quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Sem o óbolo, a Secretaria de Estado perde o seu poder

O Cardeal Sergio Sebastiani, na época da sua presidência da Prefeitura dos Assuntos Económicos, costumava dizer que “o dinheiro dos pobres é a riqueza e a liberdade da Sé de Pedro”. Referia-se ao Óbolo de São Pedro, as doações feitas ao Papa, por fiéis de todo o mundo, para as obras de caridade e o sustento da Sé Apostólica, e administradas, até hoje, pela chamada secção administrativa da Secretaria de Estado.          

O novo motu proprio de Francisco, em matéria de finanças vaticanas, transfere a gestão das doações oblativas para a Administração do Património da Sé Apostólica (APSA) e redimensiona drasticamente a função que, até hoje, ocupava, relegando-a à função única de preparar o próprio orçamento e o balanço. Por outro lado, a secção outrora chefiada por Monsenhor Perlasca foi o foco do incêndio londrino que acabou por queimar a carreira de personagens influentes como Enrico Crasso, Fabrizio Tirabassi e a chance de participar no Conclave o número dois da Secretaria de Estado, o Cardeal Giovanni Angelo Becciu.     

A investigação judicial sobre os factos parece longe de estar concluída e, neste ano e meio, não faltaram alguns deslizes, mas o dano criado à credibilidade da Igreja, pelo enorme clamor mediático sobre o suposto uso do Óbolo em operações definidas “opacas” pelo próprio Secretário de Estado, deve ter convencido o pontífice a dar um forte sinal de descontinuidade com o passado recente.  

A tendência das doações feitas pelos católicos de todo o mundo a 29 de Junho – mas não só – tem oscilado nos últimos anos, mas mostrou, tudo somado, uma boa marca diante da presença de não poucos escândalos financeiros que se seguiram desde o Vatileaks, encontrando grande – por vezes excessivo – espaço em jornais, livros e TV. Na verdade, atingir o Óbolo de São Pedro por motivos diversos da caridade a favor dos necessitados não representa, ao contrário do que tem sido sugerido, nos últimos meses, por numerosas reconstruções jornalísticas com consequências negativas para a imagem da Igreja, uma traição à missão originária da colecta universal dos fiéis da Igreja, pois entre os seus objectivos está também o de ajudar no sustento das actividades da Santa Sé e do sector imobiliário, como disse o Papa, no Japão, é um investimento «de viúvas» que pode contribuir para tal fim.    

Isto além de quaisquer erros cometidos no caso específico. De qualquer forma, a conjuntura entre a crise económica decorrente da pandemia e a percepção de um uso indevido do dinheiro enviado a Roma para ajudar as obras eclesiais poderia ter consequências fortemente negativas sobre os números da antiga prática, oficialmente introduzida por Pio IX e que representa uma garantia de liberdade e autonomia para a Igreja. Daí a necessidade de tomar decisões radicais capazes de travar a perda de confiança dos fiéis, ao mesmo tempo em que aproveita o ensejo para prosseguir com aquela centralização e racionalização das finanças vaticanas de que se fala desde 2013, mas que tem encontrado muitos problemas nestes anos.

O motu proprio rebaptizado “Uma melhor organização” marca uma reversão das hierarquias consolidadas já amplamente anunciadas por uma entrevista, em Outubro, do número um da Secretaria para a Economia, o jesuíta Guerrero Alves, e pela carta do Papa, ao Cardeal Parolin (de Agosto, mas publicado em Novembro), que ordenava a passagem da gestão administrativa dos fundos da Secretaria de Estado para a APSA. 

Formalmente, a Secretaria de Estado permanece o «dicastério que mais próxima e directamente apoia a acção» do Santo Padre, mas, de facto, acaba por ser equiparada aos outros dicastérios, devendo encaixar a perda daquela autonomia económica para a qual parece ter sido fatal a presumível gestão desenvolta do negócio londrino. Na Terceira Arcada do Palácio Apostólico permanece a possibilidade de «uma despesa para actividades ou emergências imprevistas», mas também neste caso com a obrigação de «regular notificação».         

A peremptoriedade do motu proprio no ditar os prazos (o mais tardar até 4 de Fevereiro de 2021) para proceder à passagem da «titularidade dos fundos e das contas bancárias, dos investimentos mobiliários e imobiliários, incluindo as participações em sociedades e fundos de investimento» à APSA e o pedido de atribuir uma «procuração geral para agir em nome e por conta da Secretaria» nos casos em que não seja possível ou conveniente fazê-lo, dá a ideia de um Papa que, como teve a oportunidade de dizer a Becciu durante o dramático encontro que levou à destituição do purpurado sardo, sente não ter mais confiança na gestão económica do dicastério da Cúria que mais colabora no governo da Igreja. «Não é oportuno que desempenhe aquelas funções em matéria económica e financeira já atribuídas, por competência, a outros dicastérios», escreve o Papa no documento, colocando, preto no branco, a sua vontade de actuar sem mais gradação e excepções aquela «simplificação e racionalização dos organismos existentes» invocada, no início do pontificado, pela reunião do Conselho de Cardeais para o estudo dos problemas organizacionais e económicos da Santa Sé.     

Não admira que tenha sido escolhida a APSA como sustentáculo deste sistema centralizado em matéria de finanças: a Administração do Património da Sé Apostólica ocupa-se, desde sempre, da realização de investimentos em bens imóveis e móveis, não só para si, mas também para as demais entidades da Cúria, portanto, a atribuição das prerrogativas subtraídas à Secretaria de Estado parece ser o resultado natural e ainda mais sensato. Neste momento, saído da decepção para com os homens da Terceira Arcada em quem confiava, mas não sentia estritamente seus, o Papa parece ter preferido confiar uma das reformas mais esperadas do seu pontificado nas mãos do chamado Banco Central do Vaticano, que apresenta características, aos seus olhos, tranquilizadoras: a fidelidade pessoal de Mons. Nunzio Galantino, que a preside, e a credibilidade internacional de Fabio Gasperini, primeiro gestor leigo a ser nomeado secretário.

Mas os poderes da APSA não serão ilimitados e estarão sujeitos ao controlo da Secretaria para a Economia a que o motu proprio “Uma melhor organização” atribui a função de Secretaria Papal para os assuntos económicos e financeiros. A secretaria à frente da qual Francisco quis o P. Guerrero Alves, jesuíta como ele, aconselhado pelo Prepósito-Geral da Companhia de Jesus e a quem foi pedido que renunciasse à ordenação episcopal. No limiar do nono ano de pontificado, após o annus horribilis marcado pelo escândalo londrino, Francisco sabe que está muito apostado na questão das finanças e, para não arriscar mais erros ou desacelerações, parece ter decidido apostar exclusivamente em “outsiders” competentes e em “insiders” mais confiáveis. Entre estes últimos, porém, não estão os dirigentes da Secretaria de Estado que, pela primeira vez na história, mais do que o centro nevrálgico da Cúria, assume as características de um dicastério primus inter pares.       

Nico Spuntoni   

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

O que pensar das vacinas contra o COVID?

Uma questão debatida está sobre a mesa. A das vacinas contra o COVID que usam linhas celulares provenientes de fetos abortados. É lícito utilizá-las? 

Deve ser dito imediatamente que o que é útil nem sempre é moralmente lícito. Um princípio inquebrável da moral católica e natural diz que o fim não justifica os meios. Por exemplo, o uso da pílula contraceptiva pode ser útil para evitar uma gravidez indesejada, mas é moralmente ilícito. A fecundação artificial pode ser útil para satisfazer o desejo de maternidade de um casal, mas é ilícita e condenada pela Igreja. As boas intenções não justificam a utilização de meios ilícitos.       

Não é dito, porém, que o que é moralmente lícito seja sempre verdadeiramente útil.     

É aqui que se insere, na minha opinião, o caso das novas vacinas, lançadas, com grande alarde, pela União Europeia como a grande panaceia contra a pandemia.     

A Congregação para a Doutrina da Fé, com um documento de 21 de Dezembro, reafirmou o que a mesma Congregação já havia estabelecido, em 2008, e a Pontifícia Academia para a Vida havia afirmado, em 2005, num outro amplo documento. O uso das vacinas que usam células fetais é lícito se houver um motivo proporcionalmente grave para fazê-lo (e a existência da pandemia é-o certamente); se não houver alternativa (ou seja, se não houver vacinas eticamente irrepreensíveis) e, em qualquer caso, reiterando sempre que a experimentação sob fetos abortados é, em si mesma, ilícita.        

Esta é a doutrina da Igreja. Portanto, vacinar-se contra o COVID, se não houver outras alternativas, não é moralmente ilícito.         

Mas esta vacinação é realmente útil e não poderia, por outro lado, ser prejudicial? Este é um outro assunto. A verdade é que estamos perante vacinas que ainda não foram suficientemente testadas, cuja capacidade de lidar eficazmente com as múltiplas variantes do COVID não é ainda conhecida. Quais serão, então, as consequências destas vacinas no organismo humano, por exemplo, no que diz respeito à fertilidade? A estas questões não é a moral, mas a ciência que deve responder. E para dar uma resposta segura levará meses ou, talvez, anos. Podemos, desse modo, compreender a prudência de quem, embora o considere lícito, não considera útil ser vacinado. E eu estou entre eles.   

Não nos dividamos, contudo, sobre um problema tão delicado e enfrentemos o próximo 2021 com espírito calmo e confiante. Deus vence sempre na história.         

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Mons. Viganò: «Onde não reina a Graça, difunde-se o pecado e o vício»

Ainda na oitava do Santo Natal, recebemos, de Mons. Carlo Maria Viganò, uma entrevista que o antigo Núncio Apostólico em Washington concedeu, há alguns dias, ao LifeSiteNews. É, pois, com muito gosto que o portal Dies Iræ traduziu e disponibiliza a versão lusa de tão edificante entrevista de Mons. Viganò. Aproveitamos a ocasião para pedir aos nossos leitores que ofereçam orações e sacrifícios para que, o quanto antes, torne a brilhar o esplendor da Fé Católica!

Omnes dii gentium dæmonia
Ps. 95, 5


Excelência, num recente artigo fiz notar que o Altar Papal da Basílica Vaticana não é utilizado desde que foi profanado pela oferta apresentada ao ídolo da pachamama. Naquela ocasião, na presença de Bergoglio e da sua corte, foi cometido um gravíssimo sacrilégio. Qual é a sua opinião a propósito?           


A profanação da Basílica Vaticana, durante a cerimónia conclusiva do Sínodo da Amazónia, contaminou o Altar da Confissão, já que, sob a sua mesa, foi colocado um vaso dedicado ao culto infernal da pachamama. Considero que esta e outras profanações semelhantes de igrejas e altares repropõem, de alguma forma, outros gestos análogos que ocorreram no passado e nos permitem compreender a sua verdadeira natureza.     

A que se refere?           

Refiro-me a todas as vezes em que Satanás se lançou contra a Igreja de Cristo, das perseguições dos primeiros Cristãos à guerra de Cosroes contra Bizâncio, da fúria iconoclasta dos Maometanos ao Saque de Roma, pela mão dos Lansquenetes, e, depois, a Revolução Francesa, o anticlericalismo do século XIX, o Comunismo ateu, os Cristeros no México e a Guerra Civil na Espanha, até aos crimes hediondos dos partidários comunistas durante e após a Segunda Guerra Mundial e às formas de cristianofobia que vemos, hoje, em todo o mundo. Cada vez, invariavelmente, a Revolução – em todas as suas muitas variações – confirma a sua própria essência luciferiana, deixando emergir a inimizade bíblica entre a estirpe da Serpente e a estirpe da Mulher, entre os filhos de Satanás e os filhos da Santíssima Virgem. Essa ferocidade contra Nossa Senhora e os seus filhos não se explica de outra forma. Estou a pensar, em particular, na entronização da “deusa razão” que aconteceu, a 10 de Novembro de 1793, na Catedral de Notre Dame, em Paris, no auge do Terror. Também naquela circunstância o ódio infernal dos revolucionários queria substituir o culto à Mãe de Deus pelo culto a uma prostituta, erigida como símbolo da religião maçónica, carregada aos ombros, sobre uma liteira, e colocada no presbitério. As analogias com a pachamama são muitas e revelam a mente infernal que as inspira.

Não esqueçamos que, a 10 de Agosto de 1793, poucos meses antes da profanação de Notre Dame, foi erguida, na Praça da Bastilha, a estátua da “deusa razão”, disfarçada da deusa egípcia Ísis: é significativo encontrar esta referência aos cultos do antigo Egipto até mesmo no horrível presépio que, hoje, sobressai na Praça de São Pedro. Obviamente, as semelhanças que encontramos nestes acontecimentos também são acompanhadas por um elemento absolutamente novo.       

Quer explicar-nos em que consiste esse novo elemento?      

Refiro-me ao facto de que enquanto até ao Concílio – ou, para ser indulgente, até este “pontificado” – as profanações e os sacrilégios eram cometidos por inimigos externos à Igreja, desde então os escândalos têm visto activamente envolvidos os próprios membros da Hierarquia, no silêncio culpado do Episcopado e no escândalo dos fiéis. A igreja bergogliana está a dar de si uma imagem cada vez mais desconcertante, em que a negação das verdades católicas é acompanhada pela afirmação explícita de uma ideologia intrinsecamente anticatólica e anticristã; e em que já não se esconde o culto idólatra de falsas divindades pagãs – ou seja, de demónios –, que são propiciadas com actos sacrílegos e profanações das coisas sagradas. Colocar aquele vaso imundo no Altar da Confissão é um gesto litúrgico com um valor preciso e uma finalidade não apenas simbólica. A presença de um ídolo da “mãe terra” é uma ofensa directa a Deus e à Santíssima Virgem, um sinal tangível que explica, de alguma forma, as muitas manifestações irreverentes de Bergoglio em relação a Nossa Senhora. 

Portanto, não é surpreendente que quem que quer demolir a Igreja de Cristo e o Papado Romano o faça do mais alto Sólio, segundo a profecia de Nossa Senhora em La Salette: «Roma perderá a fé e tornar-se-á sede do Anticristo». Parece-me que, hoje, já não se possa falar de uma simples “perda de Fé”, mas se deva tomar nota do próximo passo, que se expressa numa apostasia real, assim como a inicial subversão do culto católico com a reforma litúrgica esteja a evoluir para uma forma de culto pagão que passa pela sistemática profanação do Santíssimo Sacramento – especialmente com a imposição da Comunhão na mão, a pretexto do COVID – e por uma aversão cada vez mais evidente à antiga liturgia.     

No fundo, muitas formas de inicial “prudência” no dissimular as verdadeiras intenções dos Inovadores estão a falhar, revelando a verdadeira natureza da obra dos inimigos de Deus. O pretexto da oração comum pela paz que, em Assis, legitimou o abate de galinhas e outras abominações escandalosas já não servem hoje, e teoriza-se que a fraternidade entre os homens pode prescindir de Deus e da missão salvífica da Igreja.       

Qual é a sua avaliação dos acontecimentos a partir de Outubro passado de 2019, em particular o abandono do título de Vigário de Cristo por Bergoglio, o facto de ele não ter mais celebrado no Altar Papal e a suspensão da celebração pública da Missa em Santa Marta?       

O princípio filosófico segundo o qual «Agere sequitur esse» ensina-nos que cada um se comporta segundo o que é. Quem se recusa a ser chamado Vigário de Cristo, evidentemente tem a percepção de que este título não lhe convém ou, ainda, olha com desprezo a possibilidade de ser Vigário d’Aquele que, com as palavras e os factos, demonstra não querer reconhecer e adorar como Deus. Ou, mais simplesmente, não considera que o seu papel no topo da Igreja deva coincidir com o conceito católico do Papado, mas com uma sua versão actualizada e “desmitificada”. Ao mesmo tempo, não se considerando Vigário de Cristo, Bergoglio também pode eximir-se de se comportar como tal, adulterando, com desenvoltura, o Magistério e escandalizando todo o povo cristão. Celebrar in pontificalibus no altar erguido sobre o túmulo do Apóstolo Pedro faria desaparecer o argentino, ofuscaria as suas excentricidades, aquela expressão perpetuamente revoltada que não hesita em dissimular sempre que celebra as funções papais: é muito melhor ter a primazia no adro deserto de São Pedro, em pleno bloqueio, reservando para si a atenção dos fiéis, que de outra forma estaria voltada para Deus.           

Reconhece, portanto, o valor “simbólico” dos actos do Papa Francisco?                               

Os símbolos têm um valor preciso: foi simbólica a escolha do nome, a decisão de morar na Domus Santa Marta, o abandono das insígnias e das vestes próprias do Romano Pontífice, como a mozeta vermelha, o roquete e a estola, o brasão papal na faixa. É simbólica a ênfase obsessiva em tudo o que é profano e é também simbólica a intolerância em relação a tudo o que, simbolicamente, relembra conteúdos especificamente católicos. Talvez simbólico seja o gesto com que, na epiclese da Consagração da Missa, Bergoglio cobre sempre completamente o cálice, tapa-o com a mão, como que a querer impedir a efusão do Espírito Santo.        

Assim como no acto de se ajoelhar diante do Santíssimo Sacramento se testemunha a fé na Presença Real e se cumpre um acto latrêutico para com Deus, no não se ajoelhar diante do Santíssimo, Bergoglio proclama, de forma pública, que não se quer humilhar diante de Deus, enquanto não tem problema em colocar-se de gatas diante de imigrantes ou de funcionários de uma república africana. E ao prostrarem-se diante da pachamama, alguns frades, freiras, clérigos e leigos realizaram um acto de verdadeira idolatria, honrando, indevidamente, um ídolo e prestando culto a um demónio. Os símbolos, os sinais, os gestos rituais são, por conseguinte, o instrumento pelo qual a igreja bergogliana se manifesta pelo que é.        

Todos estes “ritos” da nova igreja, estas “cerimónias” mais ou menos aludidas, estes elementos tomados em empréstimo de liturgias profanas não são casuais. Constituem uma das passagens da Janela de Overton para a aceitação do que, na realidade, Bergoglio já havia teorizado nas suas intervenções e nos actos do seu “magistério”. Por outro lado, o feiticeiro que faz o sinal de Xiva na testa de João Paulo II e o Buda adorado no tabernáculo de uma igreja em Assis compreendem-se na perfeita coerência com os horrores de hoje, exactamente como, na esfera social, antes de se considerar aceitável o aborto ao nono mês teve de se legitimá-lo em casos mais limitados e antes de se legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo preferiu-se prudentemente deixar crer que a protecção da sodomia não colocaria em causa a instituição do matrimónio natural.     

Vossa Excelência considera, então, que estes acontecimentos terão um ulterior desenvolvimento?      

Se o Senhor, Sumo e Eterno Sacerdote, não se dignar pôr fim a esta acção de perversão geral da Hierarquia, a Igreja Católica será cada vez mais obscurecida pela seita que a ela se sobrepõe abusivamente. Nós confiamos nas promessas de Cristo e na especial assistência do Espírito Santo, mas não devemos esquecer que a apostasia dos líderes da Igreja faz parte dos acontecimentos escatológicos e não pode ser evitada.     

Creio que as premissas levantadas até agora – e que, em grande parte, remontam ao Vaticano II – conduzem, inexoravelmente, de forma cada vez mais explícita a uma “profissão de apostasia” dos líderes da igreja bergogliana. O Inimigo exige fidelidade dos seus servos e se, a princípio, parece contentar-se com um ídolo de madeira adorado nos Jardins Vaticanos ou com uma oferta de terra e plantas colocadas no Altar de São Pedro, brevemente pretenderá um culto público e oficial que substitua o Sacrifício perpétuo. Concretizar-se-ia o que Daniel profetizou sobre a abominação da desolação que está no lugar santo. Faço notar a expressão precisa da Sagrada Escritura: «Cum videritis abominationem desolationis stantem in loco sancto»; está claramente escrito que esta abominação estará, ou seja, encontrar-se-á numa posição de descarada e arrogante auto-imposição no lugar que lhe é mais alheio e estranho. Será uma vergonha, um escândalo, uma coisa sem precedentes diante da qual faltam as palavras de condenação.

O que nos espera se as coisas continuarem nesta direcção?           

O que estamos a assistir representa, na minha opinião, o ensaio geral para o estabelecimento do reino do Anticristo, que será precedido pela pregação do Falso Profeta, o Precursor daquele que levará a cabo a perseguição final contra a Igreja antes da vitória definitiva e esmagadora da parte de Nosso Senhor.        

O “vazio simbólico” do Altar Papal não é apenas um aviso para aqueles que fingem não ver os escândalos deste “papado”. Essa é, de certa forma, a maneira com que Bergoglio deseja habituar-nos a notar uma mudança substancial do Papado e da própria Igreja; a ver nele não o último de uma longa série de Romanos Pontífices a quem Cristo ordenou que apascentassem as Suas ovelhas e os Seus cordeiros, mas o primeiro chefe de uma multinacional filantrópica que usurpa o nome “Igreja Católica” apenas porque lhe permite gozar de um prestígio e de uma autoridade dificilmente igualáveis, mesmo em tempos de crise religiosa geral.       

O paradoxo é, assim, evidente: Bergoglio sabe que pode destruir eficazmente a Igreja e o Papado apenas se for reconhecido como Papa; mas, ao mesmo tempo, não pode exercer o Papado no sentido estrito do termo porque, ao fazê-lo, deve necessariamente falar, comportar-se e aparecer como o Vigário de Cristo e o Sucessor do Príncipe dos Apóstolos. É o mesmo paradoxo que vemos na esfera civil ou política, onde quem é constituído em autoridade para governar a coisa pública e promover o bonum commune é, ao mesmo tempo, emissário da elite e tem a tarefa de demolir a Nação e violar os direitos dos cidadãos. Por trás do deep state e da deep church há sempre o mesmo inspirador: Satanás.   

O que podem fazer os leigos e o clero para evitar esta corrida para o abismo?       

A Igreja não pertence ao Papa, muito menos a um conventículo de hereges e fornicadores que, por meio do engano e da fraude, conseguiram chegar ao poder. Devemos, deste modo, unir a nossa fé sobrenatural na acção constante de Deus no meio do Seu povo com uma obra de resistência, como aconselham os Padres da Igreja: o Católico tem o dever de se opor às infidelidades dos seus Pastores porque a obediência que lhes deve visa a glória de Deus e a salvação das almas. Denunciemos, pois, tudo o que representa uma traição à missão dos Pastores, implorando ao Senhor que abrevie estes tempos de provação. E se um dia ouvirmos Bergoglio dizer-nos que para permanecer em comunhão com ele devemos realizar um acto que ofende a Deus, teremos mais uma confirmação de que ele é um impostor e que, como tal, não tem autoridade alguma.    

Rezemos, pois. Rezemos muito e com fervor, lembrando-nos das palavras do Salvador e da Sua vitória final. Seremos julgados não pelos escândalos de Bergoglio e dos seus cúmplices, mas pela nossa fidelidade ao ensinamento de Cristo: uma fidelidade que inicia da vida na graça de Deus, da frequência aos Sacramentos, dos sacrifícios e das penitências que oferecemos pela salvação dos Ministros de Deus. 

Qual é o seu desejo para o próximo Natal? 

O meu desejo é que estes tempos de provação nos permitam ver que onde não reina Cristo Rei, instaura-se, inevitavelmente, a tirania de Satanás; onde não reina a Graça, difunde-se o pecado e o vício; onde não se ama a Verdade, acaba-se por abraçar o erro e a heresia. Se muitas almas tíbias até agora não foram capazes de se voltar para Deus, reconhecendo que somente n’Ele podem encontrar a plena e perfeita realização da sua existência, talvez agora possam entender que sem Deus a nossa vida torna-se um inferno.        

Assim como os pastores se prostraram em adoração aos pés do Menino Rei, deitado na manjedoura, mas significativamente coberto com as faixas que, antigamente, eram prerrogativa dos soberanos, também nós nos devemos reunir em oração ao redor do altar – mesmo num sótão ou num porão para escapar à perseguição ou às proibições de ajuntamentos – porque mesmo na pobreza de uma capela clandestina ou de uma igreja abandonada, o Senhor desce sobre o altar para se imolar misticamente pela nossa salvação.        

E rezemos para que possamos ver o dia em que um Papa voltará a celebrar, no Altar da Confissão, o Santo Sacrifício no rito que Nosso Senhor ensinou aos Apóstolos e que eles transmitiram intacto ao longo dos séculos. Será também esse um símbolo da restauração do Papado e da Igreja de Cristo.   

domingo, 27 de dezembro de 2020

Os pastores adoram o Menino, única fonte de luz

«Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 10-12).         

Rubens deve muito a Itália: chega-nos de Antuérpia, jovem pintor com pouco mais de vinte anos, para completar a sua formação, como era prática comum naquele tempo. Corria o ano 1600: permanecerá no nosso belo País por oito anos, ocupando o cargo de artista oficial na corte mantuana do duque Vicente I Gonzaga, por conta do qual realizará várias missões que lhe permitirão circular e estudar as obras antigas e as de colegas, mais ou menos, seus contemporâneos. A dívida do flamengo é evidente numa das telas realizadas durante a sua estadia em Itália, a última concluída antes do regresso à pátria: uma Adoração dos Pastores de extraordinária beleza, também consideradas as suas notáveis dimensões.         

A encomenda do retábulo, destinado a uma capela da Igreja de São Filipe de Néri, em Fermo, derivou da estima que por ele nutria o Superior-Geral da ordem dos Filipinos, originário daquela cidade das Marcas, para o qual já estava a trabalhar em Roma: a colocação um pouco periférica e um péssimo estado de conservação confundiram, dentro de pouco tempo, os estudiosos sobre a real atribuição da obra até que um genial Roberto Longhi, em 1927, literalmente atingido pela visão, restituiu a Rubens a legítima paternidade.          

Impossível não se envolver emocionalmente com o que está a acontecer. Os anjos em voo que proclamam o feliz anúncio também nos convocam, assim como a um representativo número de personagens que se organizam, em semicírculo, à volta do fulcro da cena, do seu coração palpitante: o Menino resplandecente e a Virgem Maria que, com um gesto de natural solicitude maternal, revela docemente ao mundo o seu Salvador.      

Cada um reage à sua maneira ao cumprimento de um Acontecimento que, até pouco antes, era impensável, indizível: o corpulento pastor, em primeiro plano, vestido de vermelho, volta-se para o homem ao seu lado apontando-lhe, repleto de surpresa, o pequeno adormecido. Uma senhora idosa levanta as mãos em sinal de admirada veneração, o olhar fixo no belíssimo rosto da puérpera como se procurasse n’Ela a confirmação do prodígio que acabara de acontecer; uma jovem, com uma cesta nas mãos, assiste à cena, sorrindo feliz para o recém-nascido. Toda a humanidade está aqui representada, acompanhada por São José que, nas costas de Maria, se volta para a glória angelical com os braços cruzados a indicar a sua gratidão pelo cumprimento do desígnio de Deus.   

O sinal, de que fala Lucas no seu Evangelho – o Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura – é a única fonte de luz, tecnicamente caravaggesca, e deslumbrante, pois repousa gradualmente sobre cada rosto e rasga, ao mesmo tempo, com a sua claridade, a escuridão da noite em que estão envolvidos a cabana e a paisagem.  

Antecipando o que Jesus dirá de Si: «Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em mim não fique nas trevas».     

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

sábado, 26 de dezembro de 2020

A coroação de Carlos Magno: Natal da Cristandade

Na solenidade do Natal de 800, com a coroação de Carlos Magno, em Roma, nasceu o Sacro Império Romano, ao qual estava reservada a missão de propagar o reino de Cristo nas regiões bárbaras do Norte e de manter a unidade europeia sob a direcção do Romano Pontífice. Corria o ano 800. Era o dia de Natal. Em Roma, na Basílica de São Pedro, entrou um homem majestoso, de quase sessenta anos, cuja estatura, quase de gigante, exprimia a força indomável do guerreiro, enquanto os seus cabelos brancos e a barba revelavam uma doçura extraordinária. Não era um homem comum, via-se imediatamente. Esse homem era Carlos Magno, rei dos Francos, o povo de Clóvis, chamado a Roma, pelo Papa, para que colocasse a sua espada, contra os Lombardos, ao serviço da Cruz.    

O rei dos Francos, no ano 800 depois de Cristo, já subjugou os aquitanos e os lombardos; atravessou os Pirenéus para domar, em Espanha, o poder ameaçador dos árabes; reprimiu a revolta dos saxões e dos bávaros; e está em plena batalha com os ávaros. Ele não é apenas um guerreiro. Sob a sua influência, as artes e as ciências florescem em toda a Europa. Muito amado pelos seus súbditos, venerado pelos seus guerreiros, estende a influência benéfica da Religião Católica às terras que conquista.   

E, agora, Carlos Magno, herdeiro de Clóvis, entra na Basílica de São Pedro, numa noite de Natal, fria devido aos rigores do Inverno, mas quente pela atmosfera de entusiasmo que reina na Basílica. O rei dos Francos ajoelha-se, abaixa a cabeça, adorando Deus feito homem e implorando misericórdia pelos seus pecados. Bate no peito e recorre à intercessão da Virgem Maria, sem se aperceber que alguém se aproxima dele em silêncio respeitoso. Não é um simples sacerdote ou bispo, é um Papa, um Papa santo. As crónicas contam que, «quando o rei se levantava da oração, durante a Missa, diante do altar da confissão de São Pedro Apóstolo, o Papa Leão III aproximou-se dele e colocou-lhe, sobre a testa descoberta, uma coroa. Uma coroa nova, não de Rei, mas de Imperador».       

O Papa, São Leão III, colocava a coroa imperial na cabeça de Carlos Magno; e a terra atónita tornava a ver um César, um Augusto, já não sucessor dos Césares e dos Augustos da Roma pagã, mas investido com aqueles títulos gloriosos pelo Vigário d’Aquele que é definido, nas Escrituras, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores. O povo romano aclamou-o com estas palavras: “a Carlos Augusto, coroado, por Deus, grande e pacífico imperador dos Romanos, vida e vitória”, enquanto os Francos, batendo com as lanças nas espadas, gritavam “Natal, Natal”, um grito que, desde o tempo de Clóvis, recordava a entrada de seu povo na história.   

Dois dias antes da coroação, um monge de São Saba e um monge do Monte das Oliveiras, em Jerusalém, tinham oferecido ao rei dos Francos, da parte do Patriarca, «as chaves do Santo Sepulcro e do Calvário e as da cidade e do Monte Sião com uma bandeira». Era uma homenagem simbólica, uma nova auréola de santidade circundava a testa do rei que havia espalhado a sua protecção além dos mares, que deveria proteger os cristãos da Palestina, da Síria, do Egipto, da Tunísia.     

Naquele Natal, na Catedral do Vigário de Cristo, nasceu o Império Católico do Ocidente, pilar da Civilização Cristã medieval – como 800 anos antes, no mesmo dia, nascera, numa manjedoura, o Menino Jesus.  

Fundando a Igreja Católica, Apostólica, Romana, Jesus Cristo colocara nela, em semente, todas as potencialidades para gerar uma grande civilização. Com a expansão da Igreja, com a conversão dos povos ao longo de oito séculos, a semente desenvolveu-se, tornou-se uma possibilidade concreta, floresceu, finalmente, no ano 800, no império de Carlos Magno, abençoado e ratificado pelas mãos de um santo sucessor de Pedro. Começou numa época em que, como ensina Leão XIII na encíclica Immortale Dei, «o sacerdócio e o império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela troca amistosa de serviços» e, «organizada de tal modo, a sociedade civil deu frutos superiores a todas as expectativas».

Um outro Papa, João Paulo II, no 1200.º aniversário da coroação de Carlos Magno, recordou que «a grande figura histórica do imperador Carlos Magno evoca as raízes cristãs da Europa, trazendo, a quem a estuda, a uma época que, não obstante os limites humanos sempre presentes, foi caracterizada por um impressionante florescimento cultural em quase todos os campos da experiência. À procura da sua identidade, a Europa não pode prescindir de um enérgico esforço de recuperação do património cultural deixado por Carlos Magno e conservado ao longo de mais de um milénio».     

Carlos Magno foi grande não só pelas suas guerras vitoriosas de um extremo ao outro da Europa, mas, sobretudo, pela sua obra de restauração jurídica, cultural e artística inspirada nos princípios do Evangelho. Numa época de decadência e de desordem, ele pode ser considerado o fundador da Europa cristã. Com o primeiro imperador cristão, o Ocidente adquire, pela primeira vez, consciência de si e apresenta-se na cena da história consciente da sua unidade cristã e romana.   

A coroação de Carlos Magno é, além disso, um acto público e simbólico de importância universal, destinado a expressar, por mais de um milénio, o conceito da soberania cristã. A fonte da autoridade é o representante de Deus na terra, porque – na terra – não existe autoridade que não venha de Deus. Neste sentido, a coroação de Carlos Magno pode ser considerada como o Natal da Cristandade. 

Aquela que, um dia, foi a Cristandade, hoje agoniza, sob os ataques dos inimigos externos e internos, e nós esperamos, com ansiedade, um novo dia de Natal, um dia de nascimento e de ressurreição para as nossas almas e para toda a sociedade: o dia bendito, anunciado em Fátima, do triunfo da Igreja e da restauração da Civilização Cristã.   

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O Natal com Santo Afonso de Ligório

Os “sucessos” da Igreja contemporânea e da Itália secularizada estão à vista de todo o Mundo: ninguém entrará no Seminário da Diocese de Florença em 2021, como declarou o Arcebispo Giuseppe Betori à TGR Toscana, enquanto o Istat regista um recorde negativo para a natalidade em Itália: em 2019, nasceram 420.084 novos bebés, quase 20.000 a menos em relação ao ano anterior e mais de 156.000 a menos em comparação com 2008. Bastaria tornar à Fé de sempre para recuperar vocações e seria suficiente parar os abortos e favorecer a cultura do matrimónio para aumentar o índice demográfico. Mas, aparentemente, o orgulho é mais forte do que o bom senso...     

A leitura que oferece o Cardeal Betori sobre a ausência de vocações na sua diocese, como em tantas outras dioceses, é de carácter geral. Trata-se de uma «situação verdadeiramente trágica, mas dou uma minha interpretação: não é menos trágica que a dos matrimónios e, em geral, dos projectos de vida. O problema da crise vocacional ao sacerdócio está dentro de uma crise vocacional da pessoa humana (…) uma vida que quer muitas experiências não pode ser uma vida que se consagra a uma finalidade, a um propósito. É válido para o matrimónio, para o sacerdócio, para todas as escolhas das pessoas».       

Diante de toda esta tragédia, onde há pastores capazes de fazer salutares mea culpa? Além disso, onde há santos pastores? Sem santidade, a Igreja não pode ser restaurada. A autocrítica levaria a rever todos os “passos à frente” da Igreja que foram implementados, fazendo, assim, um são reexame para chegar a terras seguras através, finalmente, de um retorno da condenação dos pecados e dos erros para restabelecer a ordem e a verdadeira paz de Cristo, em detrimento da religião protestantizada de Roma.      

No entanto, os sinais celestes não faltam, incluindo este anómalo Santo Natal de 2020, onde a Santa Missa da meia-noite será negada. «Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» (Lc 18, 8). Se viesse agora, encontraria muitos rumores, escolhas perversas, heresias abundantes, géneros de pecados. Por que não voltar à tradição que não trai nem Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nem as almas?   

Chegamos ao Santo Natal, por isso aproveitemos este precioso momento para parar e ouvir o que nos tem a dizer Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787) a respeito. As suas palavras não conhecem cansaço e velhice e são muito apropriadas também para o COVID-19 e as suas “variantes”: «Considera como, tendo Deus criado o primeiro homem, para que o servisse e amasse nesta vida, para, então, conduzi-lo à vida eterna e reinar no paraíso, para tal fim o enriqueceu com luzes e graças. Mas o homem ingrato rebelou-se contra Deus negando a obediência que lhe devia por justiça e por gratidão; e, assim, ficou o mísero com toda a sua descendência, qual rebelde, privado da graça divina e para sempre excluído do paraíso. (…) Todos viviam cegos entre as trevas na sombra da morte. Sobre eles dominava o demónio e o inferno continuamente os tornava uma carnificina inumerável. Mas Deus, olhando para os homens reduzidos a tal estado miserável, movido por piedade, resolve salvá-los. E como? Já não envia um Anjo, um Serafim, mas, para manifestar ao mundo o imenso amor que nutria por esses vermes ingratos (Rm 8, 3), enviou o seu próprio Filho para se fazer homem e se revestir da carne dos homens pecadores, para que Ele, com as suas penas e com a sua morte, satisfizesse a justiça divina pelos seus crimes e, assim, os libertasse da morte eterna; e, reconciliando-os com o seu divino Pai, obtivessem a divina graça e os tornasse dignos de entrar no reino eterno» (Natale. Meditazioni e poesie, Edizioni San Paolo, Cinisello Balsamo 1998, p. 15).

Tudo muito simples, como a Verdade, sem estranhas elucubrações, mas conceitos derivados de uma tradição nascida com Cristo e continuada pela Santa Igreja Romana, que teve de lutar para se manter íntegra e que desde há décadas, porém, perde, ano após ano, a identidade pela qual surgiu: conservar, defender e transmitir a Fé pelo que ela é.      

Santo Afonso, bispo e doutor da Igreja, tão elevado nos seus ensinamentos teológicos e doutrinais, é muito simples no ensino, praticamente nunca precisa de intérpretes e a sua eficácia em entrar no coração dos problemas é tão tangível que nunca nos cansaríamos de ler as suas páginas impregnadas de realismo sobre a natureza corrupta do homem e sobre a vitória do Salvador para benefício de todos os que n’Ele creem. A partir do seu conhecimento de Jesus pelo que foi na terra e pelo que é nos Céus, o autor do século XVIII utiliza uma linguagem directa e balsâmica, forte e doce ao mesmo tempo, capaz de fazer vibrar as almas sedentas de virologistas e médicos da alma para aniquilar os pandémicos e mortais vírus espirituais, lesivos da vida eterna: «(…) desde Criança Vós quisestes começar a ser o meu Redentor e a satisfazer a divina justiça pelos meus pecados. Vós elegestes a palha como leito para me libertar do fogo do inferno onde já mereci ser atirado várias vezes. Vós chorastes e vagistes sobre a palha para implorardes para mim, com as Vossas lágrimas, o perdão do Vosso Pai. (...) Não quero, meu Jesus, deixar-Vos sozinho a chorar e a sofrer: quero chorar agora eu, que só mereço chorar pelos desgostos que Vos dei. Eu, que mereci o inferno, não recuso nenhuma pena desde que recupere a Vossa graça, ó meu Salvador» (ibid., p. 98).     

Meditações, notas e rimas compostas por Santo Afonso em honra do Menino Jesus, trazendo-nos o encanto da plenitude dos tempos, quando se Encarnou o Verbo. Nada de seu é antigo, velho e morto se tornará o que, hoje, se diz na Igreja contra a Igreja de Cristo.     

Cristina Siccardi          

Através de Corrispondenza Romana

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

O pânico irracional das sociedades irreligiosas

O acontecimento da chamada “variante inglesa” do vírus COVID-19 é apenas o sinal extremo de quanto, actualmente, em muitos países ocidentais o debate sobre a “emergência sanitária” está estavelmente poluído por elementos completamente irracionais, por sugestões ancestrais, não mais atribuíveis à racionalidade prática que deve reger as escolhas governamentais relativas ao interesse colectivo.   

Se um marciano chegasse à Terra completamente ignaro do que está a acontecer, ouvindo as declarações de políticos e de “especialistas” na Europa – em Itália, então, nem falemos sobre isso – teria a ideia de que está em curso uma epidemia comparável à peste negra do final da Idade Média, ou à varíola, ou ao ébola, incurável e de altíssima letalidade. E ficaria surpreso quando viesse a saber que, em vez disso, se trata de um agente patógeno pertencente à família dos coronavírus que, após um breve pico acentuado na Primavera, actualmente é letal em apenas um caso em cerca de 200 e cujas vítimas são, em larguíssima maioria, maiores de oitenta anos e afectados por patologias graves.     

Diante destas informações, o marciano perguntar-se-ia, estupefacto, por que muitos dos governos dos países mais industrializados do Ocidente, devido a este vírus, paralisaram as suas economias, destruíram a vida social e civil, causaram enormes prejuízos à escola, à universidade, à cultura, à arte, ao entretenimento, ao desporto. “As medidas de prevenção e segurança não poderiam ser implementadas de acordo com o risco?”, diria. “Não poderiam apostar no fortalecimento das estruturas sanitárias, em políticas específicas de prevenção e terapia dirigidas aos sujeitos mais frágeis, reabrindo, entretanto, com prudência e em segurança, todas as actividades económicas para evitar afundar as vossas sociedades numa depressão de dimensões irreparáveis?”.       

Se, depois, aquele extraterrestre soubesse que, desde há meses, muitos daqueles governos, e dos especialistas que consultaram, alimentam uma expectativa messiânica das vacinas como única solução para o problema, declaram que, para tal fim, será necessária uma cobertura vacinal generalizada de, pelo menos, 60- 70% da população, ou até mesmo – como em Itália – propõem que a vacinação seja obrigatória, provavelmente sacudiria a cabeça desanimado, já convencido de ter desembarcado num planeta-manicómio. “Mas tendes consciência – diria – que é um absurdo vacinar toda a gente contra uma doença viral que, em 95% dos casos, é assintomática ou dá sintomas comparáveis
​​à constipação, cujos casos graves são inferiores a 1% e para os quais existem muitas válidas terapias que seria melhor adoptar precocemente? Tendes consciência de que a doença não é absolutamente um problema para a população até aos 50 anos? E, sobretudo, tendes consciência de que os coronavírus, como outros patógenos para-influenza, mudam continuamente, dando origem a uma miríade de variantes e, portanto, nada garante que as vacinas serão eficazes, como demonstra o facto de que as vacinas anti-influenza protegem, a cada ano, apenas de uma parte das infecções sazonais?”.  

De facto, a propósito deste último ponto, a “variante inglesa”, sobre a qual todos os grandes meios de comunicação lançaram mais um catastrófico alarido, é apenas mais uma forma produzida pelo vírus desde que chegou ao Ocidente vindo da China: como todos os outros, também este procura sempre encontrar novas maneiras de sobreviver e de se adaptar ao seu hospedeiro, alterando mínimas partes do seu código genético. Provavelmente, esta variedade já estava em circulação há muito tempo e é acompanhada, paralelamente, por outras não registadas com igual precisão. É a tais mutações que devem ser reportados os “surtos” de contágios que surgem, de tempos em tempos, em vários continentes e países: entre os quais aquela “segunda onda” do Outono – na verdade, a continuação da mesma epidemia nas condições climáticas outonais – que cresceu, na Europa, a partir da Espanha e de França, e, provavelmente, derivada de vírus “regressado” da América. Mas as mutações do vírus quase sempre também significam, como em cada exemplar da sua “família”, uma progressiva “domesticação”, que se traduz numa cada vez menor periculosidade. Até que também o COVID se tornará um entre os muitos vírus sazonais fisiologicamente, ciclicamente presentes entre as várias populações do mundo. Apresentar as suas mutações como um evento apocalíptico denota completa má-fé ou a mais total perda do sentido da moderação e das proporções.

Diante de tudo isto, podemos afirmar, mais uma vez, que o efeito mais traumático da pandemia de COVID-19 na maioria das sociedades ocidentais não é de natureza sanitária, nem económica, mas política e cultural: ou seja, representou a verdadeira desertificação de uma dialéctica civil baseada na racionalidade prática e, em particular, na análise da relação entre custos e benefícios. Aquelas sociedades que, muitas vezes, eram retratadas como fundadas unicamente sobre o cálculo, sobre o interesse, e movidas a um inveterado cinismo da superexposição aos media, em pouco tempo parecem ter perdido totalmente a capacidade de discutir lucidamente problemas e soluções: o debate político está nelas reduzido a uma perene onda emotiva, movida, de vez em quando, por medos e esperanças desmedidas, vozes descontroladas, afirmações autoritárias e apodícticas.   

Trata-se, na verdade, de um fenómeno que, certamente, não surge nos últimos meses, mas tem raízes profundas.     

O ponto real é que quanto mais as sociedades se secularizam radicalmente, mais a remoção do sagrado da sua própria esfera determina uma invasão de atitudes para-religiosas no campo da política e, em geral, da vida social e civil. Quanto mais irreligiosa é uma sociedade, menos essa é “laica”, capaz de raciocinar pragmaticamente sobre os problemas que a afligem.

Eugenio Capozzi          

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

En grege relicto – Considerações sobre o presépio na Praça de São Pedro

O portal Dies Iræ traduziu e disponibiliza, em Língua Portuguesa, mais uma declaração de Mons. Carlo Maria Viganò, desta vez sobre o horrendo “presépio” colocado na Praça de São Pedro, no Vaticano, a que já aludimos aquando da publicação de um artigo da italiana Cristina Siccardi.

23 de Dezembro de 2020
Feria IV infra Hebdomadam IV Adventus

No centro da Praça de São Pedro domina uma estrutura metálica, apressadamente decorada com uma luz tubular, sob a qual se erguem, inquietantes como totem, algumas horríveis estátuas que nenhuma pessoa dotada de bom senso ousaria identificar com os personagens da Natividade. O fundo solene da fachada da Basílica Vaticana aumenta o abismo entre a harmoniosa arquitectura renascentista e aquele indecoroso desfile de mecos antropomórficos.           

Pouco importa que estes atrozes artefactos sejam o fruto de alunos de um obscuro Instituto de Arte de Abruzzo: quem se atreveu a ajuntar esta afronta ao Presépio fê-lo numa época que, entre as inúmeras monstruosidades do campo pseudo-artístico, não soube fazer nada de belo, nada que mereça ser conservado para a posteridade. Os nossos museus e galerias de arte moderna transbordam de criações, instalações, provocações nascidas de mentes dos anos sessenta e setenta: quadros que não se podem ver, esculturas que provocam repugnância, obras cujos tema e significado não se compreendem. E delas transbordam também as igrejas, que não foram poupadas, sempre naqueles anos infelizes, por ousadas contaminações de “artistas” apreciados mais pela sua filiação ideológica e política do que pelo talento.      

Desde há décadas, arquitectos e artesãos realizam estruturas horríveis, alfaias e objectos sagrados de tal feiura a ponto de desgostar os simples e escandalizar os fiéis. Daquela má planta, em clima migracionista bergogliano, não podia deixar de derivar a barcaça de bronze, qual monumento ao migrante desconhecido, colocada à direita da colunata berniniana, deturpando-lhe a harmonia, cuja massa opressora faz afundar os paralelos na consternação dos romanos.         

Recorde-se que o presépio blasfemo deste ano foi precedido pelo igualmente sacrílego de 2017, oferecido pelo Santuário de Montevergine, meta de peregrinações da comunidade homossexual e transgénero italiana. Este anti-presépio, «meditado e estudado de acordo com os ditames e a doutrina do Papa Francisco», deveria representar supostas obras de misericórdia: um homem nu no chão, um cadáver com um braço pendente, a cabeça de um recluso, um arcanjo com uma grinalda de flores arco-íris e a cúpula de São Pedro em ruína[1]. 

Tentativas análogas, nas quais a Natividade é usada como pretexto para legitimar riscos infelicíssimos, têm preocupado muitos fiéis, obrigados a sofrer as extravagâncias do clero e o desejo de inovação a todo o custo, a deliberada vontade de profanar – no sentido etimológico de tornar profano – o que é sagrado, separado do mundo, reservado ao culto e à veneração. Presépios ecuménicos com improváveis mesquitas; presépios imigracionistas com a Sagrada Família na jangada; presépios feitos de batatas ou de sucata.  

Já é evidente, mesmo para os mais inexperientes, que estas não são tentativas de actualizar a cena do Natal, como fizeram os pintores do Renascimento ou do século XVIII, ornando o cortejo dos Magos com os costumes da época; estas são mais a arrogante imposição da blasfémia e do sacrilégio como anti-teofania do Feio, como necessário atributo do Mal.

Não é por acaso que este presépio foi realizado nos mesmos anos em que o Concílio Vaticano II e a missa reformada viram a luz: a estética é a mesma e os princípios inspiradores são os mesmos. Porque aqueles anos representaram o fim de um mundo e marcaram o início da sociedade contemporânea, assim como com eles começou o eclipse da Igreja Católica para ceder o lugar à igreja conciliar.

Colocar aqueles artefactos de cerâmica no forno deve ter exigido não poucos problemas, que a laboriosidade dos professores daquela escola de Abruzzo superou decompondo-os em pedaços. O mesmo aconteceu no Concílio, onde engenhosos especialistas conseguiram introduzir à força, nos documentos oficiais, novidades doutrinárias e litúrgicas que, noutras épocas, estariam confinadas à discussão de um grupúsculo clandestino de teólogos progressistas.         

O resultado daquele experimento pseudo-artístico é um horror tanto mais horripilante quanto maior é a alegação de que o tema representado seja a Natividade. Ter decidido chamar “presépio” a um conjunto de figuras monstruosas não o torna tal, nem responde à finalidade para a qual é exibido nas igrejas, nas praças, nas casas: inspirar a adoração dos fiéis ao Mistério da Encarnação. Assim como o ter chamado “concílio” ao Vaticano II não tornou menos problemáticas as suas formulações e, certamente, não confirmou os fiéis na Fé, nem aumentou a frequência aos Sacramentos, e muito menos converteu multidões de pagãos ao Verbo de Cristo.

E como a beleza da Liturgia Católica foi substituída por um rito que só se sobressai em esqualidez; como a harmonia sublime do canto gregoriano e da música sacra foi banida das nossas igrejas para fazer ressoar ritmos tribais e músicas profanas; como a perfeição universal da língua sagrada foi varrida pela babel das línguas vernáculas; assim se frustrou o antigo e popular impulso de veneração, imaginado por São Francisco, para desfigurá-lo na sua simplicidade e dilacerar-lhe a alma.  

A instintiva repulsa que suscita este presépio e a veia sacrílega que revela, constituem o símbolo perfeito da igreja bergogliana, e, talvez precisamente nesta ostentação de descarada irreverência para com uma tradição secular tão cara aos fiéis e aos pequenos, pode-se compreender qual seja o estado das almas que o quiseram ali, sob o obelisco, como um desafio ao Céu e ao povo de Deus. Almas sem Graça, sem Fé, sem Caridade.

Alguém, na vã tentativa de encontrar qualquer coisa de cristão naquelas obscenas estátuas de cerâmica, repetirá o erro que já foi cometido no deixar desventrar as nossas igrejas, no despojar os nossos altares, no corromper a simples e cristalina integridade da Doutrina com fumosidades ambíguas típicas dos hereges.

Reconheçamos: aquela coisa não é um Presépio, porque se fosse um Presépio deveria representar o sublime Mistério da Encarnação e do Nascimento de Deus «secundum carnem», a admiração adoradora dos pastores e dos Magos, o amor infinito de Maria Santíssima pelo Divino Infante, o espanto da criação e dos Anjos. Deveria, em suma, ser a representação do nosso estado de espírito diante do cumprimento das profecias, o nosso encanto em ver o Filho de Deus na manjedoura, a nossa indignidade pela Misericórdia redentora. E, em vez disso, vê-se, significativamente, o desprezo pela piedade popular, a rejeição de um modelo perene que lembra a eternidade imutável da Verdade divina, a insensibilidade de almas áridas e mortas diante da Majestade do Rei Menino e dos joelhos dobrados dos Magos. Vê-se o tétrico tom cinzento da morte, a profunda aridez da máquina, a escuridão da condenação, o ódio invejoso de Herodes, que vê o seu poder ameaçado pela Luz salvífica do Rei Menino. 

Mais uma vez, devemos ser gratos ao Senhor mesmo nesta provação, aparentemente de menor impacto, mas ainda consistente com as maiores tribulações que estamos a passar, porque nos ajuda a tirar dos olhos as vendas que os cegam. Esta monstruosidade irreverente é a marca da religião universal do transumanismo defendida pela Nova Ordem Mundial; é a explicação da apostasia, da imoralidade e do vício, da fealdade erigida como modelo. E tudo o que é construído pelas mãos do homem sem a bênção de Deus, aliás, contra Ele, está destinado a perecer, a desaparecer, a desmoronar. E isto acontecerá não por causa da alternância de poder daqueles que têm gostos e sensibilidades diferentes, mas porque a Beleza é necessária serva da Verdade e da Bondade, assim como a fealdade é companheira da mentira e da maldade.   

Carlo Maria Viganò

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Pio XII e o Natal de 1943

O Natal de 1943 foi, em Roma, ocupada pelos nazis, um dos mais duros Natais do tempo da guerra. Vigorava o recolher obrigatório e as Missas de Natal foram abolidas. Pio XII celebrou apenas uma Missa solene, na tarde de 24 de Dezembro, em São Pedro.       

Naquele dia, o Papa fez um discurso ao Sacro Colégio e à Prelatura Romana, do qual referimos as principais passagens. 

Pio XII começa por recordar uma expressão cara aos cristãos: «um só coração e uma só alma». «Este “cor unum et anima una”, que reunia os primeiros seguidores de Cristo, foi a inflamada arma espiritual do pequeno rebanho da Igreja primitiva que, sem meios terrenos, com a palavra, com o amor desinteressado e com o sacrifício também da vida, iniciou e completou a sua acção vitoriosa diante de um mundo hostil. Contra a força de resistência, de zelo, de desprezo pelos sofrimentos e pela morte de tal coração e de tal alma, não valeram e infringiram-se as artes e os ataques dos poderes adversos, que combatiam contra a sua existência, doutrina, difusão e consolidação».      

«Assim, da união dos corações e das almas de todos os fiéis, formava-se como que um só coração e uma só alma, que a difusão da fé, através dos tempos, estendeu e ainda estende por tantas regiões e povos; e um assim belo vínculo de corações e de almas de todas as terras e de todas as nações chega até Nós, e mais vivo e forte se renova na hora presente das comuns aflições e invocações, e dos comuns desejos e esperanças, mercê do divino Espírito Vivificador e Santificador, que faz e preserva a Esposa de Cristo, sempre a mesma na sua unidade e universalidade, mesmo em meio às convulsões que subvertem as Nações». 

O Papa passa, depois, a descrever a guerra e as suas duras consequências. 

«Durante este ano, a tormenta da guerra também se aproximou cada vez mais da Cidade Eterna; e duros sofrimentos abateram-se sobre muitos dos Nossos diocesanos. Não poucos, entre os mais pobres, viram o seu lar destruído por ataques aéreos. Um Santuário, caro ao coração da Roma cristã e verdadeira jóia de uma venerável antiguidade, foi atingido e sofreu feridas dificilmente sanáveis».          

As ruínas, acrescenta o Papa, não são apenas materiais, mas também económicas: «Se as interrupção e paralisação da normal produção do que é necessário à vida devessem prosseguir com o ritmo actual, seria de temer que, apesar dos solícitos cuidados das Autoridades competentes, o povo de Roma, e grande parte da população italiana, em não muito tempo, se encontraria em condições de indigência que, na memória humana, talvez nunca se tenham concretizado e sofrido nesta terra já tão provada».        

Pio XII, todavia, convida à tranquilidade espiritual e moral: «A todos, e em particular aos habitantes da Urbe, recomendamos, instantemente, que conservem a calma e a moderação, e que se abstenham de qualquer acto precipitado, que só causaria ainda mais graves desastres». 

Sobretudo, afirma o Papa, não devemos desanimar nas dificuldades.          

«Em meio a tais perturbações, compreende-se o quanto convém que todos se mantenham francos e corajosos na prática moral da vida, enquanto não poucos cristãos, mesmo entre aqueles que estão ao serviço da Igreja e do santuário, se deixam desanimar pela tristeza dos tempos, pela amargura das privações e pelos esforços pedidos, pela cadeia de desilusões que os aperta e se abate sobre eles; tanto que não escapam ao perigo de desanimar e de perder aquele frescor e agilidade de espírito, aquela robustez de vontade, aquela serenidade e aquela alegria de ousar e concluir o que se empreende, sem os quais não é possível uma fecunda obra de apostolado». 

Na adversidade do tempo presente, tempo de guerra e de miséria, o Pontífice convida «os pusilânimes, os desalentados, os extenuados» a dirigirem «um olhar ao presépio de Belém e ao Redentor, que dá início à renovação espiritual e moral do género humano numa pobreza sem exemplo, na quase total separação do mundo dos poderosos de então». Esta visão «deve recordar e admoestar que os caminhos do Senhor não são os caminhos iluminados pela falsa luz de uma sabedoria puramente terrena, mas pelos raios de uma estrela celeste ignota à prudência humana. Da gruta de Belém, quando se dirige o olhar à história da Igreja, todos deveriam convencer-se daquilo que foi dito do seu divino Fundador: “Sui eum non receperunt” (Jo 1, 11), permaneceu sempre a dolorosa divisa da Esposa de Cristo ao longo dos séculos, e que, várias vezes, os tempos de árdua luta prepararam vitórias grandiosas, de importância definitiva para as longas épocas vindouras».           

Pio XII dirige-se, de seguida, às almas generosas.

«Se Nos é permitido penetrar na visão dos desígnios de Deus, dos quais é luz o passado, as árduas e cruentas condições da hora presente nada mais são do que o prelúdio de uma aurora de novos desenvolvimentos, nos quais a Igreja, enviada a todos os povos e para todos os tempos, se encontrará diante de deveres desconhecidos a outras épocas, que só as almas corajosas e resolutas a tudo poderão realizar: corações que não tenham medo de assistir à repetição e à renovação do mistério da Cruz do Redentor no caminho da Igreja sobre a terra, sem pensar em abandonar-se, com os discípulos de Emaús, a uma fuga da amarga realidade; corações conscientes de que as vitórias da Esposa de Cristo, e especialmente as definitivas, são preparadas e obtidas in signum cui contradicetur, em contraste, isto é, com tudo aquilo que a humana mediocridade e a vaidade procuram opor à penetração e ao triunfo do espiritual e do divino».     

O Santo Padre continua, assim, o seu apelo:          

«Se, hoje, devemos levar ajuda ao nosso tempo, se a Igreja deve ser, para os errantes e para os amargurados das angústias espirituais e temporais dos nossos dias, aquela Mãe que ajuda, aconselha, preserva e redime; como poderia essa atender a tanta necessidade se não dispusesse uma acies ordinata, recrutada entre as almas generosas que, acima da cara visão do recém-nascido Menino, não temem nem se esquecem de elevar o olhar para o Senhor crucificado, consumindo, no Calvário, o sacrifício da sua vida pela regeneração do mundo, e retratam, como força e valor no seu viver e no seu operar, a lei suprema da Cruz?».       

As palavras com que Pio XII concluiu o seu discurso do Natal de 1943 são de confiança nas infalíveis promessas divinas.    

«Nós rezamos pelo género humano, enredado e preso nas cadeias do erro, do ódio e da discórdia, quase numa prisão por ele mesmo construída, repetindo a invocação da Igreja no santo Advento: O clavis David et sceptrum domus Israel; qui aperis, et nemo claudit; claudis, et nemo aperit: veni, et educ vinctum de domo carceris, sedentem in tenebris et umbra mortis!      

“Ó Chave de David e Ceptro da Casa de Israel, que abris e ninguém fecha, fechais e ninguém abre: vinde e libertai da prisão o cativo que está sentado nas trevas e na sombra da morte”
».           

Estas palavras da Sagrada Escritura ainda hoje ressoam com a sua força perene. Ainda hoje, como então, somos prisioneiros das trevas, mas nas trevas colocamos toda a nossa esperança no Santo Menino de Belém, na sua Divina Mãe e em São José, chefe da Sagrada Família, pedindo-lhes a força para sermos uma verdadeira acies ordinata que combate, «cor unum et anima una», por amor à Igreja e à Civilização Cristã.     

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Um covil de ladrões, reflexão-denúncia de Mons. Carlo Maria Viganò

De Sua Excelência Reverendíssima Monsenhor Carlo Maria Viganò, Núncio Apostólico, recebemos e traduzimos uma reflexão que Sua Excelência redigiu no seguimento de inúmeros e lamentáveis acontecimentos que devem ser tornados públicos para que os Católicos se apercebam da gritante situação que envolve e atormenta a Santa Igreja. É, pois, com sentido de dever e de lealdade à Santa Madre Igreja, guardiã das Verdades da Fé, que tornamos público o seguinte texto.

18 de Dezembro de 2020
Sexta-feira das Têmporas do Advento

Exsurgat Deus, et dissipentur inimici ejus:
et fugiant qui oderunt eum a facie ejus.

Salmo 67

É destes dias a notícia de que Bergoglio se está a dedicar a uma série televisiva intitulada A sabedoria do tempo[1], produzida por aquela Netflix que, ainda ontem, publicava, no Twitter, um post[2] que sintetiza qual é a sua referência ideológica: Praise Satan, ou seja, Seja louvado Satanás. E nem é preciso recordar o quão está envolvida esta multinacional na difusão da imoralidade e do vício, incluindo a exploração sexual de menores.    

Da mesma forma, é dos últimos dias o acordo assinado entre a Santa Sé e a ONU para promover a sustentabilidade e a igualdade de género[3], dando contemporaneamente apoio a uma organização que difunde o aborto e a contracepção. No dia dedicado à Imaculada Conceição – o 8 de Dezembro de 2020 –, quase como um indigno ultraje a Nossa Senhora, foi oficializada a nova partnership entre o Vaticano e o Council for Inclusive Capitalism promovida por Lynn Forester de Rothschild[4], grande amiga de Hillary Clinton e de Jeffrey Epstein, depois de ter enviado uma mensagem de elogio a Klaus Schwab, Presidente do World Econmic Forum e teórico do Great Reset. E para não dar azo a equívocos, após os inúmeros apelos para obedecer às autoridades na emergência da psico-pandemia, parece que a vacina contra o COVID passará a ser obrigatória para todos os funcionários da Cidade do Vaticano, apesar de ser produzida com material fetal abortivo e não dar garantia de eficácia e inocuidade.

Creio que agora se compreende, sem qualquer dúvida razoável, que os líderes da actual Hierarquia católica se colocaram ao serviço da Oligarquia globalista e da Maçonaria: o culto idólatra da pachamama na Basílica Vaticana é, agora, acompanhado por um presépio sacrílego, cuja simbologia parece aludir aos antigos ritos egípcios e alienígenas. Só um ingénuo ou um cúmplice pode negar que, em toda esta concatenação de acontecimentos, não há uma claríssima coerência ideológica e uma lúcida mente diabólica.        

Mas, como já referi, seria enganoso limitar-se a uma avaliação dos acontecimentos dentro da Igreja sem enquadrá-los no mais amplo contexto político e social: há apenas uma direcção em que os protagonistas e os figurantes seguem o mesmo guião. O objectivo é já declarado: destruir as Nações, a partir do seu interior, por meio do deep state, e a Igreja de Cristo, por meio da deep church, a fim de instaurar o reino do Anticristo com a ajuda do Falso Profeta.   

O Acordo secreto sino-vaticano, fortemente desejado por Bergoglio e renovado há algumas semanas, encaixa-se perfeitamente neste quadro inquietante, confirmando o pactum sceleris que entrega os Católicos chineses à perseguição, os dissidentes à reeducação, as igrejas à demolição, a Sagrada Escritura à censura e à adulteração. Não é por acaso que este Acordo, sempre rejeitado com desdém pelos Pontífices, foi possível graças aos ofícios do ex-cardeal McCarrick e dos seus cúmplices, com o determinante auxílio dos Jesuítas: os actores, sabemo-lo, são sempre os mesmos. Corruptos e corruptores, chantageados e chantagistas, unidos pela rebelião contra a doutrina e a moralidade, e todos indiscriminadamente subservientes aos poderes anticatólicos, na verdade, anticristãos.    

A China comunista constitui o braço armado da Nova Ordem Mundial, tanto na disseminação de um vírus mutante criado em laboratório, quanto na interferência nas eleições presidenciais americanas e no alistamento de quintas colunas ao serviço do regime de Pequim. E na promoção da apostasia dos líderes da Igreja, impedindo-os de proclamar o Evangelho e de se colocarem como barreira contra o ataque das elites. Que isto traga benefícios económicos para o Vaticano torna ainda mais vergonhosa a sujeição da seita bergogliana a este plano infernal, criando um significativo contraponto ao negócio dos migrantes, que também faz parte do processo de dissolução da sociedade que, outrora, foi cristã. É desconcertante que esta escandalosa traição à missão da Igreja Católica não mereça uma condenação firme e corajosa do Episcopado, que – face às evidências de uma apostasia seguida com cada vez maior determinação – não ousa levantar a voz por medo ou por um falso conceito de prudência.      

As palavras do Dr. Arthur Tane, Director do Council on Middle East Relations, podem soar ousadas e fortes, mas têm o mérito de evidenciar, sem falsos temores, a subversão levada a cabo sob este nefasto “pontificado”. É de se esperar que, com a publicação da carta de Tane ao Cardeal Parolin, haja alguém que, finalmente, abra os olhos antes que a trama dos conspiradores se cumpra. Por este motivo, é louvável e partilhável a denúncia que o Cardeal Burke lançou, há poucos dias, a respeito do uso do COVID para os fins do Great Reset[5]: uma denúncia que se junta à que formulei desde Maio passado, e várias vezes reiterada, e àquela de outros Pastores fiéis à Palavra de Deus e solícitos para com o seu rebanho.      

A carta de Arthur Tane ao Secretário de Estado termina com uma citação evangélica apropriada como nunca: «Se a Igreja não compreender o significado da sua missão, tornar-se-á um templo de cambistas. Porque Jesus disse: A minha casa há-de chamar-se casa de oração, mas vós fazeis dela um covil de ladrões (Mt 21, 12-13)».     

Como Bispos, não podemos ficar calados: o nosso silêncio constituiria uma intolerável conivência e cumplicidade com aqueles mercenários que, abusando de um poder usurpado, renegam a Cristo e entregam as almas ao Inimigo do género humano.        

Carlo Maria Viganò, Arcebispo          



[1] https://twitter.com/messainlatino/status/1339442807111561221/photo/1

[2] https://twitter.com/realHirsty/status/1339213661802536961

[3] https://www.ncregister.com/blog/vatican-youth-symposium-2020-day1

[4] http://www.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2019/november/documents/papa-francesco_20191111_consiglio-capitalismo-inclusivo.html

https://www.nytimes.com/2020/12/08/business/dealbook/pope-vatican-inclusive-capitalism.html

https://www.maurizioblondet.it/lynn-forester-rothschild-e-la-nuova-papessa-della-chiesa-bergogliana-del-sacro-great-reset-viene-alla-luce-il-grande-piano-gnostico-finanziario-per-cui-bergoglio-e-stato-promosso/

[5] https://www.aldomariavalli.it/2020/12/14/cardinale-burke-cosi-le-forze-del-great-reset-usano-il-covid-per-far-avanzare-il-loro-programma/ e https://alphanewsmn.com/cardinal-burke-forces-of-the-great-reset-have-used-covid-to-advance-evil-agenda/