terça-feira, 23 de julho de 2019

Morreu Mons. Juan Rodolfo Laise



Ontem, dia em que a Igreja celebrava Santa Maria Madalena, testemunha da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, morreu Mons. Juan Rodolfo Laise, OFMCap, Bispo emérito de San Luis, na Argentina, com 93 anos de idade, na enfermaria dos Padres Capuchinhos de San Giovanni Rotondo, em Itália, onde vivia desde 2001, altura em que resignou ao governo pastoral da sua Diocese.       

Mons. Laine nasceu em Buenos Aires no dia 22 de Fevereiro de 1926. Professou solenemente na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos a 13 de Março de 1949 e foi ordenado sacerdote a 4 de Setembro do mesmo ano. Foi eleito Bispo co-adjutor de San Luis, com direito de sucessão, por Paulo VI, a 5 de Abril de 1971, tendo sido sagrado a 29 de Maio do mesmo ano.                

Após ter resignado ao governo pastoral da Diocese argentina, Mons. Laine passou a residir no Santuário de San Giovanni Rotondo, onde o Padre Pio viveu durante toda a sua vida. Diariamente celebrava a Santa Missa de sempre e, depois, atendia de confissão os peregrinos, em três idiomas diferentes, participava em conferências e atendia os devotos.               

Entre as muitas obras que escreveu, destaca-se o livro “Comunhão na mão – Documentos e história”, publicado em 1997, onde justifica a irreverência da Comunhão na mão. De destacar que na Diocese de San Luis ainda hoje é proibida a Comunhão na mão. Que este exemplo sirva para muitas mais Dioceses!    

Oferecemos os nossos sufrágios pelo eterno descanso da sua alma!

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Na Polónia reza-se em reparação das ofensas “LGBT”!









Na cidade de Bialystok, na Polónia, junto à Catedral, milhares de católicos rezaram, durante três horas, o Santo Rosário e entoaram cânticos em reparação das ofensas cometidas nas “marchas do orgulho LGBT” que, nas últimas semanas, têm promovido ofensas e profanações gravíssimas contra o Santo Nome de Deus! Rezemos para que, em Portugal e por todo o Mundo, se multipliquem semelhantes iniciativas em defesa do Cristianismo, da Tradição e da Família.

Santa Maria Madalena, a testemunha de Cristo



Quando o Filho de Deus entrou na história, Maria Madalena estava entre aqueles que mais o amaram, demonstrando-o. Quando chegou o tempo do Calvário, Maria Madalena estava com Maria Santíssima e com São João sob a Cruz (Jo 19, 25). Não fugiu por medo como fizeram os discípulos, não o negou por medo como fez o primeiro Papa, mas permaneceu presente a cada hora, desde o momento da sua conversão até ao Santo Sepulcro. A Igreja celebra a sua festa a 22 de Julho.           

Não palavras de amor, mas actos de amor dão-nos os Evangelhos sobre a figura de Madalena, aquela que lavou (com as lágrimas do arrependimento), secou e beijou os pés de Cristo. Ao ver isso, o fariseu, escandalizado, que convidara Jesus para sua casa, pensou consigo mesmo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora!». Jesus leu esse juízo errado e disse-lhe: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama» (Lc 7, 39-47).       

Não foi por acaso que, para o Missal Romano, no dia dedicado a Maria Madalena, foi escolhida uma leitura do Cântico dos Cânticos: «Vou levantar-me e dar voltas pela cidade: pelas praças e pelas ruas, procurarei aquele que o meu coração ama. Procurei-o e não o encontrei. Encontraram-me os guardas que fazem ronda pela cidade: “Vistes aquele que o meu coração ama?”» (Ct 3, 2-3), um amor perseverante que o Senhor permeou, tornando-a digna de ser “apóstola dos apóstolos”: foi a primeira a anunciar a sua ressurreição.

São Gregório Magno tem palavras extraordinárias (Om. 25, 1-2, 4-5; PL 76, 1189-1193) para aquela que fez de Cristo a única razão de viver. «Ela foi ao Sepulcro no Domingo de Páscoa, com os unguentos, para honrar o Senhor. Mas não o encontrou: “Maria estava junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar” (Jo 20, 11). Neste facto, devemos considerar quanta força de amor havia invadido a alma desta mulher, que não se separava do sepulcro do Senhor, mesmo depois que os discípulos se afastaram. (...) A força da boa obra está na perseverança, como afirma a própria voz da Verdade: “Aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo” (Mt 10, 22). Procurou, portanto, uma primeira vez, mas não encontrou, perseverou em procurar e foi-lhe dado a descobrir. (...) Os santos desejos crescem com o passar do tempo. Se, em vez, enfraquecem na espera, é sinal que não eram verdadeiros desejos. (...) “Mulher, porque choras? Quem procuras?” (Jo 20, 15). É-lhe perguntada a causa da dor, para que o desejo cresça e, chamando pelo nome o que procura, se inflame mais no seu amor. “Disse-lhe Jesus: Maria!” (Jo 20, 16). Depois de chamá-la com o nome comum (...) sem ser reconhecido, chama-a pelo nome como se dissesse: Reconhece aquele por quem és reconhecida. Eu conheço-te, não como se conhece uma pessoa qualquer, mas de modo muito especial».          

Maria desperta do pesadelo: «Rabbuni!» («Mestre!»). A humilde penitente Madalena torna-se uma testemunha do triunfo do Crucificado. Fostaria de estar ali, em adoração, mas não: «Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: “Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus”» (Jo 20, 17). Levará ela o anúncio aos Apóstolos.

Cristina Siccardi

domingo, 21 de julho de 2019

Monsenhor Schneider responde ao Bispo Kraütler e ao IL do Sínodo



Na sua entrevista, de 14 de Julho, à ORF, uma emissora austríaca de serviço público, o Bispo Erwin Kräutler afirmou ser “quase um escândalo” o facto que em muitas paróquias da Amazónia a Santa Missa é raramente celebrada. Este modo de falar, em si, é obscuro e decididamente tendencioso. Ninguém tem o direito à Santa Missa. O Sacramento da Eucaristia é o mais alto dom de Deus. Pode-se falar, isso sim, de escândalo quando nas paróquias católicas a Fé é negada e não praticada, quando Deus é insultado através do desprezo dos seus Mandamentos, os pecados graves contra a caridade, a idolatria, o xamanismo e assim por diante. Poder-se-ia falar de um escândalo numa paróquia católica quando as pessoas não rezam o suficiente. Isto, sim, seria um verdadeiro escândalo.   

Dever-se-ia falar de um escândalo quando se considera que, durante as últimas décadas, na Amazónia, não foram promovidas iniciativas pastorais intensivas para promover as vocações. Iniciativas que estariam de acordo com a experiência bimilenária da Igreja: orações constantes, sacrifícios espirituais e um estilo de vida exemplar e santo, adoptado por parte dos próprios missionários. De facto, para promover eficazmente sólidas vocações sacerdotais, é indispensável que, mesmo na Amazónia, existam missionários que levem uma vida de verdadeiros homens de oração, de verdadeiros apóstolos, isto é, uma vida de amor e sacrifício, totalmente dedicada a Cristo e à salvação das almas imortais.         

As promovidas pelo Bispo Kräutler e por muitos dos seus companheiros de viagem entre o clero, são mais figuras caricaturadas de padres, que têm o seu modelo nos agentes humanitários, funcionários das ONG, nos sindicalistas socialistas e nos ecologistas. Mas esta não é a missão de Jesus Cristo, do Deus encarnado, que deu a Sua vida na cruz para redimir a humanidade do maior mal, isto é, o pecado, para que todos os homens possam ter em abundância a vida divina e sobrenatural (cf. Jo 10, 10).

Não é necessário recorrer ao truque de dramatizar a “fome eucarística” ou a falta de celebrações eucarísticas, porque, para se salvar, não é necessária a recepção da Sagrada Eucaristia, mas sim a Fé, a oração e uma vida conforme aos Mandamentos de Deus.       

Se por um longo período de tempo, e por causa da falta de sacerdotes, os católicos não pudessem receber a Sagrada Comunhão, então deveriam ser ensinados a praticar a Comunhão Espiritual, que tem uma grande força e um grande efeito espiritual. Os Padres do Deserto, por exemplo, viveram durante anos sem a Eucaristia e alcançaram uma grande união com Cristo. Durante anos, os meus pais e eu não pudemos receber a Santa Comunhão na União Soviética. Mas praticamos sempre a Comunhão Espiritual, que nos deu muita força e consolação. Então, quando chegava um padre, podíamos confessar-nos, participar no Santo Sacrifício da Missa e receber a Sagrada Comunhão sacramentalmente. Era uma verdadeira festa e experimentávamos, de modo muito profundo e jubiloso, quão preciosos são os dons do sacerdócio e da Eucaristia. 

Na Amazónia, dever-se-ia prover um modo de garantir que os padres missionários itinerantes vão aos lugares individuais – mesmo se poucas vezes por ano – para organizar uma festa verdadeiramente espiritual com boas confissões e com as Santas Missas celebradas com dignidade. Poderiam também deixar Jesus nos tabernáculos para que os católicos pudessem adorá-Lo, e poder-se-ia ensinar aos fiéis como fazer Adoração Eucarística e como rezar o Rosário para pedir bons sacerdotes indígenas celibatários e boas famílias cristãs. Então, sem dúvida, Deus concederia esta graça. Também se deve fazer um pedido em todo o mundo para convidar padres a irem para a Amazónia, a fim de ajudar pastoralmente a população local. Poder-se-ia, por fim, ordenar diáconos casados ou, em casos excepcionais, designar acólitos ou senhoras católicas para expor o Santíssimo Sacramento e orientar as orações.                  
Há um exemplo na história da Igreja: o dos católicos japoneses que, sem sacerdotes, mantiveram a fé católica por mais de duzentos anos. Hoje, o Japão tem uma quantidade suficiente de padres nativos que, naturalmente, são celibatários. Mesmo se na época a cultura pagã do Japão rejeitava o sacerdócio celibatário, os católicos japoneses tinham-lhe uma alta estima que se tornou a sua marca de identificação. Portanto, quando, no século XIX, chegaram os missionários protestantes, que eram casados, foram rejeitados precisamente por esse motivo. Quando os padres católicos voltaram, uma vez que se certificaram que eram celibatários, os fiéis japoneses acolheram-nos como sacerdotes da verdadeira Igreja de Jesus Cristo. A Igreja, portanto, no século XIX, poderia ter apresentado os mesmos argumentos usados
​​hoje pelo Sínodo amazónico em favor da ordenação de sacerdotes indígenas casados, pois naquele tempo muitas paróquias de algumas regiões missionárias contavam com a visita de um padre poucas vezes durante o ano.       

O matrimónio sacerdotal foi legalizado na Igreja Oriental no século VII, mas não por causa da falta de sacerdotes, dado que, na época, havia uma superabundância de sacerdotes, especialmente em Constantinopla. Foi feito antes pela indulgência para com a fraqueza humana, porque aqueles que no ofício episcopal e sacerdotal imitavam Jesus Cristo – o Sacerdote Eterno da Nova Aliança – agindo na pessoa de Cristo-Cabeça, tinham-se afastado da regra apostólica de uma vida celibatária. Naquele tempo, na Igreja grega, tratou-se de uma solução regional para uma Igreja local, mas que os Romanos Pontífices, todavia, não reconheciam nem aceitavam. Foi um desvio e uma deslealdade à exigente imitação de Cristo; imitação que os Apóstolos viveram em completa continência sexual, até à morte, como testemunha claramente Pedro quando diz: «Nós deixámos tudo e seguimos-te» (Mt 19, 27), também mulheres e filhos.                             

Todos os Padres da Igreja viveram o sacerdócio em continência sexual. Embora alguns tenham sido casados (por exemplo, Santo Hilário), foi demonstrado que, a partir da ordenação, começaram a praticar a continência e não tiveram mais filhos, porque conheciam e respeitavam a regra apostólica da continência sexual sacerdotal e episcopal.

A Igreja Romana transmitiu fielmente esta norma apostólica e defendeu-a sempre até hoje, com a única excepção concedida às Igrejas orientais, feita no contexto das negociações para a unificação, durante os Concílios de Lião e Florença. Nesse caso, dispensaram-se os padres do celibato para o benefício da unidade.                 

A introdução de clero casado na Amazónia não produziria verdadeiros apóstolos, mas sim uma nova categoria de sacerdotes, uma espécie de dinastia. Ao mesmo tempo, deve-se ter em mente que a cultura indígena dos povos amazónicos ainda não alcançou a maturidade confiável e comprovada de inteiras gerações cristãs, completamente permeadas pelo espírito do Evangelho.        

Depois da inicial e sistemática evangelização de São Bonifácio, por exemplo, as tribos germânicas levaram vários séculos até conseguir produzir numerosos e confiáveis padres nativos celibatários.           

Sem dúvida, na Amazónia dos séculos XIX e XX havia heróicos e santos missionários: bispos, sacerdotes, religiosos. Nas últimas décadas, no entanto, alguns missionários afastaram-se do verdadeiro espírito de Jesus Cristo, dos Apóstolos e dos santos para, em vez disso, se voltarem para o espírito deste mundo. Já não pregam, com plena convicção, o único Redentor Jesus Cristo e não fazem esforços suficientes para transmitir a Sua vida sobrenatural de Graça aos povos da Amazónia, para conduzi-los à vida eterna, ao Céu, se necessário, mesmo com sacrifício da própria vida. Frequentemente aconteceu o contrário. Abusando do nome de Jesus e do sagrado ofício episcopal e sacerdotal, os missionários e até mesmo os bispos, na Amazónia, pregam principalmente um evangelho da vida terrena, um evangelho do estômago, por assim dizer, e não o Evangelho da Cruz; um evangelho de adoração da natureza, da floresta, da água, do sol. E fazem isso mesmo que as pessoas desta região estejam realmente sedentas das fontes da vida divina e eterna. Tal modo de evangelizar a Amazónia é uma traição ao verdadeiro Evangelho e esta traição tem sido perpetrada nas últimas décadas em vastas áreas daquela região. E, agora, alguns desejam legitimar – com a ajuda de um sínodo dos bispos a nível internacional – a traição da verdadeira evangelização sobrenatural, no espírito de Jesus e dos Apóstolos.                       

A Amazónia precisa urgentemente de verdadeiros e santos missionários segundo o espírito e o exemplo dos grandes missionários da história da Igreja, como São Bonifácio, como os grandes santos missionários latino-americanos, São Toríbio de Mogrovejo, São José de Anchieta 
e tantos outros.          

Na sua entrevista, o Bispo Kräutler justifica a ordenação sacerdotal de mulheres para a celebração da Eucaristia, referindo-se à sua “empatia” feminina. Trata-se obviamente de uma outra compreensão da Igreja e da Eucaristia, uma outra compreensão do sacerdócio e do diaconado.           

A “empatia” não é um sólido critério teológico, enquanto que a vontade de Deus é. A Igreja de Deus não é uma corporação, não é um partido, um clube, uma instituição humana onde a eficiência e a empatia vêm em primeiro lugar, mesmo se tais qualidades são certamente úteis. Os critérios para preencher o ofício dos Apóstolos e dos seus sucessores – assim como o ofício sacerdotal e diaconal – devem ser os mesmos que Cristo nos deu e que a Igreja sempre preservou: ser homens e adequados à moralidade e carácter próprios de tal ofício. Os sacerdotes devem ser homens de fé, cheios do Espírito Santo, prontos a viver no celibato; homens que coloquem em primeiro lugar a oração e a proclamação dos ensinamentos de Cristo; homens que desejam ser verdadeiros pastores e dar a própria vida pela salvação das almas imortais, por aqueles que lhes foram confiados; homens que sejam os verdadeiros pais de todos os fiéis e não apenas de uma parte limitada ou de um círculo familiar; homens que sejam verdadeiros esposos da Esposa de Cristo, da Igreja, e que sejam, portanto, como pais e esposos celibatários.                         

No século II, Santo Irineu era já um testemunho da unidade da Fé e da disciplina na Igreja, que era semelhante entre todos os povos, mesmo se naquela época os católicos convertidos viessem de culturas muito diferentes e, em parte, contraditórias: «A Igreja, embora espalhada pelo mundo, no entanto – como se habitasse numa só casa – preserva cuidadosamente a Fé dos Apóstolos. Também acredita que essas verdades têm apenas uma só alma e um só coração, e proclama-as, ensina-as e oferece-as com perfeita união, como se tivesse apenas uma boca. Embora as línguas do mundo sejam diferentes, a mensagem da tradição é uma e a mesma. Portanto, as Igrejas na Alemanha não acreditam e não transmitem nada de diferente, nem as da Espanha, nem as da Gália, nem as do Oriente, nem as do Egipto, nem as da Líbia, nem as das regiões centrais do mundo» (Adversus haereses 1, 10, 2).           

Mesmo muitas das paróquias católicas recém-convertidas entre as tribos germânicas durante a Era da Migração (IV-VI século) tiveram talvez poucas vezes a oportunidade de assistir à Santa Missa e receber a Sagrada Comunhão. Depois de algumas gerações, no entanto, dessas paróquias alemãs nasceram gerações de padres celibatários e geralmente exemplares.              

A verdade da questão é que aqueles que defendem um clero amazónico casado com o estratagema do elegante lema “homens provados” (“viri probati”) consideram os povos amazónicos inferiores, porque pressupõem, desde o início, que não têm a capacidade de dar à Igreja sacerdotes celibatários gerados no próprio ambiente. Ao longo de 2000 anos, todos os povos e até os bárbaros foram capazes de criar os próprios filhos, com a ajuda da graça de Cristo, num sacerdócio celibatário de acordo com o exemplo de Jesus Cristo. Os pedidos de sacerdotes casados para os povos da Amazónia – provenientes de eclesiásticos de descendência europeia – contêm um racismo oculto. Para resumir, poderíamos simplificar deste modo: “Nós, europeus, isto é, nós brancos, somos realmente capazes de gerar padres celibatários. Mas para vós, amazónicos, isso é um pouco demais!”.                 

Os defensores de um clero amazónico casado são quase todos europeus, e não de origem indígena, e, ao fim de contas, não estão interessados no verdadeiro bem espiritual dos fiéis da Amazónia, mas na implementação da própria agenda ideológica, que visa a um clero casado também na Europa e, depois, em toda a Igreja Latina. Porque todos sabem que, após a introdução do clero casado regionalmente limitado na Amazónia, haveria, com a ajuda do efeito dominó e num período de tempo relativamente breve, um clero regular casado com rito romano mesmo em outras partes do mundo. Deste modo, a herança apostólica de um sacerdócio celibatário, segundo o modelo de Jesus Cristo e dos seus apóstolos, seria efectivamente destruído em toda a Igreja.

Alguns católicos – aqueles que, certamente, não representam a maioria dos verdadeiros fiéis, mas que são mais funcionários de uma rica burocracia eclesiástica e que alcançaram posições clericais de poder na Igreja – querem atrair as pessoas do mundo com a ideia de um sacerdócio casado e sem sacrifícios, sem doar-se e sem um amor sobrenatural ardente por Deus.          

O próprio Senhor disse-nos o que deve fazer a Igreja para que os fiéis possam ter sacerdotes: «Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe» (Mt 9, 38). Não há remédio melhor e mais eficaz do que este. E se houvesse outro, Nosso Senhor ter-nos-ia dito.  

Para haver candidatos casados à ordenação sacerdotal, não há necessidade de iniciativas especiais de oração. Haverá sempre, até ao fim dos tempos, poucos trabalhadores na vinha do Senhor. Numa época em que havia muitos sacerdotes, o Papa São Gregório Magno proferiu estas memoráveis palavras: «Vejam, o mundo está cheio de sacerdotes, mas poucos são os trabalhadores na vinha do Senhor» (In Ev. hom., 34). Deus cumpre sempre a Sua obra de graça e de salvação das almas para a vida eterna com a ajuda de sacrifícios e, frequentemente, apenas de poucas pessoas, e não com a ajuda de grandes multidões. Neste sentido, São Gregório Nazianzeno disse que Deus não está satisfeito com os números (cf. Or. 42, 7).     

O Bispo Erwin Kräutler pergunta na entrevista: “O que podemos fazer, como Igreja, para que essas pessoas possam celebrar a Eucaristia?”. A vida paroquial, acrescenta, é belíssima, “mas falta o centro”. A resposta a esta pergunta é a seguinte: o centro é Cristo, a Verdade ensinada por Ele, o exemplo dado por Ele. O tabernáculo é o verdadeiro centro da Igreja aqui na terra e o centro de cada paróquia local. Se uma comunidade católica local na Amazónia tem o tabernáculo – e muitas delas têm-no –, tem, então, o centro e, portanto, não falta nada, porque têm Deus no meio deles, Deus com Carne e Sangue está presente no meio deles!   

É necessário reunir os católicos da Amazónia em torno do tabernáculo para que tenham os seus próprios sacerdotes e, se possível, numerosos sacerdotes. Lá, mães e crianças católicas devem dirigir as suas orações íntimas a Deus, o dispensador de todos os dons, com a intenção de receber sacerdotes indígenas bons e celibatários e com espírito apostólico. Deve iniciar-se uma cadeia de adorações eucarísticas em toda a Amazónia. Tal corrente eucarística de adorações por parte dos simples fiéis, juntamente com os seus bispos e os seus sacerdotes – mesmo que sejam poucos –, trará, indubitavelmente – no momento escolhido por Deus –, aos povos da Amazónia, aqueles sacerdotes que estão de acordo com o coração de Jesus. Não se deve abusar dos povos amazónicos pelo interesse das próprias ideologias decadentes e das heresias teológicas que foram fabricadas na Europa.       

Amplas partes do documento de trabalho (Instrumentum Laboris) do Sínodo sobre a Amazónia e os pedidos destes sacerdotes adornam a imagem de Cristo Rei de pedras preciosas, com lemas como “homens provados”, “fome eucarística”, “empatia feminina”. Deste modo, desejam implementar, de maneira mais simples, o matrimónio sacerdotal e a ordenação feminina. Os verdadeiros católicos da Amazónia e de outras partes do mundo, entretanto, reconhecerão nela a imagem do engano e não acreditarão que é a imagem de Jesus Cristo, o Rei. Amplas partes do Instrumentum Laboris e das necessidades revolucionárias do Bispo Erwin Kräutler e dos seus companheiros de viagem clericais retractam verdadeiramente uma atitude intelectual muito semelhante à Gnose e ao Naturalismo que queriam penetrar na Igreja desde o início, a partir do II século, como Santo Irineu de Lião afirma: «Tal é, portanto, o método deles, que nem os profetas anunciaram, nem o Senhor ensinou, nem os Apóstolos transmitiram, mas de que se orgulham de ter um perfeito conhecimento, além de todos os outros. Reúnem as suas opiniões de outras fontes que não são as Escrituras; e, para usar um provérbio comum, esforçam-se para tecer cordas de areia, esforçando-se para adaptar, às suas afirmações particulares, com uma aparência de veracidade, as parábolas do Senhor, as palavras dos profetas e as palavras dos Apóstolos, de modo a que o seu esquema não pareça completamente privado de apoio. Ao fazê-lo, todavia, ignoram a ordem e a conexão das Escrituras e, na medida em que são encontrados, desmembram e destroem a verdade. Transferindo as passagens, vestindo-as novamente e trocando uma coisa por outra, conseguem enganar muitas graças à sua perversa destreza que conforma os oráculos do Senhor às suas opiniões. O seu modo de agir é como se alguém – depois de uma bela imagem de um rei ter sido fabricada por um artista habilidoso com jóias preciosas – tivesse que desmembrar o retracto daquele homem em pedaços, reorganizar as gemas e reorganizá-las para lhes dar a forma de um cão ou de uma raposa, e tudo isto mal executado; e devesse, portanto, apoiar e declarar que esta é a bela imagem do rei que o artista hábil havia construído, indicando as jóias admiravelmente unidas pelo primeiro artista para formar a imagem do rei, mas que foram, com um medíocre resultado, transferidas para lhes dar a forma de um cão e, portanto, exibindo as jóias, devesse enganar os ignorantes que não têm ideia alguma de como era a forma do rei, persuadindo-os que aquele pobre retracto da raposa é, na verdade, a bela imagem do rei. Da mesma forma, estas pessoas remendam antigas lendas de mulheres e, depois, esforçam-se – afastando-se violentamente do seu justo sentido, das palavras, das expressões e das parábolas cada vez encontradas – para adaptar os oráculos de Deus às suas ficções privadas de fundamento» (Adversus haereses 1, 8, 1).               

É óbvio que o conteúdo de amplas partes do Instrumentum Laboris e as exigências do Bispo Erwin Kräutler e dos seus companheiros de viagem clericais querem, realmente, uma nova confissão cristã, que talvez venha a ser chamada de “Igreja Católica Amazónica”, mas que, no fim, se tornará numa seita em comparação com a verdadeira Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Esta última navegou, e continua a navegar, com segurança e em todos os momentos, sempre igual com lealdade incondicional à pureza da Fé e à herança imutável dos Apóstolos na liturgia e na disciplina da Igreja. Os católicos do nosso tempo reagirão com vigor a uma semelhante seita “Amazónica-Católica” que pratica a adoração da natureza e que terá um sacerdócio feminino – com as palavras pronunciadas por Santo Agostinho aos membros da seita donatista: «A Igreja, no mundo inteiro, é segura nos seus julgamentos da verdade!» (Securus iudicat orbis terrarum: Contra epistolam Parmeniani 3, 3).             

O sucessor de Pedro, o Papa, tem o preciso dever, conferido por Deus como detentor da Cátedra da Verdade (cathedra veritatis), de preservar, na sua pureza e integridade, a verdade da Fé Católica, a Constituição Divina da Igreja, a ordem sacramental estabelecida por Cristo e a herança apostólica do celibato sacerdotal; para transmiti-las ao seu sucessor e às próximas gerações. Ele não pode sustentar minimamente – com o silêncio ou com uma conduta ambígua – o conteúdo claramente gnóstico e naturalista de partes do Instrumentum Laboris, tal como a abolição do dever apostólico do celibato sacerdotal (que inicialmente seria regional para, depois, naturalmente, se tornar, passo após passo, universal). Se o Papa fizesse isto no próximo Sínodo da Amazónia, violaria gravemente o seu dever de Sucessor de Pedro e Representante de Cristo, causando, assim, um eclipse espiritual intermitente na Igreja. Mas Cristo, o invencível Sol da Verdade, varrerá este breve eclipse enviando de volta à Sua Igreja santos Papas corajosos e fiéis, para que as portas do inferno não sejam capazes de derrotar a rocha de Pedro (cf. Mt 16, 18) A oração de Cristo por Pedro e pelos seus sucessores é infalível. Isto significa que, após a sua conversão, fortalecerão novamente os seus irmãos na fé (cf. Lc 22, 32).              

A verdade, como a formulou Santo Irineu, permanecerá em pé mesmo num momento de eclipse espiritual intermitente na Igreja – como é o caso da atemporal, por permissão insondável de Deus: «Para que, na Igreja Romana, a Tradição Apostólica seja sempre preservada pelos fiéis que estão em toda a parte» (Adversus haereses 3, 3, 2).            

Monsenhor Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima, em Astana

sábado, 20 de julho de 2019

Oração de Santa Teresinha pelos sacerdotes



Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, guardai os Vossos sacerdotes no Vosso Sagrado Coração, onde nada possa manchá-los. Conservai imaculadas as suas mãos ungidas, que todos os dias tocam o Vosso Corpo Santíssimo! Conservai imaculados os seus lábios, que a cada dia, na Santa Missa, são tingidos com o Vosso Preciosíssimo Sangue! Conservai puros e desapegados dos bens desta terra os seus corações, que foram selados com o carácter sublime do Vosso glorioso sacerdócio! Fazei-os crescer no amor e fidelidade para conVosco e preservai-os do contágio do mundo! Dai-lhes, também, juntamente com o poder que têm de transformar o pão e o vinho no Vosso Corpo e Sangue, o poder de transformar os corações dos homens, e abençoai os seus trabalhos apostólicos com abundantes frutos e concedei-lhes um dia a coroa da Vida Eterna! Amen.      

quinta-feira, 18 de julho de 2019

França: quadruplicaram os ataques contra as igrejas



Vandalismo, roubos, incêndios criminosos, profanações e ataques de vários tipos, são cada vez mais frequentes nas igrejas dos Alpes, aqueles mesmos maravilhosos edifícios que os amantes de ciclismo costumam ver, hoje em dia, através das imagens televisivas das várias etapas do Tour de France.        

Os media franceses, “finalmente”, segundo os católicos, começam a abrir debates sobre as causas destes ataques, procurando compreender quem possam ser os criminosos e quais sejam as comunidades católicas mais visadas. Também se tenta entender o que representa esta onda cristianofóbica sobre a cultura francesa e sobre cristianismo local.    

Os ataques contra as igrejas católicas, de acordo com os dados do Ministério do Interior de França, quadruplicaram entre 2008 e 2019. Um dado divulgado recentemente é muito significativo: houve 228 violentos ataques anti-cristãos só no trimestre Janeiro-Março de 2019. Em todo o ano de 2018, a polícia francesa referiu 129 furtos e 877 episódios de vandalismo em locais católicos, principalmente igrejas e cemitérios, dados que levaram a França a tornar-se o país europeu com mais ataques anti-cristãos, a Europa onde a cristianofobia aumenta, como confirmado pelo Observatory on intolerance and discrimination against christians in Europe nos seus diversos relatórios e no Twitter.   

Aguardando uma posição sobre a cristianofobia da parte de Monsenhor Éric de Moulins-Beaufort, um parisiense de 57 anos, teólogo e Arcebispo de Reims, escolhido, em Abril último, como novo Presidente da Conferência Episcopal Francesa, o seu antecessor mencionou, embora suavemente, o problema. Assim, se Monsenhor Moulins-Beaufort parece mais interessado em inaugurar mesquitas, a criticar os católicos e a exortar os muçulmanos como mais devotos, o seu antecessor, Monsenhor Georges Pontier, actual Arcebispo emérito de Marselha, explicou à revista Le Point que não queria «desenvolver um discurso ligado à perseguição», porque os católicos «não querem lamentar-se», falando dos ataques mas minimizando-os, apesar dos dados serem claros.          

«As comunidades estão chocadas e são forçadas a sentir-se vulneráveis. Os ataques multiplicaram-se dramaticamente nos últimos anos e estão a ocorrer em praticamente todos os cantos de França: áreas urbanas e rurais, grandes cidades e pequenas vilas, do mesmo modo», escreveu o renomado jornalista americano Richard Bernstein, num ensaio, para a RealClearInvestigations, intitulado “Os ataques anti-cristãos em França quadruplicaram silenciosamente. Porquê?”.         

O antigo correspondente do New York Times citou o político Henri Lemoigne que falou de “consternação real” depois que alguém na região da Mancha, que administrou durante anos, invadiu uma igreja local e profanou o Corpo e o Sangue de Cristo, contido nas partículas consagradas, arremessando para o chão todo o conteúdo do Tabernáculo.  

“As pessoas sentem que os seus valores estão sob ataque, até mesmo as suas próprias vidas”, como, aliás, já aconteceu no caso do Padre Jacques Hamel, morto em 2016 enquanto celebrava a Santa Missa, em Saint-Étienne-du-Rouvray, na Normandia, por dois homens muçulmanos que tinham prometido lealdade ao Estado Islâmico do ISIS.   

O que surpreende os analistas não-franceses é o facto que estes ataques foram acolhidos com “relativa tranquilidade” na laicíssima França. Como observou Richard Bernstein, “a Igreja Católica francesa oficial optou por minimizar os ataques”, no entanto, as chamas que atingiram Notre-Dame, em Abril, e as especulações sobre as causas desse incêndio, mostraram ao mundo – pelo menos incidentalmente – a cristianofobia que avança em França.      

Entre os principais jornais franceses, apenas o conservador Le Figaro publicou uma substancial investigação sobre a cristianofobia na primeira página. Outros publicaram alguns artigos sobre acidentes individuais. A ausência de um alarme público palpável levou a revista Causeur a publicar uma série de artigos sobre os ataques sob o título geral de “Explosão de ataques anti-cristãos: as vítimas de que ninguém fala”.

Mas porquê que estes actos de cristianofobia aumentam? As respostas são complicadas. Aqueles que minimizam os actos de vandalismo, ou seja, a maioria dos meios de comunicação e muitos políticos, apontam que os ataques estão ligados a crimes de pequeno calibre. Aqueles que estão preocupados com os ataques, no entanto, rejeitam fortemente tal perspectiva. Há algum tempo atrás, Le Figaro escrevia, a propósito de vários actos de vandalismo, que «esta não é obra de ladrões».     

O que é claro é que os ataques fazem luz sobre uma série de questões fundamentais que incomodam a França. Enquanto isso, a Igreja Transalpina é considerada um alvo fraco (devido à sua constante secularização e por causa dos escândalos sexuais que a afectaram) e fácil (é praticamente impossível controlar todos os milhares de igrejas espalhadas pela França. Estes lugares, segundo o filósofo Pierre Manent, são «menos defendidos e apresentam poucos riscos, e são muitos»).         

Já houve (mais de 500 em 2018, segundo o Ministério do Interior, um aumento de 74% em relação ao ano anterior) vários ataques contra locais e símbolos judaicos (estes são bem divulgados nos media) por extremistas islâmicos e teme-se que a mesma mão esteja por trás dos ataques anti-cristãos.       

Mas uma das razões pelas quais a cristianofobia é subestimada pelo governo francês é precisamente o medo de alimentar a chamada islamofobia, isto é, a preocupação de que algumas pessoas culpem instintivamente os muçulmanos pelos ataques e protagonizem represálias, embora não haja episódios conhecidos de represálias cristãs em solo francês.

“Para a maioria dos ataques, não temos ideia dos autores”, disse, à Bernstein, a ex-promotora norte-americana Ellen Fantini, que dirige o Observatório sobre Intolerância e Discriminação contra os Cristãos, em Viena. Segundo Fantini, “é seguro dizer que há muitos ataques que nada têm que ver com grupos extremistas”.       

«Enquanto cada ataque contra uma sinagoga, uma mesquita ou um cemitério judaico ou muçulmano é amplamente divulgado nos media e provoca um coro de denúncias», escreveu Elizabeth Levy, em Causeur, os ataques contra os locais cristãos «não causaram muita perturbação», no sentido que os media não lançaram notícias relacionadas com a cristianofobia, como fizeram, em vez, sobre os actos de pedofilia e de efebofilia cometidos por alguns clérigos, escândalos que foram intensamente contados pela imprensa francesa.         

Na sua lista anual de ataques anti-cristãos em França, o observatório de Fantini inclui também os protestos de feministas radicais, com mulheres posando completamente nuas diante de estátuas ou edifícios sagrados, como aconteceu em Lourdes.   

Nos poucos casos em que os vândalos foram encontrados e presos, muitos deles pareciam psicologicamente perturbados e, alguns deles, não tinham habitação. Segundo os artigos da imprensa francesa, mais de 60% dos autores identificados eram menores desenraizados. No entanto, o mesmo jornal Liberation, por exemplo, descobriu que cerca de 60% dos ataques contra edifícios sagrados, cemitérios ou outros objectos, diziam respeito a grafites com inscrições satânicas, símbolos anarquistas, suásticas ou slogans políticos.          

Mas alguns episódios não fazem pensar só a uma explosão de uma espécie de “feia franja social desesperada”. Como qualificar, de facto, os vândalos que incendiaram a enorme porta meridional da Igreja de Saint-Sulpice, no coração de Paris, destruindo um vitral e um baixo-relevo do século XVII, ou aquele rapaz de vinte e um anos que, em Nimes, desfigurou uma cruz com excrementos humanos em que inseriu pedaços da hóstia consagrada, ou aqueles jovens que, em Villeneuve-de-Berg, urinaram na pia baptismal da igreja local?              

«Estes não são actos isolados», escreveu a revista cristã Avenir de la Culture. «Testemunham um clima profundamente anti-cristão em França», um crescimento geral do ódio anti-cristão, uma raiva incrível contra a Igreja que, pelo menos em França, parece estar ligada a três motivos: a perda geral do sentido do sagrado (como também afirmou o historiador Jean-François Colosimo), o facto de que a maioria dos sacerdotes de orientação progressista perdeu a sua autoridade moral sobre as comunidades e, ao contrário, o facto de que a Igreja que permaneceu fiel ao Catecismo Católico é considerada a preservadora dos valores e modos de vida que muitos franceses consideram “antiquados”, “irrelevantes” ou, até mesmo, “um obstáculo” para as suas vidas. Neste sentido, os ataques às igrejas cristãs e aos cemitérios parecem estar ligados àquela que, muitas vezes, é genericamente definida como a “crise da Igreja”.  

Matteo Orlando

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A Ordem de Malta mete água em muitas questões



Depois do artigo de Henry Sire e do de La Nuova Bussola, as cúpulas da Ordem de Malta emitiram um comunicado para refutar as questões que surgiram da administração alemã, da administração extraordinária e dos preservativos em Mianmar. Tudo, obviamente, sem nenhum fundamento real. Aqui está o porquê.          

A atmosfera não parece muito serena no interior da Ordem Soberana e Militar de Malta. Depois que Henry Sire, autor de The Dictator Pope, expulso da Ordem por este motivo, escreveu em OnePeterFive um artigo muito alarmado, no qual levantava hipóteses de mutações genéticas e talvez o desaparecimento da Ordem; e depois que La Nuova Bussola deu conta disso, enriquecendo-o com informações e matéria apropriada, os líderes da Ordem reagiram difundido uma declaração para rejeitar as numerosas questões abordadas pelo artigo de Henry Sire e pelo nosso. A declaração “magistral” foi difundida em todos os níveis da Ordem e, de facto, não foi recebida como ouro puro; a tal ponto que recebemos, por parte de pessoas com experiência e devidamente documentadas, que vivem a vida da Ordem, precisas refutações à refutação.                   

As cúpulas da Ordem sustentam que a Ordem Soberana e Militar não foi comissariada. Aqui está o que diz o comunicado: «A Ordem de Malta nunca foi comissariada pelo Vaticano. A Ordem de Malta mantém a sua independência e soberania. (…) Isto permitiu superar a crise (…) que detonou em Dezembro de 2016 fruto das decisões equivocadas do então Grão-Mestre encorajado pelos seus colaboradores que promoveram interesses pessoais, contrários à missão e ao espírito da Ordem».                     

A resposta é devastadora. «É verdadeiramente curioso que se tenda a escrever que a Ordem de Malta não foi objecto de “intervenção”. E como se deveria chamar à situação pela qual será nomeado um “delegado especial do Papa” numa terceira entidade que paralelamente se qualifica como “de direito internacional”?». Como se chama a situação em que o mesmo «delegado» assume, «de facto», o lugar do representante da Santa Sé junto daquele mesmo sujeito (Cardinalis Patronus) deixando-lhe, no entanto, o cargo formal, embora completamente interdito? Como se deveria chamar a situação através da qual o mesmo «delegado especial» se faz portador da disposição pela qual se congelam as vocações religiosas impedindo as profissões solenes e proibindo a admissão de novos candidatos ao noviciado? Como se deveria chamar a situação pela qual os professos – que são os verdadeiros Cavaleiros da Ordem de Malta – estão a ser continuamente desautorizados nas suas tarefas, favorecendo, ao invés, a nomeação de cavaleiros que fizeram a promessa de «obediência» aos superiores da Ordem? E, então, perguntamo-nos, se é verdade quanto se lê no artigo, porquê que o ex-Grão-Mestre Festing se teria demitido nas mãos do Papa? Fala-se, depois, de «decisões equivocadas» do então Grão-Mestre «encorajado pelos seus colaboradores que promoveram interesses pessoais». Mas em que sentido? Quem são esses «colaboradores», quais seriam esses «interesses pessoais»? Quais são as «decisões equivocadas»? Foi levado a cabo um processo respeitante a essas circunstâncias ou é apenas um processo às intenções, obviamente póstumas? E a história dos preservativos? E a carta do Papa, de 2 de Dezembro de 2016, ao Cardeal Burke e as infiltrações de que se falava? Parecem quase as justificações das crianças que, para não serem interrogadas, dizem que o avô morreu... pela vigésima vez.          

O segundo tema interessante diz respeito à história dos preservativos que, em 2016, desencadeou o conflito entre o poderosíssimo e tão patrocinado Grão-Chanceler Albrecht von Boeselager – que por causa disto não pediu a demissão – e o então Grão-Mestre, Fra’ Mathhew Festing, que, face à recusa do primeiro, o demitiu e, mais tarde, foi forçado pelo Papa Bergoglio a demitir-se, enquanto que Boeselager foi reintegrado. Boeselager sabia que a Malteser International distribuía preservativos? Um tribunal civil de Hamburgo julgou um caso entre Boeselager e Kath.net. No comunicado lemos: «A sentença do Tribunal Regional de Hamburgo não estabelece que o Grão-Chanceler Albrecht Boeselager tivesse conhecimento da distribuição dos pacotes de ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas contendo contraceptivos antes que esse facto fosse descoberto, pela Malteser International, em Novembro de 2013».      

Também aqui a resposta que é dada admite poucas respostas: «Sentença do Tribunal de Hamburgo. Pena que tudo o que se escreve já tenha sido negado por tantas publicações em Dagospia.com e que as fontes entrem em conflito com o que se lê». Não só isso. Fomos ver o que escreveu Kath.net após o processo: «O tribunal reconheceu o facto de que a Malteser International continuou a sustentar este esforço de assistência durante vários meses após a distribuição do fornecimento de preservativos no âmbito de um projecto em Mianmar, e isso também foi feito com o conhecimento e de acordo com a vontade do senhor Boeselager Um mandato temporário que Boeselager obteve, segundo uma informação de Kath.net, foi revogado neste assunto de crucial importância».                   

Henry Sire, por sua vez, cita o veredicto do tribunal: «A impressão convincente é que o Requerente (Boeselager) sabia que os preservativos tinham sido distribuídos em operações de auxílio da Malteser International usando os pacotes de assistência do ACNUR. O Tribunal considera que um leitor imparcial poderia, de facto, ser levado a acreditar que o Requerente (Boeselager) era efectivamente responsável por todas as acusações feitas contra ele, o que necessariamente implica a sua plena consciência de todas as circunstâncias relevantes. Na sua sentença, o Tribunal observa que, na realidade, a impressão que tem é verdadeira».       

Que mais se pode dizer? Parece singular, na verdade, que, diante desta validação externa apresentada num tribunal civil, Albrecht von Boeselager ainda seja Grão-Chanceler. Seria interessante, entre outras coisas, saber quais foram os resultados da investigação interna que levou Fra’ Matthew Festing a pedir a Boeselager que se demitisse. Talvez a Ordem os dê a conhecer, num esforço de transparência e honestidade.       

Por razões de espaço não podemos apresentar a contra-argumentação na sua totalidade, mesmo se alguns aspectos – uma problemática doação de origem suíça, o ukase contra a Missa vetus ordo, as demissões de muitos membros romanos e outros ainda – mereceriam atenção. Mas não podemos ignorar o que é uma questão central e que também recaiu sobre elementos que somos obrigados a passar ao lado. Ou seja, o domínio do partido alemão. Sobre este assunto a refutação afirma: «No último Capítulo Geral (1 e 2 de Maio de 2019) de 67 com direito a voto, apenas 3 eram alemães, em comparação com 16 italianos, 6 ingleses, 5 franceses. Entre os 6 eleitos para o Soberano Conselho de Governo da Ordem, apenas dois pertenciam à Associação Alemã».         

Talvez tivessem feito melhor não tocando no assunto. Porque a contra-argumentação parece, mais uma vez, decisiva: «É verdadeiramente mistificante a acusação sobre a suposta hegemonia alemã». Já de si faz rir que uma ordem de cavalaria e nobiliárquica com mais de 900 anos de história esteja a defender-se dizendo «não, não é verdade, não fomos nós». Com maior razão é verdadeiramente patético que inventem números fazendo o que é comumente chamado de “contas à merceeiro” quando no Capítulo Geral intervieram os alemães ou pró-alemães Albrecht Freiherr von Boeselager (Grão-Chanceler, alemão), Erich von Lobkowicz (Presidente da Associação Alemã), Joannes von Lobkowicz (irmão do ex-Procurador da Boémia), János Esterházy de Galántha (Recebedor do Grande Tesouro, de família húngara, mas nascido e criado na Alemanha, como demonstra o seu perfil biográfico no site oficial da Ordem), Winfried Graf Henckel von Donnersmarck (membro do Soberano Conselho, que vive na Suíça, mas de família austro-húngara), Norbert Salburg-Falkenstein (Procurador da Áustria, cuja esposa é alemã), Martin von Walterskirchen von zu Wolfsthal (Presidente da Associação Suíça, alemão), Benedicta Lindberg, nascida Benedicta Gräfin von Plettenberg (Presidente da Associação Escandinava, casada com o sueco Ulf Lindberg e que não se excluem parentescos com os von Boeselager).    

Portanto, para além do facto de que não é verdade que os alemães no último Capítulo Geral fossem apenas três – como nas anedotas – mostra objectivamente que o cargo de Grão-Chanceler, através de proximidades e conivências, tem um controlo político sobre o órgão de governo e sobre a vida da Ordem, favorecendo, por exemplo, a constante participação da Associação Libanesa (liderada por Marwan Sehnaoui, embora seja membro da comissão de vigilância nomeada por Parolin) e a exclusão da Associação Maltesa, considerada não-alinhada; não permitindo à Associação dos Cavaleiros Italianos a presença com voto, citando a justificação formal de que não é uma verdadeira Associação Nacional e que a Itália já estaria representada pelos três Grão-Priorados, que agora são governados por procuradores não-professos; fazendo com que, actualmente, a Associação Canadiana, com as suas posições mais próximas dos professos, esteja a ser marginalizada, como também são as posições da Associação Norte-Americana.        

Contudo, para além do facto de que numa estrutura orgânica como a Ordem de Malta, que se rege por laços de nobreza de sangue, constitui um sofisma formalista sustentar que apenas quem tenha o bilhete de identidade alemão o seja, e não os outros, deve-se notar que a hegemonia – como eles mesmos a definem – se pode exercer de vários modos, muitas vezes de modo subtil e em segredo. De facto, talvez “sobretudo” dessa maneira.      

Último detalhe “de família”: Georg von Boeselager (sim, o irmão de Albrecht) é membro do Conselho de Superintendência para as Obras de Religião (IOR) desde 15 de Dezembro de 2016. A nomeação chega com uma nota da Secretaria de Estado. Mas esta também é uma coincidência. Claro.           

Marco Tosatti

terça-feira, 16 de julho de 2019

Crítica do Cardeal Müller ao IL do Sínodo sobre a Amazónia



O Cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, apresentou um documento no qual analisa alguns pontos-chave do Instrumentum Laboris, o projecto de trabalho do Sínodo sobre a Amazónia, publicado pela Santa Sé a 17 de Junho. Este documento, de acordo com o Cardeal Müller, contém um «falso ensinamento» a respeito, sobretudo, das fontes da Revelação. A declaração do Cardeal Müller, que aparece no dia 16 de Julho, festa de Nossa Senhora do Carmelo, é publicada simultaneamente em cinco idiomas: em italiano por Corrispondenza Romana; em inglês por LifeSiteNews; em alemão por Die Tagespost, Kath.net e CNA Deutsch; em espanhol por InfoVaticana; em português por Dies Iræ.

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«Ninguém pode pôr um alicerce diferente do que já foi posto: Jesus Cristo» (1Cor 3, 11)

Sobre o conceito de Revelação como se encontra
no Instrumentum Laboris do Sínodo sobre a Amazónia

1. Sobre o método do Instrumentum Laboris (IL)         

Ninguém questionaria a boa vontade daqueles que estão envolvidos na preparação e implementação do Sínodo para a Igreja na Amazónia e a sua intenção de fazer todo o possível para promover a Fé católica entre os habitantes desta grande região e a sua fascinante paisagem.   

A região amazónica deve servir para a Igreja e para o mundo como «um pars pro toto, um paradigma, uma esperança para o mundo» (IL 37). Esta tarefa em si já mostra a ideia de um desenvolvimento “integral” de todos os homens na única casa da terra, pela qual a Igreja se declara responsável. Esta ideia encontra-se repetidamente no Instrumentum Laboris (IL). O texto em si é dividido em três partes: 1) A voz da Amazónia; 2) Ecologia integral: o clamor da terra e dos pobres; 3) Igreja Profética na Amazónia: desafios e esperanças.  

Estas três partes são construídas segundo o esquema que também a Teologia da Libertação usa: ver a situação – julgar à luz dos Evangelhos – agir para estabelecer melhores condições de vida.           

2. Ambivalência na definição dos termos e dos objectivos    

Como acontece frequentemente quando se escrevem estes textos preparatórios, há sempre grupos de pessoas com uma mentalidade semelhante que trabalham em partes individuais com um resultado que deriva em fatigosas redundâncias. Se se devesse apagar rigorosamente todas as repetições, o texto poderia facilmente reduzir-se à metade da sua extensão, e talvez até menos.                       

O problema principal, no entanto, não é a extensão quantitativamente excessiva, mas o facto de os termos-chave não serem clarificados e serem usados
​​de forma inflacionária: o que é um caminho sinodal, o que é o desenvolvimento integral, o que é uma Igreja samaritana, missionária, sinodal e aberta? Ou uma Igreja virada para o exterior, a Igreja dos pobres, a Igreja da Amazónia e muito mais? Esta Igreja é qualquer coisa de diverso do Povo de Deus ou deve ser entendida simplesmente como a hierarquia de Papa e Bispos? E constitui uma parte ou está da parte oposta ao povo? Povo de Deus é um termo sociológico ou teológico? Ou não é antes a comunidade dos fiéis, juntamente com os seus pastores, que está em peregrinação para a vida eterna? São os bispos que devem ouvir o clamor do povo, ou é Deus que, assim como fez com Moisés durante a escravidão de Israel no Egipto, agora diz aos sucessores dos apóstolos que afastem os fiéis do pecado e os preservem da impiedade do naturalismo e do imanentismo secularista para conduzi-los à salvação através da Palavra de Deus e dos sacramentos da Igreja?        

3. Hermenêutica ao contrário    

A Igreja de Cristo foi, por acaso, colocada, pelo seu Fundador, como uma espécie de matéria-prima nas mãos de bispos e papas que – iluminados pelo Espírito Santo – podem agora transformá-la num instrumento actualizado com objectivos também seculares?                   

A estrutura do texto apresenta uma inversão radical na hermenêutica da teologia católica. Na concepção clássica, a relação entre a Sagrada Escritura e a Tradição Apostólica, por um lado, e o Magistério da Igreja, por outro, foi determinada de tal maneira que a Revelação está totalmente contida na Sagrada Escritura e na Tradição, enquanto é tarefa do Magistério – juntamente com o sensus fidei de todo o Povo de Deus – dar interpretações autênticas e infalíveis. A Sagrada Escritura e a Tradição são, portanto, os princípios constitutivos para conhecer a profissão de Fé católica e a sua reflexão teológico-académica. O Magistério, por sua vez, age de maneira simplesmente interpretativa e reguladora (Dei Verbum, nn. 8-10; 24).                         

Em vez disso, no caso do IL, é exactamente o oposto. Toda a linha de pensamento é transformada em caminhos auto-referenciais e circulares em torno dos novos documentos magistrais do Papa Francisco, nos quais são inseridas algumas referências a João Paulo II e a Bento XVI. A Sagrada Escritura é pouco citada, os Padres da Igreja mal e, quando o são, de maneira exclusivamente ilustrativa e para apoiar teses preexistentes por outros motivos. Talvez se queira mostrar, assim, uma especial lealdade ao Papa, ou crê-se, deste modo, poder evitar os desafios do trabalho teológico, referindo-se constantemente às bem conhecidas e repetidas palavras-chave de Francisco, que os autores do documento chamam – de modo bastante desleixado – «o seu mantra» (IL 25). Esta adulação é levada ao extremo quando os autores, depois de afirmarem que «os sujeitos activos da inculturação são os próprios povos indígenas» (IL 122), acrescentam a estranha formulação segundo a qual «como afirmou o Papa Francisco, “a graça supõe a cultura”». Como se tivesse sido ele a descobrir este axioma – que é, obviamente, um axioma fundamental da própria Igreja Católica. No original, no entanto, é a Graça que pressupõe a Natureza, assim como a Fé pressupõe a Razão (cf. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 1 a 8).          

Paralelamente à confusão de papéis tanto do Magistério como da Sagrada Escritura, o IL chega ao ponto de afirmar que existem novas fontes de Revelação. O IL afirma, no n. 19: «Além disso, podemos dizer que a Amazónia – ou outro espaço territorial indígena ou comunitário – não é somente um ubi (um espaço geográfico), mas também um quid, ou seja, um lugar de sentido para a fé ou a experiência de Deus na história. O território é um lugar teológico a partir do qual se vive a fé, mas é também uma peculiar fonte de revelação de Deus. Estes espaços são lugares epifânicos onde se manifesta a reserva de vida e de sabedoria para o planeta, uma vida e sabedoria que falam de Deus».    

Se aqui um determinado território é declarado «uma fonte peculiar da revelação de Deus», deve-se afirmar que se trata de um ensinamento errado, já que por 2000 anos a Igreja Católica tem infalivelmente ensinado que a Sagrada Escritura e a Tradição Apostólica são as únicas fontes de Revelação e que nenhuma ulterior Revelação pode ser acrescentada ao longo da história. Como afirma a Dei Verbum, «não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública» (n. 4). A Sagrada Escritura e a Tradição são as únicas fontes de Revelação, explica a Dei Verbum (n. 7): «Esta sagrada Tradição e a Sagrada Escritura dos dois Testamentos são como um espelho no qual a Igreja peregrina na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, até ser conduzida a vê-lo face a face tal qual Ele é». «A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à Igreja» (Dei Verbum, n. 10).                 

Para além destas impressionantes declarações e referências, a organização da Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM) – que foi encarregada da preparação do IL e que foi fundada precisamente para isso em 2014 – assim como os autores da chamada Theologia india (Teologia indígena), no texto citam-se, principalmente, a si mesmos.                     

É, portanto, uma restrita sociedade de pessoas com a mesma visão do mundo, como se pode ver facilmente na lista de nomes daqueles que participaram nas reuniões pré-sinodais em Washington e em Roma, onde encontramos um número desproporcional de europeus, principalmente de língua alemã.          

Estes homens sentem-se imunes às mais sérias objecções porque acreditam que se baseiam apenas num doutrinarismo ou num dogmatismo monolíticos, bem como num ritualismo (IL 38; 110; 138), ou num clericalismo incapaz de dialogar (IL 110), no modo rígido de pensar dos fariseus ou no orgulho da razão dos escribas. Discutir com pessoas deste tipo seria, para eles, apenas uma perda de tempo e um esforço inútil.   

Entre eles, nem todos conhecem a América do Sul e só participam porque pensam que isso está de acordo com a estratégia oficial e possa servir
​​para controlar os temas do actual caminho sinodal da Conferência Episcopal Alemã e do Comité Central dos Católicos Alemães (abolição do celibato, acesso das mulheres ao sacerdócio e a posições-chave de poder contra o clericalismo e o fundamentalismo, a adaptação da moral sexual revelada à ideologia de género e o apreço pelas práticas homossexuais). 

Eu próprio fui muito activo no campo pastoral e teológico no Peru e em outros países por 15 anos consecutivos, todos os anos por 2-3 meses, principalmente nas paróquias e nos seminários sul-americanos. Não estou, portanto, a julgar numa perspectiva puramente eurocêntrica, como, certamente, alguns gostariam de me censurar.      

Qualquer católico concordará com um importante objectivo do IL, ou seja, que os povos da Amazónia não deveriam ser objecto de colonialismo ou neocolonialismo, nem objecto de forças interessadas apenas no lucro e no poder, em detrimento da felicidade e da dignidade dos outros. É claro na Igreja, na sociedade e no estado que as pessoas que lá vivem – especialmente os nossos irmãos e irmãs católicos – são iguais e agem livremente nas suas vidas e no seu trabalho, na sua Fé e na sua moral, e nisso está a nossa comum responsabilidade diante de Deus. Mas como se pode realizar isto?                      

4. O ponto de partida é a revelação de Deus em Jesus Cristo           

Sem dúvida, o anúncio do Evangelho é um diálogo, que corresponde à Palavra (Logos) de Deus dirigida a nós e à nossa correspondência, de acordo com o dom gratuito da obediência à Fé (Dei Verbum, n. 5). Porque a missão vem de Cristo, o Homem-Deus, e porque Ele transmitiu a sua missão do Pai aos seus apóstolos, as alternativas de uma abordagem dogmática “de cima” versus uma abordagem pedagógico-pastoral “de baixo” não têm sentido, a menos que rejeitemos o que é definido como o «princípio divino-humano do caso pastoral» (Franz Xaver Arnold).      

Mas o homem é o destinatário do mandato missionário universal de Jesus (Mt 28, 19), «o mediador universal e único da salvação entre Deus e toda a humanidade» (Jo 14, 6; Act 4, 12; 1Tm 2, 4 ss.), e o homem pode reflectir, com a ajuda da sua razão, sobre o significado da vida entre o nascimento e a morte; a sua vida é abalada por crises existenciais e ele, na vida e na morte, põe toda a sua esperança em Deus, origem e fim de cada ser.        

Uma cosmovisão com os seus mitos e a magia ritual da Mãe “Natureza”, ou com os seus sacrifícios aos “deuses” e aos espíritos que amedrontam o nosso intelecto ou que nos atraem com falsas promessas, não pode ser a correcta abordagem para o advento do Deus Trino no seu Verbo e no seu Espírito Santo. E menos ainda a abordagem pode ser aquela da visão do mundo científico-positivista de uma burguesia liberal que aceita o cristianismo apenas como cómoda sobrevivência de valores morais e rituais civis e religiosos.

Mas, realmente, na formação dos futuros pastores e teólogos, o conhecimento da filosofia clássica e moderna, dos Padres da Igreja, da teologia moderna, dos Concílios será substituído pela cosmovisão amazónica e pela sabedoria dos ancestrais com os seus mitos e rituais?         

Se a expressão “cosmovisão” significa apenas que todas as coisas criadas são interdependentes, tratar-se-ia de um simples lugar comum. Por causa da unidade substancial do corpo e da alma, o homem encontra-se no ponto de intersecção do tecido do espírito e da matéria. Mas a contemplação do cosmo é apenas ocasião para a glorificação de Deus e da Sua maravilhosa obra na natureza e na história. Não é o cosmo que deve ser adorado como Deus, mas só o próprio Criador. Não nos prostramos de joelhos diante da enorme força da natureza e diante de «todos os reinos do mundo com a sua glória» (Mt 4, 8), mas somente diante de Deus, «pois está escrito: ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto» (Mt 4, 10). Foi assim que Jesus rejeitou o diabólico sedutor no deserto.          

5. A diferença entre a encarnação do Verbo e a inculturação como caminho de evangelização    

A «Teologia indígena e a eco-teologia» (IL 98) é uma derivação do romantismo social. A teologia é a compreensão (intellectus fidei) da Revelação de Deus na sua Palavra, na Profissão de Fé da Igreja, e não é uma contínua mistura de sentimentos e visões do mundo ou de constelações religiosas-morais de um sentimento cósmico de tudo-em-um, num rearranjo do sentimento de si mesmo com o mundo (hen kai pan). O nosso mundo natural é a criação de um Deus pessoal. A fé no sentido cristão é, portanto, o reconhecimento de Deus no Seu Verbo Eterno que se fez Carne; é iluminação no Espírito Santo, para que reconheçamos Deus em Cristo. Com a fé, vêm até nós as virtudes sobrenaturais da esperança e da caridade. É assim que nos compreendemos como filhos de Deus, que, por meio de Cristo, dizem a Deus, no Espírito Santo, Abbá, ó Pai! (Rm 8, 15). Se depositarmos toda a nossa confiança n’Ele, Ele far-nos-á seus filhos, livres do medo das forças elementares do mundo e das aparições demoníacas de deuses e espíritos, que nos esperam malignamente na imprevisibilidade das forças materiais do mundo.

A Encarnação é um evento único na história que Deus livremente determinou na Sua vontade universal de salvação. Não é uma inculturação, e a inculturação da Igreja não é uma encarnação (IL 7; 19; 29; 108). Não foi Irineu de Lião, no seu quinto livro de Adversus haereses (IL 113), mas Gregório Nazianzeno que formulou o princípio: «quod non est suppositum non est sanatum
o que não foi assumido, não foi redimido» (Ep. 101, 32). O que aqui se pretendia era a completude da natureza humana contra Apolinário de Laodiceia (315-390), que pensava que o Logos na Encarnação havia assumido apenas uma natureza humana sem uma alma humana. É por isso que a seguinte frase é completamente abstrusa: «A diversidade cultural exige uma encarnação mais real para assumir diferentes modos de vida e culturas» (IL 113).         

A Encarnação não é o princípio de uma adaptação cultural secundária, mas é concreta e principalmente o princípio da salvação na «Igreja, Seu corpo, como universal sacramento da salvação» (Lumen gentium, n. 48), na profissão de fé da Igreja, nos seus sete Sacramentos e no episcopado com o Papa à cabeça na sucessão apostólica.           

Os ritos secundários das tradições dos povos podem ajudar a enraizar na cultura os sacramentos, que são os meios de salvação instituídos por Cristo. Podem, no entanto, não se tornar independentes, de modo que, por exemplo, improvisamente os costumes matrimoniais tornam-se mais importantes do que a palavra-Sim (“Ja-Wort”), que é constitutiva do próprio Sacramento do Matrimónio. Os sinais sacramentais, como foram instituídos por Cristo e pelos Apóstolos (palavra e símbolo material), não podem ser modificados por nenhum motivo. O Baptismo não pode ser validamente administrado de nenhuma outra maneira senão em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e com a água natural; e, na Eucaristia, não se pode substituir com comida local o pão feito de trigo e o vinho da videira. Isto não seria inculturação, mas uma interferência inadmissível na vontade de Jesus como fundador (“Stiftungswillen”) e seria também uma destruição da unidade da Igreja no seu centro sacramental.     

Se a inculturação aqui se refere à celebração externa secundária do culto divino e não aos sacramentos – que são ex opere operato, através da Presença viva de Cristo, o fundador e verdadeiro dispensador de graças nestes sinais sacramentais – então a seguinte frase é escandalosa ou, pelo menos, imprudente: «Sem esta inculturação, a liturgia pode reduzir-se a uma “peça de museu”, ou a “uma possessão de poucos”» (IL 124).                     

Deus não está simplesmente em toda a parte e igualmente presente em todas as religiões, como se a Encarnação fosse apenas um fenómeno tipicamente mediterrâneo. Na realidade, Deus, como Criador do mundo, está presente como um todo e em cada coração humano (Act 17, 27ss.) – mesmo se os olhos do homem são frequentemente cegados pelo pecado e os seus ouvidos são surdos ao amor de Deus. Mas Ele vem através da sua auto-revelação na história do seu povo eleito, Israel, e aproxima-se muito de nós no seu Verno encarnado e no Espírito que foi derramado nos nossos corações. Esta auto-comunicação de Deus como graça e vida de todo o homem é difundida no mundo através da proclamação da sua vida e do seu culto por parte da Igreja – isto é, através da missão mundial de acordo com o mandato universal de Cristo.           

Mas Ele já trabalha com a ajuda e a antecipação da Sua graça no coração daqueles homens que ainda não O conhecem explicitamente e pelo nome, de modo que, quando ouvirem falar d’Ele no anúncio apostólico, serão capazes de identificá-lo como o Senhor Jesus, no Espírito Santo (1Cor 12, 3).      

6. O critério de discernimento: a auto-comunicação histórica de Deus em Jesus Cristo         

O que falta no IL é um claro testemunho da auto-comunicação de Deus no verbum incarnatum, da sacramentalidade da Igreja, dos Sacramentos como meio objectivo de Graça em vez de simples símbolos auto-referenciais, do carácter sobrenatural da Graça, porque a integridade do homem não consiste apenas na unidade com uma bio-natureza, mas na Filiação Divina e na comunhão cheia de graça com a Santíssima Trindade, de tal maneira que a vida eterna é a recompensa pela conversão a Deus, a reconciliação com Ele, e não só com o meio ambiente e com o nosso mundo compartilhado.     

Não se pode reduzir o desenvolvimento integral a um simples suprimento de recursos materiais, porque o homem recebe a sua nova integridade só por meio da perfeição na graça, agora no Baptismo, através do qual nos tornamos uma nova criatura e filhos de Deus, e um dia na visão beatífica na comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo e em comunhão com os seus santos (1Jo 1, 3; 3ss.).       

Em vez de apresentar uma abordagem ambígua a uma vaga religiosidade e à inútil tentativa de transformar o cristianismo em ciência de salvação, sacralizar o cosmo, a biodiversidade da natureza e a ecologia, trata-se de olhar para o centro e para a origem da nossa fé: «“Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade” (cf. Ef 1, 9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina»
(Dei Verbum, n. 2).       


Cardeal Gerhard Ludwig Müller
16 de Julho de 2019, festa de Nossa Senhora do Carmo

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Estão vazios os túmulos do Cemitério Teutónico



Ontem, no Vaticano, foram abertos dois túmulos do Cemitério Teutónico em busca da desaparecida Emanuela Orlandi e não foram encontrados restos humanos no seu interior. A abertura foi feita a pedido da família de Emanuela Orlandi, a famosa jovem desaparecida, em 1983, em estranhas circunstâncias. A 2 de Julho, a Assessoria de Imprensa da Santa Sé comunicava a decisão do Gabinete do Promotor de Justiça do Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano, que ordenou, através de um decreto «a abertura de dois túmulos presentes no cemitério Teutónico».           

A decisão foi tomada depois de uma denúncia da família de Emanuela Orlandi sobre a possível ocultação do cadáver no pequeno cemitério localizado dentro do território do Estado do Vaticano. Na manhã de ontem foi aberto o chamado “Túmulo do Anjo”, no qual está sepultada a Princesa Sophia von Hohenlohe, que morreu em 1836, e a adjacente onde está sepultada a Princesa Carlota Federica de Mecklemburgo-Schwerin, falecida em 1840. Nem os restos da menina desaparecida nem os das princesas mencionadas foram encontrados depois da abertura. O mistério continua.           

Fernando Beltrán