domingo, 5 de maio de 2019

Franciscanos da Imaculada: quando a resistência paga!



No passado dia 30 de Março, o Tribunal de Roma condenou a Congregação dos Frades Franciscanos da Imaculada a cumprir o acordo que, em seu nome, o então Comissário Apostólico, Padre Fidenzio Volpi (1940-2015), assinou com os parentes do Padre Manelli, que o tinham processado, conjuntamente com toda a Ordem, para que respondesse pela difamação perpetrada em seu prejuízo. É outra batalha da longa guerra destinada a cancelar a tentativa de ressurgimento do franciscanismo também em tempos de crise da Igreja.         

A história é longa e complexa, mas permitimo-nos atravessá-la amplamente para conhecimento dos leitores. Já a partir de 1965, o Padre Stefano Maria Manelli, um frade da Ordem dos Frades Menores Conventuais, nascido em Fiume a 1 de Maio de 1933, motivado pelo convite a redescobrir os carismas do fundador e a voltar às fontes originais, dirigido a todos os religiosos pelo decreto conciliar Perfect
æ Caritatis (28 de Outubro de 1965), começou a meditar as Fontes Franciscanas e os escritos de São Maximiliano Maria Kolbe (1894-1941). A 24 de Dezembro de 1969 obteve do então Ministro Geral dos Frades Menores Conventuais, Padre Basil Heiser, a autorização para iniciar uma experiência de vida franciscana fundamentada no regresso à dureza da pobreza inicial e à espiritualidade do Padre Kolbe e ao convite a escrever um programa de vida: nasce, assim, a «Trajectória mariana de vida franciscana». A 2 de Agosto de 1970, com o Padre Gabriele Maria Pellettieri, o único conventual que tinha aceitado segui-lo, entra naquela que será a casa mãe dos Franciscanos da Imaculada em Frigento (Província de Avellino, Itália).                               

O florescimento de vocações é imediato, a tal ponto que, já em 1971, é aberto o noviciado e, em 1976, o estudantado. As características fundadoras permaneceram as mesmas: rigor, pobreza, oração, devoção mariana e estudo. Isto continua a atrair jovens a um ritmo sempre crescente. A 22 de Junho de 1990 chega o reconhecimento diocesano e a 1 de Janeiro de 1998 o pontifício.                   

O Motu proprio «Summorum Pontificum» (7 de Julho de 2007), do Papa Bento XVI, marca um ponto de viragem decisivo para o Instituto: juntamente com o aprofundamento da espiritualidade franciscana original, a questão litúrgica e o contacto com a Missa de sempre levaram o Padre Manelli e os seus filhos espirituais a uma redescoberta da Tradição a tempo inteiro, a tal ponto que o Seminário dos Franciscanos da Imaculada organiza, entre 16 e 18 de Dezembro de 2010, um importantíssimo congresso sobre o Concílio Vaticano II, no qual participam Monsenhor Luigi Negri, então Bispo de San Marino-Montefeltro, o conhecido teólogo Monsenhor Brunero Gherardini (1925-2017), o Padre Rosario Sammarco, FI – que se tornaria num dos maiores colaboradores do Comissário –, o Professor Ignacio Andereggen, docente na Gregoriana, o Professor Roberto de Mattei, autor do ensaio histórico «O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita», publicado no mesmo ano e vencedor do Prémio Acqui Storia (2011), o historiador francês Yves Chiron, que fez chegar um relatório escrito, o Padre Paolo Siano, FI, grande estudioso da Maçonaria, o Padre Giuseppe Fontanella, FI, Monsenhor Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Astana, no Cazaquistão, o P. Serafino Lanzetta, FI, profundo e brilhante teólogo, apesar da sua juventude, o teólogo Monsenhor Florian Kolfhaus, da Secretaria de Estado do Vaticano, Monsenhor Agostino Marchetto, Monsenhor Nicola Bux, o Cardeal Velasio De Paolis e o Padre Alessandro Apollonio, FI.                      

O Congresso, de alto nível científico e absolutamente inatacável nos seus conteúdos, trouxe à luz algumas das críticas ao evento “Concílio Vaticano II”, embora com nuances e diversidade de tons. Isto e a preferência em respeito à Santa Missa de sempre marcaram o início da perseguição contra a jovem Ordem. O pretexto foi dado por cinco frades (Antonio Santoro, Michele Iorio, Pierdamiano Fehlner (RIP
), Massimiliano Zangheratti e Angelo Geiger), que recorreram à Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica contra a imposição, segundo eles, do Vetus Ordo Missæ, acusação, por outro lado, falsa.                

A 6 de Julho de 2012, a Congregação nomeou Monsenhor Vito Todisco como Visitador Apostólico, que, no entanto, não visita os conventos e não verifica a acusação, mas, de um modo absolutamente não ritual e incomum, fez completar a cada um (1 de Novembro de 2012) um questionário no qual era solicitada uma avaliação sobre a Santa Missa de sempre, com a clara intenção de aterrorizá-los, fazendo-os entender claramente que quem se tivesse declarado a favor da escolha do Padre Manelli na redescoberta da Tradição teria a mesma forma de perseguição sofrida pelo idoso Fundador, que era, agora, embora não de direito, destituído de toda a autoridade e de todo o poder. O guião já estava escrito e o relatório final também: não havia, portanto, nenhum motivo para investigar.                       

O Visitador Apostólico, com base no mencionado questionário escreve o seu relatório, relatório que “autoriza” a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica a investigar a Ordem, com o Decreto de 11 de Julho de 2013. O questionário, portanto, apesar da intimidação e clima suspeito estabelecido por Monsenhor Todisco, não produz o êxito esperado, mas, obviamente, como em qualquer processo político que se respeite, procede-se do mesmo modo. As violações do Direito Canónico são enormes, mas, como mencionado, não são motivo de preocupação na «Igreja da misericórdia» do Papa Francisco, onde o direito não só é sistematicamente violado, como se declara que se deve sujeitar ao amor do chefe, sem que nem sequer exista a preocupação de salvar a cara.         

O Comissário, Padre Fidenzio Volpi, inicia a sua obra de desmantelamento: encerra os seminários, desmantela os conventos, dispersa os fiéis e enfatiza a campanha de difamação contra o Padre Manelli e aqueles que ainda lhe são fiéis e a Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como contra os seus parentes e amigos. Tais calúnias, como na “melhor” tradição, referem-se a sexo e a dinheiro. Em relação ao primeiro, inventaram-se abusos do Fundador e dos frades em relação às irmãs e noviças mais próximas, chegando mesmo a falar de «coacção de algumas religiosas a prostituírem-se»; mas, apesar da crueldade, a absoluta falta de fundamento de tais mentiras e o mesmo contraste absoluto com o clima de pureza e de elevada espiritualidade que sempre reinaram, também no ramo feminino da Ordem, levaram esses rumores a morrerem por si mesmos.                               

O mais interessante da acusação é o seu aspecto económico. Neste caso, o rigor com que o qual os Franciscanos da Imaculada interpretavam a pobreza voltou-se contra os mesmos agressores: esperando conseguir deitar a mão às significativas doações que, ao longo de décadas, os fiéis concederam para o sustentamento da missão da Ordem, e não compreendendo a alta dimensão espiritual que o segundo voto implica, mas apenas vendo uma questão económica, não deram importância ao facto de que não são apenas os frades que não possuem nada, mas também o Instituto: a pobreza individual não devia nem podia transformar-se em riqueza colectiva. Todos os bens, também os necessários para o apostolado, e o dinheiro sempre foram propriedade de associações leigas, nas quais os frades não tinham a menor interferência; foram e são estas associações que foram e vão destinando, caso por caso, os recursos necessários para as actividades pastorais da Ordem.                   

Obtido o controlo do Instituto, o Comissário e os seus “colaboradores” tentaram uma série de causas para (re)apropriar-se daqueles meios que presumiam ser da Ordem e “ficticiamente” colocá-los em nome de leigos. Juntamente com estas operações do ponto de vista judicial, todas, obviamente, fracassadas, lançaram uma campanha de imprensa, especialmente através da Web, na qual acusavam os leigos de terem subtraído desonestamente fundos aos Franciscanos da Imaculada, entre os quais estavam, de um modo particular, os parentes do Padre Manelli.                
Estes últimos recorreram à magistratura para defender o seu bom nome. Em 2014, o falecido Comissário, para evitar problemas jurídicos piores, assinou um acordo, no qual declarou que os parentes do Fundador não tinham cometido nenhuma acção ilegal contra a Congregação e se comprometia a ressarci-los em 20 mil euros, para além de ter publicado, nos portais que controlava, este desmentido. Quase imediatamente depois, no entanto, «mudou de ideias»; daí que a acção judicial dos parentes do Padre Manelli acabou por fazer respeitar o acordo.                   

O Tribunal de Roma, na sentença que mencionámos no início, condenou os Franciscanos da Imaculada e os Comissários, que actualmente os comissariam, a cumprir os seus compromissos assumidos.             

A importância desta sentença é dupla: por um lado, esclarece de forma prática como, para além de violar sistemática e continuamente o Direito Canónico, a administração dessa jovem Ordem não respeita sequer os compromissos assumidos e, por outro, reitera a absoluta falta de fundamento de todo o mar de calúnias que foram lançadas contra aqueles que não se dobraram absolutamente à “normalização” modernista do Instituto.         

Quem amou os Franciscanos da Imaculada, compreendendo aqueles que permaneceram fiéis ao carisma original e não, obviamente, os traidores e colaboracionistas que só conservam o nome, não pode senão regozijar-se com esta pequena mas importante vitória e esperar que a mesma impulsione uma sempre mais activa resistência.               

Carlo Manetti    
Uma tradução de Dies Iræ.

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