sábado, 24 de outubro de 2020

Rejeitamos uma Igreja gay friendly!

Há alguns dias, por ocasião da apresentação, em Roma, do documentário “Francesco”, da autoria do realizador Evgeny Afineevsky e com o alto patrocínio do chifrudo, os meios de comunicação social, nacionais e internacionais, proclamavam, de forma jubilosa, que, «pela primeira vez, [o] Papa Francisco defende uniões de facto para casais homossexuais»[1].          

Após a publicação desta “bomba”, logo se multiplicaram as palavras de cumprimento a esta “corajosa” decisão de Bergoglio, referindo, a título de exemplo, o elogio de António Guterres, Secretário-Geral da ONU, e, como não poderia deixar de ser, do gay friendly P. James Martin, jesuíta norte-americano conhecido pelas suas posições anti-católicas. Também foram publicadas algumas patéticas cartas-abertas ao Papa que somente demonstram a forma anestesiada como se encontra a Igreja e a Sociedade e, claro, a insciência de quem, a cada linha, só propaga delírios e desatinos. A juntar-se a vozes como estas, surgiu, no passado dia 22, um boçal comunicado da Conferência Episcopal Portuguesa em defesa do Papa e das absurdas e imemoriais declarações que, segundo o parecer da entidade que representa os Bispos portugueses, e cada vez menos os fiéis, se é que alguma vez os representou, «revelam a atenção do Papa às necessidades reais da vida concreta das pessoas» e, acrescenta, «trata-se de um direito de protecção legal dessas uniões, que não afectam a doutrina da Igreja sobre o matrimónio». Terá sido escrita por um gay friendly? E será que é assim? O que é que diz, afinal, a Igreja sobre as uniões sodomitas? Recorrendo a uma declaração, datada de 2003, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, constatamos que «há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação»[2] e, mais à frente, que «não é verdadeira a argumentação, segundo a qual, o reconhecimento legal das uniões homossexuais tornar-se-ia necessário para evitar que os conviventes homossexuais viessem a perder, pelo simples facto de conviverem, o efectivo reconhecimento dos direitos comuns que gozam enquanto pessoas e enquanto cidadãos»[3]. Estamos, pois, diante de uma mentira de todo o tamanho. Pior: estamos diante de uma mentira de todo o tamanho provocada pelo Papa que, à semelhança daquilo a que nos tem habituado, logo se cala depois de semear a discórdia e a confusão. É uma atitude frouxa e típica de alguém duvidoso. Mas que, afinal de contas, é o Papa. Para ele, um pequeno pormenor, para nós, uma grave preocupação.       

Se já sabíamos que pouco poderíamos contar com os nossos Pastores para nos auxiliarem na hercúlea tarefa que, actualmente, constitui a defesa do depositum fidei numa sociedade amplamente secularizada, agora, com esta tomada de posição por parte da Conferência Episcopal, corroborada com as tóxicas e infelizes declarações do seu Presidente, ficamos a saber definitivamente que não podemos esperar absolutamente nada daqueles que, como fazem alarde, se demitiram das suas responsabilidades e que, consequentemente, disso serão chamados a prestar contas a Deus! Mas ainda há mais: para além de sofrerem de uma cegueira absoluta, que se traduz na maleita da sinodalidade, na heresia da adoração de ídolos e noutras práticas semelhantes, também nos foi dado a saber que são peritos em matéria de ilusionismo. A cada dia que passa, continuam a querer enganar-nos com as suas palavras duplas e desviantes, com posturas indignas até para o mais humilde sacristão de uma qualquer paróquia perdida e, agora, com a legitimação daquilo que não tem justificação, porque não é normal, logo frontalmente repudiado por Nosso Senhor!          

Graças a Deus, ainda há Pastores que, no meio de toda esta confusão doutrinal, se fazem ouvir em defesa da Tradição, como é o caso do Cardeais Gerhard Müller e Raymond Leo Burke, do Arcebispo Carlo Maria Viganò e do Bispo Auxiliar de Astana, no Cazaquistão, Athanasius Schneider, que escreveram inúmeras declarações em defesa da verdadeira doutrina. Para estas contas, não entram aqueles Prelados que se ficam sempre pelo “quase” ou que sempre falam em “off” porque têm um pavor tremendo a emitir posições de modo claro e oficial: negam continuamente Nosso Senhor! E não só por três vezes.

O erro continua a ser difundido com tons de arco-íris, muitos dos Pastores acomodam-se e tantos fiéis, na sua maioria inconscientemente, seguem-lhes o rasto, ignorando que caminham para o abismo. A cada dia que passa, a cada declaração feita, eis que se aproxima a queda fatal. O que fazer perante uma situação tão dramática como esta? Inconsoláveis por não podermos contar com os nossos Pastores, mas contando com a garantia absoluta da proximidade de Nosso Senhor e da Virgem Maria, devemos continuar e intensificar as nossas orações e os nossos sacrifícios quotidianos, sobretudo pela conversão do Papa, que há muito vociferou o seu “non serviam”, e de todos aqueles que, profundamente mergulhados no erro, têm o dever de, a cada dia, se configurarem a Cristo, Bom Pastor, e não a Satanás, inimigo perpétuo das almas!

A. B. Pimenta    



[1] Notícia do PÚBLICO de 21 de Outubro de 2020.

[2] Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre os projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 3 de Junho de 2003, n 5.

[3] Ibid., n. 9.

Profanações que surgem da ideologia da igualdade absoluta

Embora a nossa época seja amplamente secularizada, as manifestações de ódio satânico ainda são raras. O ódio a Deus disfarça-se, geralmente, de frio laicismo ou indiferença teimosa, atitude que parece mais condizente com a pós-modernidade.  

No entanto, o que aconteceu, no fim da semana passada, em Santiago do Chile, é a explosão de um rugido de ódio sinistro contra Deus como nunca, desde que me lembro, tinha sido ouvido antes.         

As duas igrejas históricas, localizadas a poucos quarteirões do epicentro dos protestos, convocados para comemorar o primeiro ano de agitação social neste País sul-americano, que já foi uma ilha de prosperidade e paz na região, tornaram-se, novamente, alvos do ódio diabólico. Digo novamente já que, há alguns meses, no decorrer de semelhantes distúrbios provocados por uma esquerda cada vez mais radicalizada, tinham sido severamente vandalizadas.         

Neste domingo, os dois templos foram literalmente destruídos. Os media internacionais divulgaram as imagens das igrejas em chamas, enquanto uma multidão de centenas de energúmenos festejava e aplaudia o colapso da torre sineira de uma das duas. Cenas que, certamente, poderiam ter inspirado Dante para a sua descrição do Inferno.          

Hoje, dois dias depois do incêndio, visitei os escombros das duas igrejas. O que vi nos pedaços de parede ainda em pé eram torpezas e obscenidades. Li uma consagração a Lúcifer, escrita num latim macarrónico, “In nomine de nostre Satanas Lucifer excelsi”, acompanhada do número 666. No lado oposto, uma condenação a Jesus Cristo: “Morre, Nazareno”. Um pouco mais adiante: “Satanás aprova”, referindo-se ao referendo, para a mudança da Constituição, que decorrerá no próximo domingo. Tudo temperado com escritos de denúncias contra o clero, a polícia e elogios à “libertação animal”.      

Caminhando entre as cinzas, observando alguns pedaços da Via-Sacra chamuscada, desfigurada, profanada, senti que estava a assistir a uma renovação da Paixão de Cristo, no meio de um inferno de insolência e brutalidade.  

Enquanto gravava algumas cenas dessa visão, vi um homem de modestas condições fazer o mesmo com o seu telefone. Dirigiu-me a palavra para me dizer consternado: “Aqui baptizei os meus netos, queira Deus que não se tornem assim”.  

Assim que saí daquele espectáculo apocalíptico, perguntei-me: como foi possível que tantos participassem nesta orgia satânica? De onde vem esta geração dos meus compatriotas? Como é que se puderam deixar perverter tanto?   

Gradualmente, as respostas vinham-me à mente. Cresceram num ambiente saturado de exigências de igualdade e liberdade. Tudo tinha que ser alcançado imediatamente e para sempre, de acordo com as promessas que lhes foram feitas, nas últimas três décadas, por sucessivos governos de esquerda socialista.

Pouco depois, lembrei-me de um artigo, do Professor Plinio Corrêa de Oliveira, intitulado O problema dos 4 irmãos, em que se argumentava que para haver caridade entre eles era necessário que fossem desiguais. Caso contrário, nenhum poderia ter dado nada aos outros, nenhum poderia receber nada dos outros. A única fraternidade verdadeira, da qual nasce a caridade, é a fraternidade que deriva da desigualdade.  

Estes incendiários são fruto de uma ideologia que exige a absoluta igualdade. E nessa ideologia não tem espaço a caridade, porque não pode ser exercida. E dizer que não há lugar para a caridade é o mesmo que dizer que não há lugar para Deus, já que “Deus caritas est”.    

Todas estas ideias acumulavam-se na minha cabeça em meio a fortes impressões e ao cheiro de fuligem impregnado nas minhas roupas. Por fim, perguntei-me: como podemos pensar que somos todos irmãos, como diz a última encíclica do Papa Francisco, e, ao mesmo tempo, proclamar a igualdade completa, como exigem os organismos internacionais?     

Como não ver que da igualdade absoluta, em que, pela força, se deve relativizar o direito à propriedade privada para colocá-lo em comum, nasce o espírito anarquista do qual surgiu a destruição destes templos?       

Não será que o espírito de rebelião, destinado a ser cada vez mais difundido na geração que cresce em meio ao abandono da Fé e das promessas utópicas de igualdade e fraternidade, também crescerá gradativamente?    

Levado por estas reflexões, parecia ouvir, ao fundo, o grito desesperado, blasfemo e rebelde: “Non serviam”.      

Juan Antonio Montes Varas        
Credo, passado, presente y futuro de Chile

Através de Duc in altum

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Card. Müller sobre Francisco: «Tudo isto criou uma grande confusão»

«Tudo isto criou uma grande confusão, recebi centenas de chamadas, os fiéis estão totalmente perdidos: o que queria dizer o Papa? Possível? Por que não se expressa claramente?». O Cardeal Gerhard Ludwig Müller, que completará 73 anos no final de Dezembro, é teólogo e curador da opera omnia de Ratzinger, foi nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, por Bento XVI, em 2012 e permaneceu no cargo até 2017. «Na Alemanha, com Bento disseram-me que eu era muito papista, agora tornei-me um inimigo do Papa! Uma coisa absurda para mim: sou católico, sacerdote, escrevi muitos livros sobre o primado do Papa, sempre o defendi contra os protestantes e os liberais. Mas...».

1. Mas, Eminência?

Mas o Papa não está acima da Palavra de Deus, que criou o ser humano homem e mulher, o matrimónio e a família. Sou Cardeal e sempre da parte do Papa, mas não em todas as condições. Não é lealdade absoluta. A primeira lealdade é para com a Palavra de Deus. O Papa é o Vigário de Cristo, não é Cristo. E eu acredito em Deus.

2. Mas Francisco não falou de matrimónio, disse que seria necessário um reconhecimento legal para os casais homossexuais, as uniões civis...

E, no fundo, qual é a diferença? Em muitos Estados, as chamadas uniões foram apenas a premissa para o reconhecimento dos casamentos gay. É por isso que muitos fiéis estão perturbados, pensam que estas palavras seriam, para a Igreja, apenas o primeiro passo para uma justificação das uniões homossexuais e isso não é possível.

3. E porquê?

Desde o início da Escritura, no Génesis, é dito que Deus criou o homem e a mulher. Jesus recorda-o aos fariseus: o homem unir-se-á com a sua mulher e os dois serão uma só carne. Por isso, o único matrimónio possível é entre homem e mulher e as relações sexuais são reservadas exclusivamente ao matrimónio. Não queremos condenar as pessoas com tendências homossexuais, pelo contrário, devem ser acompanhadas e ajudadas: mas segundo as condições da doutrina cristã.

4. A Escritura não fala de uniões civis...

Isso é um sofisma! A Palavra de Deus é válida para todos os tempos. E fala de direito natural, moral. A constituição antropológica não é respeitada nesta nova antropologia LGBT: dizem que não há natureza humana definida, homem e mulher, e o sexo seria apenas uma construção ideal, com todas as consequências do caso, incluindo o direito de mudá-lo. Mas não há futuro para a humanidade sem reconhecer a complementaridade entre homem e mulher, o dado biológico e psíquico, uma relação que está na base da cultura humana. O Papa é também o primeiro intérprete da lei natural: por que intervém nestas questões dos Estados sem enfatizar a dimensão da lei natural?

5. A Igreja não pode reconhecer as uniões civis?

Não é possível para um pensamento cristão. Por isso, a Igreja sempre se opôs: até o Estado laico deve respeitar a lei natural, reconhecer os direitos fundamentais dos Homens.

6. E onde se violariam os direitos humanos?

Com a adopção de crianças, por exemplo. Uma criança tem o direito de crescer com um pai e uma mãe. E não falemos da maternidade sub-rogada, das pobres mulheres que precisam de dinheiro e vendem o próprio corpo. Um grande mercado contra a dignidade humana.

7. O que disse aos fiéis que lhe telefonaram?

Nós respeitamos o Papa, claro, é o princípio da unidade da Igreja. Mas também Pedro e Paulo discutiram e um Papa, Honório I, foi até julgado por um Concílio. A pessoa não é totalmente idêntica com o papado. Houve pontífices que nem sempre foram claros na doutrina.

8. E desta vez?

A declaração do Papa Francisco não é oficial, saiu de uma entrevista, e isso relativiza-a e gera mal-entendidos. Tudo isto não é bom porque um Papa, assim como qualquer Bispo, deve ser sempre muito cauteloso e claro, especialmente nestes tempos tão delicados. Alguns dizem, não sei se é verdade, que combinaram diferentes citações no documentário. Por que razão a Santa Sé não deu uma explicação? E a Congregação para a Doutrina da Fé? No entanto, publicou textos, cientificamente elaborados, sobre homossexualidade e matrimónio. É um problema de confusão, no mundo agora diz-se: “o Papa abençoa as uniões homossexuais”: não o disse, mas as consequências são essas. Deveria estar mais atento.

Através de Corriere della Sera

Bergoglio «de Cristo deveria ser o Vigário e não o inimigo», sustenta Viganò

O portal Dies Iræ traduz, a pedido de Mons. Carlo Maria Viganò, um seu artigo que, hoje, foi publicado no quotidiano italiano “La Verità”. Ao longo do texto, de acessível compreensão e guiado por uma absoluta fidelidade ao Magistério, o Arcebispo Viganò aborda, mais aprofundadamente, as preocupantes declarações de Bergoglio sobre as uniões civis entre sodomitas e levanta questões eclesialmente muito relevantes.

Ontem, por ocasião do Festival de Cinema de Roma, o realizador Evgeny Afineevsky apresentou um documentário intitulado “Francesco”, no qual são repropostas algumas entrevistas feitas a Jorge Mario Bergoglio ao longo dos últimos anos de pontificado. Entre outras declarações, algumas frases sobre a legitimidade das uniões civis homossexuais têm gerado confusão: «O que devemos fazer é uma lei para as uniões civis. Desta forma, [os homossexuais] são legalmente protegidos. Eu sou a favor disso».

Penso que tanto os simples fiéis como os Bispos e os sacerdotes se sentiram traídos pelo que Bergoglio afirmou. Não é preciso ser teólogo para entender que a aprovação das uniões civis está em clara contradição com os documentos magisteriais da Igreja, mesmo os recentes. Também constitui um gravíssimo assist à ideologia LGBTQ que, hoje, é imposta globalmente.

Nestes dias, o Parlamento deverá discutir a aprovação da chamada Lei Zan, sob proposta do Partido Democrático. Em nome da protecção dos homossexuais e dos transexuais, será considerado crime afirmar que a família natural é a célula da sociedade humana e quem afirmar que a sodomia é um pecado que clama por vingança junto de Deus será punido. As palavras de Bergoglio já foram recebidas, em todo o mundo do lobby gay, como um autorizado apoio às suas reivindicações.

Lendo atentamente as declarações de Bergoglio, alguém já observou que não há uma aprovação do matrimónio homossexual, mas apenas um gesto de boas-vindas – talvez mal formulado – para aqueles que pedem uma protecção jurídica ao Estado laico. A Congregação para a Doutrina da Fé já esclareceu, sem equívocos, que em nenhum caso um Católico pode aprovar as uniões civis, porque constituem uma legitimação do concubinato público e são apenas o passo que antecede o reconhecimento dos chamados matrimónios homossexuais. Tanto é verdade que, hoje, na Itália, é possível casar-se até mesmo entre pessoas do mesmo sexo, depois de anos de garantia – até mesmo por políticos que se autodenominam católicos – de que o PACS[1] de forma alguma questionariam o matrimónio como afirmado na Constituição.

Afinal, a experiência ensina-nos que quando Bergoglio diz algo, fá-lo com um propósito muito específico: fazer com que os outros interpretem as suas palavras no sentido mais amplo possível. As primeiras páginas dos jornais de todo o mundo anunciam: “O Papa aprova os matrimónios gay”, ainda que, com rigor, não seja o que tenha dito. Mas esse era, exactamente, o resultado que ele e o lobby gay vaticano queriam alcançar. Depois, talvez a Sala de Imprensa dirá que o que Bergoglio disse foi mal-entendido, que se trata de uma antiga entrevista e que a Igreja reitera a condenação da homossexualidade como intrinsecamente desordenada. O dano, no entanto, está feito e mesmo eventuais passos para trás, em respeito ao escândalo gerado, ainda serão um passo em frente na direcção do pensamento único e do politically correct. Não esqueçamos os resultados nefastos da sua expressão, de 2013, «Quem sou eu para julgar?», que lhe rendeu a capa e o título de “homem do ano” no The Advocate.

Bergoglio afirmou: «Os homossexuais têm o direito de fazer parte de uma família. São filhos de Deus e têm o direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou infeliz por causa disso». Todos os baptizados são filhos de Deus: quem no-lo ensina é o Evangelho. Mas pode-se ser filhos bons ou maus, e se esses violam os Mandamentos de Deus, o facto de serem Seus filhos não os impedirá de serem punidos, assim como um italiano que rouba não evita a prisão pelo simples facto de ser cidadão do País em que comete o crime. A Misericórdia de Deus não prescinde da Justiça e se pensamos que, para nos redimir, o Senhor derramou o Seu Sangue na Cruz, não podemos não tender à santidade, conformando o nosso comportamento à Sua vontade. Nosso Senhor disse: «Vós sois meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando» (Jo 15, 14).

Se a exclusão familiar ou social deriva de comportamentos provocatórios ou de reivindicações ideológicas que não podem ser partilhadas – penso no Gay Pride – é apenas o resultado de uma atitude de desafio e, como tal, tem origem em quem usa essa atitude para chocar os outros. Se, por outro lado, essa discriminação deriva apenas de ser uma pessoa que se comporta como todas as outras, com respeito pelos outros e sem qualquer imposição do seu estilo de vida, deve ser justamente condenada.

Sabemos muito bem que o que o lobby homossexual quer alcançar não é a integração de pessoas normais e honestas, mas a imposição de modelos de vida gravemente pecaminosos, socialmente desestabilizadores e que sempre foram instrumentalizados para demolir a família e a sociedade. Não é por acaso que a promoção da agenda homossexual faz parte do projecto globalista em concomitância com a destruição da família natural.

O jesuíta James Martin, um dos mais fervorosos defensores da agenda LGBTQ e do acolhimento indiscriminado dos homossexuais na Igreja, aparece como consultor no Dicastério para a Comunicação da Santa Sé. Assim que foi divulgada a notícia sobre as declarações de Bergoglio, Martin encheu de post as redes sociais, expressando uma irreprimível satisfação por esse gesto que, na verdade, escandalizou a maioria dos fiéis.

Juntamente com o P. Martin estão Cardeais, Bispos, Monsenhores, Sacerdotes e Clérigos que pertencem à chamada “lavender mafia”. Alguns deles foram investigados e condenados por crimes gravíssimos, quase sempre ligados a ambientes homossexuais. Como podemos pensar que um grupo de homossexuais no posto de comando não tenha todo o interesse em pressionar Bergoglio a defender um vício que partilham e praticam?

Pelo contrário, diria que faz parte do comportamento de Bergoglio brincar com o mal-entendido, com a provocação – «Deus não é católico», disse –, ou deixando que outros terminem um discurso que é ele a iniciar. Vimos isso com Amoris laetitia: embora não tenha evidentemente contradito a doutrina católica sobre a impossibilidade de os divorciados acederem aos Sacramentos, deixou que o fizessem outros Bispos, aprovando, depois, as suas declarações e calando-se obstinadamente sobre os Dubia de quatro Cardeais.

Poder-se-ia perguntar: com que finalidade o Papa deveria agir desta forma, sobretudo quando os seus Predecessores sempre foram muito claros em matéria de moral? Não sei o que Bergoglio tem em mente: limito-me a dar um sentido às suas acções e às suas palavras. E penso que posso afirmar que o que emerge é uma atitude deliberadamente dupla e jesuítica. Por trás de todos os seus pronunciamentos está a tentativa de suscitar a reacção da parte sã da Igreja, provocando-a com afirmações heréticas, com gestos desconcertantes, com documentos que contradizem o Magistério. E, ao mesmo tempo, de agradar aos seus apoiantes, especialmente os não católicos ou os apenas de nome.

À força da provocação, espera que algum Bispo se canse de se sentir diariamente atingida a doutrina e a moral; espera que um grupo de Cardeais o acuse formalmente de heresia e peça a sua deposição. E, ao fazê-lo, Bergoglio teria o pretexto de acusar esses Prelados de serem “inimigos do Papa”, de se colocarem fora da Igreja, de quererem um cisma. Obviamente, não são os que querem permanecer fiéis ao Magistério que se separam da Igreja: seria um absurdo.

De certa forma, o comportamento de Bergoglio é da mesma matriz daquele do Presidente Conte: ambos, em retrospectiva, eram desejados nesse papel pela mesma elite, numericamente minoritária mas poderosa e organizada, com o objectivo de demolir as instituição que representam; ambos abusam do seu poder contra a lei; ambos acusam aqueles que denunciam os seus abusos de serem inimigos da instituição, quando, na verdade, a defendem deles. Finalmente, ambos se distinguem por uma desoladora mediocridade.

Se canonicamente é impensável excomungar um Católico pelo simples facto de querer permanecer assim, política e estrategicamente este abuso poderia permitir a Bergoglio expulsar os seus adversários da Igreja, consolidando o seu poder. E repito: não se trata de uma operação legítima, mas de um abuso que, no entanto, ninguém poderia impedir, já que «prima Sedes a nemine judicatura». E como a deposição de um Papa herege é uma questão canonicamente não resolvida e sobre a qual não há consentimento unânime entre os canonistas, quem quer que acusasse Bergoglio de heresia cairia num beco sem saída e muito dificilmente obteria um resultado.     

E é exactamente isso, na minha opinião, que o “círculo mágico” de Bergoglio quer alcançar: chegar à situação paradoxal em que aquele que é reconhecido como Papa está, ao mesmo tempo, em estado de cisma com a Igreja que governa, enquanto que quem é por ele declarado cismático, por desobediência, se encontra excluído da Igreja pelo facto de ser católico.

A acção de Bergoglio dirige-se, sobretudo, ao exterior da Igreja. A Encíclica Fratelli tutti é um manifesto ideológico em que não há nada de católico e nada para os Católicos; é mais um embrassons-nous maçónico, no qual a fraternidade universal não se obtém, como ensina o Evangelho, no reconhecimento da comum paternidade de Deus através da pertença a uma única Igreja, mas com a redução de todas as religiões a um mínimo denominador comum que se expressa na solidariedade, no respeito pelo meio ambiente, no pacifismo.

Com esta forma de agir, Bergoglio candidata-se a “pontífice” de uma nova religião, com novos mandamentos, nova moral e novas liturgias. Afasta-se da Religião Católica e de Cristo, e, consequentemente, da Hierarquia e dos fiéis, repudiando-os e deixando-os à mercê da ditadura globalista. Quem não se adaptar a este novo código será, portanto, condenado ao ostracismo pela sociedade e por esta nova “igreja” como corpo estranho.

A 20 de Outubro, o Papa Francisco rezou pela paz juntamente com os representantes das religiões mundiais: o lema dessa cerimónia ecuménica era “Ninguém se salva sozinho”. Mas aquela oração foi dirigida, indiferentemente, ao Deus verdadeiro como aos falsos deuses dos pagãos, deixando claro que o ecumenismo propagado por Bergoglio tem como fim a exclusão de Nosso Senhor da sociedade humana, porque Jesus Cristo é considerado «divisivo», «pedra de tropeço». Assim, o homem moderno pensa que pode obter a paz prescindindo d’Aquele que disse de si mesmo: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim» (Jo 14, 6). É doloroso constatar que a esta apostasia das Nações outrora cristãs se junta Jorge Mario Bergoglio, que de Cristo deveria ser o Vigário e não o inimigo.

Há três dias, a imprensa divulgou a notícia de que o Papa não celebrará a Missa da Meia-Noite no Natal. Limito-me a uma constatação: há poucos dias, em pleno estado de emergência COVID-19, foi considerado possível celebrar um rito ecuménico, na presença dos fiéis e das autoridades, todos com a máscara. Pelo contrário, nos espaços muito maiores da Basílica Vaticana, alguém considerou imprudente celebrar o Nascimento do Salvador na Noite Santa.

Se esta decisão for confirmada, saberemos que Jorge Mario Bergoglio prefere auto-celebrar-se, secundando o pensamento único e a ideologia sincrética da Nova Ordem Mundial, em vez de se ajoelhar aos pés da manjedoura em que foi colocado o Rei dos Reis.

Carlo Maria Viganò, Arcebispo          
22 de Outubro de 2020



[1] Patto Civile di Solidarietà, equivalente, em Portugal, às uniões civis (n.d.r.).

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Reacção do Card. Burke às afirmações de Francisco sobre a sodomia

Os meios de comunicação mundiais têm noticiado com forte ênfase, qual mudança de rumo, a notícia de que o Papa Francisco declarou que as pessoas na condição homossexual, como filhos de Deus, “têm o direito de ter uma família” e que “ninguém deve ser expulso ou infeliz por causa disso”. Além disso, escrevem que declarou: “O que temos de criar é uma união civil. Desta forma, serão legalmente protegidos. Tenho-o defendido”. As declarações foram feitas em entrevista a Evgeny Afineevsky, director do documentário “Francesco”, estreado, por ocasião do Festival de Cinema de Roma (Festa del Film di Roma), a 21 de Outubro de 2020.             

Tais declarações geram grande perplexidade e causam confusão e erro entre os fiéis Católicos, na medida em que são contrárias ao ensinamento da Sagrada Escritura e da Sagrada Tradição e do recente Magistério, através do qual a Igreja guarda, protege e interpreta todo o depósito da fé contido na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição. Causam admiração e erro, quanto ao ensinamento da Igreja, entre as pessoas de boa vontade que desejam, sinceramente, saber o que ensina a Igreja Católica. Impõem aos pastores de almas o dever de consciência de fazer os adequados e necessários esclarecimentos.         

Em primeiro lugar, o contexto e a ocasião de tais declarações tornam-nas desprovidas de qualquer peso magisterial. São correctamente interpretadas como simples opiniões pessoais da pessoa que as fez. Estas declarações não vinculam, de modo algum, as consciências dos fiéis, antes obrigados a aderir com submissão religiosa ao que ensinam sobre a matéria a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição e o Magistério ordinário da Igreja. Em particular, deve-se observar o seguinte:     

1. «Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que “os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados”» (Catecismo da Igreja Católica, n. 2357; Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Persona humana, “Declaração sobre alguns pontos de ética sexual”, n. VIII[1]), na medida em que são contrários à lei natural, fechados ao dom da vida e vazios da verdadeira afectividade e complementaridade sexual. Desta forma, não podem ser aprovados.        

2. As particulares e, por vezes, profundas tendências de pessoas, homens e mulheres, na condição homossexual, que são para eles uma prova, embora não possam por si mesmas constituir um pecado, representam, no entanto, uma inclinação objectivamente desordenada (Catecismo da Igreja Católica, n. 2358; Congregação para a Doutrina da Fé, Homosexualitatis problema, “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais”, n. 3[2]). Devem, portanto, ser recebidas com respeito, compaixão e sensibilidade, evitando qualquer discriminação injusta. A fé Católica ensina o fiel a odiar o pecado, mas a amar o pecador.          

3. Os fiéis e, em particular, os políticos Católicos são acusados
​​de se opor ao reconhecimento legal das uniões homossexuais (Congregação para a Doutrina da Fé, “Considerações sobre os projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais”, Diverse questioni concernenti l’omosessualità, n. 10[3]). O direito de constituir família não é um direito privado a reivindicar, mas deve corresponder ao desígnio do Criador que quis o ser humano na diferença sexual, «homem e mulher os criou» (Gn 1, 27), chamando, assim, o Homem, masculino e feminino, à transmissão da vida. «Porque as cópias matrimoniais têm a função de garantir a ordem das gerações e, portanto, são de relevante interesse público, o direito civil confere-lhes um reconhecimento institucional. As uniões homossexuais, invés, não exigem uma específica atenção por parte do ordenamento jurídico, porque não desempenham essa função em ordem ao bem comum» (Ibidem, n. 9[4]). Falar de união homossexual, no mesmo sentido de união conjugal dos esposos, é, de facto, profundamente enganoso, porque não pode haver tal união entre pessoas do mesmo sexo. No que diz respeito à administração da justiça, as pessoas na condição homossexual, como todos os cidadãos, podem sempre fazer uso das disposições da lei para salvaguardar os seus direitos privados.   

É fonte da mais profunda tristeza e premente preocupação pastoral que as opiniões pessoais, noticiadas com tanta ênfase pela imprensa e atribuídas ao Papa Francisco, não correspondam ao ensinamento constante da Igreja, como se expressa na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição e é guardado, protegido e interpretado pelo Magistério. Igualmente triste e preocupante é a agitação, a confusão e o erro que provocam entre os fiéis católicos, assim como o escândalo que causam, em geral, ao dar a impressão totalmente falsa de que a Igreja Católica mudou de rumo, isto é, de que mudou o seu ensinamento perene sobre estas fundamentais e críticas questões.                   

Raymond Leo Card. Burke          
Roma, 22 de Outubro de 2020                        

A tradução portuguesa também se encontra disponível na página oficial
de Sua Eminência o Cardeal Raymond Leo Burke.



[1] «...suapte intrinseca natura esse inordinatos». Sacra Congregatio pro Doctrina Fidei, Declaratio, Persona humana, “De quibusdam quaestionibus ad sexualem ethicam spectantibus”, 29 Decembris 1975, Acta Apostolicae Sedis 68 (1976) 85, n. 8. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19751229_persona-humana_po.html, p. 5, VIII.

[2] Cf. Congregatio pro Doctrina Fidei, Epistula, Homosexualitatis problema, “Ad universos catholicae Ecclesiae episcopos de pastorali personarum homosexualium cura”, 1 Octobris 1986, Acta Apostolicae Sedis 79 (1987) 544, n. 3. Tradução portuguesa: http://w2.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19861001_homosexual-persons_po.html, pp. 1-2, n. 3.

[3] Congregatio pro Doctrina Fidei, Nota, Diverse quaestioni concernenti l’omosessualità, “De contubernalibus eiusdem sexus quoad iuridica a consectaria contubernii”, 3 Iunii 2003, Acta Apostolicae Sedis 96 (2004) 48, n. 10. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homosexual-unions_po.html, pp. 5-6, no. 10.   

[4] «Poiché le coppie matrimoniali svolgono il ruolo di garantire l’ordine delle generazioni e sono quindi di eminente interesse pubblico, il diritto civile conferisce loro un riconoscimento istituzionale. Le unioni omosessuali invece non esigono una specifica attenzione da parte dell’ordinamento giuridico, perché non rivestono il suddetto ruolo per il bene comune» Ibid., 47, n. 9. Tradução portuguesa: Ibid., p. 5, n. 9.

Declaração de Mons. Viganò a propósito do documentário “Francesco”

21 de Outubro de 2020

O site Vatican News[1] deu a notícia de que, no Festival de Cinema de Roma, será, hoje, projectado um documentário intitulado “Francesco”, feito pelo realizador Evgeny Afineevsky.

Este documentário – conforme noticiado pela Catholic News Agency[2] e pelo site America, the Jesuit review[3] – torna públicos alguns pronunciamentos de Jorge Mario Bergoglio sobre o tema da homossexualidade. Entre outras afirmações, desconcertam estas frases:

«Os homossexuais têm o direito de fazer parte de uma família. São filhos de Deus e têm o direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou infeliz por causa disso»[4].

«O que devemos fazer é uma lei para as uniões civis. Desta forma, são legalmente protegidos. Eu sou a favor disso»[5].

Não é preciso ser teólogo ou moralista para saber que tais afirmações são totalmente heterodoxas e constituem um gravíssimo motivo de escândalo para os fiéis.

Mas atenção: estas palavras constituem a enésima provocação com que a parte ultra-progressista da Hierarquia tenta suscitar, astutamente, um cisma, como já tentou fazer com a Exortação Pós-Sinodal Amoris laetitia, a modificação da doutrina sobre a pena capital, o Sínodo pan-amazónico e a imunda Pachamama, a Declaração de Abu Dhabi, depois reafirmada e agravada pela Encíclica Fratelli tutti.         

Parece que Bergoglio procura descaradamente “subir a parada”, num crescendo de afirmações heréticas, a fim de forçar a parte sã da Igreja – episcopado, clero e fiéis – a acusá-lo de heresia, para, depois, declará-la cismática e “inimiga do papa”.

Jorge Mario Bergoglio tenta forçar alguns Cardeais e Bispos a separar-se da comunhão com ele, obtendo como resultado não a própria deposição por heresia, mas a expulsão dos Católicos que querem permanecer fiéis ao Magistério perene da Igreja. Essa armadilha teria – nas presumíveis intenções de Bergoglio e do seu “círculo mágico” – o propósito de consolidar o seu poder dentro de uma igreja que seria apenas nominalmente “católica”, mas, na realidade, herética e cismática.

Este engano conta com o apoio da elite globalista, dos media mainstream e do lobby LGBT, ao qual não são estranhos muitos Clérigos, Bispos e Cardeais. Não esqueçamos que, em muitas nações, existem leis em vigor que punem como crime aqueles que, mesmo com base no seu Credo, consideram repreensível e pecaminosa a sodomia ou que não aprovam a legitimação do “matrimónio” homossexual. Um pronunciamento dos Bispos contra Bergoglio numa questão como a da homossexualidade poderia autorizar a autoridade civil a persegui-los criminalmente com a aprovação do Vaticano.

Bergoglio, portanto, não teria apenas do seu lado a “deep church”, representada pelos rebeldes, como o P. James Martin, s.j., e os expoentes do “synodal path” alemão, mas também o “deep state”. Não é de surpreender que, no documentário, também haja um endorsement ao candidato democrata nas próximas eleições presidenciais americanas, juntamente com uma desconcertante condenação da política da administração Trump, acusado de separar as famílias que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos, quando, na verdade, o Presidente está a enfrentar a exploração de seres humanos e o tráfico de menores.      
Assim, enquanto aos Bispos conservadores americanos é feita a proibição de intervir no debate político em apoio ao Presidente Trump, o Vaticano pode permitir-se a desenvoltas ingerências nas eleições em favor do seu adversário democrático, unindo-se à censura das redes sociais e dos media sobre as gravíssimas acusações contra a família Biden.

Como Católicos, somos chamados a estar ao lado daqueles que defendem a vida, a família natural, a soberania nacional. Pensávamos ter o Vigário de Cristo ao nosso lado. Reconhecemos dolorosamente que, neste confronto épico, aquele que deveria conduzir a Barca de Pedro escolheu ficar ao lado do Inimigo para afundá-la. Recordando a coragem dos Santos Pontífices em defender a integridade da Fé e promover a salvação das almas, deve-se observar: «Quantum mutatus ab illis!».

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo



[1] https://www.vaticannews.va/it/papa/news/2020-10/papa-francesco-film-documentario-festival-cinema-roma.html

[2] https://www.catholicnewsagency.com/news/pope-francis-calls-for-civil-union-law-for-same-sex-couples-in-shift-from-vatican-stance-12462

[3] https://www.americamagazine.org/faith/2020/10/21/pope-francis-gay-civil-union-documentary

[4] «Homosexuals have a right to be a part of the family. They’re children of God and have a right to a family. Nobody should be thrown out, or be made miserable because of it».

[5] «What we have to create is a civil union law. That way they are legally covered. I stood up for that».

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Falem-nos da vida eterna

Num talk show televisivo (Stasera Italia, 14 de Outubro de 2020), o sociólogo progressista Marco Revelli denunciou, alarmado, o clima de angústia colectiva que se espalha na Itália e no Ocidente após a dança macabra do Coronavírus. «A morte circula no Ocidente», disse, evocando esse espectro. 

Mas a morte nunca deixou de circular. Morre-se e continua-se a morrer todos os dias de mil maneiras. A morte é uma das poucas certezas, talvez a primeira, da nossa vida. Vivemos, mas a vida do nosso corpo tem um inexorável limite.  

A sociedade moderna tentou eliminar o pensamento da morte, que rompe a lei do prazer e do bem-estar das massas.    

A morte é a consequência do pecado original e a sociedade moderna nega o pecado original, nega todo o pecado, assume que seja possível superar a doença e a morte. 

Esta presunção é um sonho diabólico, porque inspirado por aquele que inspirou o primeiro pecado, o príncipe das trevas, aquele que continua a repetir aos homens: «Sereis como deuses» e propõe-lhes alcançar este objectivo através da ciência, em particular a manipulação genética.      

A proibição de falar da morte sempre se expressou na indignação suscitada contra aqueles sacerdotes que, nos seus sermões, convidavam ao que se chamava o exercício da boa morte: a preparação para o momento fatal que espera cada um de nós. Santo Afonso Maria de Ligório, que escreveu um belo livro intitulado Preparação para a Morte, nas suas Máximas eternas recorda-nos que a morte é um momento do qual depende a eternidade: uma eternidade feliz ou sempre infeliz, de alegrias ou de preocupações, de todo o bem ou de todo o mal, uma eternidade ou de um Paraíso ou de um inferno (Massime eterne, Roma 1910, pp. 11-12).         

Mas se um católico fala da morte, é acusado de querer criar terror e angústia e é banido como um profeta da desgraça, como se falar da morte significasse desejar, ou apressar, este momento. E o silêncio sobre a morte tem sido a palavra de ordem até agora dominante.          

Em poucos meses tudo mudou. O espectro da sua morte, com a sua foice, impôs-se à sociedade e é evocado por aqueles mesmos cientistas que deveriam ter derrotado as doenças e a morte e que se revelam impotentes diante da pandemia do Coronavírus.     

Para quem sabe que a morte não é o fim de tudo, mas o início de uma outra vida, seria uma oportunidade de ouro para realizar o apostolado da boa morte. Mas os pastores calam-se e a falar da morte são sociólogos, como Revelli, ou cientistas, como Massimo Galli, que se definem publicamente como ateus e, portanto, incapazes de olhar para além da morte.     

Não é de admirar que a sociedade contemporânea, incapaz de dar um sentido à vida, caia na angústia diante da doença e da morte. É de admirar, em vez, o silêncio de quem tem todas as armas para derrotar não a morte, mas a angústia que a cerca: os ministros da Igreja Católica Apostólica Romana, que guarda todas as verdades sobre a vida e a morte dos Homens e o seu destino ultraterreno e é a única a ter palavras de vida eterna (Jo 6, 88).     

O nosso apelo é humilde, mas ardente. Nesta hora trágica e confusa da nossa história, Pastores, falem-nos não desta vida terrena, mas da outra, a vida eterna, a vida verdadeira, na qual colocamos todas as nossas esperanças.           

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Conferência do Cardeal Burke para a Voice of the Family

Os direitos dos pais como educadores primários dos seus filhos e a obrigação dos pais de se oporem a um currículo contrário à lei moral

Muito me agrada auxiliar a “Voice of the Family” no seu nobre trabalho de promoção da sã doutrina e da disciplina da Igreja em relação ao matrimónio e ao seu incomparável fruto: a família. Em particular, tenho o prazer de abordar a questão crítica da educação, que é a missão essencial da família e uma expressão fundamental da nossa cultura.

Não pode escapar da atenção de qualquer pessoa judiciosa que a educação está, hoje, sob um ataque feroz. Tanto na educação como na lei, como expressões fundamentais da nossa cultura, testemunhamos o abandono da compreensão da natureza humana e da consciência pela qual Deus nos chama a respeitar a verdade da natureza e a viver de acordo com essa verdade em amor puro e desinteressado.São Paulo, na sua Carta aos Efésios, referindo-se ao afastamento do homem de Deus e, portanto, do mundo, declarou:     

«Mas em Cristo Jesus, vós que, outrora estáveis longe, agora estais perto pelo sangue de Cristo. Com efeito, Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade: na sua carne, anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só homem novo, fazendo a paz, e para os reconciliar com Deus, num só Corpo, por meio da cruz, matando, assim, a inimizade. E, na sua vinda, anunciou a paz a vós que estáveis longe e paz àqueles que estavam perto. Porque é por Ele que uns e outros, num só Espírito, temos acesso ao Pai. Portanto, já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que toda a construção bem ajustada cresce para formar um templo santo, no Senhor. É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito»
[1].

Só Cristo abre o entendimento e anima o coração para abraçar a verdade e vivê-la no amor. Os educadores, portanto, cooperando com os pais, levam os filhos a conhecer a Cristo e a segui-Lo em todas as coisas e, assim, a conduzi-los à paz, que todo o coração humano deseja. A educação, tanto no lar como na escola, abre os olhos da criança para contemplar o mistério do amor de Deus por nós no envio do Seu Filho unigénito na nossa carne humana e no envio do Seu Espírito Santo às nossas almas, o grande fruto da Encarnação Redentora.           

Os pais, que no passado dependiam das escolas para ajudá-los a criar os seus filhos para serem verdadeiros cidadãos do céu e da terra, bons membros da Igreja e bons membros da sociedade civil, acham que algumas escolas são locais de doutrinação no materialismo ateísta com o relativismo que nele vai implicado. Essas escolas, de facto, tentam destruir a educação recebida no lar sobre as verdades mais fundamentais: a verdade sobre a dignidade inviolável da vida humana inocente, a integridade da sexualidade humana e do casamento, e a insubstituibilidade da relação do homem com Deus ou da sagrada religião. Além disso, quando os pais tentam, acertadamente, proteger os seus filhos de tal ideologia niilista, essas escolas tentam forçar a doutrinação dos seus filhos de maneira totalitária.

Infelizmente, algumas escolas católicas, por várias razões, imitam a situação das escolas não católicas, insistindo na ideologia anti-vida, anti-família e anti-religião que marca a educação em geral. Esta última situação é particularmente perniciosa, pois os pais mandam os filhos para uma escola católica com a confiança de que será verdadeiramente católica, quando, na verdade, não o é de todo. O facto de tais escolas funcionarem sob o nome de católicas é uma profunda injustiça para com as famílias.     

Na raiz da deplorável situação cultural em que nos encontramos está a perda do sentido da natureza e da consciência. O Papa Bento XVI abordou esta perda, no que diz respeito ao fundamento do direito, no seu discurso ao Parlamento Alemão, o Bundestag, durante a sua Visita Pastoral à Alemanha, em Setembro de 2011. Aproveitando a história do jovem Rei Salomão e da sua subida ao trono, lembrou aos líderes políticos o ensinamento da Sagrada Escritura sobre a actividade política. Deus perguntou ao Rei Salomão que pedido desejava fazer ao começar a governar o povo santo de Deus. O Santo Padre comentou:


«Que irá pedir o jovem soberano neste momento tão importante: sucesso, riqueza, uma vida longa, a eliminação dos inimigos? Não pede nada disso; mas sim: “Concede ao teu servo um coração dócil, para saber administrar a justiça ao teu povo e discernir o bem do mal”» (1 Rs 3, 9)[2].

A história do Rei Salomão, como observou o Papa Bento XVI, ensina o que deve ser o fim da actividade política e, portanto, do governo. Declarou: «A política deve ser um compromisso em prol da justiça e, assim, criar as condições de fundo para a paz. Servir o direito e combater o domínio da injustiça é e permanece a tarefa fundamental do político»
[3].

O Papa Bento XVI, então, perguntou como conhecemos o bem e o certo, que a ordem política e especificamente a lei devem salvaguardar e promover. Embora tenha reconhecido que, em muitos assuntos, se «pode ter por critério suficiente o da maioria»
[4], observou que tal princípio não é suficiente «nas questões fundamentais do direito em que está em jogo a dignidade do homem e da humanidade»[5]. Em relação ao próprio fundamento da vida da sociedade, a lei civil positiva deve respeitar «a natureza e a razão como verdadeiras fontes do direito»[6]. Por outras palavras, deve-se recorrer à lei moral natural que Deus inscreveu em cada coração humano. Penso na minha própria terra natal, os Estados Unidos da América, onde o Supremo Tribunal da nação se atreveu a definir o início da vida humana, a parceria do casamento e a própria sexualidade humana de acordo com considerações sentimentais materialistas e relativistas, em desafio à lei escrita por Deus no coração humano[7].

O que o Papa Bento XVI observou sobre o fundamento do direito na natureza e na consciência aponta para o trabalho fundamental da educação, a saber, o trabalho de promover nos alunos um “coração que escuta” que se esforça por conhecer a lei de Deus e por respeitá-la mediante o próprio desenvolvimento  na vida das virtudes. A verdadeira educação visa levar a pessoa humana «à plena maturidade humana e cristã»
[8]. Basta dizer que os pais devem estar vigilantes para que a educação dos filhos seja coerente com a educação e o acompanhamento do crescimento cristãos dados no lar. Assim como a família é essencial para a transformação da cultura, assim também o é a educação, por causa da sua conexão intrínseca com o crescimento e desenvolvimento da criança.

A agenda anti-vida, anti-família e anti-religião do nosso tempo, totalmente galvanizada, avança, em grande parte, por causa da falta de atenção e informação do público em geral. Os mass media hoje difusamente presentes, que são poderosos promotores desta agenda, confundem e corrompem mentes e corações, e tornam as consciências apáticas no que toca à lei escrita por Deus na natureza e em cada coração humano. Na sua Carta Encíclica sobre o Evangelho da Vida, Evangelium Vitae, o Papa João Paulo II declarou:       


«Urge uma mobilização geral das consciências e um esforço ético comum para se actuar uma grande estratégia a favor da vida. Todos juntos devemos construir uma nova cultura da vida: nova, porque em condições de enfrentar e resolver os problemas inéditos de hoje acerca da vida do homem; nova, porque assumida com convicção mais firme e laboriosa por todos os cristãos; nova, porque capaz de suscitar um sério e corajoso confronto cultural com todos. A urgência desta viragem cultural está ligada à situação histórica que estamos a atravessar, mas radica-se sobretudo na própria missão evangelizadora confiada à Igreja. De facto, o Evangelho visa “transformar a partir de dentro e fazer nova a própria humanidade”; é como o fermento que leveda toda a massa (cf. Mt 13, 33) e, como tal, é destinado a permear todas as culturas e a animá-las a partir de dentro, para que exprimam a verdade integral sobre o homem e sua vida»[9]

O que o Papa João Paulo II afirmou sobre a mobilização das consciências em relação à inviolabilidade da vida humana inocente, certamente se aplica também, e com força, à mobilização das consciências a respeito da integridade do casamento e da vida familiar e à relação insubstituível com Deus, que é a santa religião.

O Papa João Paulo II não deixou de fazer notar que tais esforços devem começar com «a renovação da cultura de vida no seio das próprias comunidades cristãs»
[10]. A própria Igreja deve abordar a situação de tantos dos seus membros que, mesmo sendo activos nas actividades da Igreja, «caem numa espécie de dissociação entre a fé cristã e as suas exigências éticas a propósito da vida, chegando assim ao subjectivismo moral e a certos comportamentos inaceitáveis»[11]. Essa separação entre fé e vida prática é particularmente devastadora quando influencia a educação. A criança que é ensinada a ter um “coração que escuta”e que está naturalmente sintonizada com a sua consciência, com a lei de Deus escrita no seu coração, é corrompida por aqueles em quem é levada a confiar. Basta pensar na corrupção produzida por uma educação falsa e difusa em matéria de sexualidade humana. Nunca é demais a atenção dos pais à possibilidade de tal corrupção entrar no que deveria ser a educação dos seus filhos.

A educação católica de crianças e jovens é uma educação completa, isto é, o desenvolvimento da razão através da transmissão competente de conhecimentos e talentos dentro do contexto da fé por meio do estudo de Deus e do Seu plano para nós e para o nosso mundo, de acordo com o que Ele nos revelou de Si mesmo e do Seu plano. O Papa Pio XI, na sua Carta Encíclica Divini Illius Magistri, descreveu uma educação católica ou cristã com estas palavras:

«O fim próprio e imediato da educação cristã é cooperar com a graça divina na formação do verdadeiro e perfeito cristão, isto é, formar o mesmo Cristo nos regenerados pelo Baptismo, segundo a viva expressão do Apóstolo: “Meus filhinhos, a quem eu trago no meu coração até que seja formado em vós Cristo”. Pois que o verdadeiro cristão deve viver a vida sobrenatural em Cristo: “Cristo que é a vossa vida”, e manifestá-la em todas as suas acções: “a fim que também a vida de Jesus se manifeste na vossa carne mortal”. Precisamente por isso a educação cristã abraça toda a extensão da vida humana, sensível, espiritual, intelectual e moral, individual, doméstica e social, não para diminuí-la de qualquer maneira, mas para a elevar, regular e aperfeiçoar segundo os exemplos e doutrina de Cristo. Por isso o verdadeiro cristão, fruto da verdadeira educação cristã, é o homem sobrenatural que pensa, julga e opera constantemente e coerentemente, segundo a sã razão iluminada pela luz sobrenatural dos exemplos e doutrina de Cristo; ou antes, servindo-Nos da expressão, agora em uso, o verdadeiro e completo homem de carácter. Pois que não é qualquer coerência e rigidez de procedimento, segundo princípios subjectivos, o que constitui o verdadeiro caráter, mas tão somente a constância em seguir os eternos princípios da justiça, como confessa o próprio poeta pagão quando louva, inseparavelmente, “o homem justo e firme em seu propósito”. Por outro lado, não pode haver justiça perfeita senão dando a Deus o que é de Deus, como faz o verdadeiro cristão»
[12].

Só essa educação completa pode guiar as nossas crianças e jovens no caminho da felicidade para a qual Deus criou cada um de nós. Com a ajuda de uma educação sã e sólida em casa e na escola, as crianças conhecem a felicidade durante os dias da sua peregrinação terrena e eternamente no termo desejado da sua peregrinação que é o Céu. Apenas tal educação pode transformar a nossa cultura.

A família é o primeiro lugar da educação, verdade que define a missão da escola na sua essência. A escola serve a família e, por isso, trabalha intimamente com a família para levar os filhos a uma maturidade cada vez maior, à plenitude da vida em Cristo. Sobre o casamento cristão e a família, e a missão educativa, o Papa São João Paulo II, na sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a Família, de 1981, Familiaris consortio, declarou que «a família cristã, de facto, é a primeira comunidade chamada a anunciar o Evangelho à pessoa humana em crescimento e a levá-la, através de uma catequese e educação progressiva, à plenitude da maturidade humana e cristã»
[13]. A educação cristã na família e na escola introduz as crianças e os jovens, de maneira cada vez mais profunda, na Tradição, no grande dom da nossa vida em Cristo na Igreja que nos foi transmitida com fidelidade, numa linha ininterrupta, através dos Apóstolos e dos seus sucessores.

A educação, para ser sã e sólida, isto é, em prol do bem do indivíduo e da sociedade, deve estar especialmente atenta para se armar contra os erros do secularismo e do relativismo, para não deixar de comunicar às gerações seguintes a verdade, a beleza e a bondade da nossa vida e do nosso mundo, conforme são expressas no ensino imutável da fé, na sua mais alta expressão através da oração, da devoção e doculto divino, e na santidade de vida daqueles que professam a fé e adoram a Deus «em espírito e em verdade»
[14].

A Declaração sobre a Educação Cristã, Gravissimum educationis, do Concílio Ecuménico Vaticano II, deixou claro que a responsabilidade primária pela educação das crianças pertence aos pais, que contam com escolas sãs e sólidas para ajudá-los a fornecer qualquer parte da educação total dos seus filhos que eles não podem transmitir em casa. O bem essencial do casamento, que é o dom dos filhos, inclui tanto a procriação quanto a educação dos filhos. Cito a Gravissimum educationis:


«Os pais, que transmitiram a vida aos filhos, têm uma gravíssima obrigação de educar a prole e, por isso, devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores. Esta função educativa é de tanto peso que, onde não existir, dificilmente poderá ser suprida. Com efeito, é dever dos pais criar um ambiente de tal modo animado pelo amor e pela piedade para com Deus e para com os homens que favoreça a completa educação pessoal e social dos filhos. A família é, portanto, a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade. Mas, é sobretudo, na família cristã, ornada da graça e do dever do sacramento do Matrimónio, que devem ser ensinados os filhos desde os primeiros anos, segundo a fé recebida no Baptismo a conhecer e a adorar Deus e a amar o próximo»[15].

Certamente, a sociedade, em geral, e a Igreja, de modo particular, têm também uma responsabilidade pela educação das crianças e dos jovens, mas essa responsabilidade deve ser sempre exercida no respeito pela responsabilidade primária dos pais.

Os pais, por seu lado, devem estar plenamente empenhados em qualquer serviço educativo prestado pela sociedade e pela Igreja. As crianças e os jovens não devem ser confundidos ou induzidos no erro por uma educação fora de casa que entra em conflito com a educação ministrada no lar. Hoje, os pais devem estar especialmente vigilantes, pois algumas escolas tornaram-se os instrumentos de uma agenda secular inimiga da vida cristã. Pense-se, por exemplo, na assim dita “educação de género” obrigatória em algumas escolas, que ataca directamente a sexualidade humana e o casamento, e, portanto, a família.

Para o bem dos nossos jovens, todos devemos dar particular atenção a essa expressão fundamental da nossa cultura que é a educação. Os bons pais e os bons cidadãos devem estar atentos ao currículo que as escolas seguem e à vida nas mesmas, a fim de assegurar que os nossos filhos estão a ser formados nas virtudes humanas e cristãs e que não estão a ser deformados pela doutrinação na confusão e no erro quanto às verdades mais fundamentais da vida humana, da família e da religião, o que os conduzirá à escravidão ao pecado e, portanto, a uma profunda infelicidade e à destruição da cultura.

No cerne de um currículo sólido há-de estar o respeito pela dignidade da pessoa humana e pela tradição da beleza, da verdade e da bondade nas artes e nas ciências. Frequentemente, hoje, uma noção de tolerância de maneiras de pensar e agir contrárias à lei moral parece ser a chave interpretativa para muitos cristãos. De acordo com essa abordagem, já não se pode distinguir entre o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o bom e o mau. Uma abordagem que não está firmemente fundamentada na tradição moral, mas que tende a dominar a nossa abordagem na medida em que acabamos a afirmar-nos cristãos ao mesmo tempo que toleramos formas de pensar e de agir diametralmente opostas à lei moral que nos é revelada na natureza e na Sagrada Escritura. A abordagem, às vezes, torna-se tão relativista e subjectiva, que nem sequer respeitamos o princípio lógico fundamental da não contradição, ou seja, que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Por outras palavras, certas acções não podem ser, ao mesmo tempo, verdadeiras e falsas para a lei moral.

Na verdade, apenas a caridade deve ser a chave interpretativa dos nossos pensamentos e acções. No contexto da caridade, a tolerância significa amor incondicional pela pessoa que está envolvida no mal, mas firme aversão ao mal em que essa pessoa caiu. Toda a educação deve ser dirigida a formar os alunos na caridade pela qual a mente e o coração respondem ao belo, ao verdadeiro e ao bom, como Deus nos criou para fazer.

A educação, que ocorre primeiro no lar e é enriquecida e complementada pelas escolas e, sobretudo, pelas escolas verdadeiramente católicas, visa, fundamentalmente, a formação de bons cidadãos e bons membros da Igreja. Em última análise, dirige-se à felicidade do indivíduo, a qual se achará em relacionamentos correctos e que tem a sua plenitude na vida eterna. Pressupõe a natureza objectiva das coisas, às quais o coração humano se dirige, se for treinado para ser um “coração que escuta”, «um coração cheio de atendimento»
[16], isto é, para seguir uma consciência correctamente formada. Procura um conhecimento e um amor cada vez mais profundos da verdade, do bem e do belo. Forma o indivíduo para essa procura fundamental ao longo da sua vida.

Que Deus inspire e fortaleça os pais e todos nós no trabalho de formar “corações que escutam” nas nossas crianças e jovens, para a sua salvação e para a transformação da nossa cultura. Sob os cuidados maternos da Virgem Mãe de Deus, procuremos e encontremos no Coração de Jesus a sabedoria e a força para salvaguardar e promover o ensino e a prática constantes da Igreja sobre a vida humana, sobre a sexualidade humana, o casamento e a família e sobre a sagrada religião.

Obrigado pela vossa atenção. Que Deus vos abençoe.

Raymond Leo Cardeal BURKE               

A tradução portuguesa também se encontra disponível na página oficial
de Sua Eminência o Cardeal Raymond Leo Burke.


[1] Ef 2, 13-22.

[2] «Was wird sich der junge Herrscher in diesem Augenblick erbitten? Erfolg – Reichtum – langes Leben – Vernictung der Feinde? Nicht um diese Dinge bittet er. Er bittet: „Verleih deinem Knecht ein hörendes Herz, damit er dein Volk zu regieren und das Gute vom Bösen zu unterscheiden versteht“ (1 Kön 3, 9)» – Benedictus PP. XVI, Allocutio “Iter apostolicum in Germaniam: ad Berolinensem foederatum coetum oratorum”, 22 Septembris 2011, Acta Apostolicae Sedis 103 (2011), p. 663 [doravante, Bundestag]. Tradução portuguesa: L’Osservatore Romano-Edição Semanal em Português, 24 de Setembro 2011, p. 5 [doravante, BundestagPort].

[3] «Politik muss Mühen um Gerechtigkeit sein und so die Grundvoraussetzung für Frieden schaffen.… Dem Recht zu dienen und der Herrschaft des Unrechts zu wehren ist und bleibt die grundlegend Aufgabe des Politikers» – Bundestag, p. 664. Tradução portuguesa: BundestagPort, p. 5.

[4] «...kann die Mehrheit ein genügendes Kriterium sein» – Bundestag, p. 664. Tradução portuguesa: BundestagPort, p. 5.

[5] «...in den Grundfragen des Rechts, in denen es um die Würde des Menschen und der Menschheit geht»– Bundestag, p. 664. Tradução portuguesa: BundestagPort, p. 5.

[6] «...Natur und Vernunft als die wahren Rechtsquellen» Bundestag, p. 665. Tradução portuguesa: BundestagPort, p. 5.

[7] Cf. Roe v. Wade, 410 U.S. 113 (1973); Obergefell v. Hodges, 576 U.S. 644 (2015); e Bostock v. Clayton County, 590 U.S. __(2020).

[8] «…ad plenam maturitatem humanam et christianam…» Ioannes Paulus PP. II, Adhortatio Apostolica Familiaris consortio, “De Familiae Christianae muneribus in mundo huius temporis”, 22 Novembris 1981, Acta Apostolicae Sedis 74 (1982), 823, n. 2 [doravante, FC]. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_19811122_familiaris-consortio.html.

[9] «Quam primum inducantur necesse est generalis conscientiarum motus moralisque communis nisus, qui excitare valeant validum sane opus ad vitam tuendam: omnibus nobis simul coniunctis nova exstuenda est vitae cultura: nova, quae scilicet possit hodiernas de vita hominis ineditas quaestiones suscipere atque solvere; nova, utpote quae acriore et alacriore ratione omnium christianorum conscientiam permoveat; nova demum, quae accommodata sit ad gravem animosamque culturalem suscitandam comparationem cum omnibus. Huius culturalis conversionis necessitas coniungitur cum aetatis nostrae historica rerum condicione, at praesertim inhaeret in ipso evangelizandi munere quod proprium est Ecclesiae. Evangelium enim eo spectat “ut perficiat interiorem mutationem” et “humanitatem novam efficiat”; est velut fermentum quo pasta tota fermentatur (cfr Mt 13, 33), atque, qua tale, perfundere debet omnes culturas easque intus pervadere, ut integram declarent de homine deque eius vita veritatem» Ioannes Paulus PP. II, Litterae encyclicae Evangelium vitae, “De vitae humanae inviolabili bono”, 25 Martii 1995, Acta Apostolicae Sedis 87 (1995), 509, n. 95 [doravante, EV]. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae.html.

[10] «… vitae cultura renovanda intra ipsas christianas communitates» EV, 509, n. 95. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae.html.

[11] «…seiunctionem quandam inferunt inter christianam fidem eiusque moralia circa vitam postulata, progredientes hac ratione ad moralem quendam subiectivismum adque vivendi mores qui probari non possunt» EV, 509-510, n. 95. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae.html.

[12] «Eo proprie ac proxime intendit christiana educatio, ut, divina cum gratia conspirando, germanum atque perfectum christianum efficiat hominem: ut Christum scilicet ipsum exprimat atque effingat in illis qui sint Baptismate renati, ad illud Apostoli vividum: “Filioli mei, quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis”. Vitam enim supernaturalem germanus christianus vivere debet in Christo: “Christus, vita vestra”, eandemque in omnibus rebus gerendis manifestare “ut et vita Iesu manifestetur in carne nostra mortali”.

Quae cum ita sint, summam ipsam humanorum actuum, quod attinet ad efficentiam sensuum et spiritus, ad intellectum et ad mores, ad singulos et ad societatem domesticam atque civilem, christiana educatio totam complectitur, non autem ut vel minime exenuet, verum ut secundum Iesu Christi exempla et doctrinam extollat, regat, perficiat.

Itaque verus christianus, christiana educatione conformatus, alius non est ac supernaturalis homo, qui sentit, iudicat, constanter sibique congruenter operatur, ad rectam rationem, exemplis doctrinaque Iesu Christi supernaturaliter collustratam: scilicet, homo germana animi firmitate insignis. Neque enim quisquis sibi consentit et sui propriique tenax propositi agit, is solido ingenio est, sed unus ille qui aeternas iustitiae rationes sequitur, ut agnovit ethnicus ipse poëta, “iustum” una simul “et tenacem propositi virum” extollens; quae, ceterum, iustitiae rationes integre servari nequeunt, nisi Deo tribuatur – ut fit a vero christiano – quidquid Deo debetur» Pius PP. XI, Litterae Encyclicae Divini Illius Magistri, “De Christiana iuventutis educatione,” 31 Decembris 1929, Acta Apostolicae Sedis 22 (1930), 83. Tradução portuguesa: https://www.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_31121929_divini-illius-magistri.html.

[13] «…christiana enim familia est prima communitas, cuius est Evangelium personae humanae crescent annuntiare eamque progrediente educatione et catechesi ad plenam maturitatem humanam et christianam perducere» FC, 823, n. 2. Tradução portuguesa: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_19811122_familiaris-consortio.html.

[14] Jo 4, 24.

[15] «Parentes, cum vitam filiis contulerint, prolem educandi gravissima obligatione tenentur et ideo primi et praecipui eorum educatores agnoscendi sunt. Quod munus educationis tanti ponderis est ut, ubi desit, aegre suppleri possit. Parentum enim est talem familiae ambitum amore, pietate erga Deum et homines animatum creare qui integrae filiorum educationi personali et sociali faveat. Familia proinde est prima schola virtutum socialium quibus indigent omnes societates. Maxime vero in christiana familia, matrimonii sacramenti gratia et officio ditata, filii iam a prima aetate secundum fidem in baptismo receptam Deum percipere et colere atque proximum diligere doceantur oportet...» Sacrosanctum Concilium Oecumenicum Vaticanum II, Declaratio Gravissimum educationis, “De Educatione Christiana”, 28 Octobris 1965, Acta Apostolicae Sedis 58 (1966), 731, n. 3. Tradução portuguesa:  Concílio Ecuménico Vaticano II,  Documentos conciliares. Constituições– Decretos – Declarações, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1998, p. 203, e também: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_gravissimum-educationis_po.html

[16] 1 Rs 3, 9.