quinta-feira, 16 de maio de 2019

“Não precisamos de uma Igreja que seja uma sub-organização da ONU”



O Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, não deixa ninguém indiferente. Tornou-se, muito relutantemente, num poderoso foco de atenção. Na sua recente visita a Madrid, por ocasião de uma solene liturgia da Ordem Constantiniana de São Jorge, da qual é o Grão-Prior, concedeu esta entrevista exclusiva à InfoVaticana. 

InfoVaticana (IV) – Eminência, falemos sobre o conceito de sinodalidade. Quais são as referências teológicas, segundo o Magistério da Igreja, da sinodalidade? Para que se está a utilizar na prática, na vida da Igreja, hoje, este conceito? Existe o risco de instrumentalizar esta prática para outras coisas?
         

Cardeal M
üller (CM) – Sinodalidade é um neologismo. Antes existia a colegialidade dos Bispos, o trabalho junto com o Papa. E havia os sínodos regionais, provinciais, o sínodo geral, o concílio ecuménico... Mas, teologicamente, é algo novo, com um pouco de invenção. A colaboração é natural entre todos os membros da Igreja. Por isso, não entendo qual é um sentido de sinodalidade que seja diferente do que já tivemos em toda a história da Igreja. Como se os processos pudessem mudar as ideias na Igreja. Mais importante que os processos é orientar-se para os princípios clássicos da Sagrada Escritura, da tradição apostólica, do magistério, nas declarações, definições infalíveis... Estes são os pontos de referência e não podemos mudar pouco a pouco a doutrina da Igreja para levá-la às ideias que são contra a Revelação.                        

IV – Neste sentido, falando de processos, não lhe preocupa o caminho sinodal da Igreja alemã como ponta de lança?      

CM –
Isto é uma loucura. Eles pensam que os abusos sexuais da parte de alguns clérigos teriam algo a ver com a interpretação da sexualidade ou com o celibato e o acesso das mulheres ao sacerdócio. O caso dos abusos é instrumentalizado para fazer outra agenda. É absolutamente falso. Não se pode aceitar isto porque os abusos têm muitas causas, entre outras a desorientação da moral. O fracasso da moral pessoal e também eclesiástica, dado que não se entendeu bem a disciplina eclesiástica. Um homem é sacerdote de Jesus Cristo para dar um bom exemplo aos demais. O sacerdote corre o risco de cair em tentação, de não respeitar os jovens na santidade da vida, na personalidade... Essas são as verdadeiras razões deste fracasso. A grande maioria dos padres são bons, não se pode culpar esses bons padres pela culpa pessoal de outras pessoas. Sabemos que há abusadores nas famílias, que há pais abusadores, mas não se pode dizer que a maioria desses perpetradores, daqueles que fazem essas coisas, são os pais. Porque a maioria dos pais são bons pais.           

IV – O texto de Bento XVI, sobre as causas da pedofilia na Igreja, acha que foi silenciado conscientemente pela argumentação usada pelo Papa emérito?  

CM –
Ele, Bento XVI, disse a verdade e alguns não querem ouvi-lo. Inventam algumas teorias que o Arcebispo Georg Gänswein e eu teríamos escrito esse texto. Foi o que eu li na imprensa. Ele, o Papa emérito, é mais capaz de escrever esses textos do que a maioria dos seus críticos. Ou seja, tem uma alta intelectualidade. E teve a experiência suficiente desde há 60 anos e também como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, como Papa. Os dois Papas, João Paulo II e Bento XVI, fizeram tudo o que podiam contra a pedofilia no clero. Há que reconhecer-lhes os méritos na luta contra esta praga. Os que os criticam são ideólogos. A maioria destes não leu, não estudou esta carta de vinte páginas ou mais. Apenas leram alguns títulos nos jornais que disseram que o Papa acusava a corrente de 68. Mas o Papa emérito não disse que são culpados, mas que prepararam a atmosfera da aniquilação da moral e da consciência.                  

IV – Está preocupado com o que poderá sair do Sínodo da Amazónia?             

CM –
O que vi até agora é muito supérfluo. A razão para a falta de sacerdotes não é o celibato, é a falta de preparação para a vocação, a vocação vem de Deus e compete-nos ouvir e dar a resposta ao chamamento de Deus, que é um acto espiritual. A Igreja tem que fomentar uma boa pastoral vocacional. O celibato é uma realidade espiritual e quem não pensa no Espírito de Deus não pode compreendê-lo. Como Jesus disse: as pessoas do mundo não entendem o que é o celibato, dar a própria vida e não viver em matrimónio, que é para nós um sacramento. Com o celibato damos também um testemunho na dimensão escatológica da esperança para a vida eterna. Porque a vida humana, cristã, não termina neste mundo terreno. Temos uma esperança mais além desta vida. Todos os que falam, que têm as aspirações neste Sínodo da Amazónia, falam apenas de alguns aspectos práticos. E não entram profundamente nos temas. Pensam mais segundo o mundo que num sentido espiritual.              

IV – Vossa Eminência escreveu vários livros sobre as mulheres e o sacerdócio. Houve uma comissão sobre o diaconado feminino. Acha que se vai abrir a via para o diaconado feminino e, portanto, no futuro, para o sacerdócio das mulheres?                       

CM –
Não. Dogmaticamente não é possível. O Papa não tem o poder e a autoridade de mudar os sacramentos. E nunca houve um diaconado sacramental das mulheres. Não se pode interpretar alguns dados da história nesse sentido e nunca a Igreja disse dogmaticamente que é possível que a mulher receba o sacramento da ordem. Existe apenas um sacramento da ordem: Bispo, Presbítero e Diácono, e não se pode separar, distinguir, o sacramento.         

IV – E é possível um caminho intermédio de um diaconado ministerial não-sacramental?                 

CM
Não. Porquê chamar-lhe diaconado ministerial? Criaria uma confusão nas palavras. Grandes grupos dos nossos cristãos são instruídos pela imprensa e não sabem distinguir teologicamente por uma falta de formação teológica. Para isso temos os ministérios. Ministérios laicais também. Igual para os homens e para a mulheres. Não tem sentido construir algo com o sentido de diaconia feminina, porque temos esta palavra – ministérios –, que procede do latim. Porquê criar confusão? A palavra diácono é um termo técnico para o primeiro grau do sacramento da ordem. Não podemos confundir terminologicamente.           

IV – Estamos num tempo em que a doutrina passou para segundo lugar. O primeiro foi ocupado por uma concepção singular, inclusive espiritual, da práxis. Qual é o papel da doutrina na vida cristã, na configuração da identidade católica?      

CM –
Há muitos, agora a Igreja, que não sabem o que é doutrina. Pensam que é uma teoria, uma espécie de pensamento. A doutrina da Igreja é o Evangelho de Jesus, é a doutrina de Jesus e dos Apóstolos e, por isso, é a apresentação, a verbalização do Logos, da Palavra de Deus. A doutrina da Igreja é a explicação da auto-revelação de Deus e não a nossa teoria sobre Deus ou sobre algumas questões na Igreja. É preciso distinguir entre a doutrina dogmática da Igreja e a doutrina académica dos teólogos. Nesta preparação da chamada reforma da Cúria, adiam a fé. Primeiro vem o Secretário de Estado, que dizem verbalmente que a Secretaria de Estado, com as relações com os Estados, a diplomacia e a burocracia vaticana, está mais ligada à suprema missão do Papa que a Doutrina da Fé. Isto é um absurdo. Essas são algumas tarefas mundanas, seculares. A missão espiritual vem de Jesus Cristo. Jesus Cristo não constituiu o Estado do Vaticano com o seu chefe, e esse chefe, com o seu Estado, governa a Igreja. É um absurdo. O oposto é a verdade. O Estado é apenas uma ajuda para garantir a independência, a liberdade do Papa contra as influências dos políticos. Mas não é a essência do ministério petrino. E como se pode dizer, entre os Dicastérios, que vem primeiro o da Evangelização e depois a Fé e a Doutrina da Fé? A Evangelização é a práxis e a Fé é a teoria. Que conceito de teoria e prática têm? O do sistema marxista? A Fé é a origem, é a raiz da justificação. Somente por meio da Fé em Jesus Cristo somos salvos. Sem Fé, ninguém pode agradar a Deus. A Fé é uma virtude infusa. O primeiro dom do Espírito Santo a cada um de nós é a Fé e a Esperança, o Amor. Não se pode dizer que a Fé é só uma teoria.                      

IV – Que outros aspectos da reforma da Cúria o preocupam?        

CM
– Também é muito problemático que tenham substituído as Congregações dos Cardeais, que representam a Igreja Romana, pelos Dicastérios. Agora só temos Dicastérios. Os Dicastérios são uma burocracia. A Cúria Romana não pode ser um aparato burocrático para ajudar o Papa, as Conferências, os Bispos... É uma realidade eclesiástica que representa a Igreja Romana. Colegiado com o Papa como seu corpo, está em primeiro lugar o Colégio Cardinalício. A Cúria é também uma forma do trabalho do Colégio Cardinalício. E, por isso, a Congregação é a expressão latina de sínodo. Falam da sinodalidade e terminam com as Congregações, e, em vez de sinodalidade ou Congregação, agora introduzem um termo burocrático. 

IV – O que é que o motivou a fazer pública a sua Declaração de Fé?

CM –
Era necessário. Fala-se muito do clima, das mudanças climáticas, imigrantes... e tem que se falar sobre os temas da nossa fé cristã e católica. O Cardeal Kasper disse que o que eu tinha escrito eram alguns elementos arbitrariamente escolhidos por mim. Mas os temas são a Trindade, a Encarnação, a sacramentalidade da Igreja, a unidade entre fé e vida e a expectativa para a vida eterna, a dimensão escatológica. É, exactamente, o que o Símbolo diz, a Profissão de Fé. E estamos nisso. A Igreja, como o Papa sempre disse, não é uma ONG, a Igreja é a comunhão na Fé, unidos em Jesus Cristo, o filho de Deus. A palavra de Deus que se fez carne. Este é o centro da Igreja, o sacramento em Cristo para levar as pessoas à plena comunhão com Deus e entre si, para dar um exemplo ou um sinal de unidade para a humanidade. Isto é a Igreja. Não precisamos de uma Igreja que seja uma sub-organização da ONU.       

IV – Gostaria de lhe perguntar sobre a formação teológica dos Sacerdotes e dos Bispos. Quais são as consequências de uma ausência de formação teológica e doutrinal dos Sacerdotes e dos Bispos?        

CM –
Os Bispos e os Sacerdotes são os servidores da Palavra. Por isso têm que conhecer a Palavra. A inteligência da Fé não é uma realidade que vem de fora para a Fé, vem de dentro, da Fé. A Fé é um acto também racional. Cremos com a nossa razão e com a nossa vontade nascida da graça. Mas é um acto verdadeiramente humano. E temos que estar preparados para dar uma resposta a todos aqueles que nos perguntam pela racionalidade da esperança que existe em nós. Temos essa grande tradição da teologia, da intelectualidade, da Fé. Todos os grandes mestres, especialmente São Tomás de Aquino, falaram do Bispo como o mestre da palavra, como o que ensina a palavra e tem que conhecer todos os elementos da Fé. Não tem que ser um teólogo especialista como na universidade. Mas tem que ter esse nível. Tem que ser capaz de discutir com os professores de teologia. Tem que se informar todos os dias, ler a Bíblia, estudar a Bíblia, os grandes textos e documentos da tradição apostólica. E conhecer os teólogos actuais. Toda a discussão que temos hoje, a antropologia, a falsa antropologia, que define o homem só como um ser biológico. Temos que dar respostas convincentes à intelectualidade de hoje. Não é suficiente ser ministro do culto, o ritualismo, isso não é suficiente. Ou repetir algumas frases comuns. Tem que ser capaz de penetrar nas questões. É por isso que precisamos de um estudo da teologia profundo e também de uma formação permanente.   

IV – Na sua biografia há um capítulo destacado com a sua ligação a Gustavo Gutiérrez, com quem também elaborou uma teologia sobre os pobres. Hoje estamos num momento em que os pobres adquiriram um protagonismo singular como objecto prioritário do discurso da Igreja no sentido do Evangelho de que os pobres estão no centro da mensagem. Mas não se está a utilizar este discurso para algo mais?                      

CM –
Tudo pode ser explorado por parte da ideologia. Mas a Fé cristã, católica, não é uma ideologia. É a experiência da realidade de Deus no nosso meio. Esta é a Fé católica. Os pobres no mundo não são uma realidade marginal. É um grande tema, porque esses pobres são milhões, vivem abaixo do nível da dignidade humana. Com a força da Fé e o espírito do Amor, devemos preocupar-nos com o desenvolvimento integral da humanidade. Não pode ser que alguns poucos sejam riquíssimos e outros não tenham nada. As riquezas do mundo são dadas para todos. A Doutrina Social da Igreja e a teologia da libertação, na linha de Gustavo Gutiérrez, dizem que isto não é ideologia marxista, mas que nos faz questionar como podemos falar de Deus diante destas injustiças, desigualdades e sofrimentos. A luta contra a estrutura da pobreza, contra a falta de dignidade humana, pertence à missão da Igreja, à diakonía.   

Gabriel Ariza     
Uma tradução de Dies Iræ.

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