domingo, 12 de maio de 2019

O catolicismo não é judaico-cristão



Tornou-se moda entre os cristãos referir-se à nossa religião com a denominação de judaico-cristã. A Igreja, na medida em que rompeu a sua conexão original com a Sinagoga, adaptou o seu magistério às exigências da civilização greco-latina e separou-se de tudo aquilo que, na tradição israelita, pudesse ter de hebraico. A atitude de Pedro e de Paulo ao tomar Roma como centro do seu apostolado foi, desde o começo, favorável a um entendimento profundo com as expressões mais notáveis da civilização helénico-romana.     

Política, arte, ciência, economia e língua vinham, agora, do mundo gentio greco-latino. De Israel conservava-se a Escritura e, com ela, o conteúdo da tradição revelada, mas examinado à luz dos princípios impostos pelo mistério do Verbo Encarnado. O encontro de gregos e cristãos foi decisivo para o futuro de uma assembleia religiosa cuja catolicidade dependia dessa união.         

Ninguém pode negar que o povo de Israel, como qualquer outro, teve usos e costumes que dependiam naturalmente do seu temperamento, das suas virtudes, dos seus vícios, das vicissitudes da sua história, da sua ignorância e dos seus conhecimentos. Separar isso dos conteúdos revelados tem sido a tarefa do Magistério da Igreja.                

O Símbolo de Niceia é uma condensação particularmente feliz desse discernimento e prepara, no início do século IV, a formulação de uma Teologia Dogmática que pouco terá que adicionar ao seu conteúdo essencial no decorrer dos séculos.            

Esse esforço exegético e o seu conteúdo dogmático nada devem à “forma mentis” israelita, mais inclinada às longas dissertações em torno dos artigos da fé, da interpretação da lei ou das visões apocalípticas, mas a uma clara precisão doutrinária onde aparece, com toda a sua força, o gosto greco-romano pela clareza e pela conclusão.                      

O núcleo da religião está constituído pela Revelação e essa, em sentido estrito, não é judia, ainda que o povo hebreu tivesse sido eleito por Deus para a sua recepção. Chamar os conteúdos revelados por Jesus de judaico-cristãos teria sentido se não fossem revelados, mas sim o fruto da espiritualidade hebreia, como foram as suas instituições, os seus cânticos, as suas visões e a sua história nacional. 

Jesus obrou em todo o momento como Deus feito homem e não como judeu. Reclamou para si uma autoridade e uma obediência que nenhum cidadão israelita poderia reclamar.     

Sócrates, Platão e Aristóteles são gregos na medula da sua espiritualidade e temos que agradecer à Hélade a herança dos seus respectivos ensinamentos. Mas Cristo é Deus e, embora encarnado no seio de uma Virgem hebreia, nem o seu espírito, nem as suas palavras estão circunscritas às fronteiras do povo onde nasceu. Na relação vital Cristo-Israel, o último é o veículo ou, se quiser, o meio através do qual ressoa a eternidade do Verbo.         

Assim como Deus elegeu o povo de Israel para que, do seu seio, nascesse o Messias, elegeu uma civilização para estabelecer sobre ela a sua Igreja. De Israel exigiu a lealdade à Aliança e, sobre os que foram fiéis, edificou a sua comunidade sacrificial. Da latinidade, tomaria as obras: o idioma, as ciências, o direito, a arte, os critérios políticos, económicos e militares. Numa palavra, tudo isso que a latinidade, assumindo o esforço genial dos gregos, plasmou com o seu génio peculiar.    

Em que consiste esse génio e porquê que Deus pôs os seus olhos em Roma para que fosse a cabeça da sua Igreja? É um velho princípio de sabedoria teológica admitir que os desígnios da Providência são inescrutáveis. Atrever-me-ia a afirmar que a importância política de Roma, o seu génio universal e essa disposição prática que mostrou no governo de outros povos não deixaram de entrar nos desígnios da Providência, nem careceram de forças para que Roma fosse eleita como instrumento da expansão universal da Igreja Católica.   

Roma foi erigida por inspiração do Espírito Santo e porque a sua eleição supunha a adopção do instrumento apto para expandir a fé e conservá-la no idioma mais adequado pela sua essencialidade e pela sua precisão enunciativa. Essas são as virtudes que permitiram a permanência das verdades contidas no traditum e a possibilidade de que fossem claramente explicadas a todas as inteligências.    

Uma das piores tentações que ameaçam o cristão de hoje é renunciar à férula romana para substituí-la por um angelismo de um Evangelho sem fundamento civilizador. Nestes tempos, nasceu a ideia peregrina de renunciar às categorias intelectuais greco-latinas para favorecer, como se diz, um utópico encontro semântico com outras civilizações.           

Roma, e a civilização que nasceu do seu encontro com a revelação cristã, foi escolhida por muitas razões que ignoramos, mas é preciso perceber que a civilização latina foi a mais adequada, pelas suas condições, para cumprir a missão universal da Igreja.       

A civilização latina, enquanto recebeu o influxo da religião católica, começou o grande périplo de uma transformação cultural solicitada pela pressão misteriosa da Graça. Os efeitos transfiguradores da vida sobrenatural não só se fazem sentir sobre a alma individual, influem também sobre as actividades do espírito como a ciência, a economia, a arte e a política, sob a influência do homem sobrenaturalmente regenerado.    

A humilitas é a consciência de finitude e de dependência total perante Deus que descobre o único caminho verdadeiro pelo qual pode transitar o nosso reencontro com o Absoluto. A questão social, como se diz hoje, não se poderá resolver jamais se não é na figura da generosa entrega dos fortes ao serviço dos mais fracos.                         

A fé, a esperança e a caridade não são virtudes imbecis e com uma exagerada propensão a crescer em terrenos covardes. Requerem, antes de tudo, uma boa vontade e uma inteligência dócil ao dado revelado e pouco influída pelo desejo constante de justificar más paixões e interesses baixos. Se pensarmos bem, para ser um bom cristão é necessário uma limpeza de alma pouco comum e isso, no fim das contas, implica em nobreza.                   

A aproximação destes dois termos, judaico-cristão, aplicado às verdades reveladas por Deus, traz consequências lamentáveis porque relativiza o conteúdo religioso, fazendo-o depender da civilização hebreia, e isso não é católico, embora venha com a pretensão de ser muito protestante e moderno. Tampouco é aceitável se o aplicamos à nossa civilização que é, essencialmente, greco-latina.                      

Rúben Calderón Bouchet

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