terça-feira, 14 de maio de 2019

Aquilo que não nos disseram sobre os atentados terroristas no Sri Lanka



O massacre do Sri Lanka, com 310 mortos e mais de 500 feridos, oferece-nos elementos de reflexão. Antes de mais, não podemos limitar-nos a falar genericamente de um trágico evento, ou de atentados terroristas, sem indicar a matriz religiosa. Isto, antes de mais, por amor e respeito às vítimas. Uma parte delas perderam a vida nas explosões que devastaram as igrejas enquanto os fiéis assistiam às celebrações litúrgicas da Santa Páscoa. Uma outra parte foram vítimas das bombas que explodiram em hotéis de luxo. Todas iguais diante da morte, cuja foice ceifa inexoravelmente a vida de todo o homem sem fazer distinção de idade, de sexo, de cultura, de religião ou de raça.          

Nem todos, porém, são iguais no momento que se segue imediatamente à morte, que é o julgamento divino diante do qual comparece toda a alma no momento em que se separa do corpo. Esse julgamento não iguala, mas divide, discrimina, representa o cumprimento daquela que foi a opção central da nossa vida: a favor ou contra Deus e a Sua lei, a Sua Igreja (aquela Igreja de que é Fundador e Cabeça Aquele será o nosso Juiz, perfeitamente justo e infinitamente misericordioso). Ninguém escapa ao juízo divino, que é diferente para cada um. À luz disto, que é a luz da fé, devemos dizer que todos aqueles que morreram nas igrejas estão, sem dúvida, no Paraíso, pois as suas mortes podem ser comparada às dos mártires, porque, de facto, foram assassinados por ódio à fé. O ISIS reivindicou o massacre e o governo do Sri Lanka confirmou que os atentados tinham uma matriz religiosa islâmica. É necessário dizê-lo, insisto, por amor e respeito às vítimas. Os terroristas odeiam a fé católica, atacaram homens e mulheres baptizados congregados para assistir às funções litúrgicas e para celebrar o ponto central da fé cristã: a Ressurreição de Jesus Cristo, Redentor da humanidade, único Salvador diante cujo nome se prostram o Céu e a Terra. As vítimas não tinham ideia de que iriam morrer, mas eram homens e mulheres de fé que participavam num acto religioso. O sangue que derramaram purificou as suas vidas.                  

Não se pode dizer o mesmo das vítimas que estavam nos hotéis. Não sabemos quantas destas eram cristãs, quantas eram crentes de outras religiões ou quantas, talvez a maioria, não criam em nenhuma religião. Talvez a maior parte vivessem imersas no hedonismo e no relativismo religioso. Sem dúvida que a algumas a morte terá conduzido à salvação eterna, mas a outras à condenação eterna.         

Os terroristas islâmicos escolheram como alvo os hotéis, para além das igrejas, considerando-os lugares de decadência e os hóspedes não foram mortos enquanto cristãos, mas enquanto ocidentais, já que o islão é uma religião política que vê no Ocidente laico e escolarizado a antítese ao próprio fanatismo religioso.            

Mas é claro que é diferente morrer ajoelhados numa igreja ou na cama de um quarto de hotel. Aqui tocamos num ponto que nos permite entender o que é o martírio. Santo Agostinho afirma que o que faz um mártir não é a morte, por mais cruel que seja, mas o motivo pelo qual se mata: o modo e o lugar em que se mata. Este princípio não se aplica apenas ao martírio, que é o testemunho cristão levado ao extremo da morte, mas a todo o sofrimento humano. Por exemplo, imaginemos duas pessoas que sofrem de uma doença mais ou menos grave. Uma delas aceita-a com resignação, oferece-a a Deus e participa, deste modo, nos sacrifícios da paixão de Cristo. A outra rejeita a doença, rebela-se contra o que chama o destino, blasfema contra Deus e desespera. A doença é a mesma, mas o primeiro paciente obterá grandes méritos, o segundo manchar-se-á de culpas graves.                                  

Vivemos tempos de perseguições e, para muitos, de martírio incruento, mas branco, como é definido aquele que se sofre pela fé católica sem derramar, necessariamente, o próprio sangue. É, no fundo, aquilo que sempre fizeram os Confessores da Fé que testemunharam a Verdade com a palavra e com o exemplo. Nem todos somos chamados a ser mártires, mas todos nós somos chamados a ser, no nosso pouco, com a palavra e com o exemplo, Confessores da Fé.                 

Roberto di Mattei

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