sábado, 16 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XVII)


O número 54 do Tratado continua assim: «Mas o poder de Maria sobre todos os demónios brilhará particularmente nos últimos tempos, em que Satanás armará ciladas contra o seu calcanhar, ou seja, contra os seus humildes escravos e os seus pobres filhos, que ela há-de chamar para lhe fazerem guerra. Eles serão pequenos e pobres na opinião do mundo, rebaixados perante todos, como o está o calcanhar, calcados e perseguidos, como o é o calcanhar se comparado com os outros membros do corpo. Mas, em contrapartida, serão ricos da graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente; serão grandes e elevados em santidade diante de Deus e superiores a toda a criatura pelo seu zelo ardente; e tão fortemente apoiados pelo socorro divino, que com a humildade do seu calcanhar, e em união a Maria, esmagarão a cabeça do demónio e farão triunfar Jesus Cristo».   

Antecedentemente, São Luís disse: «O que Lúcifer perdeu por orgulho, ganhou-o Maria pela sua humildade; o que Eva condenou e deitou a perder pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência» (n. 53). É um tema recorrente do Tratado, desde o número 2, em que recordamos que, falando da vida oculta de Maria, o santo disse que «a sua humildade foi tão profunda que não teve na terra atractivo mais poderoso nem mais contínuo do que ocultar-se diante de si mesma e diante de toda a criatura, para que só Deus a conhecesse». A humildade de Maria é o segredo da sua santidade e do seu papel nos últimos tempos; mas a humildade é também o segredo dos filhos que ela gera ao longo dos séculos e que, com ela, desempenharão um papel decisivo, nos últimos tempos, estabelecendo sobre a terra o reino de Jesus e de Maria, que precederá o do Anticristo.           

O diabo levantou a cabeça contra Deus; Nossa Senhora esmagará a cabeça do diabo com o seu calcanhar. Os filhos e escravos de Maria deverão imitar a sua humildade, a fim de poderem, com ela e através dela, esmagar a cabeça do diabo e, assim, poderem exaltá-la. A humilde Maria será exaltada pelos seus filhos, que imitarão a sua humildade. Enfrentarão os poderes do mundo, instigados pelo demónio contra eles, mas receberão de Deus, pelas mãos de Nossa Senhora, tais graças que poderão suportar e vencer esta batalha aparentemente desigual, como, outrora, David venceu o poderoso Golias.         

O que é o orgulho? O que é a humildade? A humildade consiste em esquecer-se a si mesmo e erguer o olhar para Deus, referindo-Lhe tudo, confiando apenas em Ele. O orgulho consiste em desviar o olhar de Deus para contemplar apenas nós mesmos, confiando apenas nas nossas forças. E como nada podemos fazer sem Deus, os fracassos dos orgulhosos conduzem-no ao desespero, enquanto o humilde, nos sucessos e nos insucessos, nunca está desesperado, porque confia sempre em Deus: a sua virtude é a confiança. O piedoso cartuxo Dom Francesco Pollien explica-o deste modo: «o orgulho é a tua vida dirigida por ti e para ti, a humildade é a tua vida dirigida por Deus e para Deus. A humildade não consiste em não ter nada, mas em referir tudo. Quanto mais se recebe de Deus, tanto mais se Lhe pode referir; e quanto mais se refere, mais humilde se é».        

As duas cidades de que fala Santo Agostinho, a cidade do demónio e a de Deus, são geradas pelo orgulho, que é o amor-próprio até ao desprezo de Deus; e pela humildade, que é o amor de Deus até ao desprezo de si mesmo. A escolha radical é entre Deus, a quem se une intimamente a humildade, e o diabo, a quem nos vincula o orgulho. Este conflito constitui a essência da história que rebentará, pode-se dizer, nos últimos tempos.       

Roberto de Mattei

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