acto de humildade: o de São Miguel e dos anjos fiéis. E, até ao fim dos tempos, a soberba e a humildade divergirão na história.        

Nossa Senhora concentrou em si, pode-se dizer, a humildade de todos os séculos. Ela, que era a predilecta de Deus, pediu ao Senhor para ser escondida, para não ser conhecida a não ser por Ele. Deus, que lhe inspirou tal pedido, quis atendê-lo e, afirma São Luís Maria no número 3 do Tratado, «aprouve a Deus ocultá-la na sua conceição e nascimento, na sua vida, mistérios, ressurreição e assunção, aos olhos de quase toda a criatura humana. Seus próprios pais não a conheciam e os anjos perguntavam muitas vezes entre si: Quae est ista?, Quem é esta?, porque o Altíssimo a ocultava».    

Quem é esta? Ressoam nos nossos corações as palavras de uma antífona gregoriana, tirada do Cântico dos Cânticos. São as palavras com que os Anjos, e nós também, nos questionamos diante de Maria: Quae est ista quae ascendit sicut aurora consurgens, pulchra ut luna, electa ut sol, terribilis ut castrorum acies ordinata? (Cântico dos Cânticos 6, 10): Quem é essa que desponta como a aurora, bela como a Lua, fulgurante como o Sol, terrível como um exército em ordem de batalha?                  

É um mistério inesgotável que o Tratado da Verdadeira Devoção nos ajuda a melhor conhecer.           

Roberto de Mattei

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