sexta-feira, 1 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (II)


«Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo e é também por ela que deve reinar no mundo». É com estas palavras que se abre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignon de Montfort, e tais palavras constituem o leitmotiv, o fio condutor da sua obra.       

Jesus veio ao mundo por meio de Maria e é por meio de Maria que deve reinar no mundo. Por estas palavras, resume-se todo o Tratado de São Luís Maria.       

Antes de mais, estas palavras definem Maria e a sua relação com Jesus: Maria não é o fim, é o meio. O fim, a meta, é Jesus. Esta afirmação elimina imediatamente o campo de qualquer mal-entendido e elimina qualquer crítica pré-concebida daqueles que afirmam que o autor do Tratado quer colocar Maria à frente de Jesus. A relação entre Maria e Jesus, desde as primeiras linhas do Tratado, está perfeitamente definida: Jesus é o fim, Maria é o meio. Maria, desde as primeiras linhas, aparece no papel que lhe é próprio: o de Medianeira. A mediação de Maria é um dogma que ainda não foi formalmente definido pela Igreja, mas que faz parte da sua Tradição, e São Luís Maria, no Tratado, fornece todas as razões teológicas, referindo-se à doutrina de São Bernardo e de São Boaventura. Assim, nos números 84 e 85 do Tratado, escreve: «Nosso Senhor é nosso advogado e nosso mediador de redenção junto de Deus Pai» (n. 84), «mas acaso não teremos também necessidade dum mediador junto do próprio Mediador?»; «Digamos, pois, com ousadia, como S. Bernardo, que temos necessidade dum mediador junto do próprio Mediador, e que Maria Santíssima é a pessoa mais capaz de desempenhar esta função caridosa» (n. 85).         

Em segundo lugar, São Luís Maria estabelece uma relação entre dois eventos diferentes, mas intimamente ligados. O primeiro é a Encarnação do Verbo e o nascimento de Jesus Cristo, que veio ao mundo por meio de Maria; o segundo é o Reino de Jesus Cristo no mundo, que também ocorrerá por meio de Maria.          

A primeira vinda ao mundo de Jesus Cristo é clara: é o momento culminante da história, quando o Filho de Deus se faz homem para redimir a humanidade. São trinta e três anos de história divino-humana entre o Presépio de Belém e a cruz do Gólgota. Maria desempenhou um papel decisivo no primeiro evento, porque o acelerou com as suas orações, tornou-o possível com o seu Fiat, realizou-o com o sublime mistério da Encarnação do Verbo. Nossa Senhora nutriu e educou Jesus, e nunca se afastou dele nos seus trinta e três anos de vida. Acolheu o seu último suspiro aos pés da cruz e, pela sua participação na Paixão e Morte de Jesus, mereceu o título de co-redentora da humanidade.         

Mas Jesus Cristo deve reinar no mundo. Não um reinado de direito, que já Lhe pertence, mas um reinado de facto, um reinado histórico, que ainda não exerceu a sua plenitude. Este segundo evento ainda está envolvido em mistério, mas, tal como no primeiro, Maria desempenhará um papel decisivo. O Tratado da Verdadeira Devoção dedica-se precisamente a esclarecer este mistério. A arquitectura do Tratado baseia-se nestes pilares: Jesus deve reinar no mundo; Ele deve reinar no mundo por meio de Maria; Maria, para reinar, deve ser conhecida, o mundo não a conhece porque é incapaz e indigno; é necessário dar a conhecer a grandeza e a glória de Maria, para que Jesus possa reinar, com ela, no mundo.       

Roberto de Mattei      

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