sexta-feira, 7 de junho de 2019

Papa Francisco: filósofo da inclusão



No dia 2 de Junho, em Itália, o tradicional desfile militar para celebrar o Dia da República decorreu sob a divisa da “inclusão”. «O tema da inclusão, que caracterizou o evento, representa bem os valores estabelecidos na nossa Carta Constitucional, que afirma que nenhum cidadão se pode sentir abandonado, mas deve ser-lhe garantido o efectivo exercício dos seus direitos», declarou o Presidente da República, Sergio Mattarella. No mesmo dia, em Blaj, na Roménia, o Papa Francisco fez um «mea culpa», em nome da Igreja, pela discriminação sofrida pela comunidade cigana: «Peço perdão ─ em nome da Igreja ao Senhor e a vós ─ por quando, no decorrer da história, vos discriminámos, maltratámos ou olhámos de forma errada, com o olhar de Caim em vez de com o de Abel, e não fomos capazes de reconhecer-vos, apreciar-vos e defender-vos na vossa peculiaridade». No curso da história não há vestígios de perseguições ou maus-tratos aos ciganos por parte da Igreja, mas, com estas palavras, o Papa Francisco quis reafirmar esse princípio de “inclusão” do qual é hoje o teórico por excelência e ao qual a União Europeia submete as suas políticas. A insistência com a qual o Papa Francisco retorna a temas como inclusão, não-discriminação, aceitação, cultura do encontro, pode parecer a alguns como que uma expressão de amor pelo próximo que, para usar uma metáfora do próprio Papa Bergoglio, faz parte do «bilhete de identidade do cristão». Quem pensa assim, no entanto, comete um erro de perspectiva semelhante ao dos católicos progressistas da segunda metade do século XX, segundo os quais a atenção de Marx pelo proletariado nascia do seu amor pela justiça social. Esses católicos propunham decompor o marxismo, rejeitando a sua filosofia materialista e aceitando, em vez disso, a sua análise económica e social. Não compreendiam que o marxismo constitui um bloco inseparável e que a sociologia marxista é uma consequência directa do seu materialismo dialéctico. Marx não era um filantropo debruçado sobre a miséria do proletariado para aliviar o seu sofrimento, mas um filósofo militante que se servia desses sofrimentos como instrumento para realizar o seu fim revolucionário.                   

De forma semelhante, a atenção do Papa Francisco para com as periferias e os últimos não nasce de um espírito evangélico nem de um filantropismo secular, mas de uma escolha que, antes de ser política, é filosófica e que pode ser resumida nos termos de um igualitarismo cosmológico. Francisco utiliza, na sua encíclica Laudato sì, um neologismo: o termo «iniquidade», que indica, na substância, toda a forma de injusta desigualdade social. «O que nós queremos é a luta contra as desigualdades, este é o maior mal que existe no mundo», declarou a Eugenio Scalfari, no La Repubblica, a 11 de Novembro de 2016. Na mesma entrevista, o Papa Bergoglio adoptou como seu o conceito de «hibridização» proposto por Scalfari. E Scalfari, num editorial no mesmo jornal, a 17 de Setembro de 2017, afirma que, segundo o Papa Francisco: «na sociedade global em que vivemos, populações inteiras transferir-se-ão para este ou para aquele País e criar-se-á, com o passar do tempo, um tipo de «miscigenação» cada vez mais integrado. Ele considera-o um facto positivo, onde indivíduos e famílias e comunidades se tornam cada vez mais integrados, os vários grupos étnicos tendem a desaparecer e uma grande parte da nossa Terra será habitada por uma população com novas conotações físicas e espirituais. Levará séculos ou até mesmo milénios para que tal fenómeno aconteça, mas ─ de acordo com as palavras do Papa ─ essa é a tendência. Não é por acaso que ele prega o Deus Único, isto é, um para todos. Eu não sou crente, mas reconheço uma lógica nas palavras do Papa Francisco: um povo único e um único Deus. Até agora, não houve nenhum líder religioso que tenha pregado ao mundo esta sua verdade».              

O termo «miscigenação», como os de inclusão e de aceitação, aparece muitas vezes na pastoral do Papa Bergoglio. A 14 de Fevereiro de 2019, por ocasião do seu discurso ao Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), em Roma, Francisco encontrou-se com uma representação de povos indígenas e, definindo essas comunidades como um «um grito vivo de esperança», pediu uma «miscigenação cultural» entre os «ditos povos civilizados» e as populações nativas, que «sabem escutar a terra, ver a terra, tocar a terra». A «miscigenação cultural», explicou, é o caminho a trabalhar «para proteger aqueles que vivem nas áreas rurais e mais pobres do planeta, mas mais ricas na sabedoria de conviver com a natureza». A 19 de Janeiro de 2018, em Puerto Maldonado, no coração da Amazónia peruana, o Papa Francisco, encontrando os indígenas, disse-lhes: «O tesouro que contém esta região» não pode ser entendido, compreendido, sem a «vossa sabedoria» e os «vossos conhecimentos». Para compreender melhor esta referência à «sabedoria» e aos «conhecimentos» dos indígenas, é preciso recorrer ao trabalho de um autor caro ao Papa Francisco, como o ex-franciscano Leonardo Boff. A Amazónia, explica Boff, tem «um valor paradigmático universal», porque representa a antítese ao modelo de desenvolvimento moderno «carregado de pecados capitais (do capital) e anti-ecológicos»; esse é «o lugar certo para experimentar uma alternativa possível, em harmonia com o ritmo daquela natureza luxuriante, respeitando e valorizando a sabedoria ecológica dos nativos que ali vivem há séculos» (Grito da Terra, Grito dos Pobres, Cittadella, Roma 1996, p. 183). Para Boff, «é preciso passar do paradigma moderno para o paradigma pós-moderno, global, “holístico”, que propõe “um novo diálogo com o universo”, “uma nova forma de diálogo com a totalidade dos seres e das suas relações”» (Grito da Terra, Grito dos Pobres, pp. 26-27).  

A Amazónia não é apenas um território físico, mas um modelo cosmológico em que a natureza é vista como um todo vivo que tem em si uma alma, um princípio de actividade interno e espontâneo. Com esta natureza impregnada de divindades, os povos indígenas da América Latina mantêm uma relação que o Ocidente perdeu. A sabedoria dos nativos deve ser recuperada, pedindo perdão pelas discriminações cometidas contra eles, sem esperar que eles peçam perdão pelo canibalismo e pelos sacrifícios humanos que os seus ancestrais praticavam. As pontes que devem substituir os muros são unidireccionais. É este o pano de fundo cultural do Sínodo que se inaugurará, no Vaticano, a 6 de Outubro. A inclusão é um conceito filosófico antes que social: significa afirmação de uma realidade híbrida, indistinta, “mestiça”, em que tudo se funde e se confunde, como a teoria de género, que é a teoria da inclusão por excelência. As pessoas LGBT, como os migrantes ou os indígenas da América do Sul, devem ser bem-vindas e respeitadas não enquanto pessoas, mas pelas culturas e pelas directrizes que veiculam. Esta cosmologia lembra o Deus sive natura de Spinoza, que prega a identidade de Deus com a substância infinita da qual todos os seres derivam. Deus deve ser incluído na natureza e a natureza deve ser incluída em Deus, que não é causa transcendente, mas imanente do mundo, com que coincide. Não há diferença qualitativa entre Deus e a natureza, como não há diferença qualitativa entre diferentes sociedades, religiões ou culturas, e nem entre o bem e o mal que, segundo Spinoza, são “correlativos” (Ethica, IV, prop. 68).                       

A doutrina da inclusão não é aquela da Aeterni Patris de Leão XIII ou da Pascendi de São Pio X, mas opõe-se a esses documentos. Poucos, no entanto, se atrevem a dizê-lo abertamente. Até quando durará este ambíguo silêncio, confortável para muitos, mas sobretudo para aqueles que o usam para alcançar fins estranhos àqueles sobrenaturais da Igreja?         

Roberto de Mattei      

Sem comentários:

Publicar um comentário

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
Para esclarecimentos e comentários, queira contactar: info@diesirae.pt