sexta-feira, 10 de maio de 2019

Sínodo da Amazónia: um cavalo de Tróia para destruir o celibato sacerdotal?



O cardeal Cláudio Hummes sente que está perto de concluir um projecto concebido há muitos anos e que foi levado tenazmente adiante: o projecto de obter permissão do Vaticano para ordenar ad experimentum homens casados de certa idade (numa hipótese, com mais de 50 anos) para compensar a falta de sacerdotes no centro da remota floresta amazónica. Foi sua a ideia quando chegou a Roma, como Prefeito da Congregação para o Clero – nunca desistiu –, e viu-a converter-se numa possibilidade real depois da eleição do pontífice a quem organizou e preparou o caminho tão habilmente.            

Este assunto será discutido pelo Sínodo para a Amazónia, que terá lugar, em Roma, de 6 a 27 de Outubro. Já se trata de um importante sinal favorável: o facto de este sínodo “local” estar a discutir esse assunto, embora a Amazónia inclua vários países. O facto de que a discussão ocorrerá em Roma demonstra a importância exemplar que se lhe atribui. E, de facto, já em outras áreas do mundo, como na Alemanha, há bispos que se propõem poder ordenar os chamados viri probati para suprir a falta de ordenações sacerdotais.        

O sínodo terá como tema: “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. O principal objectivo indicado pelo Papa para o sínodo é “encontrar novos caminhos para a evangelização e para aquela porção do povo de Deus, em particular os povos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também devido à crise da floresta amazónica, um pulmão de importância fundamental para o nosso planeta”.                     

Os participantes serão eleitos nas diferentes regiões do mundo para confirmar, assim, que todos os bispos participam em comunhão hierárquica no evento. A Pan-Amazónia é composta por nove países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. É uma região habitada por 34 milhões de pessoas, uma importante fonte de oxigénio para todo o planeta. Vinte por cento da água doce do mundo, que não está congelada, encontra-se ali.       

O cardeal Cláudio Hummes declarou, em entrevista ao jornal Estadão: “Cerca de 70% da comunidade da Amazónia não recebe os Sacramentos da Eucaristia, da Penitência e da Unção dos Doentes devido à falta de sacerdotes”. Hummes, já aposentado há algum tempo, é o chefe do comité sobre a Amazónia para a Conferência Episcopal do Brasil. A solução que se propõe são os viri probati e, oficialmente, o cardeal Hummes está a depositar nisso a sua confiança e a dizer que a decisão final será a do Papa Bergoglio. O sínodo é uma assembleia consultiva e os bispos, depois de terem votado com base nas conclusões, apresentarão as suas recomendações como conselheiros do Papa, que decidirá, se o desejar, publicar um documento final.     

“O Papa”, diz Hummes, “fala de novos caminhos. Nesta procura de novos caminhos, há a discussão sobre os ministros. Actualmente a Igreja não possui um número suficiente de sacerdotes para a comunidade. Carecem de sacerdotes. É o sacerdote quem celebra a Missa, ouve confissões e dá a Unção dos Enfermos”.                

À questão se é possível que se permita a ordenação de leigos casados, o cardeal respondeu: “Será o sínodo que dirá sim ou não. Mas a partir do que se viu durante a preparação até agora, será necessário discutir esta questão da necessidade de ministros na Igreja da Amazónia de uma maneira particular. A discussão não significa que seria para todo o Mundo, mas para esta situação de extrema necessidade”.                      

Não é difícil supor que, de uma situação de extrema necessidade num continente ou numa região em particular, será possível passar a uma situação de extrema necessidade ou escassez noutro lugar – já não na floresta tropical, mas nas selvas do secularismo ocidental. E o entrevistador perguntou, falando da possibilidade de um sacerdócio ou diaconado feminino, se se aplicarão os mesmos critérios em relação às mulheres. Hummes respondeu: “Isso é muito mais distante”, o que implica que, em contraste, uma decisão favorável para os viri probati seja muito mais provável e mais próxima.                 

Marco Tosatti    

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